Há casais que, à primeira vista, parecem
estar fadados ao para sempre, como se imunes a qualquer força de desunião, hoje
sei a falácia deste raciocínio, tudo se desmorona sob o céu, até a vida, a
memória de uns vizinhos, durante uns tempos, pareciam a ideia caminhante de
felicidade, não havia mês em que o fotógrafo lhes batesse, pelo menos, uma vez,
à porta, para mais uma sessão de sorridentes eternidades emolduradas, por
circunstância esquecida, entrei em casa deles, sobre qualquer mesa, prateleira
ou camilha, pontificava uma fotografia do luzente casal, poses ensaiadas,
sorrisos plásticos, entreolhares perpetuados, não sei porquê, mas uma ideia, “teatralidade”,
desceu-me ao pensar, olhei-os e percebi o
abismo entre gestos trocados e as imagens eternizadas sobre mesas, prateleiras
ou camilhas, a primeira nota dissonante foi a exasperante lentidão da chegada
do primeiro fruto de tão sublime amor, após a lua.de-mel, em destino de postal,
como não podia deixar de ser, com fotos, mais fotos, ainda umas quantas, rumo à
eternidade, os hipotéticos avós, de ambos os lados, em ânsias de saber “Então,
para quando? Estão a deixar passar muito… Se o problema é dinheiro… Não queres
mudar de médico?”, o questionar
ininterrupto, sobretudo aos fins-de-semana, só lhes agudizou a ansiedade, ambos
desejavam ardentemente o fruto daquele sublime amor, bom, em verdade, ela mais
ansiosa de preencher os vazios que se lhe somavam no quotidiano, ele não perdia
oportunidade de uma escapatória para brincar com os amiguinhos, de facto, é
isso mesmo de que se trata: “brincar com os amiguinhos”; simplesmente, com o tempo, os brinquedos mudam, o entusiasmo com que
se abraçam as actividades subsiste: carros, desporto, almoçaradas, jogatanas,
tudo ao encontro de redescobrir o menino que algures ficou pelo caminho; como
cedo iniciou esta caminhada de felicidade, precoce foi a sua despedida das brincadeiras
da segunda meninice, tudo se concentrava nela, quando a bola todos atrás da
bola, na rua, e o seu nome ecoava, ele encolhia os ombros, com uma desculpa, logo
corria para os braços dela, quando, de noite, uma festa de aniversário ou por
qualquer outra circunstância, nem vestígios da sua presença, de mãos dadas, no
cinema ou em casa, a assistir a um filme, enquanto lhe segredava palavras de
amor, os vazios que acumulamos devem-se essencialmente a duas coisas: o que
perdemos ou, mais dilacerante, o que não vivemos por culpa própria; ele não
aportou, pela sua escassez de intelecto, em nenhuma destas inferências, no
entanto, a segunda palpitava em si, os lugares que se somaram à mesa, três, as exigências
dela, crescentes, de lhe cessar as oportunidades de escapatórias para brincar
com os amiguinhos, adensaram este palpitar, era-lhe habitual, no dia-a-dia, a
fuga àquele controle, como a criança que não cumpre as ordens maternas, assim
caminhava o seu sentir, um nítido regozijo interior, a vida é irónica, ele
também ignorava este facto, de repente, começou a ouvir “o canto de uma
sereia”, causadora de demasiados
naufrágios, não era ele que a ouvia, mas sim aquele que, quando de noite, uma
festa de aniversário ou por qualquer outra circunstância, nem vestígios da sua
presença, de mãos dadas, no cinema ou em casa, a assistir a um filme, enquanto
lhe segredava palavras de amor, quando deu por si, errado, as minhas desculpas,
ainda está longe de atingir esta fase, continua sob a hipnose do “canto da
sereia”, saltou do barco, surdo para o
clamor dela, dos três lugares somados à mesa, das censuras dos avós-maternos,
das apreensões dos seus pais, da indignação de alguns conhecidos, e mais um
náufrago na costa daquela sereia, de momento, permanece com a expressão
apatetada e embevecida de quem desconhece o anoitecer da existência, quão pouco
é necessário para um sujeito virar costas a década e meia de uma existência
partilhada, com três frutos, por vezes, dou por mim a reflectir naquelas eternidades
emolduradas sobre qualquer mesa, prateleira ou camilha… Se hoje, por
circunstância esquecida, entrasse naquela casa, reencontraria as fotos do
outrora luzente casal? Ou, no seu lugar, o vazio irrecuperável de década e meia
de uma existência partilhada, com três frutos…
Livros do Escritor
quinta-feira, 6 de agosto de 2026
Silhuetas
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