Estás aí?



Sempre que passo na rua dela (no fundo, todos temos uma rua, não é verdade?), o meu olhar, como se uma inevitabilidade, fixado na sua janela, numa imortal esperança de que assoma, à noite, não sei porquê, a esperança reforçada, tantas vezes lhe imaginei a silhueta, talvez pela janela iluminada, de facto, só eu e a rua deserta, nem o tradicional rafeiro por ali deambulava, em busca dos despojos de solitários jantares, dou por mim a pensar quantos, a essa mesma hora, perscrutam janelas na esperança de uma silhueta, a questão evola-se, só me interessa a minha circunstância, como desejava ali a reencontrar, em verdade, que os anos atravessassem outros caminhos, jamais esta rua, tudo permanecesse intacto, numa aura miraculosa, primeiramente eu, aqui reside o maior paradoxo, pois eu sou outro, de mim só o desejo subsiste (mas não este será parte da minha essência? Então, como poderei ser outro?), a rua, estranhamente, afigura-se-me a mesma, só os carros testemunham o rio do tempo, pois são do hoje, de outra forma, tudo igual, até a sua janela, onde os meus olhar e sentir fixados, se, por magia, ela surgisse, por detrás dos vidros, e, com o olhar, me procurasse, como lhe era habitual, eu, de pronto, deixava o carro, pedia-lhe para descer, primeiro com um espontâneo gesto, depois viriam as palavras, nascidas do sentir, jamais pensadas, logo que ela, diante de mim, no passeio, sob a irrealidade da luz proveniente de um lamuriento candeeiro nocturno, eu fascinado, de novo, ali, à minha frente, o seu rosto, não queria a sua história, só o seu presente (Como se tal fosse possível?), dir-lhe-ia para tudo esquecer, tínhamos a noite, viajaríamos ao acaso (Se Norte ou Sul? Uma irrelevância…), por fim, de novo, juntos, apenas cumpríamos o nosso destino, soube, a determinado ponto do meu caminho, que assim seria, a única melodia, da noite, que me interessava, era o melodiar da sua voz, nada mais, tão estranho, ela, a meu lado, e eu parti, de forma involuntária, ou, quem sabe, uma força incógnita, de uma dimensão minha, para aí me impelisse, um qualquer ponto onde pudesse assistir a tudo, eu um fantoche de mim mesmo, orientado para meu deleite, ou talvez tudo uma outra coisa, simplesmente incapaz de vislumbrar, de perto, o rosto da felicidade, forcei-me por regressar, não, não queria distância, pelo contrário, desejava tactear cada instante do seu rosto, inspirar o seu olhar até ao fim dos tempos, se me perguntassem, neste momento, que direcção tomei, não saberia o que responder, íamos ao sabor da madrugada, só desejava que esta noite não encontrasse a manhã, se pudesse extirpar o ontem de mim, ela desejava ainda mais, muito mais, pelo menos, o amanhã afigurava-se-nos uma irrealidade, ambos queríamos presente, que a noite nos cobrisse o ontem e iluminasse os sonhos do agora, tantos destinos idealizados e nem um me surgia, ela  falava de si sem se dar a conhecer, estranha capacidade, um ligeiro frio da madrugada pelo interior do carro, provavelmente uma impressão, eu ouvia, ainda sob a hipnose do fascínio, embora ansiasse por uma outra forma e um tão distinto conteúdo, parte de mim, sagaz, permaneceu da distância a observar-nos, talvez a sua partida não fosse assim tão involuntária, a que hoje desceu e está a meu lado não é a mesma do ontem, até a silhueta era mais delgada, sorria com tanta facilidade, detinha um olhar matinal, tão longínquo deste nocturno olhar que agora contemplo, pelo menos, é essa a imagem que perdura na minha memória, questiono-me se a criei, um indizível receio a nascer-me, não por acaso parte de mim na distância a observar-nos, de um ponto elevado, mais próximo das ideias, eu, por aqui, a confrontar-me com a aspereza da realidade, na lonjura do ideal, regressei a mim, já não a ouvia, ansiava tanto por forma e conteúdo distintos, compreendo, num tão doloroso custo (equivalente à morte de um sonho), que ela continua, no ontem, atrás da janela, a acenar-me, foi quem eu sempre quis, a meu lado, rumo a um horizonte onde a circunstância jamais nos encontrasse, porque até o mundo parecia invejar ao ver-nos juntos, não com esta, uma cópia descolorida, que só me relembra, a cada instante, o quão perdido estou, por não aceitar que o rio do tempo percorra todos os caminhos da vida.


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