Livros do Escritor

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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Silhuetas


 

Há casais que, à primeira vista, parecem estar fadados ao para sempre, como se imunes a qualquer força de desunião, hoje sei a falácia deste raciocínio, tudo se desmorona sob o céu, até a vida, a memória de uns vizinhos, durante uns tempos, pareciam a ideia caminhante de felicidade, não havia mês em que o fotógrafo lhes batesse, pelo menos, uma vez, à porta, para mais uma sessão de sorridentes eternidades emolduradas, por circunstância esquecida, entrei em casa deles, sobre qualquer mesa, prateleira ou camilha, pontificava uma fotografia do luzente casal, poses ensaiadas, sorrisos plásticos, entreolhares perpetuados, não sei porquê, mas uma ideia, “teatralidade”, desceu-me ao pensar, olhei-os e percebi o abismo entre gestos trocados e as imagens eternizadas sobre mesas, prateleiras ou camilhas, a primeira nota dissonante foi a exasperante lentidão da chegada do primeiro fruto de tão sublime amor, após a lua.de-mel, em destino de postal, como não podia deixar de ser, com fotos, mais fotos, ainda umas quantas, rumo à eternidade, os hipotéticos avós, de ambos os lados, em ânsias de saber “Então, para quando? Estão a deixar passar muito… Se o problema é dinheiro… Não queres mudar de médico?”, o questionar ininterrupto, sobretudo aos fins-de-semana, só lhes agudizou a ansiedade, ambos desejavam ardentemente o fruto daquele sublime amor, bom, em verdade, ela mais ansiosa de preencher os vazios que se lhe somavam no quotidiano, ele não perdia oportunidade de uma escapatória para brincar com os amiguinhos, de facto, é isso mesmo de que se trata: “brincar com os amiguinhos”; simplesmente, com o tempo, os brinquedos mudam, o entusiasmo com que se abraçam as actividades subsiste: carros, desporto, almoçaradas, jogatanas, tudo ao encontro de redescobrir o menino que algures ficou pelo caminho; como cedo iniciou esta caminhada de felicidade, precoce foi a sua despedida das brincadeiras da segunda meninice, tudo se concentrava nela, quando a bola todos atrás da bola, na rua, e o seu nome ecoava, ele encolhia os ombros, com uma desculpa, logo corria para os braços dela, quando, de noite, uma festa de aniversário ou por qualquer outra circunstância, nem vestígios da sua presença, de mãos dadas, no cinema ou em casa, a assistir a um filme, enquanto lhe segredava palavras de amor, os vazios que acumulamos devem-se essencialmente a duas coisas: o que perdemos ou, mais dilacerante, o que não vivemos por culpa própria; ele não aportou, pela sua escassez de intelecto, em nenhuma destas inferências, no entanto, a segunda palpitava em si, os lugares que se somaram à mesa, três, as exigências dela, crescentes, de lhe cessar as oportunidades de escapatórias para brincar com os amiguinhos, adensaram este palpitar, era-lhe habitual, no dia-a-dia, a fuga àquele controle, como a criança que não cumpre as ordens maternas, assim caminhava o seu sentir, um nítido regozijo interior, a vida é irónica, ele também ignorava este facto, de repente, começou a ouvir “o canto de uma sereia”, causadora de demasiados naufrágios, não era ele que a ouvia, mas sim aquele que, quando de noite, uma festa de aniversário ou por qualquer outra circunstância, nem vestígios da sua presença, de mãos dadas, no cinema ou em casa, a assistir a um filme, enquanto lhe segredava palavras de amor, quando deu por si, errado, as minhas desculpas, ainda está longe de atingir esta fase, continua sob a hipnose do “canto da sereia”, saltou do barco, surdo para o clamor dela, dos três lugares somados à mesa, das censuras dos avós-maternos, das apreensões dos seus pais, da indignação de alguns conhecidos, e mais um náufrago na costa daquela sereia, de momento, permanece com a expressão apatetada e embevecida de quem desconhece o anoitecer da existência, quão pouco é necessário para um sujeito virar costas a década e meia de uma existência partilhada, com três frutos, por vezes, dou por mim a reflectir naquelas eternidades emolduradas sobre qualquer mesa, prateleira ou camilha… Se hoje, por circunstância esquecida, entrasse naquela casa, reencontraria as fotos do outrora luzente casal? Ou, no seu lugar, o vazio irrecuperável de década e meia de uma existência partilhada, com três frutos…

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