Sempre ouviu dizer que Chorar faz bem! Não sabia se era
verdade. Talvez fosse uma forma que arranjámos para nos levantarmos e retomar o
caminho… Pois, é possível. Conheceu-a há uns anos, numa fase da vida
complicada, como se alguma vez a sua vida tivesse outra coisa que não fases
complicadas, tinha alugado um quarto numa pensãozita esconsa, metida numa
travessa onde dia e noite se confundiam, tal o perpetuar de sombras por aquele
lugar, por acaso, agora que se fala nisso, não se recorda de ver o candeeiro da
recepção da pensãozita desligado, as ruas em volta eram povoadas por vultos
espectrais em passeios, como árvores descarnadas de ténues raízes que
sombreavam estradas, pelo chão havia corpos em adeus à vida, olhares vítreos
que espelhavam o vazio por uma alma partida, garrotes e seringas vazias, de vez
em quando, o amanhecer trazia-lhes um farejar como companhia, timidamente
cumprimentava-os de um lado, passava para o outro, na preocupação essencial de
os saber vivos, é curioso, nunca os viu deterem-se perto de garrotes e seringas
vazias, sabiam há muito quais as entradas para a morte, na porta ao lado da
pensãozita havia um barbeiro, só abria de tarde, segurava mais tempo o jornal
que a tesoura, como tema recorrente a guerra colonial, a mágoa imensa por ter
sido obrigado a entregar armas, quando afinal a guerra vencida, nunca se
conformou com a fictícia derrota e o antecipado regresso à metrópole, não havia
dia em que não se ouvisse, naqueles vinte e poucos metros quadrados, Um dia hei-de lá voltar! Assim que pisei
aquela terra, sabia onde pertencia. Sabe, foi como um clique em mim! E a
distância das coisas?! Ensina-nos como somos pequenos… Não é como aqui!
Acredite, não tem nada a ver! Sabe, lá tudo é em grande! Para onde quer que se
olhe, sempre a lonjura. Aqui nem horizonte temos! Vivemos numa estreita faixa
entre o mar e os espanhóis! E as cores? O que dizer das cores de lá? Nunca tive
alma de poeta, mas se me ajeitasse com palavras, teria feito uns versos àqueles
entardeceres… Palavra de honra! E o cheiro daquela terra? Então quando o
cacimbo pousa, parece um feitiço… Não adianta! Podia estar aqui o dia todo a
falar-lhe de lá, você nunca iria entender. Sabe, só quem lá esteve é que
percebe aquilo! É como uma febre que se nos colou à pele! Era comum, à
medida que avançava na sua prelecção, elevar a voz, talvez pelo entusiasmo,
pela saudade, pela dor de não ter regressado, talvez por tudo, o certo é que
África, todas as tardes, ecoava por aqueles passeios. Umas portas mais acima,
outro quadrado com vinte e poucos metros quadrados, mas ainda mais obscuro, lá
dentro um velhote, que arrastava uma perna, debruçado sobre uma mesa, lia uma
revista com as cores da meninice, se atentássemos bem, as prateleiras à volta,
em estantes que iam praticamente até ao tecto, estavam pejadas de livros e
revistas de heróis e suas aventuras, quase todos ali chegados de outros lares,
sinal de que os adeuses à infância se sucediam, por vezes, chegavam-lhe com
sacos, depositavam-nos no balcão com gestos nervosos de uma pressa
impronunciada, ele retirava um a um, com parcimónia, parecia prestar tributo a
cada obra, folheava, sopesava, analisava o estado geral, sempre que uma folha
rasgada ou risco, mandava para trás, era um princípio, tinha ali livros da
altura em que ainda não sabia ler, dizia que aquele espaço era mais um museu
que um negócio, volta e meia, retirava determinada revista, nem precisava de a
procurar muito naquele universo de papel, e orgulhosamente proclamava Não a vendo por dinheiro nenhum! Trata-se do
número um de uma colecção… E lá esclarecia o porquê, na sua voz rouca e
arrastada, de uma manuseada e amarelecida revista, quase decrépita aos nossos
olhos, ter um valor tão substancial, havia dias em que não entrava ninguém, mas
se atentássemos nos seus gestos e rosto, percebíamos, de imediato, que ele nem
dava conta, tal a abnegação com que arrumava, limpava, catalogava, ou
simplesmente relia, talvez a vista já o traísse, e pensasse ler o que apenas
relembrava, às vezes acontece, olhamos para trás a fim de nos sabermos ainda,
havia quem dissesse que tinha o maior espólio da nona arte da capital, talvez
do país, mas havia sempre um tom indulgente quando se referiam àquele espaço,
que tinha um peculiar cheiro a papel velho, tristemente iluminado, apenas uma
lâmpada no tecto que ameaçava fundir-se com insistência, de vinte e poucos
metros quadrados, forrado de histórias
aos quadradinhos, ele nem respondia, histórias
aos quadradinhos, mais que uma vez perguntaram-lhe Nunca leu um livro a sério? Nem respondia, limitava-se a relancear
uma expressão de desprezo e nada mais, falava pouco, com os anos, ainda menos,
olhava para o amanhã, os jovens do hoje, com uma apreensão constante, era seu
costume afirmar que não só perderam a capacidade do sonho como também lhes
roubaram a alma, vivem curvados para um rectângulo sem ao menos um porquê, muitas das histórias, que por
ali tem, relatam os esforços hercúleos de heróis que jamais se curvaram perante
os mais variados perigos, à sua volta só vê uma plural derrota assumida, sem
sequer um gesto de resistência riscar os céus da cidade, ao chegar a casa,
antes mesmo da chave, o miar da sua única companhia, pois, desde que… Entra e vai
logo encher uma malga de leite, um dia, iremos regressar a este solitário, que
vive entre histórias aos quadradinhos, malgas de leite, e aprendeu, com a vida,
a falar cada vez menos, voltemos à pensãozita esconsa, metida numa travessa
onde dia e noite se confundiam, tal o perpetuar de sombras por aquele lugar,
estava naquele quarto há dois ou três dias quando se cruzou com ela na escada,
não lhe passou despercebido o facto de coxear ligeiramente da perna direita,
talvez cansaço pelo esforço da subida, percebeu-lhe um misto de uma genuína
curiosidade, quase infantil, e um cansaço nocturno que lhe sombreava gestos e
expressão, havia nela um desamparo tocante, como acontece com quase todos os
habitantes nocturnos, compreendeu, quase por intuição, que ela ali pertencia, mas,
ao mesmo tempo, pressentia-se-lhe uma desesperada ânsia de partir, ela olhou-o
de relance, não disfarçou espanto por um recém-chegado, cruzar-se-iam mais
vezes… Aquele desamparo tocante desequilibrou-lhe o sentir, mesmo nessa noite,
antes de devolver transparência múltiplas vezes ao mesmo copo, aquela mulher,
já devia avistar os quarenta, coxeava ligeiramente da perna direita,
regressar-lhe-ia, por mais que uma vez, ao pensar, há muito que adormecia sem
uma respiração a seu lado, sem uma inconsequente conversa de trivialidades, sem
o calor de um gesto de afecto, no fundo, sem amor… Desaguou naquela pensãozita
esconsa, metida numa travessa onde dia e noite se confundiam, tal o perpetuar
de sombras por aquele lugar, apenas com uma mochila e um saquito de plástico,
ele que já dobrara os quarenta e o passado cingia-se a uma mochila e um saquito
de plástico, mas por dentro um peso bem maior, daqueles que retardam o sono e
obscurecem sonhos, daí, quem sabe, aquela sua premente necessidade de devolver
transparência múltiplas vezes ao mesmo copo… Não demorou muito até que, certa
noite, ela sentada àquela mesma mesa, diante dele, a desviar-lhe o copo, porém,
a sua mão sôfrega em perseguição, mas ela revelava experiência de ilusionista
em ocultá-lo, falaram de trivialidades, e como lhe soube bem, por momentos,
ouvir outra voz que não a sua, há tanto que se cansara daqueles ecos dentro de
si, não se perguntaram o que faziam, não deixa de ser curioso, ela sempre com
um xaile pelos ombros, nalguns pontos desbotado e em ameaça de ruína,
percebeu-lhe campo nos gestos e fala, ela orgulhava-se disso, não escondia o
desejo de, um dia, regressar à terra, como se lá os problemas não encontrassem
uma porta de entrada, pois, havia nela um desamparo tocante, haveria outras
noites assim, partilhavam uma cerveja e um prego no pão, soube que ela tinha um
filho num internato, andaria pelos dez anos, ela apreciou a sua persistência
com a temática do filho, mas nunca enveredou pela identidade paterna, de novo,
a intuição a ditar-lhe a direcção do verbo, talvez nem ela soubesse tal
resposta, em verdade, ele já ouvira uns rumores acerca do seu ganha-pão, era mais discreta que aqueles
vultos espectrais em passeios, como árvores descarnadas de ténues raízes que
sombreavam estradas, a idade também já era outra, e o fruto do ofício tinha um
destino de dez anos, num colégio, que, assim que a via, lhe corria para os
braços e lhe açucarava o sentir, até que partiu dela a sugestão, certa noite,
após regressarem da cerveja e do prego no pão, a porta do quarto aberta, Não queres entrar? Ele ainda hesitou,
talvez algum eco gritasse dentro de si, contudo, reequilibrou-se e respondeu Sabes, não ando boa companhia… É melhor
ficar para outra altura. Até amanhã! Seguiu para o seu quarto, ficava no
andar de cima, os degraus denunciavam o esforço da subida, ela ficou, por mais
um pouco, à porta, hesitante entre a admiração pela decência do seu gesto e o
despeito pela recusa, pois, o orgulho feminino, um dos primeiros inquilinos da
terra, porém, a sua decisão brotou de uma outra fonte, que, no momento, ela não
descortinou, os tais rumores acerca do seu ganha-pão,
assim que fechou a porta do quarto, cuja única luz, nesse momento, provinha do
anúncio néon exterior, PENSÃO, em
letras verticais amarelas, com uma seta, em baixo, na direcção da entrada,
sentou-se pesadamente na cama, olhou o chão, tacos de madeira cansados por
inúmeras e apressadas visitas, o que restava de um tapete, nem a cor original
se conseguia decifrar, por um lado, inclinou-se a aceitar o convite e entrar,
afinal, havia nela um desamparo tocante, por outro, aqueles tortuosos rumores,
se por ali houvesse alguma verdade, seria ele mais um número do velho e triste
ofício? Por muitas voltas que desse, não conseguia aportar em nenhuma certeza…
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