Livros do Escritor

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sábado, 11 de julho de 2026

O desencanto impronunciado de um Domingo à tarde

 


Foi assim, num repente, mas como tudo nesta vida, demorou o seu tempo, embora, para mim, reafirme que foi num repente, como dizia, após duas décadas, que, vistas daqui, parecem-me dois dias, ele Precisamos de conversar… Não sei se foi do Precisamos de conversar, de suster a respiração para articular as palavras, da sua expressão que denunciava uma irredutibilidade demasiado teatral, num esforço palpável e evidente, vínhamos do café, era um Domingo à tarde, após o almoço, religiosamente cumpríamos o café, e aos Sábados também, servia para sairmos de casa e ajudava na digestão, apesar de ficar somente a umas dezenas de metros da nossa porta, no regresso, sobretudo Domingo à tarde, havia um impronunciado sentir de derrota pelo ar, nunca o verbalizámos, não era necessário, sentíamo-lo, uso o plural propositadamente, porque tenho a certeza de que este sentir de derrota era partilhado por ambos, a nossa passada no regresso a casa, Domingo à tarde, era desesperançada, lenta, reticente, sabíamos que já nada esperávamos de novo nesta coisa chamada viver, a mim, esperava-me a tábua de engomar, ao menos voltada para a televisão, a ele, o sofá com o jornal dobrado, nunca o conseguia finalizar numa manhã, até à janta, por ali ficávamos, a certa altura, sei que a cabeça dele começaria a pender, a pender, cada vez mais, até que a respiração se adensava, nessa altura, eu logo a baixar o volume da televisão, não o queria incomodar, coitado, pelo menos, assim o esperava, em algum momento estaria longe das agruras do trabalho, das contas que sempre aportam mensalmente na caixa-do-correio, das hesitações do miúdo com o curso que escolheu, deste sentir de derrota partilhado por ambos em Domingos à tarde, pois, isto prolongou-se até que, no meu reflexo ao espelho, o cabelo com sinais invernosos, o dele não tanto, talvez por escassear, pois, como dizia, vínhamos do café, era um Domingo à tarde, após o almoço, ele Precisamos de conversar, percebi, de imediato, numa qualquer parte de mim, que tudo iria mudar, à medida que ele falava, falava, eu partira para longe, já não o ouvia, talvez por lhe saber a mensagem, Sabes, é muito difícil o que te tenho para dizer. Acredita-me que o é! Nem sei bem por onde começar… (Neste ponto, só queria saber se ele demoraria a despejar o que eu há muito sabia). Dizemos o que queremos ser, mas só somos o que fazemos. O meu pai muito repetia: “Tanto homem e foste logo arranjar um sem coluna vertebral!” E acrescentava de imediato: “Homem?! É lá isso um homem??? É mais um rato!!!” Creio, sinceramente, que me fui desapaixonando dele, assim que a porta de casa se fechou e iniciámos aquele estar a dois dentro de paredes, pareceu-me que, afinal, ali estava um estranho a quem nada tinha para comunicar, como se as palavras tivessem partido de mim para um local inatingível, não, em verdade, acho que foi antes, após o Sim diante do altar, algo em mim se desvaneceu, como se me questionasse Afinal, é só isto? Seguiu-se aquela semana nas termas, os meus sogros sempre com a conversa das termas, Faz bem à saúde! Vocês vão ver! Vêm de lá fresquinhos, ainda mais novos, e, Deus permita, já com um herdeiro providenciado, eu, abismada, ouvia-os sem sequer esboçar uma resposta, limitava-me a esconder atrás de um polido sorriso, mas a gargalhada escancarada e indecorosa dele não me escapou, assim secundava cada frase paterna, como se em busca da sua providencial e salvífica bênção… Acho, em verdade, que contribuí sobremaneira para o Precisamos de conversar, o naufrágio de um lar nunca é singular, desde o Sim diante do altar, algo em mim se desvaneceu, e deixei-me ir, apenas, ele O que achas? Eu Como quiseres. Escolhe tu. Ele O que te parece? Eu O que decidires, para mim, está bem. Assim foi, do candeeiro de sala ao local de férias, até o nome do miúdo, deixei que ele escolhesse, sempre me pareceu, não sei porquê, que vivia a existência de uma outra pessoa, como se tivesse existido um engano, na ordem natural das coisas, e eu viesse ocupar o papel errado, os dias tornaram-se semanas, as semanas em meses, estes em semestres, vieram os anos, uma década, desde o início, aquela semana nas termas, após o Sim diante do altar, ele procurava-me polidamente, neste particular, sempre muito respeitoso, correspondia pela curiosidade de saber como é, contudo, no fim, aquela sensação nunca de mim partia Afinal, é só isto? Ele cumpria, quase mecanicamente, pois, o naufrágio de um lar nunca é singular, eu em apatia, depois, água a escorrer no bidé, sabão, regresso aos lençóis para o repouso pelo dia que virá, ainda me passava a mão pelos cabelos, nesse ponto, já me fingia adormecida, sempre me pareceu, não sei porquê, que vivia a existência de uma outra pessoa, as procuras nocturnas dele tornaram-se esparsas, de certa forma, agradecia, por volta dos nossos dois anos daquele estar a dois dentro de paredes, o nome de uma colega de trabalho surgiu lá por casa, não me escapou a alteração com que foi entoado, mas não me importou, em verdade, senti-me reconciliada, por fim, talvez alguém viesse ocupar o lugar que lhe estava destinado, e assim retomar a harmonia das coisas, porém, foi mais ou menos por estes dias, o nome da colega ainda pairava lá por casa, entoado musicalmente, a minha natureza mensal por se cumprir, no mês seguinte sucedeu o mesmo, farmácia, teste, consulta, médico, reconfirmado, minha mãe numa felicidade transparecida até aos olhos, meu pai emocionado, continha a alegria numa divisão de si muito bem fechada (como o percebia!), é-nos mais fácil compreender espelhos, após uma exaustiva insistência de meus pais, contei-lhe, por fim, nessa noite, ocultei o facto de estar já no segundo mês, bem como, para não lhe ferir a susceptibilidade, o conhecimento prévio dos meus progenitores, ele sentou-se, mais concretamente, deixou-se cair, respirou fundo, não sem antes esticar as pernas, olhou a televisão sem olhar o que por ali se passava, pôs-se a beliscar a bochecha direita, tinha este hábito sempre que a vida o obrigava a pensá-la, murmurava qualquer coisa que, para mim, era indecifrável, mas havia um traço na sua expressão de uma felicidade irreprimível, fui até à cozinha terminar algo, há sempre qualquer coisa fora do lugar dentro de uma casa, percebi-lhe os passos atrás de mim, os braços a envolverem-me, e segredou-me, repetidamente, na linguagem do sentir, Estou tão feliz… Estou tão feliz… Estou tão feliz… Senti-me reconfortada, confesso, mas aquela sensação, de que vivia a existência de uma outra pessoa, como se tivesse existido um engano, na ordem natural das coisas, e eu viesse ocupar o papel errado, há muito se alojara numa qualquer divisão de mim, pelo menos, durante uns tempos, não houve nomes de colegas entoados musicalmente lá por casa, a gravidez prosseguia em paralelo com a minha indiferença face a tudo, cumpria cada tarefa numa frieza autómata, houve momentos (e como foram plurais, meu Deus!) em que ele tentou desfazer equívocos de papéis errados, por outras palavras, ele foi até onde a paciência lhe permitiu para diluir esta minha apatia, contudo, foi lesto a compreender o malogro dos seus esforços. O parto, ao menos a anestesia, devia haver outra que calasse as dores do depois, a criança (como gritava!), a enfermeira, insuportável, Pegue-lhe, mulher! É seu filho! Os pais dele em histeria, à minha volta e do miúdo, a gargalhada escancarada e indecorosa dele não me escapou, assim secundava cada frase paterna, como se em busca da sua providencial e salvífica bênção, eu em apatia, a uma distância das coisas que me equilibrava, neste ponto, face à insistência da enfermeira (Pegue-lhe, mulher! É seu filho!) que, pareceu-me, assumia laivos coléricos, deixei-me ir, iniciei-me na arte de representar, peguei na criança, deformei o rosto com um sorriso plástico, respondia por monossílabos ou em anuências, e, de repente, tudo à minha volta mudou, já não era uma estranha, passei a ser aceite pelos demais, até ele passou a direccionar-me frases despojadas de quaisquer cifras ou barreiras, por uns tempos, não destoávamos de qualquer outro lar, cada um cumpria o papel que lhe estava reservado antes de sequer ser, pois, a harmonia das coisas, porém, fui eu que acusei o esforço exigido pela representação, comecei a caminhar na minha direcção, a distância, a apatia, por fim, regressei-me, os dias tornaram-se semanas, as semanas em meses, estes em semestres, vieram os anos, uma década, duas décadas, houve quatro ou cinco nomes de colegas entoados, com alguma insistência, melodiosamente, até que, nesse Domingo de tarde, ele Precisamos de conversar… No fundo, já o esperava, não compreendo como foi possível ele ter esperado tanto? Duas décadas de um tremendo equívoco! Confesso a minha admiração por alguns traços do seu carácter, era asseado e polido naqueles momentos, a esmerada dedicação ao filho, jamais nos levantou a voz, acho que, em certa medida, lhe foi conveniente a minha apatia, no fundo, talvez nunca tenha verdadeiramente deixado o lar paterno, sempre aquela gargalhada escancarada e indecorosa, assim secundava cada frase do pai, como se em busca da sua providencial e salvífica bênção, algo que revoltava o meu, aquela notória subserviência dele, “Tanto homem e foste logo arranjar um sem coluna vertebral!” E agora, neste Domingo à tarde, após o almoço, regressamos do café, um impronunciado sentir de derrota pelo ar, nunca o verbalizámos, não era necessário, sentíamo-lo, ele Precisamos de conversar… Eu pensei, espera, espera só mais um pouco, talvez se ele olhasse lá para fora, visse que a noite já pousava a mala.

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