Sempre que aquela música na rádio,
ele assumia um ar circunspecto, como se não a ouvisse, ou lhe fosse
indiferente, porém, era precisamente esse véu de gravidade a denunciar-lhe os
passos do sentir, isto sucedia com mais frequência no carro (afinal, em que
outro lugar, do hoje, se ouve rádio?), nesses momentos, olhava a minha vida de
uma qualquer janela, como se de uma ilusão se tratasse, tão estranho, ele ali,
a meu lado, a conduzir a caminho de casa, e a canção, interminável, a povoar o
silêncio que, de súbito, se abriu entre nós, enquanto os melosos acordes
ecoavam, eu a olhar calçadas e transeuntes, como se tal me interessasse, logo
eu que tão pouco reparava nos outros, e a canção, interminável, a certa altura,
já nem posição tinha, de tanto me obrigar a olhar a janela do meu lado, nunca
soube se ele se apercebia do meu esforço (pela janela), do meu súbito
desconforto, do silêncio que a música nos legou, eu persistia a olhar, através
do vidro, gentes, passeios, montras esconsas, creio, em verdade, que, assim que
os acordes se repercutiam no interior silenciado do carro, ele desacelerava,
como se quisesse eternizar o momento, ou talvez fosse apenas uma impressão,
fruto de um sentir enciumado, pois, quiçá, num qualquer canto de mim, tacteava
por palavras para traduzir esta raiva que, talvez por orgulho, repetidamente
insistia em calar, conheci-o ainda com ela, embora, amiúde, ouvisse que as
coisas, entre eles, já distantes de dias solares, lembro-me vagamente de os
ver, de mão dada, a descer a rua, ele sempre muito direito, quase cerimonioso,
com um ar de realizado, parecia olhar o mundo do cume de si, ela, não sei
porquê, dava-me a impressão de algo enfadada, enquanto ajeitava o cabelo,
olhava à sua volta, como se procurasse uma porta de saída daquele quadro onde a
emolduraram, pelo que consta, foi ela a deixá-lo, queixava-se de falta de
atenção, tempo, sentia-se sempre em segundo plano na sua vida, tudo por causa
do trabalho, ouvi dizer que, certo dia, ela ter-lhe-á dito Tu és obcecado pelo teu maldito trabalho! Ele, coitado, de ombros
encolhidos, parece que ainda esboçou uma possível defesa Mas como é que queres, amanhã, que eu sustente um lar? Com sonhos? Depois
desta amarga troca de palavras, a relação deles conheceu a noite, e começaram a
caminhar em direcções distintas, entretanto, amigos comuns apresentaram-nos,
empatizei, de imediato, com ele, gostei da aparente tranquilidade que
transparecia, conciliada com uma notória maturidade, trabalhava com números num
qualquer departamento financeiro, havia nele qualquer coisa que, nitidamente,
transmitia a sensação de que os nossos pais ficariam orgulhosos assim que o
conhecessem, como se, em verdade, tal fosse levado em conta, contudo, afagava o
sentir, de certa forma, parecia que cumpríamos um sonho plural, e fica sempre
bem, além de que, pelas temáticas das conversas, aparentava ser bem mais velho
que nós, bolsas, câmbios, divisas,
inflacção, crédito mal-parado, nasdaq, deflacção, mercados internacionais, e
sempre de gravata… Fascinava-me com as suas gravatas! Como se, de alguma
forma, me anunciassem: Bem-vinda ao mundo
dos adultos! Certa tarde, acho que os nossos amigos, propositadamente,
deixaram-nos sozinhos no café, percebi, às primeiras confidências, e num
flagrante contraste com a sua imagem exterior, calça de fazenda, a camisa
imaculadamente engomada, e, pois, a gravata, sempre de gravata, quão
interiormente estava desarrumado, nem vislumbrava como preencher o vazio que
ela lhe deixara, ainda se tratasse de crédito
mal-parado, nasdaq, deflacção, ou mercados internacionais, mas não, apenas
o domínio do sentir humano, a certa altura, o seu olhar perdia-se com a entrada
do café, como se numa súplica inarticulada por um regresso, porém, manteve a
postura e procurou maquilhar súplicas inaudíveis, lentamente fomos mitigando
solidões, acho que ele se enternecia com a minha espontaneidade, com a
sonoridade do meu riso, tão distante do formalismo opaco da sua gravata, até
que, certa tarde, talvez fosse Domingo, a gravata suscitou, lá por casa, os
mais rasgados sorrisos no rosto dos meus pais, enquanto o cumprimentavam,
olharam-me com um indisfarçável orgulho, só faltava oficializar a união, já
que, pelos vistos, o Sim deles estava proclamado, ainda demorou
algumas semanas até ao namoro, houve uma altura, confesso, em que a visão da
omnipresente gravata me assustou um pouco, olhei, de repente, o futuro e só
vislumbrei um contínuo cinzentismo, logo eu que sempre gostei de cor e risos,
contudo, há sempre alguém, à nossa volta, incomodado com o som da alegria, no
meu caso, uma conhecida, não, nunca a denominei de amiga, e não pensem que é
despeito da minha parte, simplesmente nunca a considerei tal, por acaso, estava
certa, Sabes que os vi a conversar? Ouvi
dizer que ele ainda não a esqueceu… Atenção: não penses que te quero magoar!
Apenas que estejas atenta… Mas, pelo que ouvi dizer, ela é que não quis voltar
para ele. Há um determinado tipo de gente, não obstante a sua baixeza, que
possui uma notória clarividência do mapa da dor, como se uma acuidade onde mais
nos magoa, aquilo feriu-me tanto que permaneci impassível e anestesiada, acho
que foi o melhor véu para as suas intenções, neste ponto, entreguei-me ao
tempo, sem saber bem o porquê, muitas vezes é o mais sensato a fazer nesta
coisa da vida, afinal, ninguém arruma melhor o que vive debaixo do céu, só
quando aquela música na rádio, ele a assumir um ar circunspecto, como se não a
ouvisse, ou lhe fosse indiferente, porém, era precisamente esse véu de
gravidade a denunciar-lhe os passos do sentir, ou talvez tudo fosse fruto de um
ciúme desordenado, todavia, uma questão sombreava-me os passos, apesar dos mais
de dez anos de casamento, dos dois filhos, da omnipresente gravata, da
seriedade do seu semblante e gestos, das conversas próprias do mundo dos adultos,
onde, felizmente, eu quedava-me somente pela soleira da porta (bolsas, câmbios, divisas, inflacção, crédito
mal-parado, nasdaq, deflacção, mercados internacionais…), e se ela não lhe
tivesse virado costas? Nesses momentos, sentia-me um resto, uma segunda
escolha, actriz secundária de um guião oculto, pois, olhava a minha vida de uma
qualquer janela, como se de uma ilusão se tratasse, por vezes, na intimidade, a
canção a ecoava em mim, abria os olhos para ver se, também nesses momentos, ele
com um ar circunspecto, porém, mantinha-se de olhos fechados, talvez a canção
só em mim, quem sabe se fruto de um sentir enciumado, houve vezes em que
finquei os dedos nos lençóis, como se procurasse ancorar-me ao aqui, na
esperança de silenciar uma canção que nunca me pertenceu.

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