Livros do Escritor

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quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Hoje o mundo cheira a terra molhada

 


Uma das coisas mais penosas, que ainda tenho de cumprir, é ter de passar duas semanas, durante o Verão, em casa do meu filho, se me pedissem para caracterizar essas duas semanas, suplício é a primeira palavra que me surge, com uma nitidez irrepreensível, pois, como dizia, duas semanas, durante o Verão, nem sei quando isto começou ao certo, julgo que tenha sido depois de o meu marido… Uma punhalada que sinto, com renovado vigor, cada vez que o seu rosto, nome, sentir, voz, gestos, sorrir, ideias, se levantam na minha memória, porque, neste espaço do ontem, também uma parte significativa de mim jaz, e se ergue, a seu lado, para de novo se diluir sob a pesada evidência do ido… Mas, de novo, as tais duas semanas, que me fazem deixar a minha casa, na minha querida terra que me apresentou o mundo, que tão bem conhece o sal do meu rosto, corre pelo pão de cada dia, pela dor de ser, e tão bem que lá estou, com as minhas coisas, os meus afazeres, a fiel companhia dos meus vizinhos, salvo alguns que infelizmente já partiram ao encontro do Criador, com o tempo, vamo-nos despindo de rostos, até que o espaço do viver se torna na aridez de uma noite infinda, como compreendo os velhos largados em lares, vivem num limbo, sem ontem, porque subtraído por incontáveis lamelas de calmantes e analgésicos, sem amanhã, por já sentirem a fria carícia dos dedos da morte pelo rosto, sem hoje, por uma visita que sempre se espera embora nunca chegue, um acto de fé praticado com uma abnegação sem direito a réplica, porém, com um resultado previamente sabido, como compreendo os velhos largados em lares, regresso, contudo, a essas duas semanas, e o que me custa! O meu hoje cabe numa mala, fossem duas ou quatro semanas, apesar de alguma dificuldade, sobretudo de equilíbrio, consigo levá-la, é curioso, há uns anos, havia logo dois ou três cavalheiros que se ofereciam para me levar a mala quando subia para o comboio, agora, mais velha, nem um braço se estende na minha direcção, de facto, até a educação querem que passe de moda… À minha espera, na estação da capital, como sempre, filho, nora e neto. É o meu único filho, sempre fomos muito próximos até que, certa tarde, pelo telefone, me disse, pela primeira vez, o nome dela, logo aí, instantaneamente, sinto-o a recuar um passo, desde então, em relação a mim, abraçou a distância, não sei porquê, na presença dela sinto-o nervoso, parece sentir-se intimidado com quaisquer manifestações de ternura comigo, sua mãe… Houve quem dissesse que eram coisas da minha cabeça, que estava a ficar senil, ciúmes de mãe, por aí fora, mas não, não eram coisas da minha cabeça, eram coisas do meu coração, e o coração não olha o mundo, o coração tacteia-o, poucos percebem isto, o ver, sempre o ver, mas as coisas revelam-se-nos de uma outra forma, é quando nos sentamos a ouvi-las que as compreendemos, talvez sejam os meus cabelos brancos a falar no meu lugar, é possível, porém, não me demovo desta minha convicção, o meu filho não é o mesmo desde que aquela mulher entrou na sua vida… E que dizer da artificialidade dos gestos dela? Tudo numa plasticidade excessiva, digna de palco, às vezes, aquelas vozes ecoam por mim, que são coisas da minha cabeça, que estava a ficar senil, ciúmes de mãe, por aí fora, pois, não sei, ou talvez saiba, afinal, o coração não olha o mundo, o coração tacteia-o. Não posso afirmar que sejam descuidados comigo, longe disso, antes de descer da carruagem, já a minha mala pela mão do meu filho, ela segura-me num braço durante os degraus, o meu neto cumprimenta-me de imediato, anda pelos oito anos, moram num prédio tristonho nos arredores, só cimento e carros, tantas vezes insisti que me cansei (Meu filho, isto não é vida para ninguém! Por que não voltas para ao pé de nós?), ele ria-se, ela já não, a expressão endurecia-se com um traço de desprezo, tudo se jogava naquele espaço inarticulado do silêncio, em que tanto nos dizemos, em que tanto nos gritamos, se aí me demorasse creio que logo ensurdeceria de vez, ocupam um sexto-andar, capituladas as formalidades iniciais, quando se esquecem as máscaras pelos caminhos poeirentos deste mundo, o miúdo revela-se um pequeno tirano, a sua frase mais corrente (Eu quero… Eu queria…) deixa-me com a estranha sensação de estrangeira em terras afinal tão longínquas, quando levanto os olhos para ver a reacção do meu filho, só encontro uma expressão envergonhada, como alguém que ciosamente procurou ocultar um fracasso, não intervenho, quedo-me, da minha varanda, a contemplar a imagem de minha mãe lá longe, num ido de há muito, e, no fundo, de há tão pouco, a sua voz a soletrar-me, numa dicção irrepreensível de tão musical, A menina nunca se esqueça: se faz favor! Quanta saudade, meu Deus! Percebo o aval materno às investidas do pequeno tirano, com aquela expressão plástica, indiciadora de que vai tudo tão mal, mas tão mal, que realmente só resta o plástico, regresso à minha varanda, são só duas semanas, passa rápido, quando der por mim, estarei no comboio de regresso à minha querida terra que me apresentou o mundo, pode ser que um dia, talvez não muito longe, o meu filho tropece numa máscara caída e compreenda que tudo cabe numa mala.

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