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A mostrar mensagens de agosto, 2026

Estás aí?

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Sempre que passo na rua dela (no fundo, todos temos uma rua, não é verdade?), o meu olhar, como se uma inevitabilidade, fixado na sua janela, numa imortal esperança de que assoma, à noite, não sei porquê, a esperança reforçada, tantas vezes lhe imaginei a silhueta, talvez pela janela iluminada, de facto, só eu e a rua deserta, nem o tradicional rafeiro por ali deambulava, em busca dos despojos de solitários jantares, dou por mim a pensar quantos, a essa mesma hora, perscrutam janelas na esperança de uma silhueta, a questão evola-se, só me interessa a minha circunstância, como desejava ali a reencontrar, em verdade, que os anos atravessassem outros caminhos, jamais esta rua, tudo permanecesse intacto, numa aura miraculosa, primeiramente eu, aqui reside o maior paradoxo, pois eu sou outro, de mim só o desejo subsiste (mas não este será parte da minha essência? Então, como poderei ser outro?), a rua, estranhamente, afigura-se-me a mesma, só os carros testemunham o rio do tempo, pois são...
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  ... de repente, uma casa espaçosa cabe numa mala, ninguém ouse predizer o rosto do amanhã... in Distância

Distância

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  O outro surge-nos, na maioria das vezes, de forma indirecta, ou seja, pela boca de quem nos rodeia, neste aspecto, confesso a minha independência de espírito, registo a informação, mas aguardo o necessário para retirar as minhas ilacções, felizmente nem sempre coincidentes com as bocas alheias, neste caso há uma ambivalência, a seu tempo lá iremos, ela despedia-se do Outono da vida, uma fase, desconheço a razão, em que quase tudo se releva e compreende, se há insistentes atrasos no trabalho (“Coitada! Já trabalhou que chegue! Quando chegar à idade dela, estarei bem pior… Temos de compreender. Muito bem está ela!”), se zarpa bastas vezes mais cedo (“Não quis dizer, mas deve ir ao médico… Talvez alterar a medicação… Algum problema que quis guardar para si… É muito discreta…”), certo é que alguém cumpriria o seu papel, quando apanhava gente manhosa, como este mundo é pródigo nesta espécie, os problemas multiplicavam-se-lhe, e ninguém escapa, na sua caminhada, a cruzar-se com estes...
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Rua do Sol

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  Hoje vi-o, passeio fora, orgulhoso, com uma bicicleta pela mão, notava-se-lhe o tempo, mas, ainda assim, apresentável, percebi, de imediato, o destinatário, a essa hora olharia o quadro, verde, diante de si, talvez com uma frase para decompor ou uma conta de multiplicar, uma mão suportava os sonhos que lhe enchiam o pensar, enquanto a outra (com um lápis? Uma caneta?) fingia interesse pelo que se passava no quadro, àquela hora (aproximava-se o regresso a qualquer coisa de nome lar) as escassas refeições do dia empurravam-no para um sono crescente, andava por aqui há pouco mais de meia dúzia de anos, contudo, aprendera que o encolher do estômago é proporcional ao alargar dos sonhos, nisto uma frase estridente fá-lo regressar-se e estremecer Perceberam, meninos? Ele a formular uma surda questão para si Perceber o quê? Os sapatos que, de tão apertados, mal lhe permitiam caminhar, quanto mais correr atrás de uma bola, as calças que se cobriam de remendos, o casaco anacrónico que insi...

Pelas costas tudo se diz, tudo se faz…

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  Compreendi, há uns tempos, por estes lados, haver uma geração a viver às custas dos dividendos da anterior – propriedades, imóveis, jóias, quantias herdadas, enfim, tudo o que possua cifra –, por norma, apresentam uma postura arrogante (autênticas figurinhas que gostariam de passar por figurões, mas uma figurinha jamais chegará a figurão, aqui reside o paradoxo), sapientes de algo que os próprios desconhecem na sua infinita ignorância, como se, pela circunstância de nada terem construído, de palpável, com o seu engenho e esforço, por outras palavras, o conceito de trabalho ser-lhes deveras longínquo, uma realidade insondável, horários para cumprir, transportes-públicos, as omnipresentes contas mensais, a verdade que o comum cidadão conhece até ao fel da sua essência, pelo simples facto de não ter o privilégio de um porto-de-abrigo providenciado pelos seus antecedentes, pudessem opinar sobre tudo que julgam ver, assim sendo, sem horário para cumprir, os dias avizinham-se longos e ...

Rua das Açucenas

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  Não regressava, há cerca de seis meses, ali, à rua das Açucenas, mais precisamente ao rés-do-chão, daquele segundo prédio, do lado direito, caminhava a olhar a calçada, pelo seu pensar, a conversa de há pouco, ele tão insistente “Não precisas de ir sozinha, eu arranjo um tempinho e acompanho-te… Bem sei o que a tua avó significava para ti… Não te fará bem regressares só àquela casa… Tantas recordações te esperam… A memória ultrapassa-nos sempre…,” na altura, não ligou muito, era um desafio que teria de enfrentar, tinha isso presente e determinou-se a tal, no entanto, esta frase não a abandonou “ A memória ultrapassa-nos sempre…,” nem parecia dele, pouco dado a tão profundas reflexões, do telemóvel para um écran, de um écran para o telemóvel, a certa altura, ambos se acomodaram à relação, dobrara a meia década, não havia exigências, por exemplo, entre eles, de filhos, de forma alguma se queriam aprisionar a tão exigente projecto, lá se lhes ia o tempo, um bem que ambos gostavam ...
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...  os vazios que acumulamos devem-se essencialmente a duas coisas: o que perdemos ou, mais dilacerante, o que não vivemos por culpa própria... in Silhuetas

Silhuetas

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  Há casais que, à primeira vista, parecem estar fadados ao para sempre, como se imunes a qualquer força de desunião, hoje sei a falácia deste raciocínio, tudo se desmorona sob o céu, até a vida, a memória de uns vizinhos, durante uns tempos, pareciam a ideia caminhante de felicidade, não havia mês em que o fotógrafo lhes batesse, pelo menos, uma vez, à porta, para mais uma sessão de sorridentes eternidades emolduradas, por circunstância esquecida, entrei em casa deles, sobre qualquer mesa, prateleira ou camilha, pontificava uma fotografia do luzente casal, poses ensaiadas, sorrisos plásticos, entreolhares perpetuados, não sei porquê, mas uma ideia, “teatralidade”, desceu-me ao pensar, olhei-os e percebi o abismo entre gestos trocados e as imagens eternizadas sobre mesas, prateleiras ou camilhas, a primeira nota dissonante foi a exasperante lentidão da chegada do primeiro fruto de tão sublime amor, após a lua.de-mel, em destino de postal, como não podia deixar de ser, com fotos, ...