Uma das coisas mais penosas, que ainda tenho
de cumprir, é ter de passar duas semanas, durante o Verão, em casa do meu
filho, se me pedissem para caracterizar essas duas semanas, suplício é a
primeira palavra que me surge, com uma nitidez irrepreensível, pois, como
dizia, duas semanas, durante o Verão, nem sei quando isto começou ao certo,
julgo que tenha sido depois de o meu marido… Uma punhalada que sinto, com
renovado vigor, cada vez que o seu rosto, nome, sentir, voz, gestos, sorrir,
ideias, se levantam na minha memória, porque, neste espaço do ontem, também uma
parte significativa de mim jaz, e se ergue, a seu lado, para de novo se diluir
sob a pesada evidência do ido… Mas, de novo, as tais duas semanas, que me fazem
deixar a minha casa, na minha querida terra que me apresentou o mundo, que tão
bem conhece o sal do meu rosto, corre pelo pão de cada dia, pela dor de ser, e
tão bem que lá estou, com as minhas coisas, os meus afazeres, a fiel companhia
dos meus vizinhos, salvo alguns que infelizmente já partiram ao encontro do
Criador, com o tempo, vamo-nos despindo de rostos, até que o espaço do viver se
torna na aridez de uma noite infinda, como compreendo os velhos largados em
lares, vivem num limbo, sem ontem, porque subtraído por incontáveis lamelas de calmantes
e analgésicos, sem amanhã, por já sentirem a fria carícia dos dedos da morte
pelo rosto, sem hoje, por uma visita que sempre se espera embora nunca chegue,
um acto de fé praticado com uma abnegação sem direito a réplica, porém, com um
resultado previamente sabido, como compreendo os velhos largados em lares,
regresso, contudo, a essas duas semanas, e o que me custa! O meu hoje cabe numa
mala, fossem duas ou quatro semanas, apesar de alguma dificuldade, sobretudo de
equilíbrio, consigo levá-la, é curioso, há uns anos, havia logo dois ou três
cavalheiros que se ofereciam para me levar a mala quando subia para o comboio,
agora, mais velha, nem um braço se estende na minha direcção, de facto, até a
educação querem que passe de moda… À minha espera, na estação da capital, como
sempre, filho, nora e neto. É o meu único filho, sempre fomos muito próximos
até que, certa tarde, pelo telefone, me disse, pela primeira vez, o nome dela,
logo aí, instantaneamente, sinto-o a recuar um passo, desde então, em relação a
mim, abraçou a distância, não sei porquê, na presença dela sinto-o nervoso,
parece sentir-se intimidado com quaisquer manifestações de ternura comigo, sua
mãe… Houve quem dissesse que eram coisas da minha cabeça, que estava a ficar
senil, ciúmes de mãe, por aí fora, mas não, não eram coisas da minha cabeça,
eram coisas do meu coração, e o coração não olha o mundo, o coração tacteia-o,
poucos percebem isto, o ver, sempre o ver, mas as coisas revelam-se-nos de uma
outra forma, é quando nos sentamos a ouvi-las que as compreendemos, talvez
sejam os meus cabelos brancos a falar no meu lugar, é possível, porém, não me
demovo desta minha convicção, o meu filho não é o mesmo desde que aquela mulher
entrou na sua vida… E que dizer da artificialidade dos gestos dela? Tudo numa
plasticidade excessiva, digna de palco, às vezes, aquelas vozes ecoam por mim, que são coisas da minha cabeça, que estava a
ficar senil, ciúmes de mãe, por aí fora, pois, não sei, ou talvez saiba,
afinal, o coração não olha o mundo, o coração tacteia-o. Não posso afirmar que
sejam descuidados comigo, longe disso, antes de descer da carruagem, já a minha
mala pela mão do meu filho, ela segura-me num braço durante os degraus, o meu
neto cumprimenta-me de imediato, anda pelos oito anos, moram num prédio
tristonho nos arredores, só cimento e carros, tantas vezes insisti que me
cansei (Meu filho, isto não é vida para
ninguém! Por que não voltas para ao pé de nós?), ele ria-se, ela já não, a
expressão endurecia-se com um traço de desprezo, tudo se jogava naquele espaço
inarticulado do silêncio, em que tanto nos dizemos, em que tanto nos gritamos,
se aí me demorasse creio que logo ensurdeceria de vez, ocupam um sexto-andar,
capituladas as formalidades iniciais, quando se esquecem as máscaras pelos caminhos
poeirentos deste mundo, o miúdo revela-se um pequeno tirano, a sua frase mais
corrente (Eu quero… Eu queria…)
deixa-me com a estranha sensação de estrangeira em terras afinal tão
longínquas, quando levanto os olhos para ver a reacção do meu filho, só
encontro uma expressão envergonhada, como alguém que ciosamente procurou
ocultar um fracasso, não intervenho, quedo-me, da minha varanda, a contemplar a
imagem de minha mãe lá longe, num ido de há muito, e, no fundo, de há tão
pouco, a sua voz a soletrar-me, numa dicção irrepreensível de tão musical, A menina nunca se esqueça: se faz favor! Quanta
saudade, meu Deus! Percebo o aval materno às investidas do pequeno tirano, com
aquela expressão plástica, indiciadora de que vai tudo tão mal, mas tão mal,
que realmente só resta o plástico, regresso à minha varanda, são só duas
semanas, passa rápido, quando der por mim, estarei no comboio de regresso à
minha querida terra que me apresentou o mundo, pode ser que um dia, talvez não
muito longe, o meu filho tropece numa máscara caída e compreenda que tudo cabe
numa mala.

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