Nunca gostei de frases-feitas, daquelas
máximas com o seu carácter irredutível, a pairar como uma sentença, uma
inevitabilidade, daí a minha resistência, na manhã da vida era recorrente ouvir
a frase em epígrafe, sobretudo após o términus do almoço, era dita com
entusiasmo e simultaneamente resignação (“Vamos à vida, porque a morte
é certa”), talvez por, na altura, a sola
dos meus sapatos estar quase incólume – apesar disso, em certos pontos
denotava-se a rugosidade de alguns solos percorridos, a manhã da existência não
é assim tão luminosa, tudo depende da capacidade de reconhecer sombras –, não
encontrava argumentos para rebater tão lacónica máxima (“Vamos à vida,
porque a morte é certa”), hoje prontamente
questionaria: O que é isso da vida? Das múltiplas respostas lidas e estudadas,
confesso que nenhuma me satisfez, de facto, ninguém, até hoje, respondeu ao que
é a vida, mas sim à sua perspectiva de a viver, realidades bem distintas, pouco
me importa como os outros a vivem, eu continuo em busca da minha perspectiva,
que tanto se foi alterando com o tempo, em verdade, ainda não a encontrei, se
invejo os que têm uma pronta resposta para oferecer? Nada, têm a sola dos
sapatos tão gasta quanto eu na manhã da vida, o caminho, de forma subtil,
muda-nos as paisagens interiores, há uns dias encontrei, num contexto distinto,
uns vizinhos velhotes, têm um carro quase tão velho quanto eles, no entanto,
brilha como poucos na garagem, a inépcia dele para a condução é gritante, para
estacionar vai à frente, vem atrás, mais uma vez, vai à frente, vem atrás,
outra ainda, vai à frente, vem atrás, ela já de fora, a supervisionar tão
delicada manobra, quando o meu sistema-nervoso tem o infortúnio de com eles se
cruzar, sobretudo na garagem, em convulsão, não por antipatizar, mas por lhes
reconhecer uma resignação face à existência que me é uma flagrante antítese, a
lentidão estende-se-lhes dos gestos às palavras, um semi-sorriso omnipresente
no rosto, tudo grita, tudo cala, dali não virá qualquer gesto de irreverência
ou profecia face ao acontecer, somente lugares-comuns, o comezinho do
quotidiano, os inevitáveis envelopes que, mês após mês, aportam na
caixa-do-correio, o minguar dos sacos em contraste com o engordar da conta no
super-mercado, a singularidade destas figuras reside precisamente no automóvel,
quase tão velho quanto eles, contudo, repito, brilha como poucos na garagem,
até os interiores se mantêm quase imaculados, e saem, todos os dias, pelo
menos, duas vezes, sempre juntos, com o tempo, os casais vão-se assemelhando,
dos gestos estende-se até à aparência, um estranho fenómeno pouco discutido, há
na sua aparência, sem dúvida, uma quase irmandade, paixão não lhes consigo
descortinar, nem sequer cinzas, percebo nela um certo ascendente, apesar de só ele
assumir o volante, não obstante a total ausência de vocação, só o roda mediante
as coordenadas ditadas por ela, sublinho não ser pelo facto da idade que não
lhes encontro resquícios paixão, há casais onde essa centelha tremeluz até à
despedida final, denominam-se “histórias de amor,” e não há nada mais belo e fascinante que uma “história de amor”, aqui chegado, regressa-me a questão: O que é isso da vida? Por muito que me custe, só
posso responder invertendo a questão: “O que não é viver?” Tem sido este o caminho até aqui percorrido,
no hoje, pela maioria, sob a vertigem da ilusão, na efemeridade de um
artificial palco, todos procuram expor dias solarengos, luminosas risadas, paisagens
oníricas, até o que está no prato (em termos de estupidez, atingimos os
subterrâneos), com longos planos de filmagem, ângulos próximos, para granjear
admiração e a ideia de bolsos fartos, bilhetes com destinos longínquos, poses
artificiais que, a qualquer inteligência, com o mínimo de fulgor, apenas suscitam
compaixão ou risadas, tudo, que nem ovelhas, a caminho do espectáculo mais
propalado, fotos e mais fotos à porta, ninguém concebe ficar de fora, o sentir
de pertença, tristes ovelhas a exibir o ferrete do dono sob a forma de uma
pulseirita que lhes abre as portas do redil, tudo num delírio quotidiano que,
no fundo, responde não a uma questão, mas a um desejo: “Como desejavam que
a vida fosse,,,?” Por ali a Dor não
encontra porta-de-entrada, se a pressentem, logo excluem, atiram para bem longe,
a Dor jamais entra nesta equação: “Como desejavam que a vida fosse,,,?” Só que caminhar é sofrer, nada é mais
doloroso que despertar, como invejo os tolinhos, são bem mais felizes, ainda
não concluí se os meus vizinhos velhotes, têm um carro quase tão velho quanto
eles, representam, pois, a máscara, sempre a máscara, para calar suspeitas de
se aperceberem dos perigosos redis do hoje, ou se, por outro lado, não tiveram
a audácia de questionar algo essencial: O que é isso da vida? Não posso
apresentar uma conclusão, seria falacioso, por conseguinte, nada ético, não os
concebo num redil, basta atentar nas quase três décadas de idade da sua
viatura, não correram, em histeria, por um último modelo acabado de ser
publicitado de todas as formas possíveis, pelo contrário, permanecem impassíveis,
na sua bonomia, às influências exteriores, porém, eu não o imagino a tomá-la
nos braços, inclinar-lhe o corpo ligeiramente para trás, aproximar os seus
lábios dos dela, murmurar-lhe palavras de amor, e, por fim, beijá-la sem
amanhãs – não há nada mais belo e fascinante que uma “história de amor” – pois, não consigo, a sua apatia liquida o
germinar de qualquer ideário desta índole, na minha memória perduram dois ou
três momentos que, com a maior das facilidades, respondem a essa perturbadora questão
(O que é isso da vida?), quantos se podem gabar de, na memória, guardar tais respostas ?
Confesso desconhecer, talvez por isso não ceda a delírios quotidianos e cultive
um desprezo visceral para com os múltiplos redis do hoje.
Livros do Escritor
quarta-feira, 8 de julho de 2026
Vamos à vida, porque a morte é certa
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