Livros do Escritor

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quinta-feira, 2 de julho de 2026

Saudades do futuro

 


Há gente que, não sei porquê, parece que passa pela vida sem que nada de especial aconteça, como se fossem imunes à mudança, creio que, se hoje os reencontrasse, estariam nos mesmos lugares a desempenhar exactamente as mesmíssimas tarefas doutrora, talvez o tempo tenha virado costas àquelas paragens, e há outros, enfim, que são engolidos nas mais tumultuosas correntes… Se analisar devidamente ambos os percursos, confesso que não invejo nenhum, do fastio de conhecer há muito os amanhãs, à incerteza da próxima esquina. Talvez haja quem tenha trilhado os dois, e possa avaliar as paisagens decorrentes… Vinda sei eu lá de onde, a imagem dela, segue-se a da mãe, magra, muito compenetrada, falava sempre baixinho, ligeiramente acima do sussurro, o que conferia às suas palavras um relevo substancial, ela, de laçarotes, uns palmos abaixo, aquém das verdades inolvidáveis sussurradas pela mãe, que iam de um lamento pelo preço do pão ao exausto reiterar das vantagens da vida na província, tudo isto, repito, entoado sempre baixinho, eu ouvia-a fascinado, bebia as suas palavras como se de seculares revelações se tratassem, Foi pena, sabe, muito direita, compenetrada, assim iniciava cada prelecção, minha mãe, talvez agrilhoada pelo seu politicamente correcto, ouvi-a com uma expressão de espanto, como se de uma primeira vez se tratasse, … Nem imagina! Lá tínhamos uma vida tão boa! Do que sinto mais falta é da minha hortinha! Não havia dia em que não pegasse na sachola para a tratar! E o espaço? Sabe, quantas vezes me perdia com as lonjuras? No frio, a brancura nos montes, com o calor, chegavam as andorinhas… Vivíamos ritmados pelo tempo. Aqui, às vezes, até me esqueço em que estação estamos! Para ver o céu, tenho de sair de casa! Onde já se viu uma coisa assim? Não percebo, de todo, esta gente que troca a província por isto! Uma coisa lhe garanto: isto não é viver! Se não fosse pelo meu marido, aceitava lá viver encaixotada… Sinceramente, até sabemos a que horas cada vizinho vai à casa-de-banho! É lá isto viver? E na rua? Ninguém se cumprimenta! Pelo contrário, há quem se finja de distraído para o evitar fazer… Creio que, a certa altura, minha mãe anuía por convicção, afinal, quem pode resistir a seculares revelações? O marido era carteiro, um daqueles sujeitos que, para mim, já nasceram idosos, afinal, os adultos sempre me pareceram velhos, aborrecidos, com umas conversas sonolentas, balizadas entre dinheiro e crises, a única ponte para o meu mundo chamava-se futebol, de facto, por aqui transitavam algumas conversas, mas, como dizia, o marido dela só o concebia sentado num sofá, de jornal na mão ou a sorver atentamente as notícias, neste particular, a minha imaginação padecia de uma total esterilidade, tal a bonomia da figura em apreço, também não era muito audível, quando nos cruzávamos nas escadas, ficava-se por um educado cumprimento, mas entoado baixinho, ligeiramente acima do sussurro, tal como sua mulher, aquele era, de facto, um lar de silêncios e de amanhãs há muito conhecidos. A filha, de laçarotes, uns palmos abaixo, acompanhava-os naquela discrição, limitava-se a sorrir à sua volta, pouco mais, não vinha para a rua brincar, talvez a mãe nos achasse barulhentos, de facto, íamos muito para além do sussurro, era uns três anos mais nova que eu, na meninice, dois anos equivalem a uma geração, na velhice, é curioso, uma década é apenas mais um ontem, o tempo altera-nos sem se alterar, sempre aquele caudal inexorável que, imperceptivelmente, nos leva, leva, leva para o fim, e nós agarramo-nos a tudo para ocultar esta sempre calada evidência. Há uns dias via-a na rua, volta e meia, tenho este hábito, está em mim, já percebi que não há como lhe fugir, e também não o quero, regresso aos lugares do ontem, sempre desconfiei que talvez eu ainda por lá esteja, queria rever-me, cumprimentar-me, no fundo, é tão simples, dizer-me para não ter pressa. A haver um céu, não estará longe de um sonho de criança, bom, como dizia, este hábito de regressar aos lugares do ontem, ela descia a rua, nem sei como a reconheci, sem laçarotes, nem palmos abaixo, longe, muito longe, daquele discreto silêncio, porém, foi qualquer coisa na sua expressão, talvez o mesmo sorriso apesar da face mais redonda, sei que não me viu, acho que não me reconheceria, pois, na meninice, dois anos equivalem a uma geração, e ela não descia para brincar connosco, talvez a mãe nos achasse barulhentos, como dizia, ela ia rua abaixo, na considerável distância de um ar compenetrado, nem vestígios, por ali, de sussurrar palavras, continuei a olhá-la, pelo retrovisor, na esperança de que sua mãe, num repente, surgisse, rua abaixo, atrás dela, pronta a levá-la para casa, afinal, esquecera-se dos laçarotes e, por aqueles lados, há tanto barulho… Contudo, não sei de onde me chegou esta ideia, pareceu-me que os seus pais cumpriram o regresso final, possivelmente repousam, para sempre, voltados para as lonjuras, no frio, a brancura nos montes, com o calor, chegam as andorinhas.

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