Livros do Escritor

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quarta-feira, 8 de julho de 2026

Vamos à vida, porque a morte é certa


 

Nunca gostei de frases-feitas, daquelas máximas com o seu carácter irredutível, a pairar como uma sentença, uma inevitabilidade, daí a minha resistência, na manhã da vida era recorrente ouvir a frase em epígrafe, sobretudo após o términus do almoço, era dita com entusiasmo e simultaneamente resignação (“Vamos à vida, porque a morte é certa”), talvez por, na altura, a sola dos meus sapatos estar quase incólume – apesar disso, em certos pontos denotava-se a rugosidade de alguns solos percorridos, a manhã da existência não é assim tão luminosa, tudo depende da capacidade de reconhecer sombras –, não encontrava argumentos para rebater tão lacónica máxima (“Vamos à vida, porque a morte é certa”), hoje prontamente questionaria: O que é isso da vida? Das múltiplas respostas lidas e estudadas, confesso que nenhuma me satisfez, de facto, ninguém, até hoje, respondeu ao que é a vida, mas sim à sua perspectiva de a viver, realidades bem distintas, pouco me importa como os outros a vivem, eu continuo em busca da minha perspectiva, que tanto se foi alterando com o tempo, em verdade, ainda não a encontrei, se invejo os que têm uma pronta resposta para oferecer? Nada, têm a sola dos sapatos tão gasta quanto eu na manhã da vida, o caminho, de forma subtil, muda-nos as paisagens interiores, há uns dias encontrei, num contexto distinto, uns vizinhos velhotes, têm um carro quase tão velho quanto eles, no entanto, brilha como poucos na garagem, a inépcia dele para a condução é gritante, para estacionar vai à frente, vem atrás, mais uma vez, vai à frente, vem atrás, outra ainda, vai à frente, vem atrás, ela já de fora, a supervisionar tão delicada manobra, quando o meu sistema-nervoso tem o infortúnio de com eles se cruzar, sobretudo na garagem, em convulsão, não por antipatizar, mas por lhes reconhecer uma resignação face à existência que me é uma flagrante antítese, a lentidão estende-se-lhes dos gestos às palavras, um semi-sorriso omnipresente no rosto, tudo grita, tudo cala, dali não virá qualquer gesto de irreverência ou profecia face ao acontecer, somente lugares-comuns, o comezinho do quotidiano, os inevitáveis envelopes que, mês após mês, aportam na caixa-do-correio, o minguar dos sacos em contraste com o engordar da conta no super-mercado, a singularidade destas figuras reside precisamente no automóvel, quase tão velho quanto eles, contudo, repito, brilha como poucos na garagem, até os interiores se mantêm quase imaculados, e saem, todos os dias, pelo menos, duas vezes, sempre juntos, com o tempo, os casais vão-se assemelhando, dos gestos estende-se até à aparência, um estranho fenómeno pouco discutido, há na sua aparência, sem dúvida, uma quase irmandade, paixão não lhes consigo descortinar, nem sequer cinzas, percebo nela um certo ascendente, apesar de só ele assumir o volante, não obstante a total ausência de vocação, só o roda mediante as coordenadas ditadas por ela, sublinho não ser pelo facto da idade que não lhes encontro resquícios paixão, há casais onde essa centelha tremeluz até à despedida final, denominam-se “histórias de amor,” e não há nada mais belo e fascinante que uma “história de amor”, aqui chegado, regressa-me a questão: O que é isso da vida? Por muito que me custe, só posso responder invertendo a questão: “O que não é viver?” Tem sido este o caminho até aqui percorrido, no hoje, pela maioria, sob a vertigem da ilusão, na efemeridade de um artificial palco, todos procuram expor dias solarengos, luminosas risadas, paisagens oníricas, até o que está no prato (em termos de estupidez, atingimos os subterrâneos), com longos planos de filmagem, ângulos próximos, para granjear admiração e a ideia de bolsos fartos, bilhetes com destinos longínquos, poses artificiais que, a qualquer inteligência, com o mínimo de fulgor, apenas suscitam compaixão ou risadas, tudo, que nem ovelhas, a caminho do espectáculo mais propalado, fotos e mais fotos à porta, ninguém concebe ficar de fora, o sentir de pertença, tristes ovelhas a exibir o ferrete do dono sob a forma de uma pulseirita que lhes abre as portas do redil, tudo num delírio quotidiano que, no fundo, responde não a uma questão, mas a um desejo: “Como desejavam que a vida fosse,,,?” Por ali a Dor não encontra porta-de-entrada, se a pressentem, logo excluem, atiram para bem longe, a Dor jamais entra nesta equação: “Como desejavam que a vida fosse,,,?” Só que caminhar é sofrer, nada é mais doloroso que despertar, como invejo os tolinhos, são bem mais felizes, ainda não concluí se os meus vizinhos velhotes, têm um carro quase tão velho quanto eles, representam, pois, a máscara, sempre a máscara, para calar suspeitas de se aperceberem dos perigosos redis do hoje, ou se, por outro lado, não tiveram a audácia de questionar algo essencial: O que é isso da vida? Não posso apresentar uma conclusão, seria falacioso, por conseguinte, nada ético, não os concebo num redil, basta atentar nas quase três décadas de idade da sua viatura, não correram, em histeria, por um último modelo acabado de ser publicitado de todas as formas possíveis, pelo contrário, permanecem impassíveis, na sua bonomia, às influências exteriores, porém, eu não o imagino a tomá-la nos braços, inclinar-lhe o corpo ligeiramente para trás, aproximar os seus lábios dos dela, murmurar-lhe palavras de amor, e, por fim, beijá-la sem amanhãs – não há nada mais belo e fascinante que uma “história de amor” – pois, não consigo, a sua apatia liquida o germinar de qualquer ideário desta índole, na minha memória perduram dois ou três momentos que, com a maior das facilidades, respondem a essa perturbadora questão (O que é isso da vida?), quantos se podem gabar de, na memória, guardar tais respostas ? Confesso desconhecer, talvez por isso não ceda a delírios quotidianos e cultive um desprezo visceral para com os múltiplos redis do hoje.

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