Livros do Escritor

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sexta-feira, 13 de março de 2026

Uma marquesa a caminho de Tavira


A maior parte do tempo esquecemo-nos de viver o presente, preocupações, sonhos por realizar, cansaço, a voragem do dia-a-dia, enfim, o drama da vida contemporânea, no entanto, só quando um facto, iniludível e dramático, se anuncia no amanhã, é que fincamos os pés no presente, saboreando cada instante, como se o futuro apenas uma ilusão, há décadas que ocupava, através de um subaluguer, uma salita, se assim se pode denominar uma divisão, de oito metros quadrados, numa cave, quase inteiramente ocupada por uma marquesa, onde mitigava dores articulares, endireitava colunas e derramava o seu “saber”, bom, este último conceito é, sem qualquer dúvida, bastante controverso, não por acaso era conhecido como o Mestre, havia quem, de facto, se deitasse na marquesa só para ouvir as suas histórias, únicas, inolvidáveis, dignas de figurar em qualquer compêndio de actos de bravura, as más-línguas, como é evidente, escarneciam e questionavam a sua veracidade, pura inveja, nada mais, quem, no seu perfeito juízo, ousava colocar em causa a palavra do Mestre? Desde a travessia do Tejo, na foz, debaixo de água em apneia, às incursões aéreas, em território inimigo, durante a guerra colonial, enquanto piloto, ou realizar elevações, durante uma tarde inteira, para gáudio dos espectadores que se avolumaram com o decorrer das horas, tudo em palmas e espanto perante aquele titã descido dos céus, sem esquecer os múltiplos corações despedaçados e suspirantes que foi deixando à sua passagem, a verdade é que muitas chegavam cambaleantes e curvadas, num dramático esforço lá desciam a escada e, como se por milagre, volvida menos de uma hora, era vê-las renascidas, alegres e a correr escada acima, se alguém, má-língua ou não, ousa escarnecer e questionar a veracidade destes factos, estou cá eu para categoricamente os asseverar, quando algo lhe desagradava, com a sua voz arrastada e cavernosa, invocava um camarada de armas, “Cheira mal… Cheira muito mal…”, certo dia foi confrontado com a notícia de que a sua marquesa teria de abandonar a divisão, de oito metros quadrados, numa cave, pensou “Cheira mal… Cheira muito mal…”, mas não verbalizou, o espaço ia para trespasse, ironia do destino seria também para mitigar dores articulares e endireitar colunas, inferiu, desde logo, que os seus préstimos seriam mais do que imprescindíveis, como podem testemunhar as dezenas, perdão, centenas, que chegavam cambaleantes e curvadas, num dramático esforço lá desciam a escada e, como se por milagre, volvida menos de uma hora, era vê-las renascidas, alegres e a correr escada acima, continuou os seus afazeres, na salita, de oito metros quadrados, quase totalmente preenchida com a marquesa, a questão do encerramento do espaço não era tema de conversa, de forma tácita foi remetida para o silêncio, mediante quem se deitava na marquesa escolhia o tema das suas narrativas, ora a incansável história da travessia em apneia, ora enumerava os milhares de livros lidos, o pai detentor de uma biblioteca só com rival na de Alexandria, se alguém mais ousado colocasse uma questão específica sobre determinado autor, fungava uma vez, duas, ainda uma terceira, e sua voz arrastada e cavernosa logo “Esta contractura tem de ser debelada…,” quem, perante este alerta, “Esta contractura tem de ser debelada…,” ousaria lembrar-se de um autor e das suas obras? A atenção, de imediato, focada na génese das tão incómodas dores, se, desde cedo, o Mestre se viu perante tão rica e sumptuosa biblioteca, é natural o seu vastíssimo conhecimento, só o seu pai detinha seis licenciaturas, quatro mestrados e três doutoramentos, ou quatro doutoramentos, três mestrados, pois, talvez fosse por aí, os seus três irmãos todos engenheiros destacadíssimos em diferentes áreas, ele simplesmente o Mestre, tudo estava dito, nem uma sílaba a mais, já antevendo crises climáticas e numa medida deveras ecológica, passou a realizar a sua higiene nos balneários daquele espaço, escusava assim de gastar água em casa, o ambiente não podia estar mais grato, o tempo, esse estranho que incessantemente nos ilude, passou, até que, sempre mais cedo que o expectável, o dono do espaço alerta-o de que, no dia seguinte, teriam de retirar tudo, uma fungadela, duas, ainda uma terceira, e “Cheira mal… Cheira muito mal…”, à sua frente apenas vislumbrou um conformado e sofrido encolher de ombros, como décadas se evolam num instante?! Na manhã seguinte, alguns curiosos se avolumaram à porta a assistir à retirada das mobílias e para um derradeiro adeus, a verdade é que, desde sempre, se ilumina uma luz interior aquando da desgraça alheia, o homem e os seus paradoxos, começou cedo o trabalho, a manhã já ia alta quando só faltava retirar a marquesa da salita, se assim se pode denominar uma divisão, de oito metros quadrados, numa cave, bateram à porta, como resposta “Cheira mal… Cheira muito mal…”, uma segunda vez, como resposta, de novo, “Cheira mal… Cheira muito mal…”, dez minutos, vinte, chamaram o antigo arrendatário para intervir, a porta permanecia fechada, uma hora, uma hora e meia, perante tal intransigência, viram-se forçados a arrombá-la, incrédulos ficaram perante o cenário encontrado: o Mestre amarrara-se à marquesa; houve gritos, súplicas, a notícia subiu mais rápido as escadas do que as pacientes do Mestre, na rua já comentavam, a multidão duplicou à porta, uns minutos depois, triplicou, tudo numa crescente ansiedade para ver o desfecho, uma hora depois, dois indivíduos saíram com a marquesa onde permanecia o Mestre amarrado, houve palmas, gritos, choro, clamor, incentivos, aclamações, o povo num frenesim à vista do Mestre amarrado à marquesa, só quando a agitação serenou um pouco, a marquesa foi colocada, uns metros acima da porta, no passeio, o povo, de imediato, acorreu, um jovem aproximou-se e disse algo, o Mestre, ainda amarrado à marquesa, olhou-o e, com notória assertividade, disse-lhe: “Oh jovem, a falar com o Mestre, com as mãos nos bolsos?!”

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