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Mensagens
A mostrar mensagens de agosto, 2022
Como é que é, Brother?
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Alguém só nos morre, por inteiro, quando deixa de habitar na memória, nem por acaso, hoje iluminou-se-me, nesse espaço que traz o ontem ao hoje, um vulto singular que, do seu jeito, deixou uma marca indelével sob a forma de uma frase, mais concretamente de uma interrogação, mas já lá vamos, conheci-o por frequentarmos o mesmo ginásio, quando alguém entra num espaço, pela primeira vez, de forma natural suscita curiosidade, neste caso foi amplificada por características deveras particulares, entrou com um ar desconfiado, semblante carregado, a olhar os próprios passos, um gorro na cabeça que lhe conferia uma aura simultaneamente anacrónica e descontextualizada, como se, algures no seu caminho, perdesse a direcção, um presídio norte-americano ou uma plataforma no Alasca ser-lhe-ia o destino indicado, porém, ali estava ele, à minha frente, a tirar o supracitado gorro, um sobretudo que se arrastava pelo chão, deixou-os a um canto da sala, como se não houvesse balneários para o efeito,...
A princesa da TAP
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Uma das questões essenciais que nos devíamos imperativamente colocar é: Será que as nossas palavras interessam aos outros? À luz desta premissa, a sua imagem levantou-se-me no pensar, conheci-a por frequentarmos um espaço-comum, educada, polida, cheia de ressalvas, “Agora, só regresso para a semana, como a minha irmã faz anos amanhã, vamos passar estes dias fora; Estive a manhã toda no cabeleireiro, nota-se bem, não é? Confesso que tenho andado um bocadinho preguiçosa, para semana compenso; Então, como vai o nosso Benfica? Eu vi o jogo, lembrei-me logo de si, dos seus nervos, mas felizmente lá ganhámos… Estive para lhe mandar mensagem, mas não quis alimentar mal-entendidos! Já sabe como sou, não gosto nada de histórias mal-contadas!” Pois, de facto, será que as nossas palavras interessam aos outros? A noite já lhe entrara na existência, apesar de uma energia incomum para a idade, e de se mobilizar com o auxílio de duas bengalas, o que, à distância, lhe conferia um ar de aracn...
Ouço, em mim, um cemitério de palavras
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Denota-se-lhe uma passada, àquela hora de jantares e famílias, de quem se sabe não ser esperada. Sempre tempo para mais um cigarro, agora à porta do prédio, mas não entra (para quê?), ainda lhe falta o pão, assim retarda, por mais um pouco, a evidência da derrota, quantas vezes, quase como cartão-de-visita, anunciara, Sabe, eu tenho muitos amigos, perante isto, os outros fitavam-na entre a perplexidade e o espanto, ela insistia, Sabe, eu tenho muitos amigos, como resposta, ombros encolhiam-se e ela ficava a contemplar costas que se afastavam, mas, nesses tempos, sempre tinha com quem se sentar a uma mesa, a partilhar cafés e cigarros, hoje nem isso, apesar do esmero antes de sair de casa persistir, um livro debaixo do braço, volumoso o suficiente para captar olhares e suscitar admirações, de vez em quando, alguém mais incauto questiona-a acerca daquelas páginas, logo, ela assume uma expressão reflexiva e debita o que julga serem profundidades, o resto da indumentária também não é...
Quando os sonhos não cabem em mim
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Quando realmente irei acordar? Talvez não hoje. O despertador, aquele som sempre numa demasia ritmada, os pontos vermelhos a piscar, num vermelho ostensivo devido à escuridão do quarto, a procura da tecla do silêncio, por fim o indicador a encontrá-la, de novo, paz, a cabeça, uma vez mais, apoiada, como se um retorno, ainda bem, talvez assim os problemas flutuem por mais um pouco, dela, neste momento, apenas o ombro, mesmo assim, opta por cobri-lo, não dera pelo despertador, tal como em todas as manhãs pretéritas, valia-se da paciente insistência dele, para assim correr pelo pão diário, ele tinha gosto nisso, afinal, só a reencontrava, como sempre em cada regresso, sob a fluorescência da cozinha, entre o fogão do jantar e a porta aberta da máquina da roupa, numa demonstração de ubiquidade digna de qualquer ilustre taumaturgo, ele, da porta, assistia num fascínio mudo àquela multiplicidade de gestos, que brotavam de uma harmonia inata ao continente feminino, sempre a margem e o ...
Um pouco como aqueles trocos de fundo de algibeira
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Retirou os três envelopes da caixa-de-correio e meteu-os no bolso direito do casaco. Entrou no elevador e carregou no número do seu andar. A idade avança numa proporcionalidade exacta à diminuição de certas faculdades. E, de facto, ele não se ajeitava com a modernice da actual chave, daí a campainha, numa demora bastante, para exorcizar a frustração com o insondável mecanismo da chave, o passo dela também se familiarizava com outras proporções, a abrir-lhe a porta e uma expressão silenciosa e elucidativa do seu desagrado face aos contínuos exorcismos de frustrações, ele a entrar, a percorrer-lhe o braço com a mão (e um gesto engole tantos dicionários!), a retirar do bolso apenas dois envelopes, coloca-os na mesa-de-entrada, ela Ainda nada? Mas já devia ter chegado… , nem se vira, limita-se a subir os ombros, já de costas para ela, mas sempre a insistência, agora eivada de um notório nervosismo, Tens a certeza de que ainda nada…? , após depositar o casaco nas costas de uma cadei...
Veritas liberat
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Há uns dias, numa rua deste outrora país, vejo uma série de carros com as rodas bloqueadas, à volta dos vidros uma fita demasiado fluorescente, prudentemente seguro pelo limpa pára-brisas, no vidro da frente, um envelope-branco, pois, não seria nenhuma tímida declaração de amor, tão-só a coima, pena ser um texto, se fosse oralmente usaria a peculiar pronúncia inerente aos monos, dia de semana, final de tarde, seriam uns seis ou sete carros, perante este grotesco cenário, uma questão regressou-me, já me assola há muito, confesso, como pode este povinho falar de liberdade?! Onde está a materialização deste conceito?! Não me vou alongar em considerações sobre o amaldiçoado dia de Abril do fatídico ano de setenta e quatro, não, não vale a pena, quem quiser a Verdade que a procure, desde então ser-me-ia fácil elencar as três bancarrotas, a marginalidade galopante, o dizimar das florestas (até entrou no léxico a “época dos incêndios”), Entre-os-Rios, Pedrógão-Grande, ex-presidiários ...