Livros do Escritor

Livros do Escritor

sábado, 25 de julho de 2026

Os mortos não sonham

 


Sempre que aquela música na rádio, ele assumia um ar circunspecto, como se não a ouvisse, ou lhe fosse indiferente, porém, era precisamente esse véu de gravidade a denunciar-lhe os passos do sentir, isto sucedia com mais frequência no carro (afinal, em que outro lugar, do hoje, se ouve rádio?), nesses momentos, olhava a minha vida de uma qualquer janela, como se de uma ilusão se tratasse, tão estranho, ele ali, a meu lado, a conduzir a caminho de casa, e a canção, interminável, a povoar o silêncio que, de súbito, se abriu entre nós, enquanto os melosos acordes ecoavam, eu a olhar calçadas e transeuntes, como se tal me interessasse, logo eu que tão pouco reparava nos outros, e a canção, interminável, a certa altura, já nem posição tinha, de tanto me obrigar a olhar a janela do meu lado, nunca soube se ele se apercebia do meu esforço (pela janela), do meu súbito desconforto, do silêncio que a música nos legou, eu persistia a olhar, através do vidro, gentes, passeios, montras esconsas, creio, em verdade, que, assim que os acordes se repercutiam no interior silenciado do carro, ele desacelerava, como se quisesse eternizar o momento, ou talvez fosse apenas uma impressão, fruto de um sentir enciumado, pois, quiçá, num qualquer canto de mim, tacteava por palavras para traduzir esta raiva que, talvez por orgulho, repetidamente insistia em calar, conheci-o ainda com ela, embora, amiúde, ouvisse que as coisas, entre eles, já distantes de dias solares, lembro-me vagamente de os ver, de mão dada, a descer a rua, ele sempre muito direito, quase cerimonioso, com um ar de realizado, parecia olhar o mundo do cume de si, ela, não sei porquê, dava-me a impressão de algo enfadada, enquanto ajeitava o cabelo, olhava à sua volta, como se procurasse uma porta de saída daquele quadro onde a emolduraram, pelo que consta, foi ela a deixá-lo, queixava-se de falta de atenção, tempo, sentia-se sempre em segundo plano na sua vida, tudo por causa do trabalho, ouvi dizer que, certo dia, ela ter-lhe-á dito Tu és obcecado pelo teu maldito trabalho! Ele, coitado, de ombros encolhidos, parece que ainda esboçou uma possível defesa Mas como é que queres, amanhã, que eu sustente um lar? Com sonhos? Depois desta amarga troca de palavras, a relação deles conheceu a noite, e começaram a caminhar em direcções distintas, entretanto, amigos comuns apresentaram-nos, empatizei, de imediato, com ele, gostei da aparente tranquilidade que transparecia, conciliada com uma notória maturidade, trabalhava com números num qualquer departamento financeiro, havia nele qualquer coisa que, nitidamente, transmitia a sensação de que os nossos pais ficariam orgulhosos assim que o conhecessem, como se, em verdade, tal fosse levado em conta, contudo, afagava o sentir, de certa forma, parecia que cumpríamos um sonho plural, e fica sempre bem, além de que, pelas temáticas das conversas, aparentava ser bem mais velho que nós, bolsas, câmbios, divisas, inflacção, crédito mal-parado, nasdaq, deflacção, mercados internacionais, e sempre de gravata… Fascinava-me com as suas gravatas! Como se, de alguma forma, me anunciassem: Bem-vinda ao mundo dos adultos! Certa tarde, acho que os nossos amigos, propositadamente, deixaram-nos sozinhos no café, percebi, às primeiras confidências, e num flagrante contraste com a sua imagem exterior, calça de fazenda, a camisa imaculadamente engomada, e, pois, a gravata, sempre de gravata, quão interiormente estava desarrumado, nem vislumbrava como preencher o vazio que ela lhe deixara, ainda se tratasse de crédito mal-parado, nasdaq, deflacção, ou mercados internacionais, mas não, apenas o domínio do sentir humano, a certa altura, o seu olhar perdia-se com a entrada do café, como se numa súplica inarticulada por um regresso, porém, manteve a postura e procurou maquilhar súplicas inaudíveis, lentamente fomos mitigando solidões, acho que ele se enternecia com a minha espontaneidade, com a sonoridade do meu riso, tão distante do formalismo opaco da sua gravata, até que, certa tarde, talvez fosse Domingo, a gravata suscitou, lá por casa, os mais rasgados sorrisos no rosto dos meus pais, enquanto o cumprimentavam, olharam-me com um indisfarçável orgulho, só faltava oficializar a união, já que, pelos vistos, o Sim deles estava proclamado, ainda demorou algumas semanas até ao namoro, houve uma altura, confesso, em que a visão da omnipresente gravata me assustou um pouco, olhei, de repente, o futuro e só vislumbrei um contínuo cinzentismo, logo eu que sempre gostei de cor e risos, contudo, há sempre alguém, à nossa volta, incomodado com o som da alegria, no meu caso, uma conhecida, não, nunca a denominei de amiga, e não pensem que é despeito da minha parte, simplesmente nunca a considerei tal, por acaso, estava certa, Sabes que os vi a conversar? Ouvi dizer que ele ainda não a esqueceu… Atenção: não penses que te quero magoar! Apenas que estejas atenta… Mas, pelo que ouvi dizer, ela é que não quis voltar para ele. Há um determinado tipo de gente, não obstante a sua baixeza, que possui uma notória clarividência do mapa da dor, como se uma acuidade onde mais nos magoa, aquilo feriu-me tanto que permaneci impassível e anestesiada, acho que foi o melhor véu para as suas intenções, neste ponto, entreguei-me ao tempo, sem saber bem o porquê, muitas vezes é o mais sensato a fazer nesta coisa da vida, afinal, ninguém arruma melhor o que vive debaixo do céu, só quando aquela música na rádio, ele a assumir um ar circunspecto, como se não a ouvisse, ou lhe fosse indiferente, porém, era precisamente esse véu de gravidade a denunciar-lhe os passos do sentir, ou talvez tudo fosse fruto de um ciúme desordenado, todavia, uma questão sombreava-me os passos, apesar dos mais de dez anos de casamento, dos dois filhos, da omnipresente gravata, da seriedade do seu semblante e gestos, das conversas próprias do mundo dos adultos, onde, felizmente, eu quedava-me somente pela soleira da porta (bolsas, câmbios, divisas, inflacção, crédito mal-parado, nasdaq, deflacção, mercados internacionais…), e se ela não lhe tivesse virado costas? Nesses momentos, sentia-me um resto, uma segunda escolha, actriz secundária de um guião oculto, pois, olhava a minha vida de uma qualquer janela, como se de uma ilusão se tratasse, por vezes, na intimidade, a canção a ecoava em mim, abria os olhos para ver se, também nesses momentos, ele com um ar circunspecto, porém, mantinha-se de olhos fechados, talvez a canção só em mim, quem sabe se fruto de um sentir enciumado, houve vezes em que finquei os dedos nos lençóis, como se procurasse ancorar-me ao aqui, na esperança de silenciar uma canção que nunca me pertenceu.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Aparência e essência moram em ruas distintas


 

Olhavam-se, desde o primeiro momento, com um certo azedume, só a imperativa educação conseguia aligeirar, vizinhas no mesmo andar, a quase inevitabilidade diária de partilha do único elevador, andariam pela mesma idade, aquele momento na existência onde se percebe que o ocaso está próximo e o amanhecer uma realidade longínqua, uma arranjava-se de forma prática e descontraída, detestava formalidades, a sua profissão não exigia etiqueta, assim sendo, ela adoptou um estilo desportivo, confortável, nunca foi adepta de unhas-pintadas, hoje falar-se de unhas é uma questão virada para o pretérito, o que mais se vê, no quotidiano, são autênticas garras-afiladas saídas dos dedos femininos, que nem sabres prontos a degolar incautos, nunca soube o que é um salto-alto nos seus pés, ainda menos maquilhagem, defendia que a beleza está na espontaneidade e no carácter natural das coisas, o marido seguia-lhe os passos nesta forma de ser, convém para o equilíbrio do lar, pela precoce idade, o filho de ambos aquém de tais escolhas, a outra era, como se depreende pelo azedume aligeirado pela imperativa educação, o oposto, arranjava-se com uma formalidade irrepreensível, de fato ou casaco e saia-comprida, saltos-altos omnipresentes, maquilhagem reflectida pela luz baça do elevador, unhas num vermelho-vivo ou numa côr mais neutra, a condizer com a dos lábios, tudo orquestrado ao pormenor, o penteado indiciava horas e horas de cabeleireiro, o marido também saía diariamente de fato e gravata, embora tão mal lhe assentasse, os ombritos descarnados e estreitos deixavam cair a parte superior do casaco para meio dos bracitos, repetia uma ou duas vezes a saudação do momento (“Ora muito bom-dia… Bom-dia... Ora muito boa-tarde… Boa-tarde…”), a cabeça em ininterruptos movimentos verticais, um autêntico manguinhas-de-alpacas, daquelas figuras que, avistadas de uma certa distância, já antevemos que nos tentarão vender algo, um utilitário em terceira ou quarta mão ou uma cave, toda virada a Norte, quase sem janelas, com um quarto, “E não comente esta oportunidade com ninguém! Ainda sou despedido por lhe fazer este preço! Nem imagina a procura… O sonho de muita gente! Considere-se um privilegiado por ter esta possibilidade!”, a filha, teria a idade do miúdo da frente, talvez um ou dois anos mais velha, um espelho da mãe, desapossada de qualquer espontaneidade da meninice, vestidinhos pindéricos, colares, pulseiras e unhas-pintadas, muito direita, mala-escolar pela mão, jamais mochila, desdém no olhar quando via os da sua idade atrás de uma bola, suados e com um joelho magoado, ao final da tarde, no regresso, quando se reencontravam no elevador, a cena repetia-se, apenas o “Bom-dia…” trocado pelo “Boa-tarde”, em verdade, este azedume delas era bem mais profundo, cada uma espelhava à outra, sem se aperceber, a sua inaptidão, a que se arranjava de forma prática e descontraída gostaria, nem que fosse por uma vez, até num fim-de-semana, de sair vestida com tudo orquestrado ao pormenor, deu por si, em certa ocasião, a vasculhar a sua roupa para ver o que tinha de mais formal, apenas um vestido deveras anacrónico dos tempos de solteira, paciência para cabeleireiro nunca lhe abundou, só o barulho dos secadores e a frivolidade das conversas eram suficientes para a repulsa ao leme das suas emoções, sempre achou, de extrema elegância, uma mulher de saltos-altos, nunca o verbalizou, mas era-lhe uma ideia consolidada desde muito cedo, a da formalidade irrepreensível desejava, há tanto, libertar-se deste espartilho que já lhe asfixiava a alma, a imperativa escolha da indumentária na véspera, o tempo roubado ao sono para maquilhagem e demais adereços, os joelhos e coluna em gritos de socorro pelas demasiadas horas de saltos-altos, o ignorado conceito de espontaneidade, a secura da pele do rosto pelo excesso de maquilhagem, os cabelos quebradiços por tanto manuseio e produtos no cabeleireiro, a consciência de ser uma réplica num contexto, sem quaisquer vestígios da sua individualidade, ela, ao espelho, a questionar-se: “Em que momento me perdi de mim?” E aquela irritante vizinha, de costas voltadas para imperativos de véspera, que tanta inveja lhe suscitava, teria mais ou menos a sua idade, apesar de, perante o seu olhar, lhe parecer mais nova, despida do estatismo da formalidade, o marido também se lhe afigurava mais novo que o seu, limitavam-se a cumprir com os mínimos de educação, não debitavam cumprimentos sonoros e ensaiados (“Ora muito bom-dia… Bom-dia... Ora muito boa-tarde… Boa-tarde…”), como a irritava esse lado exageradamente polido, nunca lhe disse, começava a compreender o facto de certas questões deverem permanecer no verbo do pensar, e tinham um filho, como ela desejou um menino, quando lhe disseram “Espero que tenha um belo enxoval cor-de-rosa… Tem uma linda menina dentro de si!”, não foi a tempo de travar a sua expressão outonal, não perspectiva, neste momento, recomeçar os passos da maternidade, a cama apenas um espaço onde repousar as dores de uma existência indesejada, olha-o ali, a seu lado, nem resquícios de uma chama ida, projecta uma realidade distinta na casa em frente, ainda assomos da vertigem da paixão, daí o estilo descontraído, não havia tempo para etiquetas vespertinas, talvez não se enganasse, há muito a vizinha, do estilo descontraído, a falar da filha do casal da frente, como ela desejou uma menina, quando lhe disseram “Espero que tenha um belo enxoval azulinho… Tem um lindo rapagão dentro de si!”, não foi a tempo de travar a sua expressão outonal, ele renitente, nesta fase, em recomeçar os passos da paternidade, teriam inclusive de mudar de casa, ali nem espaço para um animal de estimação, no dia seguinte, se, por acaso, se encontrassem no único elevador, emergia a imperativa educação para maquilhar um azedume com os tons da madrugada.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Rio Pranto

 


Sempre ouviu dizer que Chorar faz bem! Não sabia se era verdade. Talvez fosse uma forma que arranjámos para nos levantarmos e retomar o caminho… Pois, é possível. Conheceu-a há uns anos, numa fase da vida complicada, como se alguma vez a sua vida tivesse outra coisa que não fases complicadas, tinha alugado um quarto numa pensãozita esconsa, metida numa travessa onde dia e noite se confundiam, tal o perpetuar de sombras por aquele lugar, por acaso, agora que se fala nisso, não se recorda de ver o candeeiro da recepção da pensãozita desligado, as ruas em volta eram povoadas por vultos espectrais em passeios, como árvores descarnadas de ténues raízes que sombreavam estradas, pelo chão havia corpos em adeus à vida, olhares vítreos que espelhavam o vazio por uma alma partida, garrotes e seringas vazias, de vez em quando, o amanhecer trazia-lhes um farejar como companhia, timidamente cumprimentava-os de um lado, passava para o outro, na preocupação essencial de os saber vivos, é curioso, nunca os viu deterem-se perto de garrotes e seringas vazias, sabiam há muito quais as entradas para a morte, na porta ao lado da pensãozita havia um barbeiro, só abria de tarde, segurava mais tempo o jornal que a tesoura, como tema recorrente a guerra colonial, a mágoa imensa por ter sido obrigado a entregar armas, quando afinal a guerra vencida, nunca se conformou com a fictícia derrota e o antecipado regresso à metrópole, não havia dia em que não se ouvisse, naqueles vinte e poucos metros quadrados, Um dia hei-de lá voltar! Assim que pisei aquela terra, sabia onde pertencia. Sabe, foi como um clique em mim! E a distância das coisas?! Ensina-nos como somos pequenos… Não é como aqui! Acredite, não tem nada a ver! Sabe, lá tudo é em grande! Para onde quer que se olhe, sempre a lonjura. Aqui nem horizonte temos! Vivemos numa estreita faixa entre o mar e os espanhóis! E as cores? O que dizer das cores de lá? Nunca tive alma de poeta, mas se me ajeitasse com palavras, teria feito uns versos àqueles entardeceres… Palavra de honra! E o cheiro daquela terra? Então quando o cacimbo pousa, parece um feitiço… Não adianta! Podia estar aqui o dia todo a falar-lhe de lá, você nunca iria entender. Sabe, só quem lá esteve é que percebe aquilo! É como uma febre que se nos colou à pele! Era comum, à medida que avançava na sua prelecção, elevar a voz, talvez pelo entusiasmo, pela saudade, pela dor de não ter regressado, talvez por tudo, o certo é que África, todas as tardes, ecoava por aqueles passeios. Umas portas mais acima, outro quadrado com vinte e poucos metros quadrados, mas ainda mais obscuro, lá dentro um velhote, que arrastava uma perna, debruçado sobre uma mesa, lia uma revista com as cores da meninice, se atentássemos bem, as prateleiras à volta, em estantes que iam praticamente até ao tecto, estavam pejadas de livros e revistas de heróis e suas aventuras, quase todos ali chegados de outros lares, sinal de que os adeuses à infância se sucediam, por vezes, chegavam-lhe com sacos, depositavam-nos no balcão com gestos nervosos de uma pressa impronunciada, ele retirava um a um, com parcimónia, parecia prestar tributo a cada obra, folheava, sopesava, analisava o estado geral, sempre que uma folha rasgada ou risco, mandava para trás, era um princípio, tinha ali livros da altura em que ainda não sabia ler, dizia que aquele espaço era mais um museu que um negócio, volta e meia, retirava determinada revista, nem precisava de a procurar muito naquele universo de papel, e orgulhosamente proclamava Não a vendo por dinheiro nenhum! Trata-se do número um de uma colecção… E lá esclarecia o porquê, na sua voz rouca e arrastada, de uma manuseada e amarelecida revista, quase decrépita aos nossos olhos, ter um valor tão substancial, havia dias em que não entrava ninguém, mas se atentássemos nos seus gestos e rosto, percebíamos, de imediato, que ele nem dava conta, tal a abnegação com que arrumava, limpava, catalogava, ou simplesmente relia, talvez a vista já o traísse, e pensasse ler o que apenas relembrava, às vezes acontece, olhamos para trás a fim de nos sabermos ainda, havia quem dissesse que tinha o maior espólio da nona arte da capital, talvez do país, mas havia sempre um tom indulgente quando se referiam àquele espaço, que tinha um peculiar cheiro a papel velho, tristemente iluminado, apenas uma lâmpada no tecto que ameaçava fundir-se com insistência, de vinte e poucos metros quadrados, forrado de histórias aos quadradinhos, ele nem respondia, histórias aos quadradinhos, mais que uma vez perguntaram-lhe Nunca leu um livro a sério? Nem respondia, limitava-se a relancear uma expressão de desprezo e nada mais, falava pouco, com os anos, ainda menos, olhava para o amanhã, os jovens do hoje, com uma apreensão constante, era seu costume afirmar que não só perderam a capacidade do sonho como também lhes roubaram a alma, vivem curvados para um rectângulo sem ao menos um porquê, muitas das histórias, que por ali tem, relatam os esforços hercúleos de heróis que jamais se curvaram perante os mais variados perigos, à sua volta só vê uma plural derrota assumida, sem sequer um gesto de resistência riscar os céus da cidade, ao chegar a casa, antes mesmo da chave, o miar da sua única companhia, pois, desde que… Entra e vai logo encher uma malga de leite, um dia, iremos regressar a este solitário, que vive entre histórias aos quadradinhos, malgas de leite, e aprendeu, com a vida, a falar cada vez menos, voltemos à pensãozita esconsa, metida numa travessa onde dia e noite se confundiam, tal o perpetuar de sombras por aquele lugar, estava naquele quarto há dois ou três dias quando se cruzou com ela na escada, não lhe passou despercebido o facto de coxear ligeiramente da perna direita, talvez cansaço pelo esforço da subida, percebeu-lhe um misto de uma genuína curiosidade, quase infantil, e um cansaço nocturno que lhe sombreava gestos e expressão, havia nela um desamparo tocante, como acontece com quase todos os habitantes nocturnos, compreendeu, quase por intuição, que ela ali pertencia, mas, ao mesmo tempo, pressentia-se-lhe uma desesperada ânsia de partir, ela olhou-o de relance, não disfarçou espanto por um recém-chegado, cruzar-se-iam mais vezes… Aquele desamparo tocante desequilibrou-lhe o sentir, mesmo nessa noite, antes de devolver transparência múltiplas vezes ao mesmo copo, aquela mulher, já devia avistar os quarenta, coxeava ligeiramente da perna direita, regressar-lhe-ia, por mais que uma vez, ao pensar, há muito que adormecia sem uma respiração a seu lado, sem uma inconsequente conversa de trivialidades, sem o calor de um gesto de afecto, no fundo, sem amor… Desaguou naquela pensãozita esconsa, metida numa travessa onde dia e noite se confundiam, tal o perpetuar de sombras por aquele lugar, apenas com uma mochila e um saquito de plástico, ele que já dobrara os quarenta e o passado cingia-se a uma mochila e um saquito de plástico, mas por dentro um peso bem maior, daqueles que retardam o sono e obscurecem sonhos, daí, quem sabe, aquela sua premente necessidade de devolver transparência múltiplas vezes ao mesmo copo… Não demorou muito até que, certa noite, ela sentada àquela mesma mesa, diante dele, a desviar-lhe o copo, porém, a sua mão sôfrega em perseguição, mas ela revelava experiência de ilusionista em ocultá-lo, falaram de trivialidades, e como lhe soube bem, por momentos, ouvir outra voz que não a sua, há tanto que se cansara daqueles ecos dentro de si, não se perguntaram o que faziam, não deixa de ser curioso, ela sempre com um xaile pelos ombros, nalguns pontos desbotado e em ameaça de ruína, percebeu-lhe campo nos gestos e fala, ela orgulhava-se disso, não escondia o desejo de, um dia, regressar à terra, como se lá os problemas não encontrassem uma porta de entrada, pois, havia nela um desamparo tocante, haveria outras noites assim, partilhavam uma cerveja e um prego no pão, soube que ela tinha um filho num internato, andaria pelos dez anos, ela apreciou a sua persistência com a temática do filho, mas nunca enveredou pela identidade paterna, de novo, a intuição a ditar-lhe a direcção do verbo, talvez nem ela soubesse tal resposta, em verdade, ele já ouvira uns rumores acerca do seu ganha-pão, era mais discreta que aqueles vultos espectrais em passeios, como árvores descarnadas de ténues raízes que sombreavam estradas, a idade também já era outra, e o fruto do ofício tinha um destino de dez anos, num colégio, que, assim que a via, lhe corria para os braços e lhe açucarava o sentir, até que partiu dela a sugestão, certa noite, após regressarem da cerveja e do prego no pão, a porta do quarto aberta, Não queres entrar? Ele ainda hesitou, talvez algum eco gritasse dentro de si, contudo, reequilibrou-se e respondeu Sabes, não ando boa companhia… É melhor ficar para outra altura. Até amanhã! Seguiu para o seu quarto, ficava no andar de cima, os degraus denunciavam o esforço da subida, ela ficou, por mais um pouco, à porta, hesitante entre a admiração pela decência do seu gesto e o despeito pela recusa, pois, o orgulho feminino, um dos primeiros inquilinos da terra, porém, a sua decisão brotou de uma outra fonte, que, no momento, ela não descortinou, os tais rumores acerca do seu ganha-pão, assim que fechou a porta do quarto, cuja única luz, nesse momento, provinha do anúncio néon exterior, PENSÃO, em letras verticais amarelas, com uma seta, em baixo, na direcção da entrada, sentou-se pesadamente na cama, olhou o chão, tacos de madeira cansados por inúmeras e apressadas visitas, o que restava de um tapete, nem a cor original se conseguia decifrar, por um lado, inclinou-se a aceitar o convite e entrar, afinal, havia nela um desamparo tocante, por outro, aqueles tortuosos rumores, se por ali houvesse alguma verdade, seria ele mais um número do velho e triste ofício? Por muitas voltas que desse, não conseguia aportar em nenhuma certeza…

 


 


 

terça-feira, 14 de julho de 2026

Alfazema

 


Não se recorda do momento exacto, não foi há tanto assim, um café, com as colegas, na pausa para o almoço, e a dolorosa certeza, de que a mentira está ao leme do acontecer, a crescer-lhe, com ela eram quatro, à mesa, falavam de planos para as férias, de início, até por uma curiosidade inconfessada, optou por ouvi-las, a primeira nota dissonante que observou foi o entusiasmo suscitado pela temática, as três não indiciavam existência para além do trabalho, talvez a primeira vez, tanto quanto se lembra, de um assunto, fora do contexto de papéis por preencher, carimbar, reuniões, mais reuniões, estatísticas, impressões de documentos, ser tema de conversa, até se admirou, falavam de destinos sonhados com a confiança de quem pede uma bica, até se inclinou para ouvir melhor, queria silenciar a incredulidade que a dominava, quem, de início, se mostrou mais efusiva, foi uma, de origens rurais, embora batalhe, no quotidiano, de forma incessante, para ocultar essa génese de hortas, sacholas, carros-de-bois e piedosos terços rezados com devoção, um casamento de montra, era a última, dia-após-dia, a abandonar o escritório, não se lhe denotava um resquício de saudades do lar, apesar de uma filha em tão precoce idade escolar, até lhe relataram que, antes do lar, dia-após-dia, parava pelo ginásio, a flacidez das carnes não o indiciava, um apeadeiro onde se demorar de um indesejado regresso, ouviu também relatos do ar psicótico do marido dela, não se pode dar crédito a tudo o que se ouve, não é verdade? Se houver algo de verdade nestas narrativas, a sua obsessão, diária, em ser a última a sair, fica esclarecida, mas uma imperativa questão emerge: E a filha? Quem lhe acompanha os passos? Ela continuou a debitar lugares-comuns, num português rasteirinho, condizente com a figura, do sofrível penteado, que imobilizava fios-capilares aparentemente queimados, à indumentária, o flagrante desarranjo de uma fuga à ruralidade, há muito a sua paciência findara para esta figura, bem como para as outras duas, a sua presença àquela mesa, após a hora de almoço, deveu-se apenas a um factor: educação, nada mais; a frustração chegou ao ponto de alguém entregar o seu ócio ao lugar onde é obrigada a estar? Para onde caminhamos? Em que momento se esqueceram simplesmente de ser? Quase não a reconheceu, ali sentada, àquela mesa, a debitar destinos sonhados, com uma irrepreensível segurança, qualquer incauto que a ouvisse teria muita dificuldade em acreditar no facto de, diariamente, consagrar o seu ócio ao lugar onde é obrigada a estar! Algo muito errado ali se passava, começou a sentir distância face às demais, quem, de seguida, tomou a palavra, em verdade, há muito virou costas a contextos laborais, de certa forma, foi-lhe imposto, por sua vontade seria outra a consagrar o seu ócio ao lugar onde foi obrigada a estar, sempre que as outras duas saem do lugar, que agora lhe foi vedado, ela corre ao seu encontro, desde que dela se lembra, uma memória com mais de duas décadas, sabe-a viúva, o pudor não lhe possibilitou entrar pelos porquês, coisa rara por estes dias, o pudor, vistas daqui as coisas, nunca lhe vislumbrou tristeza pelo rosto, daqueles casos em que o contacto mais estimula a repulsa, uma qualquer estranha força, nitidamente invisível para os demais, aproximava estas três figuras, ela nem a distância já sentia, era uma estrangeira àquela mesa, destino escolhido, seguiram-se os hotéis, datas, percebeu que as três iam juntas, uma, na aparência, casada e com uma filha menor, a outra viúva e reformada, por fim, claro, faltava a divorciada, uma sujeita baixa, anafada, com um semblante que transparecia a total amargura daquela alma, há divórcios que nem precisam de justificação, os complexos manifestam-se de plurais formas, no caso da anafada dava-lhe para uma oratória de pacotilha, nem todos possuem a necessária clarividência para desconstruir o vazio daquelas mal formuladas frases, a saloia, por exemplo, anuía a cada sílaba cuspida pela gorda, não é muito salutar a sensação de nos sentirmos estrangeiros, no entanto, face àquele contexto, ela considerou esse sentir como uma manifestação de salubridade mental, volvidos quarenta e três minutos, compreendeu que se manteve em silêncio, curioso o facto de nem uma hipotética frase lhe atravessar o espírito para intervir, de si para si prometeu escudar-se em todas as desculpas possíveis para jamais se sentar, de novo, a uma mesa com estas sujeitas, tanto falavam de destinos de férias, as tais que consagravam o seu ócio ao lugar onde eram obrigadas a estar, mas não lhe perguntaram pelo seu, talvez pela realidade do seu casamento, a rapidez diária da sua partida de um lugar onde era obrigada a estar, havia outro aspecto a diferenciá-la e muito daquele contexto: ela simplesmente recusava-se a cair no esquecimento de ser.

sábado, 11 de julho de 2026

O desencanto impronunciado de um Domingo à tarde

 


Foi assim, num repente, mas como tudo nesta vida, demorou o seu tempo, embora, para mim, reafirme que foi num repente, como dizia, após duas décadas, que, vistas daqui, parecem-me dois dias, ele Precisamos de conversar… Não sei se foi do Precisamos de conversar, de suster a respiração para articular as palavras, da sua expressão que denunciava uma irredutibilidade demasiado teatral, num esforço palpável e evidente, vínhamos do café, era um Domingo à tarde, após o almoço, religiosamente cumpríamos o café, e aos Sábados também, servia para sairmos de casa e ajudava na digestão, apesar de ficar somente a umas dezenas de metros da nossa porta, no regresso, sobretudo Domingo à tarde, havia um impronunciado sentir de derrota pelo ar, nunca o verbalizámos, não era necessário, sentíamo-lo, uso o plural propositadamente, porque tenho a certeza de que este sentir de derrota era partilhado por ambos, a nossa passada no regresso a casa, Domingo à tarde, era desesperançada, lenta, reticente, sabíamos que já nada esperávamos de novo nesta coisa chamada viver, a mim, esperava-me a tábua de engomar, ao menos voltada para a televisão, a ele, o sofá com o jornal dobrado, nunca o conseguia finalizar numa manhã, até à janta, por ali ficávamos, a certa altura, sei que a cabeça dele começaria a pender, a pender, cada vez mais, até que a respiração se adensava, nessa altura, eu logo a baixar o volume da televisão, não o queria incomodar, coitado, pelo menos, assim o esperava, em algum momento estaria longe das agruras do trabalho, das contas que sempre aportam mensalmente na caixa-do-correio, das hesitações do miúdo com o curso que escolheu, deste sentir de derrota partilhado por ambos em Domingos à tarde, pois, isto prolongou-se até que, no meu reflexo ao espelho, o cabelo com sinais invernosos, o dele não tanto, talvez por escassear, pois, como dizia, vínhamos do café, era um Domingo à tarde, após o almoço, ele Precisamos de conversar, percebi, de imediato, numa qualquer parte de mim, que tudo iria mudar, à medida que ele falava, falava, eu partira para longe, já não o ouvia, talvez por lhe saber a mensagem, Sabes, é muito difícil o que te tenho para dizer. Acredita-me que o é! Nem sei bem por onde começar… (Neste ponto, só queria saber se ele demoraria a despejar o que eu há muito sabia). Dizemos o que queremos ser, mas só somos o que fazemos. O meu pai muito repetia: “Tanto homem e foste logo arranjar um sem coluna vertebral!” E acrescentava de imediato: “Homem?! É lá isso um homem??? É mais um rato!!!” Creio, sinceramente, que me fui desapaixonando dele, assim que a porta de casa se fechou e iniciámos aquele estar a dois dentro de paredes, pareceu-me que, afinal, ali estava um estranho a quem nada tinha para comunicar, como se as palavras tivessem partido de mim para um local inatingível, não, em verdade, acho que foi antes, após o Sim diante do altar, algo em mim se desvaneceu, como se me questionasse Afinal, é só isto? Seguiu-se aquela semana nas termas, os meus sogros sempre com a conversa das termas, Faz bem à saúde! Vocês vão ver! Vêm de lá fresquinhos, ainda mais novos, e, Deus permita, já com um herdeiro providenciado, eu, abismada, ouvia-os sem sequer esboçar uma resposta, limitava-me a esconder atrás de um polido sorriso, mas a gargalhada escancarada e indecorosa dele não me escapou, assim secundava cada frase paterna, como se em busca da sua providencial e salvífica bênção… Acho, em verdade, que contribuí sobremaneira para o Precisamos de conversar, o naufrágio de um lar nunca é singular, desde o Sim diante do altar, algo em mim se desvaneceu, e deixei-me ir, apenas, ele O que achas? Eu Como quiseres. Escolhe tu. Ele O que te parece? Eu O que decidires, para mim, está bem. Assim foi, do candeeiro de sala ao local de férias, até o nome do miúdo, deixei que ele escolhesse, sempre me pareceu, não sei porquê, que vivia a existência de uma outra pessoa, como se tivesse existido um engano, na ordem natural das coisas, e eu viesse ocupar o papel errado, os dias tornaram-se semanas, as semanas em meses, estes em semestres, vieram os anos, uma década, desde o início, aquela semana nas termas, após o Sim diante do altar, ele procurava-me polidamente, neste particular, sempre muito respeitoso, correspondia pela curiosidade de saber como é, contudo, no fim, aquela sensação nunca de mim partia Afinal, é só isto? Ele cumpria, quase mecanicamente, pois, o naufrágio de um lar nunca é singular, eu em apatia, depois, água a escorrer no bidé, sabão, regresso aos lençóis para o repouso pelo dia que virá, ainda me passava a mão pelos cabelos, nesse ponto, já me fingia adormecida, sempre me pareceu, não sei porquê, que vivia a existência de uma outra pessoa, as procuras nocturnas dele tornaram-se esparsas, de certa forma, agradecia, por volta dos nossos dois anos daquele estar a dois dentro de paredes, o nome de uma colega de trabalho surgiu lá por casa, não me escapou a alteração com que foi entoado, mas não me importou, em verdade, senti-me reconciliada, por fim, talvez alguém viesse ocupar o lugar que lhe estava destinado, e assim retomar a harmonia das coisas, porém, foi mais ou menos por estes dias, o nome da colega ainda pairava lá por casa, entoado musicalmente, a minha natureza mensal por se cumprir, no mês seguinte sucedeu o mesmo, farmácia, teste, consulta, médico, reconfirmado, minha mãe numa felicidade transparecida até aos olhos, meu pai emocionado, continha a alegria numa divisão de si muito bem fechada (como o percebia!), é-nos mais fácil compreender espelhos, após uma exaustiva insistência de meus pais, contei-lhe, por fim, nessa noite, ocultei o facto de estar já no segundo mês, bem como, para não lhe ferir a susceptibilidade, o conhecimento prévio dos meus progenitores, ele sentou-se, mais concretamente, deixou-se cair, respirou fundo, não sem antes esticar as pernas, olhou a televisão sem olhar o que por ali se passava, pôs-se a beliscar a bochecha direita, tinha este hábito sempre que a vida o obrigava a pensá-la, murmurava qualquer coisa que, para mim, era indecifrável, mas havia um traço na sua expressão de uma felicidade irreprimível, fui até à cozinha terminar algo, há sempre qualquer coisa fora do lugar dentro de uma casa, percebi-lhe os passos atrás de mim, os braços a envolverem-me, e segredou-me, repetidamente, na linguagem do sentir, Estou tão feliz… Estou tão feliz… Estou tão feliz… Senti-me reconfortada, confesso, mas aquela sensação, de que vivia a existência de uma outra pessoa, como se tivesse existido um engano, na ordem natural das coisas, e eu viesse ocupar o papel errado, há muito se alojara numa qualquer divisão de mim, pelo menos, durante uns tempos, não houve nomes de colegas entoados musicalmente lá por casa, a gravidez prosseguia em paralelo com a minha indiferença face a tudo, cumpria cada tarefa numa frieza autómata, houve momentos (e como foram plurais, meu Deus!) em que ele tentou desfazer equívocos de papéis errados, por outras palavras, ele foi até onde a paciência lhe permitiu para diluir esta minha apatia, contudo, foi lesto a compreender o malogro dos seus esforços. O parto, ao menos a anestesia, devia haver outra que calasse as dores do depois, a criança (como gritava!), a enfermeira, insuportável, Pegue-lhe, mulher! É seu filho! Os pais dele em histeria, à minha volta e do miúdo, a gargalhada escancarada e indecorosa dele não me escapou, assim secundava cada frase paterna, como se em busca da sua providencial e salvífica bênção, eu em apatia, a uma distância das coisas que me equilibrava, neste ponto, face à insistência da enfermeira (Pegue-lhe, mulher! É seu filho!) que, pareceu-me, assumia laivos coléricos, deixei-me ir, iniciei-me na arte de representar, peguei na criança, deformei o rosto com um sorriso plástico, respondia por monossílabos ou em anuências, e, de repente, tudo à minha volta mudou, já não era uma estranha, passei a ser aceite pelos demais, até ele passou a direccionar-me frases despojadas de quaisquer cifras ou barreiras, por uns tempos, não destoávamos de qualquer outro lar, cada um cumpria o papel que lhe estava reservado antes de sequer ser, pois, a harmonia das coisas, porém, fui eu que acusei o esforço exigido pela representação, comecei a caminhar na minha direcção, a distância, a apatia, por fim, regressei-me, os dias tornaram-se semanas, as semanas em meses, estes em semestres, vieram os anos, uma década, duas décadas, houve quatro ou cinco nomes de colegas entoados, com alguma insistência, melodiosamente, até que, nesse Domingo de tarde, ele Precisamos de conversar… No fundo, já o esperava, não compreendo como foi possível ele ter esperado tanto? Duas décadas de um tremendo equívoco! Confesso a minha admiração por alguns traços do seu carácter, era asseado e polido naqueles momentos, a esmerada dedicação ao filho, jamais nos levantou a voz, acho que, em certa medida, lhe foi conveniente a minha apatia, no fundo, talvez nunca tenha verdadeiramente deixado o lar paterno, sempre aquela gargalhada escancarada e indecorosa, assim secundava cada frase do pai, como se em busca da sua providencial e salvífica bênção, algo que revoltava o meu, aquela notória subserviência dele, “Tanto homem e foste logo arranjar um sem coluna vertebral!” E agora, neste Domingo à tarde, após o almoço, regressamos do café, um impronunciado sentir de derrota pelo ar, nunca o verbalizámos, não era necessário, sentíamo-lo, ele Precisamos de conversar… Eu pensei, espera, espera só mais um pouco, talvez se ele olhasse lá para fora, visse que a noite já pousava a mala.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Vamos à vida, porque a morte é certa


 

Nunca gostei de frases-feitas, daquelas máximas com o seu carácter irredutível, a pairar como uma sentença, uma inevitabilidade, daí a minha resistência, na manhã da vida era recorrente ouvir a frase em epígrafe, sobretudo após o términus do almoço, era dita com entusiasmo e simultaneamente resignação (“Vamos à vida, porque a morte é certa”), talvez por, na altura, a sola dos meus sapatos estar quase incólume – apesar disso, em certos pontos denotava-se a rugosidade de alguns solos percorridos, a manhã da existência não é assim tão luminosa, tudo depende da capacidade de reconhecer sombras –, não encontrava argumentos para rebater tão lacónica máxima (“Vamos à vida, porque a morte é certa”), hoje prontamente questionaria: O que é isso da vida? Das múltiplas respostas lidas e estudadas, confesso que nenhuma me satisfez, de facto, ninguém, até hoje, respondeu ao que é a vida, mas sim à sua perspectiva de a viver, realidades bem distintas, pouco me importa como os outros a vivem, eu continuo em busca da minha perspectiva, que tanto se foi alterando com o tempo, em verdade, ainda não a encontrei, se invejo os que têm uma pronta resposta para oferecer? Nada, têm a sola dos sapatos tão gasta quanto eu na manhã da vida, o caminho, de forma subtil, muda-nos as paisagens interiores, há uns dias encontrei, num contexto distinto, uns vizinhos velhotes, têm um carro quase tão velho quanto eles, no entanto, brilha como poucos na garagem, a inépcia dele para a condução é gritante, para estacionar vai à frente, vem atrás, mais uma vez, vai à frente, vem atrás, outra ainda, vai à frente, vem atrás, ela já de fora, a supervisionar tão delicada manobra, quando o meu sistema-nervoso tem o infortúnio de com eles se cruzar, sobretudo na garagem, em convulsão, não por antipatizar, mas por lhes reconhecer uma resignação face à existência que me é uma flagrante antítese, a lentidão estende-se-lhes dos gestos às palavras, um semi-sorriso omnipresente no rosto, tudo grita, tudo cala, dali não virá qualquer gesto de irreverência ou profecia face ao acontecer, somente lugares-comuns, o comezinho do quotidiano, os inevitáveis envelopes que, mês após mês, aportam na caixa-do-correio, o minguar dos sacos em contraste com o engordar da conta no super-mercado, a singularidade destas figuras reside precisamente no automóvel, quase tão velho quanto eles, contudo, repito, brilha como poucos na garagem, até os interiores se mantêm quase imaculados, e saem, todos os dias, pelo menos, duas vezes, sempre juntos, com o tempo, os casais vão-se assemelhando, dos gestos estende-se até à aparência, um estranho fenómeno pouco discutido, há na sua aparência, sem dúvida, uma quase irmandade, paixão não lhes consigo descortinar, nem sequer cinzas, percebo nela um certo ascendente, apesar de só ele assumir o volante, não obstante a total ausência de vocação, só o roda mediante as coordenadas ditadas por ela, sublinho não ser pelo facto da idade que não lhes encontro resquícios paixão, há casais onde essa centelha tremeluz até à despedida final, denominam-se “histórias de amor,” e não há nada mais belo e fascinante que uma “história de amor”, aqui chegado, regressa-me a questão: O que é isso da vida? Por muito que me custe, só posso responder invertendo a questão: “O que não é viver?” Tem sido este o caminho até aqui percorrido, no hoje, pela maioria, sob a vertigem da ilusão, na efemeridade de um artificial palco, todos procuram expor dias solarengos, luminosas risadas, paisagens oníricas, até o que está no prato (em termos de estupidez, atingimos os subterrâneos), com longos planos de filmagem, ângulos próximos, para granjear admiração e a ideia de bolsos fartos, bilhetes com destinos longínquos, poses artificiais que, a qualquer inteligência, com o mínimo de fulgor, apenas suscitam compaixão ou risadas, tudo, que nem ovelhas, a caminho do espectáculo mais propalado, fotos e mais fotos à porta, ninguém concebe ficar de fora, o sentir de pertença, tristes ovelhas a exibir o ferrete do dono sob a forma de uma pulseirita que lhes abre as portas do redil, tudo num delírio quotidiano que, no fundo, responde não a uma questão, mas a um desejo: “Como desejavam que a vida fosse,,,?” Por ali a Dor não encontra porta-de-entrada, se a pressentem, logo excluem, atiram para bem longe, a Dor jamais entra nesta equação: “Como desejavam que a vida fosse,,,?” Só que caminhar é sofrer, nada é mais doloroso que despertar, como invejo os tolinhos, são bem mais felizes, ainda não concluí se os meus vizinhos velhotes, têm um carro quase tão velho quanto eles, representam, pois, a máscara, sempre a máscara, para calar suspeitas de se aperceberem dos perigosos redis do hoje, ou se, por outro lado, não tiveram a audácia de questionar algo essencial: O que é isso da vida? Não posso apresentar uma conclusão, seria falacioso, por conseguinte, nada ético, não os concebo num redil, basta atentar nas quase três décadas de idade da sua viatura, não correram, em histeria, por um último modelo acabado de ser publicitado de todas as formas possíveis, pelo contrário, permanecem impassíveis, na sua bonomia, às influências exteriores, porém, eu não o imagino a tomá-la nos braços, inclinar-lhe o corpo ligeiramente para trás, aproximar os seus lábios dos dela, murmurar-lhe palavras de amor, e, por fim, beijá-la sem amanhãs – não há nada mais belo e fascinante que uma “história de amor” – pois, não consigo, a sua apatia liquida o germinar de qualquer ideário desta índole, na minha memória perduram dois ou três momentos que, com a maior das facilidades, respondem a essa perturbadora questão (O que é isso da vida?), quantos se podem gabar de, na memória, guardar tais respostas ? Confesso desconhecer, talvez por isso não ceda a delírios quotidianos e cultive um desprezo visceral para com os múltiplos redis do hoje.

sábado, 4 de julho de 2026


A haver um céu, não estará longe de um sonho de criança...

in Saudades do futuro

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Saudades do futuro

 


Há gente que, não sei porquê, parece que passa pela vida sem que nada de especial aconteça, como se fossem imunes à mudança, creio que, se hoje os reencontrasse, estariam nos mesmos lugares a desempenhar exactamente as mesmíssimas tarefas doutrora, talvez o tempo tenha virado costas àquelas paragens, e há outros, enfim, que são engolidos nas mais tumultuosas correntes… Se analisar devidamente ambos os percursos, confesso que não invejo nenhum, do fastio de conhecer há muito os amanhãs, à incerteza da próxima esquina. Talvez haja quem tenha trilhado os dois, e possa avaliar as paisagens decorrentes… Vinda sei eu lá de onde, a imagem dela, segue-se a da mãe, magra, muito compenetrada, falava sempre baixinho, ligeiramente acima do sussurro, o que conferia às suas palavras um relevo substancial, ela, de laçarotes, uns palmos abaixo, aquém das verdades inolvidáveis sussurradas pela mãe, que iam de um lamento pelo preço do pão ao exausto reiterar das vantagens da vida na província, tudo isto, repito, entoado sempre baixinho, eu ouvia-a fascinado, bebia as suas palavras como se de seculares revelações se tratassem, Foi pena, sabe, muito direita, compenetrada, assim iniciava cada prelecção, minha mãe, talvez agrilhoada pelo seu politicamente correcto, ouvi-a com uma expressão de espanto, como se de uma primeira vez se tratasse, … Nem imagina! Lá tínhamos uma vida tão boa! Do que sinto mais falta é da minha hortinha! Não havia dia em que não pegasse na sachola para a tratar! E o espaço? Sabe, quantas vezes me perdia com as lonjuras? No frio, a brancura nos montes, com o calor, chegavam as andorinhas… Vivíamos ritmados pelo tempo. Aqui, às vezes, até me esqueço em que estação estamos! Para ver o céu, tenho de sair de casa! Onde já se viu uma coisa assim? Não percebo, de todo, esta gente que troca a província por isto! Uma coisa lhe garanto: isto não é viver! Se não fosse pelo meu marido, aceitava lá viver encaixotada… Sinceramente, até sabemos a que horas cada vizinho vai à casa-de-banho! É lá isto viver? E na rua? Ninguém se cumprimenta! Pelo contrário, há quem se finja de distraído para o evitar fazer… Creio que, a certa altura, minha mãe anuía por convicção, afinal, quem pode resistir a seculares revelações? O marido era carteiro, um daqueles sujeitos que, para mim, já nasceram idosos, afinal, os adultos sempre me pareceram velhos, aborrecidos, com umas conversas sonolentas, balizadas entre dinheiro e crises, a única ponte para o meu mundo chamava-se futebol, de facto, por aqui transitavam algumas conversas, mas, como dizia, o marido dela só o concebia sentado num sofá, de jornal na mão ou a sorver atentamente as notícias, neste particular, a minha imaginação padecia de uma total esterilidade, tal a bonomia da figura em apreço, também não era muito audível, quando nos cruzávamos nas escadas, ficava-se por um educado cumprimento, mas entoado baixinho, ligeiramente acima do sussurro, tal como sua mulher, aquele era, de facto, um lar de silêncios e de amanhãs há muito conhecidos. A filha, de laçarotes, uns palmos abaixo, acompanhava-os naquela discrição, limitava-se a sorrir à sua volta, pouco mais, não vinha para a rua brincar, talvez a mãe nos achasse barulhentos, de facto, íamos muito para além do sussurro, era uns três anos mais nova que eu, na meninice, dois anos equivalem a uma geração, na velhice, é curioso, uma década é apenas mais um ontem, o tempo altera-nos sem se alterar, sempre aquele caudal inexorável que, imperceptivelmente, nos leva, leva, leva para o fim, e nós agarramo-nos a tudo para ocultar esta sempre calada evidência. Há uns dias via-a na rua, volta e meia, tenho este hábito, está em mim, já percebi que não há como lhe fugir, e também não o quero, regresso aos lugares do ontem, sempre desconfiei que talvez eu ainda por lá esteja, queria rever-me, cumprimentar-me, no fundo, é tão simples, dizer-me para não ter pressa. A haver um céu, não estará longe de um sonho de criança, bom, como dizia, este hábito de regressar aos lugares do ontem, ela descia a rua, nem sei como a reconheci, sem laçarotes, nem palmos abaixo, longe, muito longe, daquele discreto silêncio, porém, foi qualquer coisa na sua expressão, talvez o mesmo sorriso apesar da face mais redonda, sei que não me viu, acho que não me reconheceria, pois, na meninice, dois anos equivalem a uma geração, e ela não descia para brincar connosco, talvez a mãe nos achasse barulhentos, como dizia, ela ia rua abaixo, na considerável distância de um ar compenetrado, nem vestígios, por ali, de sussurrar palavras, continuei a olhá-la, pelo retrovisor, na esperança de que sua mãe, num repente, surgisse, rua abaixo, atrás dela, pronta a levá-la para casa, afinal, esquecera-se dos laçarotes e, por aqueles lados, há tanto barulho… Contudo, não sei de onde me chegou esta ideia, pareceu-me que os seus pais cumpriram o regresso final, possivelmente repousam, para sempre, voltados para as lonjuras, no frio, a brancura nos montes, com o calor, chegam as andorinhas.

terça-feira, 30 de junho de 2026

Opúsculo

 


“Porquê essa coisa de estar permanentemente a juntar palavras? Há quanto fazes isso? E, já agora, para quê?!”, não me recordo do instante em que a deixei de ouvir, a questão deve ser sempre singular, impõe-se-lhe uma dignidade contemplativa, havia, da sua parte, uma nítida acrimónia com este meu lado de correr atrás de palavras, “Receias algo? Que possa contar alguma história nossa?”, foi a sua vez de concluir que a questão deve ser sempre singular, impõe-se-lhe uma dignidade contemplativa, “Tenho lá tempo para receios! E a quem interessaria alguma história nossa? Só não compreendo a razão de perderes tanto tempo a juntar palavras, palavras e palavras… Ainda por cima, não te conheci assim…,” como lhe conseguia explicar algo que, em verdade, me ultrapassava por inteiro, não se exprime um desígnio, concretiza-se, “Tens olhado à tua volta? Em que mundo andas? Lamento informar-te, mas já ninguém lê! O mundo está inclinado para um rectângulo!!! Quer paliativos, pensos-rápidos, distracções para as dores da alma, jamais parar, olhar-se a um espelho e, por fim, pensar-se…”, “Eu não escrevo para os outros, escrevo para mim… É o respirar da minha alma! Por acaso, inspiras e expiras pelos outros?,” “Quando se ama, pode dizer-se que sim…,” “Acabaste de correr atrás de palavras para me responder…,” “É possível, mas não me sentei, horas e horas, diante de uma folha em branco, tolhida, à espera de uma invisibilidade que me faça pegar numa caneta, para calar aquela obscena brancura que me ameaça tragar…,” “Não compreendo esse desvario com o facto de eu escrever! Seria melhor outro vício? Bebida? Droga?”, “Argumentação infantil, esperava mais, confesso, estamos, desde o início, creio teres compreendido, a falar de tempo… Só devemos dedicar, esse tão precioso bem, subtraído a cada instante, ao que amamos,” “Quem te diz que não amo a escrita?”, “Não se ama uma obrigação…”, “Aí te enganas ou talvez não… É um imperativo de uma outra ordem…”, “Há quem já coloque o seu nome como autor de um texto elaborado por aquela estupidez que será o nosso fim… Tens consciência disso? Vivemos a era do Faz de conta…,” “Calma, tenho isso bem presente no meu horizonte! Os medíocres, hoje, mais do que nunca, fazem de conta que são uns excelsos profissionais, os compinchas fingem acreditar e retribuem de igual forma, velando a sua mediocridade com o faz de conta… Assim se somam os dias, em todos os sectores, desta apatetada sociedade: faz de conta de que está tudo bem, faz de conta de que não és desgovernada por marginais, faz de conta de que não te mobilizas a comprimidos, faz de conta de que és muito feliz, faz de conta de que és muito ocupada, faz de conta de que tens muitas posses, faz de conta de que és muito solicitada, faz de conta de que és segura de ti, faz de conta de que gostas de todos à tua volta, faz de conta de que és muito bem-sucedida, faz de conta de que só sabes sorrir… Por aqui o perigo maior e a ameaça de, a qualquer instante, a máscara cair…”, “Está tudo muito certo, mas que tem tudo isso a ver com a quase total escassez de leitura?! Reflecte na quantidade de autores obnubilados ou a caminho da sombra… Quem hoje, de facto, lê os clássicos?! Pensa, por exemplo, a esta hora, pelo mundo, quem estará a ler um contemporâneo que valha a pena? Esquece os escrevinhadores de pacotilha, qualquer jumento vai, rua abaixo, com o tijolo debaixo do bracito, julgando fazer uma bela figura, embora, como bem sabes, desde tempos imemoriais, seja um número demasiado plural… Tudo se concertou, à nossa volta, para a preguiça de corpo e mente, por conseguinte, quem ousa desconstruir, peça por peça, um monumento literário?! Até faço um cartaz: PROCURA-SE”, “Denoto que perdeste a fé. Há uns dias, não por acaso, num contexto que apelava à diversão, olho para o lado e vejo um tipo a ler um dos gigantes russos…”, “Era novo?”, “Não.”, “Pois, lá está, ainda respira nele o vislumbre de um mundo ido. É esse respirar que o faz pegar num monumento literário e procurar, com uma minúcia de relojoeiro, desconstruí-lo peça por peça… Quem é o jovem, do hoje, com arrojo para tal??? Tanta imagem matou-lhes a imaginação!!! E talvez não seja um acaso… Podes escrever para ti, não discuto isso, contudo, nunca te esqueças: escreves para o ontem, jamais para o amanhã! O amanhã, tal como o hoje, pertence à imagem e aos escrevinhadores de pacotilha…”, “És profeta?”, “Não, sou mulher.”, “Não obstante o teu argumentário, sou habitado por um outro respirar, que me impele a juntar palavras, e palavras, ainda mais palavras… Se serão lidas? Não me interessa, pelo menos, consigo olhar-me a um espelho. Achas pouco? Para mim, é o tudo.”, “Claro que não acho pouco, considero até bastante, agora lembra-te: só no ontem encontrarás eco! O hoje traduz-se na fragilidade de um desses rectângulos que é incapaz de cair na dureza da realidade, precisa de uma salvífica película, assim perspectivam o mundo em redor, através de um filtro, que lhes esbate a dor e entorpece o pensar…”, “Há pouco esqueci-me desta: faz de conta de que somos muito inteligentes… Não sei onde isto desaguará, espero, com sinceridade, não estar aqui por muito tempo…”

Pedro de Sá

(29/06/26)

 

segunda-feira, 29 de junho de 2026


A verdade é que a compreensão da vida é também a compreensão da ironia…

in Nuvens passeantes pelas águas

sexta-feira, 26 de junho de 2026


 ... não julgues que gosto de livros, desde já te afirmo que os considero aborrecidíssimos, nada pode substituir a vida, todas as descrições de beijos escritas estão sempre aquém de lábios sedentos que se tocam...

in Nuvens passeantes pelas águas

terça-feira, 23 de junho de 2026

Cão velho tem olhar de sábio


 

Desde há umas semanas, que denoto um crescente distanciar pelos passeios, quando o procuro, atrás de mim, lá vem, na sua trémula passada, com o olhar verbaliza “Sempre andei à tua frente, agora é a tua vez de esperar… Não, não consigo andar mais rápido… O tempo é uma coisa tramada, e o nosso corre bem mais depressa…,” quando se punha com esta temática, eu atrás de palavras, não para lhe responder, mas para dar sentido a uma dor que me ameaçava lançar por terra, os olhos esbranquiçados de idoso, quando há tão pouco cintilavam uma desmedida alegria, correrias, sem amanhã, passeio fora, em certa ocasião, a estrada, um carro, a brancura do pêlo manchada de vermelho, o acontecer ultrapassa-nos sempre, embora persistamos em teimosias de tédio e fastio, as duas patas dianteiras com ligaduras, o olhar cabisbaixo, embora, quando me viu, ainda deitado na marquesa, em esforços para se levantar e vir ao meu encontro, o leque-traseiro traduzia, na perfeição, a sua desmedida alegria, ainda não somava um ano de vida, já as arestas do aqui o atingiam em algo essencial: a melhor expressão da sua alegria: o correr; foi, um pouco à frente, sob um candeeiro, que encontrei a idosa do prédio em frente, mais abaixo outro idoso, desdentado, contaram-me, há uns meses, que ela prepara as suas refeições como se a um bebé de meses, tudo à base de papas, questões assim reforçam a crescente convicção do meu anacronismo, sei que nunca se deram muito bem, limitavam-se aos imperativos da educação, cheiravam-se, os leques-traseiros imóveis, pouco mais, cumprimentos, frases de circunstância, tarde ou cedo a questão essencial, destes contextos, emergiria, nem precisei de relógio, bem antes dos dois minutos, de nos cruzarmos, sob aquele candeeiro, logo desfiava as últimas do seu Petzi, apesar da ausência de dentadura, ladrava para tudo que se mobilizasse, até uma folha arrastada pela brisa anoitecida, era uma senhora respeitosa, mesmo o seu Petzi era tratado na terceira pessoa, “Lá está o menino! Não seja assim… Já viu as horas?! Ainda acorda a rua toda… Veja se tem mais calminha… Que modos são esses?! Sinceramente…,” questões assim reforçam a crescente convicção do meu anacronismo, limitava-me a olhar um qualquer indefinível ponto do meu horizonte, mais abaixo sei que também ele me seguia, nessas ocasiões, os passos do olhar, juntava as primeiras sílabas para um adeus, levantou a sua indignação com as desmesuradas contas de saúde dos amigos dos leques-esvoaçantes, “Olhe, já perdi as palavras!!! Só me ocorrer dizer uma coisa: ROUBALHEIRA!!! Imagine quanto ali já despendi com o meu Petzi! Sinceramente, nem quero pensar… Mas, pelo menos, sinto-me gratificada: cada cêntimo vale a pena: é a minha única companhia… E sei que me compreende, sabe, às vezes sem nada lhe dizer, basta o olhar…”, neste ponto, não podia estar mais de acordo, dei comigo em repetidos gestos de anuência com o rosto, o mesmo se passava entre mim e o amigo mais abaixo, por instantes, o meu anacronismo esbateu-se um pouco, tanto se fala da relevância da companhia, destes nossos amigos quadrúpedes, para os idosos, e nem uma benesse, de quem desgoverna, quando chega a hora de zelar pela sua saúde, “O curioso é que nunca esteve, nos meus horizontes, ter um cão… Há uns bons anos, quando o médico apreensivo com o meu coração, em imperativos de que teria de caminhar, eu em prontas afirmações, o meu querido marido, astuto como sempre, percebeu a minha representação, conhecíamo-nos tão bem, o verbo, entre nós, tornava-se supérfluo, menos de uma semana após a consulta, aparece com o meu Petzi, cabia na palma da sua mão, veja bem quão pequenino era… Assim que o vi, derreteu-se-me o coração, foi a forma engenhosa que o meu querido marido encontrou para me obrigar a sair de casa e caminhar… Nestes últimos tempos, com o avançar da idade do Petzi, são, pelo menos, cinco vezes por dia, a verdade é que, desde então, nunca mais senti pressões no peito…,” sempre que ouvia o seu nome, o bicho olhava para cima, percebi-lhe um discurso ansioso, queria transmitir o máximo de informação, como se em receios de perder o interesse do receptor, a solidão agudiza o pensar, mas enferruja a oralidade, os puxões, na trela, do seu Petzi, multiplicavam-se, não conheço quem simpatize com aquele cão, de facto, só a dona lhe tem uma consagração ímpar, percebo, agora, o olhar do meu amigo mais abaixo, “Já chega, não te parece? Sabes bem que nunca suportei este cão histérico! Ainda nem a metade da rua chegámos…,” sim, tinha razão, estava na de retomar a caminhada, nunca houve, entre nós, trelas, sempre bastou o olhar e a voz, se antes à minha frente, agora, um pouco atrás, um dia, talvez só na memória, mas aí, de certeza, estaremos lado-a-lado.


- Fica algum ressentimento?

- Ainda vais a tempo de aprender que um bom coração demora a eternidade para se cicatrizar… Evita magoá-los, cedo aprendi que os ventos sabem o caminho de volta… Adeus, se passares por uma certa praia, usa uns brincos de prata que alguém te ofereceu depois de soletrar palavras de amor…

in Nuvens passeantes pelas águas

segunda-feira, 22 de junho de 2026

 



Também resolveste aparecer nesta minha nocturna caminhada?

- Pelos vistos… Já te apareceu muita gente?

- Apenas os necessários. Há quem defenda que o mesmo sucede nos nossos dias sob o céu: cada um que nos surge ao caminho traz uma aprendizagem. Duvido muito sinceramente da validade deste raciocínio, cruzei-me com tanta porcaria que só serviu para desaprender ou perder a fé no bicho-homem (...)

in Nuvens passeantes pelas águas



sexta-feira, 19 de junho de 2026


... um café é o centro do mundo, não havia melhor sala de aula, não compreendo como deixámos de olhar os outros, não há melhor leitura, olhando para trás, foi ali que verdadeiramente tirei o meu curso...

in Nuvens passeantes pelas águas

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Eu mais eu igual a qualquer coisa de indefinível

 


Sempre que sexta-feira, fim de tarde, Despacha-te começa a repetir-se lá por casa, a voz de minha mãe num volume crescente, os meus nervos em parelha com a sua volumetria, eu perdida atrás de objectos que insistem, não sei porquê, em esconder-se de mim quando estou refém da pressa, percorro as escassas divisões da casa que, em momentos assim, se me afiguram planícies de horizontes inalcançáveis, uma vez mais Despacha-te, outra ainda, Despacha-te, nisto a campainha, apresso-me a atender, já sei que voz me aguardava, Sim, despacha-te, tenho o carro mal estacionado, meu pai também com o recorrente despacha-te, peguei na mochila que, entretanto, pousara no sofá, dirigi-me para a porta, antes de a alcançar, a voz de minha mãe antecipa-se, Olha lá, nem te despedes? Não desacelero o passo, secamente respondo-lhe, Afinal, não tenho de me despachar? Percebo que fica, nas minhas costas, a ruminar qualquer coisa, já não me interessa, a porta, o elevador, a rua, o carro do meu pai em segunda fila, apesar dos inúmeros lugares por ocupar àquela hora, percebo-lhe impaciência nos dedos, assim que me abeiro da viatura, para abrir a porta, compreendo-me habitante de uma zona indistinta, uma apátrida, nada de novo, confesso, mas, desta vez, não sei porquê, sinto as coisas com uma força que me atomiza ainda mais, talvez pelo despacha-te pronunciado por ambos, ela desejosa da minha partida por um café agendado, para essa tarde, com aquele senhor do lote três, divorciado há uns oito anos, educado, bem-falante, ouvi dizer que trabalha num notário, a ideia de minha mãe com outro homem, que não meu pai, começou a ganhar terreno no espaço do meu pensar, afinal, praticamente após ter batido, de uma forma irrepetível, creio que ressoou por todo o bairro, a porta de casa, para jamais regressar, já lá vão seis anos, parece que foi há uma semana, e seis anos passaram por todos nós, como dizia, praticamente após ter batido a porta de casa, aquela brasileira colou-se ao meu pai, dez anos mais nova, mas com uma agilidade no viver que ele jamais terá, por ali, se alguém batesse uma porta, de uma forma irrepetível, para que ressoasse em todo o bairro, só podia ser ela, não a suporto, confesso, porém, reconheço o quão ele anda apatetadamente feliz, de certa forma, parece que se despediu dos cinquenta e disse olá, de novo, aos vinte e poucos… Do vestir aos gestos, tudo se alterou, tornaram-se mais leves e expansivos, só quando ela Amor, a gente não pode adiar por muito mais, né? Cê tá-me ouvindo, coração? Nesses instantes, ele recupera o cinzentismo que tão bem lhe conheço, divaga um pouco, mas ela possui uma agilidade no viver que ele jamais terá, daí que não me admire se, dentro de muito pouco, não for contemplada com um irmãozinho, ou talvez já tenha sido, assim que me sento, Estava a ver que nunca mais vinhas! Quantas vezes tenho de repetir para te despachares? Sabes muito bem que esta rua me deixa nervoso! Nem vou olhar para cima! Já sei que a tua mãe me espia por detrás do cortinado… Sabes, foi um inferno aquele casamento, um verdadeiro inferno… Não sei como aguentei tanto tempo! Quando penso nisso, só posso concluir que estava doido! Onde se viu uma coisa assim? E, até chegarmos à sua casa, o monólogo prosseguia, sempre neste registo, já não me espantava pela repetida ausência de uma questão essencial: Como estás? Mas nunca me conformei com o facto de, nem por um segundo, se deter para me olhar… Por esta altura, ela já devia andar de volta do espelho, a aprimorar a maquilhagem, afinal, o café agendado, para essa tarde, com aquele senhor do lote três, divorciado há uns oito anos, educado, bem-falante, ouvi dizer que trabalha num notário, numa zona de mim, torço por ela, ainda tenho presente as lamelas que engoliu nos meses que se seguiram à porta que ressoou por todo o bairro, nem saía de casa, em verdade, mal se levantava da cama, assim que chegava da escola, eu assumia o papel de dona de casa, de facto, aprendi a vida dos adultos nessa altura, teria perto de doze anos, hoje, se me perguntassem de quem foi a culpa da porta ter ressoado daquela maneira, não tenho resposta unívoca, afinal, as coisas são sempre plurais… É factual que ela o asfixiava com exigências, de vária ordem: a cansada insistência em elevar o nível de vida, uma efectiva colaboração doméstica, de renunciar aos copos com amigos aos fins-de-semana para acompanhá-la nos infindáveis passeios por montras e corredores artificialmente iluminados (logo ele, coitado, com uma infância e juventude de província, mais propriamente na Beira-Alta, habituado a tactear nuvens e a olhar distâncias…); a renúncia dela a mais filhos também o frustrou, neste particular, ele foi persistente, talvez por ser filho único compreendesse, numa além-teoria, as agruras da solidão, porém, ela irredutível Nem penses nisso! Julgas que, algum dia, voltava a passar por tudo aquilo outra vez? Ainda tenho as dores gravadas em mim! Sempre ouvi, das outras mães, falar em dores esquecidas assim que o filho uma realidade, como se tudo valesse a pena, mas da minha, nada, apenas a memória da dor… Mesmo assim, eu torço por ela, afinal, o café agendado para esta tarde, entretanto, estamos quase na rua do meu pai, continua sem se deter, nem por um segundo, para me olhar, há coisas, na vida, a que nos habituamos, há outras, porém, que só silenciamos, esta pertence, em definitivo, à segunda categoria, se me perguntassem o porquê do seu desejo por mais filhos, só perspectivo a ânsia dele por um filho, sem dúvida, acho que sempre quis um rapaz, em relação à minha mãe, ele com a sua crónica dificuldade na linguagem dos afectos, ela queria um apoio permanente, nunca percebeu que ele provinha das alturas, habituado a tactear nuvens e a olhar distâncias, o tempo foi-lhes fatal, só acentuou a desamparada solidão que neles sempre viveu, e como os fins-de-semana eram longos… Parecia que as sombras se imobilizavam e jocosamente nos olhavam para espelhar infelicidades impronunciadas. Cada um de nós edificou o seu mundo para conseguir sobreviver, acho que a minha tarefa foi mais facilitada, afinal, é a vida que nos vai descolorindo os sonhos, se hoje me pedissem para edificar algo, quanto mais um sonho, não saberia por onde começar, se ao menos o meu pai se detivesse, nem que fosse por um segundo, para me olhar, pois, eu sei, a sua crónica dificuldade na linguagem dos afectos, é possível que, em algum momento, minha mãe se tenha apercebido de que, há muito, ele não se detivesse para a olhar, nem que fosse por um segundo, é possível… Hoje sei-me uma habitante de uma zona indistinta, uma apátrida, já não me preocupa assim tanto, acredito que ajuda a escolher amanhãs, e a quem não se detiver para me olhar demoradamente, nem ouso pousar a bagagem, prossigo de imediato a marcha, não quero, no anoitecer da vida, jogar tudo num café agendado para a tarde.

terça-feira, 16 de junho de 2026

 


... o problema é que nunca olhamos o outro, olhamos, sim, o que nele vemos de nós...

in Nuvens passeantes pelas águas

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Cesto de papéis

 


Bem sei que hoje quase não há cestos de papéis, e os poucos sobreviventes habitam, com certeza, em lares onde a sua missão há muito não é cumprida, não por culpa própria, como é evidente, mas pela idade de quem os olha. Sempre que via uma secretária, sabia que, por baixo ou ao lado, lá estaria o inevitável cesto de papéis, como se fosse um facto da ordem do existir. Hoje, por muito que me custe, as coisas alteraram-se, e, raramente, por baixo ou ao lado de uma secretária, se encontra um cesto de papéis. É sempre difícil lidar com uma alteração na ordem do existir, parece-nos que, de repente, alguém invadiu a casa do nosso viver e nos desarrumou as coisas. É mais ou menos assim que me sinto, quando se subtraem ou se alteram paisagens do passado. Mais doloroso que nos subtraírem o futuro, é roubarem-nos o passado. Porque aí tiram-nos as certezas: do que foi, ou julgávamos ter sido… De certa forma, é correcto afirmar que uma frase silenciada tem como destino um qualquer cesto de papéis da nossa alma. E como o meu está cheio! Com o tempo, aprendemos o silêncio, é uma aproximação lenta, os anos passam, nós mudamos, não é o mundo que muda, sempre esta ilusão, e, de repente, respiramos fundo pela harmonia de nos sabermos em silêncio, o resto estridente do mundo já numa distância imensa, nós naquele instante de serenidade, talvez permita vasculhar o cesto de papéis da nossa alma, meu Deus, o que para aqui vai! Não sabia que ficara tanto por dizer… Baixo-me junto do cesto, está quase a abarrotar, talvez seja melhor sentar-me, sim, sem dúvida, começo a vasculhar papéis, enfio o braço quase até ao fundo, retiro daí uma folha amarfanhada, reparo na evolução da minha caligrafia pelo tempo, afinal, já em criança silenciava sentires… De repente, não sei de onde veio, irrompe, no caminho do meu pensar, a imagem daquele cão a examinar passeios anoitecidos numa minúcia detectivesca, dois passos atrás, em esforço pela trela, ela seguia-o quase numa devoção religiosa, saíam sempre à mesma hora, via-os da janela, para mim, sempre a rapariga do cão, não sei porquê, enternecia-me, havia tanta feminilidade em cada gesto seu, apreciava-lhe a lenta suavidade de ajeitar os cabelos para trás da orelha, um gesto tão repetido, mas para mim sempre novo, não me cansava de o rever, as ruas, àquela hora, já iluminadas pelos lamuriosos candeeiros nocturnos, sabia-lhes a rota, iam até ao final da praceta, cerca de centena e meia de metros, e regressavam, ela dois passos atrás, em esforço pela trela, até que, certa noite, um sujeito, à mesma hora, também com um cão, mas apenas um passo atrás, não se lhe denotava esforço pela trela, o primeiro contacto foi ao nível do passeio, pararam, olharam-se, por fim, cheiraram-se, as caudas ininterruptas, como leques, ela, uma vez mais, a ajeitar os cabelos para trás da orelha, contudo, desta vez, foi célere, como sempre acontece nestas ocasiões, as palavras trocadas tinham como pano de fundo os ininterruptos leques abaixo dos joelhos (Não se preocupe que não morde! É menino ou menina? Ainda é novinho, certo? A minha também não. É muito meiguinha e sociável. Tenho-a há três anos, foi-me dada com dois meses…), por norma, é este tipo de frases que se ouvem quando duas ou mais trelas se imobilizam, com uma ou outra variação, de vacinas, a escalada dos preços na saúde dos amigos de quatro patas, a biografia do leque pelos joelhos, algumas dignas de um fado nocturno, e pouco mais, muito pouco mesmo, porém, não sei porquê, entre aquelas duas trelas imobilizadas sobre lamuriosos candeeiros nocturnos, percebi, de imediato, que havia muito por dizer, enquanto ao nível da calçada os farejares se harmonizavam, as trelas assumiram a mesma direcção, nas noites seguintes, os cerca de cento e cinquenta metros, até ao final da praceta, passaram a ser cumpridos em diálogo, mais duas solidões que se extinguiram, reparei, por mais de uma vez, que ela se esquecia de ajeitar os cabelos para trás da orelha, ficava com a melena a ocultar-lhe parte do rosto, mas nunca do sorriso.