Rua das Açucenas
Não regressava, há cerca de seis meses, ali, à rua das Açucenas, mais precisamente ao rés-do-chão, daquele segundo prédio, do lado direito, caminhava a olhar a calçada, pelo seu pensar, a conversa de há pouco, ele tão insistente “Não precisas de ir sozinha, eu arranjo um tempinho e acompanho-te… Bem sei o que a tua avó significava para ti… Não te fará bem regressares só àquela casa… Tantas recordações te esperam… A memória ultrapassa-nos sempre…,” na altura, não ligou muito, era um desafio que teria de enfrentar, tinha isso presente e determinou-se a tal, no entanto, esta frase não a abandonou “A memória ultrapassa-nos sempre…,” nem parecia dele, pouco dado a tão profundas reflexões, do telemóvel para um écran, de um écran para o telemóvel, a certa altura, ambos se acomodaram à relação, dobrara a meia década, não havia exigências, por exemplo, entre eles, de filhos, de forma alguma se queriam aprisionar a tão exigente projecto, lá se lhes ia o tempo, um bem que ambos gostavam de desfrutar, a citadina esplanada ao final da tarde, conversas redondas, pejadas de vocábulos arreigados, para serem ouvidas pelas mesas em volta, ao chegar a casa, o único horizonte dela o sofá e um livro onde se debruçar, ele, já sabemos, do telemóvel para um écran, de um écran para o telemóvel, não havia, de facto, tempo para biberões e noites sem dormir, avessos a desporto, detestavam suar e sofrer, não se censuravam pelos quilos a mais e a avolumada cintura, como se o outro lado da equação, detestavam praia e calor, preferiam neve, cinema, enfim, qualquer espaço-fechado com um bom ar-condicionado, ela não se furtava aos seus salgadinhos, rissóis no topo da lista, ele não resistia a doces, bolo de bolacha o seu eterno número um, pelo aniversário, a sua mamã nunca se esquece de lhe trazer essas cores da meninice, não se coíbe de reiterar: “Ninguém faz um bolo de bolacha como a minha mãe!”; ela acha ternurento, um bom filho, à partida, será um bom marido, embora, por enquanto, sejam apenas companheiros, o facto de a relação não estar formalizada num papel, dá-lhe uma aura de aventura, sem nunca o terem verbalizado, viam os nomes num papel como o fim da caminhada, apesar de ambos avessos a esforços físicos, havia “caminhadas” que gostavam de desfrutar, conheceram-se através de amigos comuns, ela viu-o como um cromo das informáticas, desprezava visceralmente esse mundo, ninguém é imune à atenção que nos é concedida, às questões sobre o nosso universo, neste aspecto, ele foi pródigo, seduziu-o aquele folhear anacrónico de páginas, a forma de a sua alma se debruçar sobre um livro, parecia estar perante uma pintura, nunca lhe confidenciou esta última inferência, guardou-a para si, lá num canto muito seu concluiu, no seu devido tempo, não haver necessidade de partilhar tudo, face a tanta deferência, ela sentiu-se impelida a retribuir, começou pelas margens, a razão do fascínio por écrans, ele inverteu o espelho: de onde a razão do fascínio por livros? Resposta, tornada questão, inteligente, apreciou-o, nunca, em momento algum, resvalava para a falta de educação, independentemente do contexto, outro aspecto enaltecedor, assim que um palavrão pelo ar, ela em repulsa, nada havia de catequético nesta sua aversão, se uns têm asco a tabaco ou álcool, no seu caso deu para isso, foi uma silenciosa forma de seleccionar companhias, quem lhe servia para acompanhar os passos ou não, nem sequer atribuía a escassez de intelecto ou vocabular, nada, apenas uma repulsa lá muito sua, em verdade, nunca se debruçou sobre a sua génese, talvez por se considerar no caminho certo, ele sempre foi um sujeito pacífico, logo pouco dado a fúrias, daí a raridade do vocabulário resvalar para extremos, se, de repente, agora, enquanto caminha, a olhar a calçada, alguém a abordasse para questionar se, em algum momento, estivera apaixonada por ele, a sua resposta, primeiro pela surpresa, nunca havia pensado nisso, depois pela verdade, seria hesitante, entrecortada, por fim, um sumido “Não…,” não havia, neles, vestígios de tais labaredas, foram-se acomodando um ao outro, como quem se ajeita a um lugar, por gostar de ali permanecer, no rés-do-chão, daquele segundo prédio, do lado direito, havia, por todo o lado, marcas intemporais dessas labaredas, houve quem afirmasse peremptoriamente que a avó partira de tristeza, volta e meia, lia-lhe algumas passagens de cartas do marido, era comum, quando estava longe, escrever-lhe, e como se dava bem na arte de juntar palavras, numa das passagens chegou a redigir-lhe “Jurei, em certa ocasião, para mim mesmo, fazer-te sorrir sempre: deste-me o teu mais precioso bem: o teu tempo! Como poderia desperdiçar tal dádiva?!” A velhota suspendia a leitura e olhava a janela, ela baixava os olhos, por ali, nem vestígios de se acomodarem um ao outro, pelo contrário, tudo tão distante de si, uma longínqua realidade, denotava-lhe uma crescente dificuldade em respirar desde que o avô deixara uma promessa a meio, a leitura de algumas passagens, das inúmeras cartas, ajudavam-na a senti-lo mais próximo, mas nunca o suficiente, a Dor é pródiga a encontrar uma porta, assim que a noite caía, após a partida da neta, a solidão ameaçava esmagá-la, certa manhã, encontraram-na, com uma das cartas na mão, a olhar para a janela, muitos testemunharam-lhe um sorriso, se, hoje, lhe repetisse a questão: De onde a razão do fascínio por livros? A resposta sair-lhe-ia pronta: “Uma janela onde encontre alguém que me dê o seu mais precioso bem: tempo.”

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