Livros do Escritor
sábado, 13 de junho de 2026
quinta-feira, 11 de junho de 2026
segunda-feira, 8 de junho de 2026
Cesto de papéis
Bem sei que hoje quase não há cestos
de papéis, e os poucos sobreviventes habitam, com certeza, em lares onde a sua
missão há muito não é cumprida, não por culpa própria, como é evidente, mas
pela idade de quem os olha. Sempre que via uma secretária, sabia que, por baixo
ou ao lado, lá estaria o inevitável cesto de papéis, como se fosse um facto da
ordem do existir. Hoje, por muito que me custe, as coisas alteraram-se, e,
raramente, por baixo ou ao lado de uma secretária, se encontra um cesto de
papéis. É sempre difícil lidar com uma alteração na ordem do existir,
parece-nos que, de repente, alguém invadiu a casa do nosso viver e nos
desarrumou as coisas. É mais ou menos assim que me sinto, quando se subtraem ou
se alteram paisagens do passado. Mais doloroso que nos subtraírem o futuro, é
roubarem-nos o passado. Porque aí tiram-nos as certezas: do que foi, ou
julgávamos ter sido… De certa forma, é correcto afirmar que uma frase
silenciada tem como destino um qualquer cesto de papéis da nossa alma. E como o
meu está cheio! Com o tempo, aprendemos o silêncio, é uma aproximação lenta, os
anos passam, nós mudamos, não é o mundo que muda, sempre esta ilusão, e, de
repente, respiramos fundo pela harmonia de nos sabermos em silêncio, o resto
estridente do mundo já numa distância imensa, nós naquele instante de
serenidade, talvez permita vasculhar o cesto de papéis da nossa alma, meu Deus,
o que para aqui vai! Não sabia que ficara tanto por dizer… Baixo-me junto do
cesto, está quase a abarrotar, talvez seja melhor sentar-me, sim, sem dúvida,
começo a vasculhar papéis, enfio o braço quase até ao fundo, retiro daí uma
folha amarfanhada, reparo na evolução da minha caligrafia pelo tempo, afinal,
já em criança silenciava sentires… De repente, não sei de onde veio, irrompe, no
caminho do meu pensar, a imagem daquele cão a examinar passeios anoitecidos
numa minúcia detectivesca, dois passos atrás, em esforço pela trela, ela
seguia-o quase numa devoção religiosa, saíam sempre à mesma hora, via-os da
janela, para mim, sempre a rapariga do cão, não sei porquê, enternecia-me,
havia tanta feminilidade em cada gesto seu, apreciava-lhe a lenta suavidade de
ajeitar os cabelos para trás da orelha, um gesto tão repetido, mas para mim
sempre novo, não me cansava de o rever, as ruas, àquela hora, já iluminadas
pelos lamuriosos candeeiros nocturnos, sabia-lhes a rota, iam até ao final da
praceta, cerca de centena e meia de metros, e regressavam, ela dois passos
atrás, em esforço pela trela, até que, certa noite, um sujeito, à mesma hora, também
com um cão, mas apenas um passo atrás, não se lhe denotava esforço pela trela,
o primeiro contacto foi ao nível do passeio, pararam, olharam-se, por fim,
cheiraram-se, as caudas ininterruptas, como leques, ela, uma vez mais, a
ajeitar os cabelos para trás da orelha, contudo, desta vez, foi célere, como
sempre acontece nestas ocasiões, as palavras trocadas tinham como pano de fundo
os ininterruptos leques abaixo dos joelhos (Não
se preocupe que não morde! É menino ou menina? Ainda é novinho, certo? A minha
também não. É muito meiguinha e sociável. Tenho-a há três anos, foi-me dada com
dois meses…), por norma, é este tipo de frases que se ouvem quando duas ou
mais trelas se imobilizam, com uma ou outra variação, de vacinas, a escalada
dos preços na saúde dos amigos de quatro patas, a biografia do leque pelos
joelhos, algumas dignas de um fado nocturno, e pouco mais, muito pouco mesmo,
porém, não sei porquê, entre aquelas duas trelas imobilizadas sobre lamuriosos
candeeiros nocturnos, percebi, de imediato, que havia muito por dizer, enquanto
ao nível da calçada os farejares se harmonizavam, as trelas assumiram a mesma
direcção, nas noites seguintes, os cerca de cento e cinquenta metros, até ao
final da praceta, passaram a ser cumpridos em diálogo, mais duas solidões que
se extinguiram, reparei, por mais de uma vez, que ela se esquecia de ajeitar os
cabelos para trás da orelha, ficava com a melena a ocultar-lhe parte do rosto,
mas nunca do sorriso.
domingo, 7 de junho de 2026
sábado, 30 de maio de 2026
Carne-podre aos cães e às cadelas
Chegou aquela altura do ano, neste canil, onde cada rafeiro verá se tem ou não recompensa pelos seus préstimos, entre as gratificações está o lugar que ocupam (ter cobertura, ser mais próximo da comida, entre outras regalias…), os passeios pelos campos adjacentes, muito apreciado entre os rafeiros – pois, de facto, neste canil só há rafeiros, mas todos têm direito à vida, como é sabido –, o número de desparasitações anuais, as possibilidades de adopção, para aceder a este leque de benesses, os rafeiros têm imperativamente de demonstrar a sua subserviência aos donos, neste caso, um casal, constituído por um idoso e uma mulher de meia-idade, a porta do canil abre-se, os rafeiros logo com as orelhas em alerta, surge-lhes a figura dela a arrastar um saco, o idoso uns passos atrás, velado por uma sombra, uma autêntica criatura das trevas, pelos ares do canil um pestilento cheiro a putrefacção, ela abre o saco e atira o primeiro pedaço de carne-podre, cai ao pé de uma cadela de nome Porcachona, não estava há muitos anos no canil, no entanto, destacara-se, de múltiplas formas, na serventia aos seus amos, foi lesta a abocanhar a carne putrefacta, essa cadela até os ossos engolia, nada lhe escapava, por algum motivo muitos questionam se anda ou rebola, o segundo pedaço de carne-podre caiu ao lado de um rafeiro conhecido por Tintim, esse tem muitos anos de canil, apesar da rafeirice, é um mamífero delicado, e, pelo que se constata, um fiel servidor das ordens dos seus donos, abocanhou a podridão que lhe coubera, ao contrário da cadela Porcachona, com delicadeza, até as varejeiras que cobriam o despojo se sentiram honradas, o terceiro pedaço de podridão foi parar ao lado de um rafeiro de nome Manguinhas, esse ladrava muito nas costas dos donos, porém, na sua frente é vê-lo a abanar a cauda e a rebolar para seu deleite, quem não se enterneceria com tal submissão?! Este rafeiro já avoluma uns anitos neste canil, sempre com o mesmo registo, ladra alto dentro de portas, mas assim que se abrem, é ver-lhe a cauda em movimentos-horizontais e a rebolar, o quarto pedaço de carne-podre caiu próximo de uma cadela Zarolha, tem poucos anos de canil, registe-se a meteórica ascensão, assim que os donos lhe decretam uma ordem, é vê-la a cumprir escrupulosamente, em correrias pelo canil a ladrar para os demais, gosta, pelo que se vê, de rafeiros velhos e obesos, e também gane muito nas costas alheias, nada de novo neste canil, o pedaço de carne-podre seguinte, o quinto, caiu em frente a uma cadela velha, não obstante o carácter rafeiro, uns laivos de cadela de raça inglesa, apenas isso, uns laivos (que fazer?), olhou o a carne-podre como se um não assunto, embora salivasse por todos os lados, não tardaria muito a retalhá-la, a sua volumetria assim o exigia, outra fiel servidora dos donos do canil, a sexta putrefacção quase atingia uma cadela que tinha uma coleira com uma cruzinha, de início ainda questionaram a possibilidade de donos, um logro, uma digníssima rafeira, assim que algum incidente pelo canil, é vê-la em correrias a ladrar à procura dos donos, talvez seja das cadelas que mais quilómetros por ali soma, um descanso para os seus amos, nada por aqueles lados ocorreria sem que esta cadela prontamente não lhes noticiasse, muitos outros cães e cadelas acabaram por receber o seu putrefacto naco, escusado será referir que muitas varejeiras foram engolidas por estes rafeiros, estão habituados a engolir o que os dignos vomitam, assim se sobrevive neste canil, o sétimo pedaço de carne-podre calhou a uma cadela que ladra sobre quem desconhece por inteiro, há múltiplas por ali, a providência aconselha cuidado, infelizmente, por estes dias, é dos fenómenos mais pródigos, cães e cadelas a ladrar sobre desconhecidos, coitaditos, entre portas todos ladram alto, agora se tiverem o infortúnio de estas se abrirem… Os donos olham estes rafeiros com júbilo, cumpriram o que lhes foi ordenado, mereceram o naco-podre, não fossem estes, outros haveria na ânsia de um lugar com cobertura, mais próximo da comida, entre outras regalias, e os passeios, claro, como estes cães e cadelas gostam de passear pelos campos adjacentes, para quem ignora como se gere um canil de rafeiros, aqui vos deixo este manual de instruções, quanto às varejeiras, como por estes dias se diz: “um infeliz dano-colateral”, nada que perturbe a digestão desta matilha rafeira.
terça-feira, 26 de maio de 2026
Ali onde não há ontem nem amanhã
sexta-feira, 22 de maio de 2026
quarta-feira, 20 de maio de 2026
segunda-feira, 18 de maio de 2026
quinta-feira, 14 de maio de 2026
O manguinhas-de-alpacas
Hoje regresso a esta figurinha, no fundo,
bem ou mal, todos conhecemos um manguinhas-de-alpacas, as próximas linhas
corroboram este facto, as últimas desta figurinha é que, através de uma lista
única (veja-se bem o arrojo, lista única…), se candidatou a um lugarzito onde
obterá mais visibilidade, todo o manguinhas-de-alpacas deseja palco, é-lhes
inato, para o efeito, até convidou o nosso conhecido tintim, pois, esse mesmo,
o que tanto se bamboleia a andar e muito anseia por um beliscão nas nalgas,
quiçá seja desta com o manguinhas, em tempos dúbios, nada como piscar o olho a
todos os sectores do eleitorado, não vá haver entre os votantes mais
homossexualidades reprimidas, pelo que se avizinha, o manguinhas tem via-aberta
para o ambicionado lugarzito onde, por fim, obterá mais visibilidade, talvez,
desse modo, prestem a devida atenção às suas sempre sapientes palavras, é
vê-lo, quando puxa pelo verbo, o rosto em solenidade, como se dali adviessem
verdades seculares há tanto ansiadas, mas o que se pode esperar de uma
figurinha, com penteado de primeira-comunhão, casaquinho de bombazina (e eu que
sempre me enterneço ao ouvir este termo, bombazina, logo se me levantam imagens
de infância…), com um discurso atamancado, pejado de lugares-comuns, de onde as
ideias há muito partiram? Se é que algum dia por ali pousaram… Se podia ser
vendedor de viaturas em final de existência? Qual a dúvida?! Com o seu
casaquinho de bombazina, o penteado de primeira-comunhão, é vê-lo, quando puxa
pelo verbo, o rosto em solenidade, “Digo-lhe uma coisa, tem aqui
um carrito para a vida! Não duvide, para a vida! Venha, venha, sente-se ao
volante, inspire, sinta a máquina, já viu, este carrito respira novo…,” quem ousaria colocar em causa tais verdades
seculares?! Se podia ser vendedor imobiliário? Qual a dúvida?! Vendia, num
ápice, um rés-do-chão todo virado a Norte, numa zona de frequência duvidosa,
pejado de infiltrações, como se de um Éden se tratasse, com o seu casaquinho de
bombazina, o penteado de primeira-comunhão, é vê-lo, quando puxa pelo verbo, o
rosto em solenidade, “Confesso-vos uma coisa: hoje é a quinta visita que
faço a este imóvel! Nem imaginam: a procura, nesta zona, tem sido galopante…
Dificilmente encontram, no mercado, uma casa assim: com tão boa relação:
qualidade/preço… Excelente disposição solar, boas áreas, próxima de serviços e
transportes, já percebi que, daqui amanhã, virá um herdeiro… Acreditem, as
escolas, aqui da zona, são conceituadíssimas!”, quem ousaria colocar em causa tais verdades seculares?! Se podia ser
pastor de uma seita religiosa? Qual a dúvida? Convertia, em segundos, o mais
acérrimo descrente, com o seu casaquinho de bombazina, o penteado de
primeira-comunhão, é vê-lo, quando puxa pelo verbo, o rosto em solenidade, “Irmão,
ouve-me, aproximamo-nos do fim, não duvides, dias de incerteza e de névoas, só
a luz de Cristo nos pode guiar, ainda há tempo para te arrependeres e
regressares ao caminho da salvação… Não coloques objecções, simplesmente
arrepende-te da dúvida e aceita Cristo como teu Salvador,” neste ponto seria profícua a ajuda da beata-maledicente, sim, essa
mesma, a parideira de difamações pelas costas, cada uma lá encontra a sua forma
de parir, é-lhe mais confortável pelas costas, e que grande parideira ali está…
Se podia ser vendedor talhante? Qual a dúvida?! Com o seu casaquinho de
bombazina, o penteado de primeira-comunhão, é vê-lo, quando puxa pelo verbo, o
rosto em solenidade, a vender carne-podre como ninguém, “Oh freguês, já viu
este naco do lombo? Tem aqui uma peça da melhor qualidade! Se quiser, até lhe
faço um desconto, fica entre nós… Deixe-se estar, que a preparo já… Digo-lhe
uma coisa, quando chegar a casa, ponha logo no forno, tem um manjar garantido
para toda a família… Não duvide: é de comer e chorar por mais…”, pois, a questão devia ser invertida: O que
não podia ser o manguinhas-de-alpacas? Praticamente tudo o que envolvesse honestidade,
seriedade, frontalidade e resquícios de inteligência… É pedir muito? Por estes
dias, alguma dúvida?! Não por acaso, estas figurinhas, no hoje, pululam como nunca, cientes da
sua mediocridade procuram, de todas as formas, maquilhá-la, nem que, para o
efeito, recorram a um casaquinho de bombazina, ao penteado de
primeira-comunhão, e, ao puxar pelo verbo, o rosto em solenidade, apenas
saem frases sofríveis que espelham o diminuto intelecto de um eterno
manguinhas-de-alpacas.
segunda-feira, 11 de maio de 2026
sábado, 9 de maio de 2026
Os factos da vida
Para estudar, ia a um café próximo, apesar da curta
distância não encontrava muitos estudantes, era frequentado sobretudo por
moradores do bairro, na sua maioria idosos, tinha aquele ambiente tão típico de
um café cosmopolita, um entra e sai constante, a máquina de café no seu incessante
estalido mecânico, a multiplicidade de vozes que se convertiam num rumorejar
permanente, no entanto, imperceptível, era incapaz de estudar em silêncio, as
vozes que me habitam ameaçavam tragar-me, cada um lá encontra a sua forma de
trabalhar, tinha duas ou três mesas da minha preferência, só ali as vozes se
aquietavam e permitiam que mergulhasse nos livros, quando, por este ou aquele
motivo, não me conseguia concentrar, observava, um acto em desuso, requer
serenidade e inteligência, os livros abertos sobre a mesa, o pensar não se
aquietava, olhei em volta, na mesa mais próxima, bem à minha frente, um casal
de meia-idade, ela nitidamente refém da moda, ele não tanto, um estilo mais
descontraído, apesar de cumprir os requisitos elementares, ténis de uma
multinacional, por exemplo, tinham acabado de se sentar e colocaram
simultaneamente, numa harmoniosa coreografia, os rectângulos do hoje sobre a
mesa, o empregado aproximou-se para recolher os pedidos, um sujeito de bigode,
sorridente, com uma educação ímpar, já caminhava pelo Outono da vida, em certa
ocasião reparei num símbolo, tatuado no antebraço, reportante a contextos muito
pouco recomendáveis, quem trabalha a sério, arregaça as mangas, foi o que me
permitiu visualizar, a sua irrepreensível conduta dever-se-ia a uma radical
mudança das suas pisadas? Não sei, apenas suposições minhas, jamais ousaria
questionar tal, há pessoas, sem sabermos muito bem o porquê, que logo se sentam
no nosso coração, como há outras que somente nos turvam o olhar, somos tão
estranhos, tinha uma expressão indulgente que imanava Seja bem-vinda a casa,
tão raro, num lugar deste mundo, sermos assim recebidos, nunca lhe denotei
um azedume, e tantos o merecem, assim que se afastou da mesa com o pedido, ela,
quase sem se aperceber, num claro automatismo, pega no rectângulo como se
oxigénio, logo um ar compenetrado, talvez, por ali, desvelasse os grandes enigmas
da existência, nós, comuns mortais, muito aquém de expressões compenetradas, rectângulos
como se de oxigénio, ele ainda se deteve, por uns instantes, a olhar em volta,
por meras fracções de segundos pareceu-me, creio ter sido uma impressão,
vislumbrar-lhe condescendência no olhar a contemplá-la, por fim, também
capitulou e pegou no seu rectângulo, assim ficaram, cada um absorto e inclinado
para o objecto na palma da mão, o empregado regressou com os cafés numa
bandeja, colocou-os suavemente, como era seu timbre, na mesa, nenhum deles teve
a educação de pousar o rectângulo, pareceu-me vê-lo a indiciar o gesto, a
preguiça ou amnésia de modos tê-lo-á derrotado, ela manteve-se impassível,
aprisionada naquele diminuto écran, não me recordo há quantos minutos chegaram,
tenho bem presente que nem uma palavra trocaram, cada um tinha, diante de si,
uma ignorada chávena de café, continuavam sob hipnose, haviam dobrado
meio-século há uns anos, logo, cresceram e somaram bastas vivências sem aquele
cárcere, como era possível terem-se deixado enredar em tamanho logro?! Confesso
a minha total incompreensão… Um objecto, cuja amplitude de funções, nem uma
década de existência soma, de repente, engoliu quase todas as almas do mundo,
havia outras mesas, demasiadas, onde o cenário se repetia, àquela hora da tarde
um aroma a café e doces pelo ar, parecia também soletrar Seja bem-vinda a
casa, há lugares, neste mundo, que sempre estiveram à nossa espera, este é,
sem dúvida, um deles, os cafés arrefeciam, o frémito dos seus dedos, naquele
rectângulo, não, pensei em que momento a palavra teria morrido entre eles, nem
se apercebiam do tempo a passar, do arrefecer dos cafés, de um dia o vazio
deixado por uma partida, só aí, quem sabe, a compreensão do tanto que fica por
dizer, pode ser uma repetição, que seja, há frases que sabem sempre a primeira
vez, neste momento, estava para além do espanto, não se vislumbravam tréguas no
horizonte com os rectângulos, nem se olhavam há bem mais de quinze minutos, quanto
mais conversar, reparei numa velhota, enviuvara há uns anos, que, todos os
dias, àquela hora, vinha pelo pão saído do forno, levava duas ou três carcaças,
pagava sempre com moedas, um esforço, não sei se da vista ou do bolso, em as
aglomerar, percebi, logo da primeira vez que nela reparei, há pessoas, sem
sabermos muito bem o porquê, que logo se sentam no nosso coração, somos tão
estranhos, o olhar dela, não obstante as trevas que a vida lhe lançou ao
caminho, agora mais esbatido, iluminava-se assim que encontrava o empregado, de
bigode, sorridente, com uma educação ímpar, já caminhava pelo Outono da vida, não
me recordo bem quando ou quem, se foi de manhã ou de tarde, a verdade é que ouvi
comentar que as duas ou três carcaças eram o jantar e também o pequeno-almoço,
do dia seguinte, da velhota, observações assim fazem-nos parar e reflectir,
pois, era ossuda e magra, o regresso à terra denotava-se no seu minguar, apesar
de tudo, o rosto benévolo pontuado com um sorriso, um café é o centro do mundo,
não havia melhor sala de aula, não compreendo como deixámos de olhar os outros,
não há melhor leitura, olhando para trás, foi ali que verdadeiramente tirei o
meu curso, regresso à mesa mais próxima, bem diante de mim, os cafés
permaneciam intactos, nunca gostei de beber café frio, cada um deles permanecia
no seu isolamento sob os ditames do rectângulo, piedade e ira perpassaram-me
pelo espírito, neste ponto, senti-me numa crescente distância, pensei que, se morresse
por estes dias, partiria sem muita saudade, como foi possível este ser, de duas
patas, cair em tamanho ardil? E as suas expressões enquanto, com avidez, para
ali se consomem: total concentração, ar de pensador, ansiedade, riso,
apreensão, enfim, todas as cambiantes da existência se reflectem naquele
rectângulo… Decorreram cerca de vinte e seis minutos, desde que se sentaram à
mesa, nem uma palavra trocaram, já nem falo de se olharem, estamos, creio, no
términus do processo de desumanização. Não consegui olhar mais, senti-me a
asfixiar, levantei-me, peguei nos livros e saí para o ar entardecido da cidade,
como precisava de respirar, andei um bom bocado, precisava de aquietar o
pensamento…
quarta-feira, 6 de maio de 2026
A consciência olha-nos sempre de uma janela alta
Um entardecer de Verão, não sei
porquê, traz consigo um sentir de promessa, talvez por se alongar no gesto de
adeus, talvez pelo calor que brota do solo rumo ao céu anoitecido, talvez pela
lentidão cansada dos nossos gestos, talvez por nos termos esquecido de como
saber olhar as coisas, acho que é mais por aqui, afinal, desde há muito que me
sinto estrangeiro em terras longínquas, à minha volta o absurdo impera,
enquanto, em mim, a apatia ganha terreno… Estacionei o carro no possível de
sombra, apesar de, no horizonte, já vislumbrar a face da noite, aquela mancha
verde, que rodeava o edifício branco, agora ainda mais branco pela recente
pintura, sabia-me bem ao olhar e ao pensar, pois, só sentimos pelo que temos de
menos, enquanto me encaminhava para a larga entrada, olhei a sua janela, no
primeiro piso, não a vi, nem sequer a sua mão em saudações, talvez estivesse
deitada, com um livro, ou com a televisão, em doze metros quadrados não tinha
muito por onde escolher, agora que penso nisso, de facto, doze metros
quadrados! Quase toda a sua vida numa quinta, ia para além de um hectare, a
casa enorme, dois pisos, perto de uma dezena de quartos, um legado dos pais,
enquanto criança só no Verão enchia, tios, primos, mais primos que, de tão
distantes, mantinha-se o pudor desta familiaridade, em adulta, só com os netos
um vislumbre de Verões passados… Os netos não são o futuro, mas sim o ansiado
regresso ao passado, com eles reaprende-se a olhar as coisas antes do
derradeiro adeus. Uns no início da caminhada, outros no fim, daí a compreensão,
daí a empatia. Entre eles, os esquecidos na sua desamparada distracção,
limitam-se a somar subtraídos dias, sem memória do início, e sem consciência do
fim que corre ao seu encontro, uma corrida silenciosa, furtiva, discreta, por
lugares sombreados muito para além de um pensar quotidiano. No fim, fica-nos
sempre, de cada um que se cruza connosco, nesta coisa chamada viver, pelo menos
a imagem que se cola a uma impressão, depois, claro, cada um tece os seus
juízos, para mim, ela permanece intemporalmente naquela infinita varanda (só
uma criança compreende o infinito), mão em saudações para o nosso carro que se
aproximava, e um sorriso que nos ensinava o que é regressar.
Agora, doze metros quadrados! Como
pode ali caber uma vida? E logo a sua! De uma infinita varanda (só uma criança
compreende o infinito) para uma janelinha despida (nem sequer a sua mão em
saudações), cumprimento a recepcionista, que também tinha outras funções, há
lugares assim, onde assimilamos as regras sem direito a réplica, como um quadro
que nos é apresentado, sem vislumbre de esboço, ou aceitamos ou simplesmente
partimos, mas a necessidade… Neste caso, permanece no primeiro-andar, talvez
estivesse deitada, com um livro, ou com a televisão, em doze metros quadrados
não tinha muito por onde escolher, que possibilidade de escolha se apresenta
aos oitenta e cinco anos? Subo os dois lanços de escada, depois, o corredor,
comprido, muito comprido, o chão a reflectir as luzes do tecto, tudo numa
limpeza quase a raiar a impessoalidade, um silêncio de fim sobre as coisas,
como se a vida tivesse partido para outras paragens, aqui e ali um quadro,
insuficientes para disfarçar aquela melancolia respirável, bato ao de leve na
porta, as molas da cama traduzem o esforço de se erguer, talvez estivesse
absorta com um livro, talvez olhasse, da varanda de si, o que lá vai, talvez, a
porta abre-se com um sorriso que nos ensina o que é regressar. E eu já não sou
o eu de hoje, mas o de ontem, quando,
pela janela do banco de trás, via a sua mão em saudações para o nosso carro que
se aproximava, é curioso, nesse indefinível instante, ela também não a de hoje,
mas a de ontem, por fim, tudo se dilui e regressamos à incómoda e fria
circunstância do hoje, para restabelecer a familiaridade sempre aquelas frases
impressas num sempre desbotado guião, Então,
como tem passado? Essa saúde, como vai? Não se tem esquecido de tomar a
medicação, certo? Quando, em verdade, queria perguntar-lhe o porquê de não
ter visto a sua mão em saudações à janela. E que saudades de lhe ver a mão em
saudações para um carro que se aproximava, e aquele sorriso que nos ensinava a
regressar, a velha esquivou-se, como sempre, habilmente àquele desbotado guião,
nunca teve paciência para teatralizações, optou pela cadeira e indicou-me um
banco, em doze metros quadrados não tinha muito por onde escolher, olhou-me,
neste ponto, não sei se sentia desconforto ou serenidade, partir não podia, o
seu olhar ia longe, Ainda não te
decidiste, pois não, meu filho? Às vezes, tinha a impressão de que não a
visitava, pelo contrário, acho que me vinha ver, pensei em responder-lhe (Como sabe, Avó?), mas era uma resposta
cansada, um regresso desnecessário à meninice, de facto, não, não me havia
decidido, sentia-me tão perdido, ela continuava a olhar-me, acrescentou, Sabes, és dos poucos que ainda se lembra do
caminho até aqui. Não censuro os teus irmãos, não penses isso, até compreendo,
nunca há tempo para nada nisso a que vocês chamam vida… O que diria minha filha
se vos visse? Nem um casamento sobreviveu! A sua voz apenas eco do seu
pensar, apesar da idade, mantinha a sua inalterável postura, Às vezes, penso, para que é que se casam?
Sabes, isto de viver é uma enorme canseira. No fundo, andamos para aqui, dez,
vinte, de repente, quarenta, num ligeiro salto já estamos nos sessenta, um
piscar de olhos, e vão oitenta e cinco anos, pois é… O problema é que, grande
parte do tempo, fugimos da vida, arranjamos todo e qualquer subterfúgio para
não olhar a vida nos olhos. Não, não me perguntes porquê. Isto acontece e
ponto. Já deves ter consciência disto, certo? Como se fosse uma evidência
desacreditada… Olhar a vida nos olhos! Ainda me lembro, a primeira vez, do alto
daquela varanda, em que vi o teu avô. Sabes, não penses que foi assim há tanto,
para mim, foi ontem. A vida é isto: nós e o tempo; cada um com o seu; no fim, o
que resta é a memória, como cinzas a testemunhar um calor desaparecido… Não te
demores a decidir, o tempo é um viajante apressado, e sempre a nossa angústia
de não lhe sabermos o destino. Se não me arrependo de nada? Meu Deus, só os
tolos dizem que não, repara, hoje as pernas pouco vão além deste quartito, ao
menos, estas árvores em volta acalmam-me o pensar (nisto, levantou-se e foi
até à janela), sabes, gostava de ter
fugido menos da vida, e como conheci gente bem mais veloz… Mas respondo por
mim. É estranho, olho-me dentro desta carcaça, por vezes não me reconheço ao
espelho, porque no pensar continuo a menina que, do alto daquela varanda, viu
ontem o teu avô pela primeira vez.
domingo, 3 de maio de 2026
segunda-feira, 27 de abril de 2026
A beata maledicente
Há figuras que, de tão obscuras, só nos
apercebemos da sua existência pelo lodacento rasto que deixam, assim é a beata
maledicente, nem lhe conheço a sonoridade das palavras, o mundo, neste ponto,
amanheceu-me, embora arvore, em múltiplas circunstâncias, conhecer-me
familiares, pois, tempo a mais e escassez de intelecto desaguam em verborreia
sobre a existência dos outros, à superfície mulher de muitos valores, sobretudo
religiosos, reitero: à superfície; mais uma papa-hóstias de sacristia, pródiga
em cumprir os ritos eclesiásticos: eucaristias, procissões, acções de
beneficência, parece, avistada da lonjura, rumo à santidade, até se infiltrou
num ramo mais ortodoxo do catolicismo, onde o prefixo “neo” nada augura de bom, como se, alguma vez,
estes lá soubessem o que é uma catacumba, o esplendor da hipocrisia, enfim, a
figura de Cristo tudo escuda, não se equivoque o leitor, Jesus Cristo é das
figuras que mais colhe a minha admiração, daí o meu asco a quem se escude na
sua luz para todo o tipo de vilezas e hipocrisias, nem me alongo a inquisições
e afins, por ora, basta-me o exemplo da beata maledicente; pagelas, contas
rezadas entre dedos, olhar pregado no altar, assumir a dianteira, em procissões,
com o marido, um rotundo idoso, igualmente rato de sacristia, ali vão, com
folhas de palmeira na mão, hossanas gritadas, jamais sentidas, secundados por
dezenas, dos tais que se infiltraram num ramo mais ortodoxo do catolicismo,
tudo num delírio de cantorias e rezas, como se, por desígnio divino, fossem os
escolhidos, cruz ao peito e filhos a rodos, dois sinais identitários, sem
esquecer as cantorias e os retiros, bem disse Cristo, “Deixai-os: são cegos
a conduzir cegos,” há, sem dúvida, uma
lógica subjacente a estes contextos que permite a aproximação destas figuras,
tudo somado, o que dali emerge? Uma beata maledicente! Há uns tempos,
aproximou-se de um incauto sob o pretexto de alertar para um hipotético perigo,
como ela gosta de falar de um pedestal (às vezes, questiono-me de onde provém
tanta carência…), num mundo de sombras, qualquer gesto, de aparente bondade, afigura-se
positivo, no entanto, o tempo, esse frio e cruel juiz dos factos da vida,
desvelou as reais intenções da beata maledicente: ganhar a confiança daquele
peão para o manipular no tabuleiro dos seus interesses… Quem diria? Uma
papa-hóstias de sacristia, pródiga em cumprir os ritos eclesiásticos:
eucaristias, procissões, acções de beneficência, parece, avistada da lonjura,
rumo à santidade; e, pasme-se, pariu oito vezes, pelo menos… Como é possível?!
Se assim são os beatos, imagine-se os satânicos! Como já havia referenciado,
esta beata é pródiga em verborreia sobre a existência dos outros, muito canta,
com uma folha de palmeira na mãozita, à cabeça das procissões, hossanas, mas a
Palavra de Cristo é-lhe uma total incógnita, “Não deves julgar”, um dos mais sublimes mandamentos do
Nazareno, não foi, de todo, assimilado por esta criatura, reconhecida pelo seu lodacento
rasto, aqui chegados, resta questionar: Será escassez intelectual? Ou simplesmente
um carácter torpe? De formação está nas misturas químicas, até aí bem distante
do Logos, é vê-la a entrar em reuniões,
à porta fechada, por corredores sombrios, para debitar informações colhidas a
mais incautos, outra das curiosidades desta personagem, não são muitas,
convenhamos, está precisamente no facto de ocultar os grisalhos com que o tempo
a presenteou, ao contrário de outros elementos femininos da seita a que
pertence, que se orgulham de cada grisalho como se uma bênção, desconheço se
chegam a cantar hossanas, com uma folha de palmeira na mãozita, para celebrar a
sua chegada, pois, é possível que sim, a beata maledicente gosta de passeios,
uma forma de contornar o horário laboral, uma praxis sua de há muito, por estes
dias, irá a caminho de Madrid, na companhia de uma Porcachona, imagine-se o
conteúdo de tais diálogos: uma verborreia de baixo intelecto com os grunhidos
enlameados em dejectos de uma Porcachona: nem restará um santinho no altar
aquando do regresso… Até deixo uma sugestão: a beata maledicente levar a sua
viola, a Porcachona um microfone para emitir os seus grunhidos, e que dupla
promissora teríamos, bom, é melhor deixar a folha de palmeira fora da equação,
não vá a Porcachona confundir com um dejecto e prontamente engoli-la… Caro
leitor, não permita que estas linhas esmoreçam a sua fé, beatas maledicentes há
em todos os cultos, que tenham parido oito vezes talvez não haja assim tantas,
com tamanha verborreia, de baixo-intelecto, sobre a existência dos outros,
também não, mas bem disse Cristo, “Deixai-os: são cegos a conduzir cegos.”
domingo, 26 de abril de 2026
sexta-feira, 24 de abril de 2026
A saudade de um sentir saudoso
Quando dei por mim, despia
molduras, devolvia-as àquela transparência, quase imaterial, de uma existência
indefinível, como se uma janela que o deixasse de ser, foi o que me pareceu na
altura. Tudo tão recente, e eu perdida naquele tumulto do meu sentir, vivia uma
noite contínua, sem prenúncio de manhãs. É estranho, não é? Essa sensação de
uma noite infinda? Mas é o que melhor traduz aquele período da minha vida, não
me lembro, durante esses longos e absurdos dias, de ver o sol, talvez já não me
recordasse de como olhar as alturas, é possível… Como dizia, quando me
regressei, despia molduras, parecia-me, de certa forma, que me negava, me
subtraía, não sei porquê, como se me desdobrasse entre o que sou e o que fui,
e, ao certo, não me encontrava em nenhum dos lados. Não sei se me faço
perceber? Compreendes, não é? Ou talvez não? Que dizes? Estou a aborrecer-te?
Se estiver, diz! Por favor! A última coisa que quero é aborrecer alguém com os
meus assuntos… Mas aquele dia ainda por aqui, tão nítido, quase ouço cada som
desde o amanhecer até que a noite tudo serenou, menos, como sempre acontece, os
sentires desordenados, e como o meu por aí andava… Regressámos, na véspera, de
duas semanas de praia, já tarde, ele sempre insistiu em gozar as coisas até ao
último momento, eu preferia antecipar um pouco, assim permitia organizar-me um
pouco, mas os miúdos secundavam-no naquele desejo de permanecer até ao
possível, e assim foi, rodámos a fechadura do nosso lar bem depois das dez da
noite. Claro que o dia seguinte ainda de férias para ambos, daí a minha
estranheza, pela manhã, por não o encontrar a meu lado, pensei que talvez
estivesse na cozinha, levantei-me, procurei-o pela casa, três ou quatro
divisões não nos levam assim tanto tempo, e nada… Nem vestígios! Liguei-lhe de
imediato, só a voz fria e mecânica do atendedor, não sei por que razão, se
pelas cores do dia, se pelas sombras do meu pensar, se pelo estranho silêncio
àquela hora, não sei, confesso, porém, senti que algo mudara, e de forma
irreversível, o frio súbito que me invadia ajudava a materializar esta certeza,
de repente, senti-me náufraga, não por ele, claro, mas por mim, ia ao sabor das
correntes do meu desespero, a porta do quarto dos miúdos fechada, mesmo assim
ouvia-se-lhes a respiração, de facto, ele fizera muito pouco barulho, caso
contrário, os miúdos já com a televisão, qualquer coisa servia de pretexto para
deixarem a cama, é curioso, há quem diga que só não se recupera o tempo,
discordo, eu acrescentaria o entusiasmo, os momentos, e quem fomos, afinal,
viver é subtrairmo-nos… O resto já sabes, o apartamento que alugara com a
outra, para onde cobardemente fugiu naquela manhã, a guerra instalada pelos
bens, os miúdos no meio, coitados, pois, viver é subtrairmo-nos, contudo, ainda
hoje fico perplexa pelo momento que escolheu para nos deixar: após o regresso
de férias! Confesso que, há uns largos meses, ser-me-ia impossível falar disto
assim, e com esta distância, pois, foi penoso aqui chegar, lembras-te da… Pois,
sim, essa… Ainda no outro dia a vi, passeio fora, num claro sem destino, logo o
comentário do meu mais velho: “O que um homem faz a uma mulher!” Retorqui que
se calasse, afinal, o que é que um garoto de doze anos sabe do amor? Mas esta
questão não me deixou logo, ficou comigo por mais algum (“O que um homem faz a
uma mulher!”), e reflecti na minha expressão diante de um espelho escurecido lá
de casa, haveria alguma similitude com a da…? É possível, daí a observação do
miúdo, mas o que poderia ele saber do amor? Pouco, sem dúvida, mas talvez
percebesse as suas consequências, talvez… Não sabes de quem estou a falar?
Então, não estás a ver quem é a… Morava no prédio em frente ao nosso, víamos o
marido, aos fins-de-semana, logo pela manhã, de calções, fosse Verão ou
Inverno, em animadas correrias pelo bairro, até que correu para bem longe de
casa, com a empregada do café, que tem aproximadamente a idade da filha mais
velha deles, enfim, como eu agora a compreendo! Uma pessoa dedica a sua vida a
outra, para isto! Parece que vivemos uma amarga fantasia, percebes, não é?
Repara, consagramo-nos ao outro e, de repente, somos cuspidos da sua vida, como
se fôssemos um qualquer acessório descartável, desculpa-me, mas não encontro
outras palavras para descrever o que por aqui me vai dentro do peito… E como
dói! Por favor, não me perguntes, como já outros fizeram, se é a decepção pelos
anos de casados, se é o facto de ser trocada, se foi a traição, se foi nem
sequer ter pensado, por um segundo, nos filhos, se tudo isso ao mesmo tempo…
Sabes, o que dói mais é ter, neste momento, mais de cinquenta anos e sentir-me
uma criança amedrontada por, de repente, o mundo parecer-me um lugar
anoitecido. De certa forma, sinto-me vampirizada, ele levou-me os melhores anos
de mim, olho, agora, à minha volta com a estranheza de uma criança, mas com a
energia de uma idosa. Se isto sucedesse há uma década, enfim, recomeçar ainda
seria um horizonte tangível, porém, hoje olho-me ao espelho e estou naquela
fase em que me deixo de reconhecer, ou seja, quando o pensar se senta na margem
do nosso existir. Bom, desculpa, estou a aborrecer-te com os meus problemas e
tu ainda não falaste nada de ti, que dizes? Se ainda penso nele? Como não? Às
vezes, ao final da tarde, dou por mim na marquise da sala, como sempre fazia, a
olhar para o fundo da rua, à espera de ver os faróis do seu carro, e de noite,
como dói, sentir frio o seu lado da cama, talvez por pudor, ou por uma
esperança ainda não silenciada, cinjo-me ao meu, quem sabe se, um dia, ele cai
em si e percebe o vazio deixado. Levou-me mais de metade da minha vida, agora,
uma coisa te garanto, se alguém me vir, de manhã ou de tarde, passeio fora, é
porque sei a direcção de cada passo.
sábado, 18 de abril de 2026
Por ruas desertas anoitecidas
Por ruas desertas anoitecidas, guio
num sem destino, como se soubesse lá o que isso é, o mundo, volta e meia,
resolve colocar a máscara da felicidade (como se soubesse lá o que isso é),
nunca fui apologista de máscaras, tantas, talvez demasiadas, no labirinto de
nós que desconhecemos, caem na sucessão da voragem dos dias, daí a constância
daquela frase (Nunca pensei que isto
algum dia me acontecesse… Nunca pensei alguma vez responder-lhe assim… Nunca
sonhei que teria de passar por isto… Nunca pensei ter de recorrer a tal coisa…
Nunca pensei…), pois, mas as esquinas da vida ferem-nos, e, enquanto
sangramos, redireccionamos o leme do nosso existir. Continuo por ruas desertas
anoitecidas, à minha volta só luzes, das casas, dos semáforos, dos candeeiros,
e o motor sedento de mudanças, que coloco num automatismo felizmente para mim
despercebido, o único som desta noite, primeira e última do mundo, há qualquer
coisa de irrepetível na noite, talvez por sempre constituir um fim, o regresso
ao lar, a janela que se fecha, a luz que se acende, e uma aparente harmonia
restituída… Até quando?
Olhava a colher trémula, receoso,
contudo, a sua abnegação persistia, diariamente, com a sopa do almoço, com o
doce de pêssego ao lanche, a sopa vespertina, o xarope para a tosse, ela
limitava-se a entreabrir os lábios, sem sequer emitir um som, quanto mais uma
palavra, sorvia na distância, pois há muito partira. Foi numa certa manhã, ela
a queixar-se de dores de cabeça, ele a relativizar, afinal, já habitavam o
Inverno da vida, viviam da magra reforma dele, emissário de desgraças e de tão
poucas graças durante a vida, em determinadas ocasiões, quando a missiva impunha
assinatura do destinatário, nem ousava tocar, preferia escrevinhar que ninguém
atendeu, pelo peso do envelope aprendera a saber-lhe o conteúdo, e cansara-se
de ver rostos desesperados, e quanto mais olhava a terra, sob o peso do saco
dos desencontros alheios, mais colocava a cruz ao lado de Ninguém atendeu… É curioso, as cartas passavam por ele seladas, no
entanto, permitiam-lhe saber a geografia de cada existência. Houve uma história
que o tocou particularmente, sempre soube o porquê, talvez por isso nunca a
tivesse partilhado com ela. É natural, a aprendizagem das dores é a
aprendizagem do silêncio, só assim sobreviveram àquela tarde em que a campainha
num pânico súbito, a contrastar com a indolência da tarde domingueira, ele num
regresso forçado da sesta à sua circunstância, de sofá e jornal caído na
carpete, ela também a desviar os olhos da televisão para a porta, embora o
coração… Pois, o coração nos seus monólogos de profeta, farol do sentir, a
sussurrar-lhe que o filho caído no alcatrão da estrada, correra por uma bola,
apesar da tentativa de travagem, por demais documentada no pavimento, tudo
infrutífero, o murmúrio insistente: É
isto que se passa! É isto que te vão dizer! Prepara-te! Ela num assomo de
esperança Tens a certeza? A resposta
pronta Lamento! Nessa tarde, foi ele
que calou a dissonante campainha, foi ele que recebeu a notícia, foi ele que
ficou lívido e emudecido sob a ombreira da porta, ela nem se levantou,
permanecia de olhar fixo numa moldura que lhe devolvia um sorriso do filho…
A aprendizagem das dores é a
aprendizagem do silêncio, chegou tarde e partiu-lhes tão cedo, a vida é isto:
uma soma de incompreensões! Como dizia há pouco, as cartas passavam por ele
seladas, no entanto, permitiam-lhe saber a geografia de cada existência. Houve
uma história que o tocou particularmente, semanas após ter deixado a cruz ao
lado de Ninguém atendeu, o
destinatário era um casal jovem, ela em dificuldades com os degraus, já teria
dobrado o sétimo mês, o rapaz sempre diligente a seu lado, deixou os estudos
para assumir as expensas desta nova fase da vida, de obras a biscates abraçava
prontamente todas as possibilidades, ouvia-se dizer que deixaram o interior
para fugir às más-línguas, e também ao desacordo das famílias na sua união,
seguiram-se envelopes gordos, até que, numa certa manhã, os viu com três malas,
pousadas, à porta do prédio, o bebé ao colo da mãe, andaria pelos dois meses,
antes de depositar as cartas, parou junto deles, Bom dia! Estão de partida? Ambos responderam com uma silenciosa
expressão de derrota, ele não soube o que retorquir, era uma manhã fria, o bebé
soltava espirros regulares, por fim, apenas lhe restou uma questão, a mais
franca possível, Têm para onde ir? O
rapaz Temos de regressar à terra. Levantou
os olhos, sempre de mãos nos bolsos, ele que de obras a biscates abraçava
prontamente todas as possibilidades, encolheu os ombros, e acrescentou Sabe, o que mais me dói é que nem um berço
ainda consegui comprar para o meu filho… Esta frase ressoou-lhe por muito nem um berço ainda consegui comprar para o
meu filho… De novo, aquela evidência: a vida é isto: uma soma de
incompreensões.
De vez em quando, apesar de hoje a
colher trémula na sua mão, da partida dela para uma incompreensão distante, ele
insiste numa frase do ontem As amoras
sabem a Agosto… Por momentos, os lábios dela suavizam-se, como se uma
memória se erguesse na paisagem de si, ele de novo As amoras sabem a Agosto… E tudo talvez seja uma outra coisa.
Por ruas desertas anoitecidas, guio num
sem destino, como se soubesse lá o que isso é, o mundo, volta e meia, resolve
colocar a máscara da felicidade (como se soubesse lá o que isso é), em cada
janela uma história, umas vão a meio, outras já se contaram, a vida é isto: uma
soma de incompreensões, com algumas certezas a que nos agarramos, para assim
nos sabermos (quantas vezes nos largamos no mundo?), e nesta rua deserta
anoitecida, uma frase levanta-se em mim de um ontem tão ontem As amoras sabem a Agosto…
segunda-feira, 13 de abril de 2026
domingo, 12 de abril de 2026
É preciso morrer para ser visto
O que é perder a razão? A primeira vez que me coloquei esta questão foi há muito,
ainda pela mão dos meus pais, sempre que alguém contra-corrente do que se
espera, logo Coitado! Perdeu a razão! Essa
possibilidade, não sei porquê, sempre se me afigurou tão longínqua, mas o
tempo, volta e meia, dá-nos a mão e leva a olhar abismos nunca
pensados, pois, como dizia, ainda pela mão dos meus pais, e, lá por casa, vozes
preocupadas relatavam a história de alguém próximo que perdeu a razão, daí o internamento numa casa de repouso, estranha
mania esta de um povo suavizar as coisas, sempre é mais elegante de que
hospício, bem verdade, mas porquê esta urgência de se contornar a realidade?
Ainda lá por casa, Coitado! Teve um
esgotamento… Logo eu a idealizar uma olímpica tarde de futebol, daí o esgotamento, do alto dos meus oito anos
que mais podia eu conceber? É curioso, hoje raramente ouço falar em esgotamentos, já soa anacrónico, o
vocábulo actual é depressão, quase
virou moda, por tudo e nada arranja-se, com facilidade, uma depressão, da incompetência à impotência
tudo está justificado. Mas regresso àquela história, lá por casa, de alguém
próximo que perdeu a razão, daí o
internamento numa casa de repouso, a génese de tudo foi o coração (Não será
sempre?), talvez tenha corrido demasiado por ela, daí o esgotamento, quando
parecia que, afinal, ela companheira da miragem. Começou a andar enervado,
volta e meia, murros em portas, gritos ao telefone, ausências nas refeições
familiares, os livros arrefecidos a um canto, os semestres, na faculdade,
insensíveis a esgotamentos, e também
creio que a depressões, assim
continuem, sinal de que nem tudo vale, para ela, constituiu um mero
apeadeiro na longa viagem da vida, contudo, ele via-a como a estação final,
quantos equívocos assim ocorrem a cada dia do mundo? Ela deixou de atender o
telefone, e a campainha, diziam-lhe que tinha saído ou que partira de
fim-de-semana, caiu num vazio desesperado, para o preencher, refugiou-se na
fantasia, tudo começou com a insistência por mais um prato à mesa, justificava
que ela viria jantar lá a casa, a princípio, os pais cederam, mas as contínuas
omissões fizeram perceber o pior, numa certa ocasião, ele chegou a esvaziar
várias lamelas, felizmente os seus conhecimentos químicos não eram muito
vastos, daí ter resultado na soma de uma sonolência redobrada com uma ligeira
afectação intestinal. No entanto, o alarme parental tinha soado. Tentaram, como
quase sempre sucede, primeiro, o diálogo (Então?
Achas que ela vale isso? Há mais raparigas no mundo! Estás a destruir a tua
vida por uma tontice… Um dia, vais ver, ainda te vais rir de tudo isto…).
Porém, quando a noite entra na nossa vida, é quase impossível perceber quão
fugaz é a sombra do dia. Ainda dois meses por ali, agora com lamelas
prescritas, volta e meia, aquando das visitas parentais – as únicas que
efectivamente se registaram –, a voz dele quase suplicante Ela ligou? Tem perguntado por mim? Não está, por acaso, aí fora? Os
lábios secos, ostentava uma cor amarelecida, realçada pela brancura do roupão,
como se lá fora a tarde não estivesse no seu esplendor, a voz saía-lhe
arrastada e numa pronúncia de idoso, foram aconselhados a não responder, a
direccionar as conversas noutro sentido, é natural, quando se esgota a
circunstância, devemos partir para outras paragens… Ainda hoje, não sei se ele
recuperou, na totalidade, a razão. Confesso que não acredito. Há coisas que a
vida, simplesmente, nos vai subtraindo. A razão é uma delas. O que é perder a razão? Essa
possibilidade, não sei porquê, sempre se me afigurou tão longínqua, mas o
tempo, volta e meia, dá-nos a mão e leva a olhar abismos nunca
pensados, hoje, a espaços, admito que a maior lucidez reside no adeus à razão. Como se de uma
inevitabilidade se tratasse. Talvez aqui resida a lógica da sobrevivência.
Quando a maioria se esqueceu de olhar os céus, que mais nos resta? Não raras
vezes, invejo quem trocou a razão por
amor, no fundo, tratou-se de uma escolha e nunca de uma perda. A perdê-la,
se é que tal já não me sucedeu, que ao menos fosse por amor, e, se numa tarde,
alguém me encontrar de lábios secos, com uma cor amarelecida, realçada pela
brancura do roupão, com uma voz arrastada e uma pronúncia de idoso a perguntar
(Ela ligou? Tem perguntado por mim? Não
está, por acaso, aí fora?), seria bom sinal, teria escolhido o lado dos
vivos nesta coisa da existência.
quinta-feira, 2 de abril de 2026
O chão do mundo
Hoje sabia que ninguém me esperava. Um desses dias em que as
sombras do mundo se sentam diante de nós para um diálogo sempre indesejado, uma
janela que se abre para a paisagem onde não nos queremos ver, apesar de por ali
as nossas pegadas, chegamos a duvidar, a certa altura, da nossa existência…
Como dizia, não tinha pressa em chegar a casa, ia encontrar o frio gritante do
silêncio, que nos murmura incessantemente solidão,
e o nosso sentir mais arrefecido que o exterior, pelos passeios, olho gente
sentada em cafés, em conversas ridas, não vislumbro, por ali, os silêncios que
pousam, quando eu, outrora, tacteava diálogos, nesses momentos, eu partia para
as lonjuras que me habitam, de facto, nunca fui de cafés, risadas, festas,
danças… Aprendi a disfarçar esta inquilina tristeza, os meus pais anunciavam ao
mundo Esta nossa filha é muito
concentrada! Eu aquém concentrações, apenas refém de uma tristeza que me
tolhia o ser, a minha irmã, ao contrário de mim, sempre convidada para festas,
uma inigualável sede de roupas, cachecóis, sapatos, malas, só a ouço em
risadas, de vez em quando, sinto-lhe o olhar receoso a seguir-me os passos,
enquanto os meus pais, apreensivos com tantas risadas, murmuravam Ao menos, Deus concedeu-nos um filha
concentrada… E eu sentia-me tudo menos concentrada, só com ele, sentado
diante de mim, esta tristeza afastava-se, como se uma concessão de tréguas,
nesses momentos, eu sentia-me parte integrante de qualquer café, não, não
chegava às risadas, festas, danças, gostava de ali estar com ele, a sentir a
pulsação da cidade lá fora, carros, buzinas, passeios, gente que os caminhava,
para mim, rostos inexpressivos, talvez por não me demorar neles, se por aí me detivesse,
perceberia que se ocupavam em intrincados cálculos para aportar na margem do
mês seguinte, outros pela doença de um filho, ou por um divórcio anunciado,
creio que poucos questionam a morte do sonho, substituem este facto pela
denominada maturidade, pelo vidro,
vejo-os, lá fora, a povoar estradas e passeios, já não se olham, evitam-se num
absurdo desumanizante… Como dizia, só com ele, sentado diante de mim, esta
tristeza afastava-se, como se uma concessão de tréguas, talvez um sonho se
erguesse algures em mim, às vezes, ele, num repente, levantava-se, dava-me a
mão, e só parávamos junto ao mar, ali ficávamos, dentro do carro, a eternizar
aquele instante em que a luz partia da terra para nos relembrar sonhos caídos…
Outras vezes, íamos até aquela discreta pensão, duas travessas à direita do
café, demorava, claro, a recuperar a intimidade, falávamos, falávamos, mais
ele, como é evidente, sempre preferi ouvir, assim ia a tarde, assim ia a minha
vida…
Hoje sei que ninguém me espera. Um desses dias em que as
sombras do mundo se sentam diante de nós para um diálogo sempre indesejado,
nunca concebi, confesso, apaixonar-me por um homem casado, muito menos assumir
o papel da outra, a palavra amante sempre
me soou mal, meus pais, coitados, de mim diziam Esta nossa filha é muito concentrada! Mal sabiam, coitados, mas que
podia eu fazer? Para ajudar com as contas caseiras, enquanto estudava,
trabalhei na recepção de uma clínica veterinária, foi lá que nos conhecemos,
lembro-me tão bem da primeira vez que o vi, é um desses momentos a que regresso
múltiplas vezes, tinha um rafeiro de médio porte, assim que entrou, sabia-lhe a
voz, é tão estranho, quando se abeirou do balcão, já a tristeza partira de mim,
nessa semana, regressou por mais duas ou três ocasiões, o cão tinha sido
atropelado, embora não fosse grave, o anelar preenchido não me passou ao lado,
porém, algo me impelia na sua direcção, talvez a súbita ligeireza por largar o
fardo de uma vida (Esta nossa filha é
muito concentrada!), a tristeza que me tolhia o ser, ele também se
demorava, cada vez mais, do outro lado do balcão, por norma, era o último
cliente, queixava-se de falta de tempo, sempre o trabalho, percebi que lhe
seguia as pisadas académicas, ajudou, claro, a solidificar as pontes de
diálogo, uma noite, com o pretexto da caminhada nocturna do cão, deixou-me à
porta, outras se seguiram, algo, agora mais forte, continuava a impelir-me na
sua direcção, apesar do objecto amarelecido exibido no anelar, de um filho na
primária, de não haver vislumbres, em palavras ou actos, de algum dia partir
daquela ilha, ainda assim, eu continuava a caminhar a seu lado, pelo restituído
sabor da noite, as afinidades académicas pois, e a súbita ligeireza, quantas
vezes largamos o fardo de uma vida? Hoje, tanto tempo depois, continuo
desencontrada da palavra arrependimento, não sei se é positivo, não sei,
confesso, nunca fui de ideias gerais, a mulher dele, a certa altura, criou uma
ideia de nós, apenas isso, nunca a materializou, desconfiar é isso mesmo,
formar uma ideia sem lhe encontrar um corpo, tivemos as nossas cautelas, como é
evidente, no meu caso, queria apenas que a tristeza se mantivesse na soleira da
porta, claro que, volta e meia, acabava por entrar, nos períodos festivos, nas
férias grandes, nunca soube o que é isso a seu lado, e doía-me nas minhas
funduras a solidão desamparada de me saber assim, com o tempo, os meus pais Esta nossa filha é muito concentrada! Só tem olhos para os livros… Já não sei
se diziam isto para se convencerem, se para iludir os outros, a minha irmã de
casamento marcado, não obstante as festas, uma inigualável sede de roupas, de
cachecóis, de sapatos, de malas, as infindáveis risadas, eu aquém destes
cenários, certa vez uma tia ousou E tu,
minha filha? Quando é que chega a tua vez? Olha que filhos depois dos 30… Logo
o meu pai vociferou Esta nossa filha é
muito concentrada! Só tem olhos para
os livros… Acho que nem ele já acreditava. O tempo continuou o seu caminho,
após o curso, vários empregos até estabilizar, entretanto, um sobrinho, de vez
em quando, com a desculpa de um congresso para a mulher, partíamos de
fim-de-semana, doía-me não poder apresentá-lo aos meus, contudo, dessa forma,
era como se pisasse uma paisagem só minha. Andaria o meu sobrinho aí pelos
doze, quando, numa manhã, a voz dele tão distinta do que conhecia,
arrastava-se, ao telefone, como se numa espera pelo pensar, falou-me em
almoçarmos naquele restaurantezito discreto, onde íamos habitualmente, disse
que sim, mas logo a inquietude ao leme do que sou, aquele arrastar de voz, tão
próximo do soletrar, insisti Mas passa-se
alguma coisa? Ele, impassível, quase numa anestesia, Falamos ao almoço… E custou a chegar a hora desse almoço, entrei e
sentei-me na mesa habitual, esperei uns doze minutos, por fim, ele, curvado,
com um semblante de derrota, disse-me Vem,
falamos ali fora, acedi, confirmou-se o pior cenário, num exame, para a
mulher, teria de retirar um peito, e, mesmo assim, sem garantias, acrescentou Não podemos continuar… Baixou o olhar,
antes de terminar a frase, não regressámos para a mesa, ainda não tínhamos
pedido, abraçámo-nos pudicamente, dei-lhe um beijo na face, enquanto ele me
segredava, numa doçura suplicante, Espero
que compreendas… Partimos em direcções opostas, creio que, nesta vida,
raramente caminhámos rumo ao mesmo horizonte…
Hoje sei que ninguém me espera. Um desses dias em que as
sombras do mundo se sentam diante de nós para um diálogo sempre indesejado, uma
janela que se abre para a paisagem onde não nos queremos ver, entretanto, o meu
pai deixou-nos, faz agora pouco mais de um ano, sempre aquele terrível inimigo
que nos dilacera por dentro, e que ninguém aparentemente quer derrotar (a quem interessará tal força?),
felizmente ainda conheceu a neta, pois, fui novamente tia, desta vez, de uma
linda menina, tem agora oito aninhos, a minha mãe refugiou-se no serviço
paroquial, reforma e viuvez não são boas conselheiras, e eu para aqui ando, faz
dez anos aquele púdico abraço. Nunca mais nos vimos. Nunca mais soube nada
dele. De certa forma, foi o único final possível. E admirei o seu gesto de
regressar inteiro naquela hora. Houve tanta nobreza nesse momento. Desde então,
regressou a minha velha companheira de viagem, recebi-a com indiferença, foi
discreta na sua reentrada, está para ali, no seu canto, e não me incomoda,
chego a casa, não acendo logo a luz, nalguns gestos sinto os passos do tempo, é
natural, dele só resta uma fotografia, nem está à vista, hoje, tanto tempo
depois, continuo desencontrada da palavra arrependimento, basta-me relembrar
aquele instante em que a luz partia da terra para nos relembrar sonhos caídos…
quarta-feira, 1 de abril de 2026
"No fim
de contas, são poucos a ter o dom de alterar a direcção do nosso caminhar, de
nos desconstruírem convicções, de, num repente, nos colocarem face a um dos
actos mais radicais da existência: virar costas a tudo o que edificámos para
contemplar o seu rosto, nem que seja por mais um entardecer…"
in Nuvens passeantes pelas águas
sábado, 28 de março de 2026
Quando me for embora que horas serão?
Nada disto claramente escapou à mulher do
colega, mais nova e atraente, até achei, por breves instantes, que me lia os
pensamentos, receei, por exemplo, que me perguntasse: Ainda deve muito da louça? Já viu, a taxa de juro do visa é um
autêntico roubo… E a senhora da limpeza teve cá um trabalho! Também não lhe dá
jeito comer de pé… Pois, estas ridículas modas, não é? Pensamentos, assim,
reconfortavam-me, afinal, dá algum jeito comer de pé? Entretanto, a campainha,
uma vez mais, pela casa, agora a colega com o marido, eu, de novo, à porta para
os receber, estes já os conhecia, conforme previ, a colega com uma indumentária
balizada algures entre os anos oitenta e as sombras estáticas de um passeio
cosmopolita, tudo para maquilhar uma ruralidade que ameaçava irromper a cada
gesto, sílaba, olhar, nunca compreendi esta urgência de renegar o ontem, o
marido, sempre dois ou três passos atrás, um sujeito alto, anafado, com gestos
ensonados, nele, porém, a ruralidade era palpitante, se me perguntassem qual a
sua profissão, desassombradamente diria taxista, havia nele uma qualquer
urgência por se sentar, como se fosse a sua posição natural, o seu horizonte
temático também não era muito vasto, oscilava entre, claro, a bola e motores,
embora, pasme-se, fosse bancário, o que também não lhe era abonatório, mas daí
a inferência pela sua posição natural, após deixá-los entrar e fechar a porta,
não me escapou as posições tomadas no terreno, o taxista sentou-se no sofá,
olhar bovino na televisão enquanto lhe enchia o copo, a rural da mulher foi ter
com a minha à cozinha, quase ignorou a mulher do colega, mais nova e atraente,
apenas se salvou o imperativo da educação, dediquei-me a colorir copos que
teimavam na transparência, particularmente o do taxista, entretanto, percebi na
mulher do colega uma crescente insatisfação, falavam em surdina, mas certas
frases chegaram-me Não devia ter vindo…
Eu sabia! Já viste, a cara que estas duas me fizeram? Parece que estão a fazer
um frete! E há quanto tempo estão as duas para ali na cozinha? Devem estar a
dizer das boas… Sinceramente, para que é que me vim aqui enfiar? Só tu, para me
meteres num filme destes! Primeira e última, acredita! Onde já se viu uma coisa
assim? Ela nem se digna a fazer sala! Coitada, está tudo tão artificial que se esqueceu
de dar alma às coisas! Da comida à decoração, tudo sabe a plástico! Pelos
gestos e expressões, o colega procurava, como podia, acalmá-la, aproximei-me
deles e gracejei qualquer coisa, pareceram-me ambos razoáveis, retribuíram
igualmente com uma piada, eu próprio comecei a inquietar-me com a demora
daquelas duas na cozinha, por breves instantes, invejei aquele olhar bovino que
contemplava a televisão, num estar para além de tudo, enquanto transparecia,
uma vez mais, o copo, creio que se lhe perguntasse onde estava a rural da
mulher, ele não sabia e tão pouco se importava… Como disse há pouco, invejei
aquele olhar bovino, num estar para além de tudo. Por fim, elas deixaram a
cozinha, povoaram a mesa com o propósito deste serão, não sei porquê, mas uma imagem
da infância levantou-se diante do meu pensar, a lareira da minha avó, quando as
suas mãos pousavam os frutos da sua manhã de labor, e uma frase, dita há pouco
em surdina, regressa-me está tudo tão
artificial que se esqueceu de dar alma às coisas! De facto, daquelas
travessas não emanava qualquer aroma (Da comida à decoração, tudo sabe a plástico!), porém, da cozinha da minha avó, lá longe, na
aldeia, o mundo ficava bem mais perfumado… Elas resolveram estabelecer um
diálogo muito particular, achei despropositado, o colega ainda tentou um
princípio de conversa, o que se lhe compreendia em distracção compensava com
uma fortíssima dose intuitiva, daí que os seus esforços, por uma hipotética
conversa, não tivessem passado exactamente de um princípio de intenções, talvez
começasse a vislumbrar, pelo soalho, as máscaras caídas das colegas, é
possível, poucas são as mulheres que gostam de sombras, sobretudo de mulheres
mais novas e atraentes, neste ponto, confesso que me chocou o facto de nenhuma
delas disfarçar o azedume, nem a educação sobreviveu, nem a etiqueta, nada,
apenas o meu espanto silenciado pela estranha que olhava diante de mim,
malgrado dormir com ela há mais de quinze anos… Por fim, os miúdos, em poses e
modos robóticos, assim que entraram, o meu olhar procurou o rosto da mulher do
colega, mais nova e atraente, li-lhe somente indulgência perante aqueles gestos
teatralmente contidos, até no tom de voz se denotava obediência a um guião
escrito por outra mão, dei, de repente, por mim a pensar Porquê tudo isto? Quanto de nós está nesta sala? Tão pouco, tão pouco…
Acho que nem os pés chegaram a entrar. Partimos para tão longe, assim que a
hora deste absurdo jantar chegou, que deixámos para aqui os corpos à pressa,
desengonçados, desanimados, entregues a uma lenta corrente sem prenúncio de uma
qualquer foz amanhecida… De novo aquela frase está tudo tão artificial que se esqueceu de dar alma às coisas! O
colega e a mulher, mais nova e atraente, encaminharam-se para a porta, de certa
forma, na velocidade dos seus gestos e na opacidade das suas expressões,
percebia-se o cansaço de segurar as máscaras, começavam a ceder, adeuses de
ocasião e, por fim, partiram, percebi-lhes leveza na passada, elas nem à porta
vieram para se despedir, regressei à sala, o taxista já ressonava, elas
continuavam em sussurros indignados pela mulher do colega, mais nova e
atraente, os miúdos no quarto com o vício do hoje, olho as travessas,
praticamente intactas, mas tão vazias de alma… Imagino o colega, com a sua
mulher, mais nova e atraente, a parar numa rulote, cada um a pedir o seu
hambúrguer, depois, enquanto os ombros se tacteiam, olham o mar e saboreiam a
inesperada refeição, talvez ainda haja tempo para um beijo quente e renovar
juras de amor, talvez… Pelo menos, era o que eu faria, enquanto, lá longe, na
aldeia, o mundo ficava bem mais perfumado…












