Distância
O outro surge-nos, na maioria das vezes, de forma indirecta, ou seja, pela boca de quem nos rodeia, neste aspecto, confesso a minha independência de espírito, registo a informação, mas aguardo o necessário para retirar as minhas ilacções, felizmente nem sempre coincidentes com as bocas alheias, neste caso há uma ambivalência, a seu tempo lá iremos, ela despedia-se do Outono da vida, uma fase, desconheço a razão, em que quase tudo se releva e compreende, se há insistentes atrasos no trabalho (“Coitada! Já trabalhou que chegue! Quando chegar à idade dela, estarei bem pior… Temos de compreender. Muito bem está ela!”), se zarpa bastas vezes mais cedo (“Não quis dizer, mas deve ir ao médico… Talvez alterar a medicação… Algum problema que quis guardar para si… É muito discreta…”), certo é que alguém cumpriria o seu papel, quando apanhava gente manhosa, como este mundo é pródigo nesta espécie, os problemas multiplicavam-se-lhe, e ninguém escapa, na sua caminhada, a cruzar-se com estes dejectos, se, pelo contrário, era gente de bem, ela, claro, abusava, e adicionava o desleixo a uma crescente incompetência, aquele tipo de pessoa cujo aprumo se cinge ao visual, se, por exemplo, entrarmos no seu carro, concluímos haver pocilgas mais organizadas, para não falar da sua casa, sempre atrás de um cigarro, até no desempenho das suas funções, onde, como é natural, lhe era proibido tal vício, não raras vezes a mão, em nervoseira, atrás, secretária fora, de um omisso salvífico cilindro, nem se apercebia deste facto, pagava uma renda, de longa data, por um agradável apartamento, só que as coisas nunca nos chegam, o mais é a porta da maioria dos problemas, confidenciou, às duas colegas mais próximas, durante a hora de almoço, que deixaria de pagar renda para tomar conta do pai, o seu subterfúgio para regressar à casa paterna, caiu-lhes mal, por acaso, ambas já o tinham visto, não obstante a filha em despedidas do Outono da vida, o Inverno não retirou lucidez nem energia ao pai, por conseguinte, muito distante da exigência de cuidados, poucos meses depois, ela deixou a casa onde viveu, durante décadas, onde pagava uma renda de outros e bons tempos, e cumpriu o seu desejo, a questão que pairava nas mentes mais próximas (“…muito distante da exigência de cuidados…”) acabou por se estender ao seu único irmão, bastante desagradado com facto de ela se escudar de uma renda sob o tecto paterno, assim sendo, interveio e chamou a atenção do pai para o absurdo e a injustiça da situação, o octogenário, como sucedeu, demasiadas vezes, ao longo da vida, ouviu o filho, um caso singular, é sabido que os pais tendem para as filhas e as mães para os filhos, acabou por confrontar a filha e a situação tornou-se insustentável, se há coisa que a idade apura é a ruindade, ela viu-se, de forma inequívoca, obrigada a deixar o tecto paterno e a pedir abrigo, por uns tempos, a uma colega, também de bastos grisalhos, cuja companhia eram dois gatos, por norma, a partir de certa idade, quando uma mulher não tem companhia masculina, os gatos entram em cena, como se um declarar, sem verbo, de frustração, nunca o compreendi, mas, em verdade, estes dois aspectos são quase indissociáveis, escrevi, em tempos, que “a proximidade aguça as arestas,” talvez os gatos começassem a queixar-se de falta de espaço, o inoportuno cigarro, volta e meia, a fazer sentir-se, por fim, o facto de ser aquele tipo de pessoa cujo aprumo se cinge ao visual, tudo somado, passadas três semanas, a colega deu-lhe a entender que não dava mais para ali continuar, ajudou-a a encontrar, uma senhora de confiança, que lhe alugasse um quarto, de uma casa com espaço inversamente proporcional à renda, ao malogro do regresso à casa paterna, uma fugaz passagem pela casa da colega dos gatos, até desembocar num quartito alugado na casa de uma idosa, será escusado realçar que, pelo meio, foi perdendo – o termo exacto para quem deixa algo contra a sua vontade – os seus pertences acumulados ao longo de décadas (mobílias, electrodomésticos, louças, roupas, calçado, utensílios pessoais, não coloco livros, não me parece fazerem parte da sua geografia pessoal…), de repente, uma casa espaçosa cabe numa mala, ninguém ouse predizer o rosto do amanhã, um velho que, ao adiar as partilhas, julga adiar a morte, um irmão, só no papel, movido pela ganância, e uma mulher, cujo aprumo se cingia ao visual, que se esqueceu de viver num mundo somente pródigo em gente manhosa.

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