Livros do Escritor

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sábado, 30 de maio de 2026

Carne-podre aos cães e cadelas

 


Chegou aquela altura do ano, neste canil, onde cada rafeiro verá se tem ou não recompensa pelos seus préstimos, entre as gratificações está o lugar que ocupam (ter cobertura, ser mais próximo da comida, entre outras regalias…), os passeios pelos campos adjacentes, muito apreciado entre os rafeiros – pois, de facto, neste canil só há rafeiros, mas todos têm direito à vida, como é sabido –, o número de desparasitações anuais, as possibilidades de adopção, para aceder a este leque de benesses, os rafeiros têm imperativamente de demonstrar a sua subserviência aos donos, neste caso, um casal, constituído por um idoso e uma mulher de meia-idade, a porta do canil abre-se, os rafeiros logo com as orelhas em alerta, surge-lhes a figura dela a arrastar um saco, o idoso uns passos atrás, velado por uma sombra, uma autêntica criatura das trevas, pelos ares do canil um pestilento cheiro a putrefacção, ela abre o saco e atira o primeiro pedaço de carne-podre, cai ao pé de uma cadela de nome Porcachona, não estava há muitos anos no canil, no entanto, destacara-se, de múltiplas formas, na serventia aos seus amos, foi lesta a abocanhar a carne putrefacta, essa cadela até os ossos engolia, nada lhe escapava, por algum motivo muitos questionam se anda ou rebola, o segundo pedaço de carne-podre caiu ao lado de um rafeiro conhecido por Tintim, esse tem muitos anos de canil, apesar da rafeirice, é um mamífero delicado, e, pelo que se constata, um fiel servidor das ordens dos seus donos, abocanhou a podridão que lhe coubera, ao contrário da cadela Porcachona, com delicadeza, até as varejeiras que cobriam o despojo se sentiram honradas, o terceiro pedaço de podridão foi parar ao lado de um rafeiro de nome Manguinhas, esse ladrava muito nas costas dos donos, porém, na sua frente é vê-lo a abanar a cauda e a rebolar para seu deleite, quem não se enterneceria com tal submissão?! Este rafeiro já avoluma uns anitos neste canil, sempre com o mesmo registo, ladra alto dentro de portas, mas assim que se abrem, é ver-lhe a cauda em movimentos-horizontais e a rebolar, o quarto pedaço de carne-podre caiu próximo de uma cadela Zarolha, tem poucos anos de canil, registe-se a meteórica ascensão, assim que os donos lhe decretam uma ordem, é vê-la a cumprir escrupulosamente, em correrias pelo canil a ladrar para os demais, gosta, pelo que se vê, de rafeiros velhos e obesos, e também gane muito nas costas alheias, nada de novo neste canil, o pedaço de carne-podre seguinte, o quinto, caiu em frente a uma cadela velha, não obstante o carácter rafeiro, uns laivos de cadela de raça inglesa, apenas isso, uns laivos (que fazer?), olhou o a carne-podre como se um não assunto, embora salivasse por todos os lados, não tardaria muito a retalhá-la, a sua volumetria assim o exigia, outra fiel servidora dos donos do canil, a sexta putrefacção quase atingia uma cadela que tinha uma coleira com uma cruzinha, de início ainda questionaram a possibilidade de donos, um logro, uma digníssima rafeira, assim que algum incidente pelo canil, é vê-la em correrias a ladrar à procura dos donos, talvez seja das cadelas que mais quilómetros por ali soma, um descanso para os seus amos, nada por aqueles lados ocorreria sem que esta cadela prontamente não lhes noticiasse, muitos outros cães e cadelas acabaram por receber o seu putrefacto naco, escusado será referir que muitas varejeiras foram engolidas por estes rafeiros, estão habituados a engolir o que os dignos vomitam, assim se sobrevive neste canil, o sétimo pedaço de carne-podre calhou a uma cadela que ladra sobre quem desconhece por inteiro, há múltiplas por ali, a providência aconselha cuidado, infelizmente, por estes dias, é dos fenómenos mais pródigos, cães e cadelas a ladrar sobre desconhecidos, coitaditos, entre portas todos ladram alto, agora se tiverem o infortúnio de estas se abrirem… Os donos olham estes rafeiros com júbilo, cumpriram o que lhes foi ordenado, mereceram o naco-podre, não fossem estes, outros haveria na ânsia de um lugar com cobertura, mais próximo da comida, entre outras regalias, e os passeios, claro, como estes cães e cadelas gostam de passear pelos campos adjacentes, para quem ignora como se gere um canil de rafeiros, aqui vos deixo este manual de instruções, quanto às varejeiras, como por estes dias se diz: “um infeliz dano-colateral”, nada que perturbe a digestão desta matilha rafeira.

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