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A mostrar mensagens de 2026

Depois de tudo…

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  Há sonhos que guardamos para nós, outros são partilhados, em determinada circunstância, às vezes com a pessoa certa, outras com a errada, esta madrugada, de forma inusitada, viu-se mergulhado num sonho há muito partilhado, o seu esforço, claro, foi o de lhe procurar o rosto, embora ela a seu lado, não o conseguia vislumbrar com clareza, aquela palpável distância dos sonhos, onde o aqui se torna um longínquo intangível, continuavam a caminhar à beira-mar, num contexto por si verbalizado, ouvia-lhe o riso, o rosto velado ora pelos cabelos, ora o olhar dela noutra direcção, o esforço para que se virasse, uma demasia de toneladas, acordou extenuado e com a desoladora convicção de sair de um sonho, virou-se para o outro lado e fechou os olhos, apesar da certeza de que ali jamais regressaria, os sonhos não têm segunda-parte, podem repetir-se, jamais continuar, há uns tempos, percebeu-lhe este sonho materializado, mas outro rosto a seu lado, ficou entre o riso e a incredulidade, como ...
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Estará a palavra a morrer?

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Não sei bem porquê, ou, em verdade, talvez saiba, mas nunca gostei dela, desde a primeira vez que a vi, ainda me lembro, tão bem, ele com uma cara aparvalhada, tinha, às vezes, de repetir as coisas, pelo menos, três vezes, para me ouvir, sempre tão longe, até que, cansada daquela situação, resolvo questioná-lo directamente, ele, de início, afigurou-se-me surpreso com a inferência que levou à questão, para o incentivar na resposta acrescentei “Não te esqueças de que sou tua mãe! E ninguém te quer mais neste mundo que a tua mãe!” Ainda ofereceu mais alguma resistência – sinal de que não teria uma oponente nada fácil –, mas lá acabou por relatar que namorava com ela há mais ou menos um mês, era sua colega de escritório, cinco anos mais velha, tinha um filho já com quatro, sim, vivera maritalmente com um sujeito durante uns três anos, não me passou despercebido o seu alívio, enfim, quase soou-me a uma confissão, mesmo o tom sôfrego que emprestou à narrativa, perdi a conta às sílabas que...

Uma Vaca chamada Vaz

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  Soube há poucos dias da existência desta Vaca, de nome Vaz, é natural, o meu olhar , confesso, não se demoraria numa Vaca velha, feia, muito feia, disforme, varizes por todo o lado, a relembrar os velhos e saudosos mapas de estradas, a cada mugido só lhe saem boçalidades e cobardias, como sempre, nas costas alheias, nada de novo, somente uma Vaca velha, feia, muito feia, disforme, varizes por todo o lado, talvez este facto a fizesse interessar por mapas, quiçá ao olhar-se, em determinada ocasião, a pergunta a nascer-lhe: não onde levará esta estrada, mas sim, como é óbvio, onde desembocará esta variz? É uma Vaca que gosta de passeatas, ora é vê-la, nos prados, com as suas congéneres, ora em arribas – expectável, com as toneladas avolumadas jamais desceria meio-metro, a menos que um guindaste próximo –, as companhias são as expectáveis de uma Vaca desta dimensão, um boi-albino castrado, também dado a mapas, talvez hipnotizado pela profusão de varizes nos enchidos da Vaca Vaz, ...

Da latrina

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  Há certas criaturas que, devido à sua imundície, é dificílimo imaginar em certos contextos, como, por exemplo, a uma mesa, para redigir estas linhas, confesso, foi-me necessário um esforço desmesurado, por muito pródiga seja a minha imaginação, conceber estes dejectos sentados a uma mesa, com pratos e talheres, a degustar uma refeição, é do domínio da ficção-científica, assim sendo, levante-se a imaginação, mesa de jantar, personagens-tétricas há muito conhecidas, na cabeceira, o pároco-sabujo, com o seu peculiar focinho manhoso, a sua habitual postura de confessor inquisitorial, longe de posturas ululantes sentado em chaimites de pacotilha, a ilustrar mentiras, contadas a tolinhos, há cinquenta e dois anos, ai sabujo, sabujo, sei tão bem quem te espetava no chaimite, até o teu pulôver azul-clarinho ficaria irreconhecível, mas garanto-te um cravo no focinho para a eternidade, ao som de um grândola do cantaroleiro esquerdalho, passaste da batina para o avental num instante, ante...

Pouso Feliz

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  Apercebi-me de que trazia maresia comigo, assim que entro, dela só as costas, nem vestígios do rosto, àquela hora ocupava-se do jantar, enquanto os miúdos algures perdidos num écran, não se apercebeu da minha entrada ou preferiu olhar noutra direcção, quedei-me pela dúvida, se bem que não por muito tempo, afinal, trazia maresia comigo, pouso a chave de forma audível, o suficiente que a fizesse olhar-me, ainda assim, ela não descurou a sua actividade, permaneceu de costas, por momentos, pensei que sentisse a maresia que trazia comigo, é possível, opto por um cumprimento onde se denota uma espontaneidade forçada, quase me arrependo após entoar a última sílaba, porém, era tarde, já não me pertencia, era propriedade do momento, ela, antes de me olhar, propositadamente detém-se no relógio da cozinha, por cima da porta da despensa, nem uma sílaba lhe saiu, nada, apenas o olhar que se deteve, por uns demorados segundos, no relógio da cozinha, por cima da porta da despensa, percebi, de...
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Desencanto III

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  Conhecia cada curva, travessa, semáforo, passadeira, dali até à casa dos sogros,   o trânsito a recrudescer, imobilizados, agora, naquele omnipresente vermelho, ela não se recorda de, alguma vez, ali não parar, como se uma sentença, olhou o passeio e seus transeuntes, o acaso levou-a a contemplar, no fim da rua, a majestosa árvore bem no centro do jardim, pois, de facto, apercebeu-se de que, ao contrário de cada curva, travessa, semáforo, passadeira, dali até à casa dos sogros, as árvores não conhecia, assim que a sua visão por aqueles ramos, que nem braços estendidos, numa abnegada súplica, para os céus, uma serenidade a nascer-lhe, questionou como pôde ignorar cada árvore, por sua vontade saía, neste momento, do carro, e repousaria debaixo das frondosas ramagens, ele nos antípodas dos seus pensamentos, o sorriso apatetado não o abandonara, pelo contrário, agudizara-se, afinal, quase a chegar à casa dos papás, em nada mudara, de certa forma, talvez dali nunca tenha parti...
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A dificílima arte desta coisa de nome viver

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  E, de repente, compreendo que já percorri mais de metade do meu caminho. Resolvo sentar-me e reflectir nisto. Olho para trás e tudo se me afigura uma irrealidade, como se uma névoa turvasse a minha estadia por aqueles lugares, apenas as cicatrizes como testemunho da autenticidade do ido. Tão estranho: já percorri mais de metade do meu caminho… E continuo à procura de uma razão para caminhar, como se, em grande parte, me tivesse deixado conduzir, ao sabor de uma corrente de velada fonte, por vezes, vislumbro um sentido para as coisas, contudo, logo de seguida desvanece-se do meu horizonte, no seu lugar apenas um desdenhoso absurdo, que me atomiza de encontro aos meus mais turvos receios, desde muito cedo, apercebi-me da minha diferença em relação aos demais, como se o meu pensar obedecesse a uma outra respiração, possivelmente aquando da circunstância o meu olhar numa outra coisa que não ali, lembro-me ainda bem, numa manhã, talvez fosse Inverno, pelo cinzentismo do mundo, eu pe...
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A arqueologia de mim

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  Ultimamente uma questão acompanha a minha sombra: o que perdurará de mim quando partir? Volto do trabalho, ainda na escada, percebo que a casa cheira a jantar, entro, cumprimento-a enquanto tiro o casaco, começa, de imediato, a narrar-me as vicissitudes do seu dia, as peripécias do bairro, finjo atenção e simultaneamente dirijo-me para a janela, acompanha-me os passos e preenche-me os ouvidos até a um certo ponto, mais ou menos até à mesa da televisão, que demarca a sala da marquise, aí chegados, não sei porquê, regressa de imediato para as suas lides, enquanto eu, grato pela devolução do silêncio, puxo de um cigarro e por ali fico, não a olhar aquele cenário extenuado, mas à espera dos passos do pensar, nestes últimos tempos têm-me levado a um lugar lá atrás, quando o agora apenas um sorriso confiante no rosto, talvez se lá regressar volte a ostentar um sorriso confiante no rosto, continuo a ouvir-lhe a voz, mas não a mensagem, volta e meia, viro-me para dentro, e Pois… Sim… T...

Desencanto II

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  A viagem longe do seu fim, ela continua perdida algures entre pensar e sentir, neste momento a imagem da pastelaria, do outro lado da rua, após levantar o estore, ficava, por um pouco, a olhá-la, chamava-se “Primavera”, apesar de só no Verão a visitarem, devolvia-lhe familiaridade, um desses lugares que sempre nos pareceu esperar, tão distante das confeitarias da sua terra, onde a vista se perde na infinidade dos artigos expostos enquanto, na proporcionalidade, o apetite diminui, uma questão levantou-se-lhe, embora rapidamente se diluísse, “Quando, por acaso, ele levantava o estore, alguma vez se perdeu a olhar, do outro lado da rua, a pastelaria?” Essencial um casal olhar na mesma direcção, quando sucede o contrário, a distância começa a ser irrecuperável, no banco traseiro o barulho dos miúdos recomeça, nunca quis ser mãe, as coisas aconteceram, compreendeu, no devido tempo, que a vida nos engole no seu tumultuoso caudal, de pouco adianta bracejar, desde que se colocou a ques...
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A beata maledicente II

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  Hoje levantou-se-me a lembrança de uma história que, na juventude, um amigo contou, havia, na rua onde ele morava, uma cadela que se fartava de parir, ao ponto de, segundo a sua descrição, enquanto deambulava pela rua, as crias já lhe caíam de forma natural, não fui o único receptor, na altura, ficámos entre a incredulidade, um esgar de riso e simultaneamente de horror, duas emoções, na aparência, tão antagónicas, não foi acaso iniciar a narrativa com esta reminiscência, ao saber da farta actividade parideira da beata maledicente, foi a imagem, da cadela a parir, ao longo da rua, que me surgiu, embora, aqui, faça uma ressalva significativa: é tão mais digno o animal! Se, porventura, o leitor tiver presente a anterior crónica sobre esta figura tétrica, lembrar-se-á de que a sua principal actividade consiste na maledicência, sobretudo num contexto familiar, onde se sinta à vontade para debitar boçalidades, temperadas com o seu peculiar toque beatífico, é capaz de caluniar indivíd...

A validação da alternadeira

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  Após o período de férias, mais que merecido num bordel, todos regressam aos seus postos de trabalho, sorridentes e felizes, há que angariar mais clientes, zelar pelo seu espaço e morder pelas costas (que mais resta a estes invertebrados cobardes?), foi vê-los, um a um, entrar com a máscara da felicidade, alguns, por ignorados motivos, nem o sol viram, como é o caso do tintim, a bichona partiu de férias roliça e pálida, regressou igual, ao contrário das outras, onde, mal ou bem, lá se descortinou uns fortuitos encontros com o sol, a palidez desta bicha, como é óbvio, levantou algumas questões, tudo comentado, de forma natural, nas suas costas, ninguém lhe queria ferir susceptibilidades, é uma bicha deveras sensível, e de língua afiada nas costas alheias, previsível, bichona que se preze tem de ser ágil com a língua, a seu lado chegou a porcachona, a porca-mor do pântano, uma das predilectas da alternadeira, não há imundície a que esta se furte, chafurda como poucas naquele lamaçal...

Desencanto

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  Para ela, regressar, desde que se lembra, sempre uma aura de derrota, se lhe pedissem para explicar, nem uma sílaba emitiria, talvez por senti-lo nas funduras do ser, onde o verbo nem à porta ousa bater, como agora, descortinava-lhe um sorriso, apatetado, no rosto, os filhos, atrás, em tumulto, não olhava a estrada, perdida no labirinto dos seus pensamentos, em verdade, do sentir, uma notória tristeza ameaçava submergi-la, desde o início, da viagem, ali só o seu corpo, não que desejasse continuar a estadia, a partir de certa altura, aquela rotina – casa, praia, casa, praia, casa, praia…   – causou-lhe um enjoo que, em determinada ocasião, fê-la abrir a torneira e correr água fria sobre os pulsos, ouvira em algum lado este conselho, pelo menos, permitia-lhe, por uns minutos, abstrair-se do estatismo diário, há mais de uma década assim eram as férias, um apartamento, não disfarçava o tempo, alugado, a Sul, a distância da praia exigia automóvel, de certa forma, ela não descor...
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Rio Pranto II

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  Ao olhar para o fundo da rua, mais ou menos quando as janelas em volta se iluminam, e a única palavra que faz sentido é regresso, ainda se lembra dos gritos e das portas que batiam, mas o que lhe doía mais era o facto de as portas se fecharem diante de si, como se lhe gritassem inclementemente indesejado , o cenário mudou várias vezes, rés-do-chão, segundo-andar, chegou a conhecer um sexto-andar, e uma cave, contudo, os gritos e o bater de portas subsistiam, o inclemente grito de indesejado também, havia outros pontos em comum, das janelas só a sombra dos prédios em volta, às vezes, ele olhava o passeio para, entre as pedras, sossegar a vista numa fragilidade verde que por ali despontava, não eram necessários muitos passos para conhecer as escassas divisões, regra geral, apenas uma salita, com uma amostra de cozinha integrada, um quarto, e, para as necessidades básicas, um quadrado onde havia sempre qualquer coisa avariada, de uma lâmpada fundida a uma torneira que teimava em ...