Rua do Sol

 



Hoje vi-o, passeio fora, orgulhoso, com uma bicicleta pela mão, notava-se-lhe o tempo, mas, ainda assim, apresentável, percebi, de imediato, o destinatário, a essa hora olharia o quadro, verde, diante de si, talvez com uma frase para decompor ou uma conta de multiplicar, uma mão suportava os sonhos que lhe enchiam o pensar, enquanto a outra (com um lápis? Uma caneta?) fingia interesse pelo que se passava no quadro, àquela hora (aproximava-se o regresso a qualquer coisa de nome lar) as escassas refeições do dia empurravam-no para um sono crescente, andava por aqui há pouco mais de meia dúzia de anos, contudo, aprendera que o encolher do estômago é proporcional ao alargar dos sonhos, nisto uma frase estridente fá-lo regressar-se e estremecer Perceberam, meninos? Ele a formular uma surda questão para si Perceber o quê? Os sapatos que, de tão apertados, mal lhe permitiam caminhar, quanto mais correr atrás de uma bola, as calças que se cobriam de remendos, o casaco anacrónico que insistia em não se fechar, e o incessante apelo do estômago, a relembrá-lo que o almoço já nem uma memória, porém, quando a imagem do lar se levanta no pensamento, algo se subtrai em si, um não sei bem o quê, talvez o desencanto pelas migalhas, que caíam da mesa, oriundas de um pão nascido num tão ontem, e a tosse da mãe, ininterrupta, obstinada, a ecoar há tanto, dias e noites infindos, o pai a ruminar desconforto assim que a mãe retomava aquele incessante monólogo, embora lhe soubesse as raízes, foi numa consulta de há tanto, na memória apenas a imagem de uma bata, de um estetoscópio e de uma frase, Tussa uma vez mais, por favor... Não, isto… Desculpe, volte a tossir. Outra vez! Bom, vou prescrever-lhe aqui uns exames, recomendo que os realize o mais depressa possível. Calma! Não é nada de alarmante. Temos é de despistar todas e quaisquer possibilidades, contudo, o tempo seguiu o seu curso, a tosse intensificou-se, e dos exames apenas as prescrições, em cima de um móvel, na salita de jantar, com uma considerável quantidade de pó em cima, assim que deixaram o consultório, ele Vais ver que isso não é nada! Esses médicos gostam é de nos amedrontar! E onde é que íamos arranjar dinheiro para esses exames? Ela, coitada, ainda a dobrar os impressos, quase envergonhada por ali estar o seu nome, embora mal o soubesse soletrar, a guardá-los num qualquer canto de si, a murmurar Sim, tens razão. Isto deve ser do pó que anda pelo ar. Afinal, nunca mais chove! Ultimamente, andava com um lenço, não queria que soubessem que a tosse, nestes últimos tempos, fazia-se acompanhar de sangue e cuspo, ainda o médico se lembrava de perguntar pelos últimos exames, e ficam tão bem, em cima de um móvel, na salita de jantar, com uma considerável quantidade de pó em cima, pois, certamente ainda prescrevia mais exames, e, desde há uns meses, talvez já alcance o semestre, um cansaço a tolher-lhe os movimentos, percebeu melhor isso quando, ao passar a esfregona, pelo último degrau, de um dos prédios que tem a seu cargo, lá fora já a noite, quando antes o sol ainda lhe chegava aos pés, a crescente dificuldade em se dobrar pelo balde, e o lenço que lhe gritava, numa espiral demasiada, sangue e cuspo, ele esperava-a no passeio, chegado de um qualquer biscate, hoje com uma bicicleta, notava-se-lhe o tempo, mas, ainda assim, apresentável, assim que o viu, percebeu, ele a não refrear o entusiasmo Achas que o miúdo vai gostar? Ela anuiu, de imediato, na sua memória, neste momento, a súplica do filho, enquanto ela com a louça, após uma quase refeição, o miúdo a aproximar-se, em passos cautelosos, Sabes, mãe, eu gostava tanto de ter uma bicicleta, uma dor sem voz atravessou-lhe a alma, fitou-o com uma ternura compadecida, Hás-de ter uma, Hás-de ter uma, não se recorda onde lhe nasceu a frase, se na dor, se na vontade, contudo, apesar das costas, da hora tardia, do cansaço, do lenço escarlate que teimava em ocultar, só lhe restava inclinar-se para o acolher nos braços, se tanto se debruçava por um balde, dias a fio, degrau após degrau, como não o fazer com o filho? Neste momento, caminhavam, passeio fora, os dois, ele, muito direito, com a bicicleta pela mão, como se empossado de um qualquer nobre desígnio, ela imperceptivelmente mais atrás, talvez um ou dois passos, volta e meia, afagava a zona lombar, afinal, quantas vezes, nessa tarde, se dobrou por um balde e uma esfregona? A certa altura, ela parou, não sei se por cansaço, se pela dor, se a memória de um frigorífico despido, se para olhar melhor a bicicleta, se para lhe exprimir orgulho, afinal, ele, muito direito, como se empossado de um qualquer nobre desígnio, e, de facto, como era verdade, há desígnio maior que atender uma súplica que se aproxima, de nós, em passos cautelosos?

Comentários

Mensagens populares deste blogue

A Porcachona e o Tintim

O Bugs Bunny

A Nininha