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Por fim, o sol obrigou-o a desviar-se. Olhou um ramo próximo. Admirava, agora, a graça com que se alongava, em contínuas multiplicações, numa harmonia de matéria e céu. Como se abraçasse o todo, e tangesse a impossibilidade. De súbito, levou a mão ao rosto. Contemplou as inscrições gravadas na palma. E, então sim, compreendeu… in Queria rever o teu rosto ao entardecer

Uma lágrima na palma da mão

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  Quando fechamos uma porta pela última vez? Esta e outras questões turvavam-lhe o pensar, enquanto rodava a chave. Após a quarta volta, insistia com a fechadura para se assegurar de que era a última, contudo, acabava sempre por repetir o processo, pelo menos, uma vez, ainda abanava a porta, por fim, afastava-se, antes com orgulho, pelo pão nosso de cada dia, pela satisfação dos clientes, por ser a obra da sua vida, ainda se lembra (há quantos anos?) de dizer à mulher Esta é uma zona de futuro! Ela reticente, afinal, teria de mexer naquela conta, tantas vezes ouvira da mãe Minha filha, é muito importante que preserves sempre uma almofada para uma emergência. Lembra-te: jamais saberemos o amanhã. Desemprego, um acidente, doença, uma qualquer fatalidade. Se preservares essa almofada, sempre terás onde te agarrar. Deus permita que não seja necessário, mas não se sabe… Nunca te esqueças: o futuro é irónico. Não te deixo muito, bem sei, mas sempre é uma ajudinha em dias de pão d´ontem...
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  Li uma vez, já não me lembro onde, que para fazermos Deus rir devemos contar-lhe os nossos planos. Mas, naquele tempo, nós éramos os próprios deuses. E ríamos bem alto… Até que os risos se tornaram um eco longínquo. Até o tempo o silenciar por completo. Até que, por fim, nos alimentamos de memórias do que fomos para nos esquecermos daquilo em que nos tornámos. Porque só olha para o passado quem sente o incómodo do presente.   in Queria rever o teu rosto ao entardecer

A rameira da mini-saia e o avôzinho-desnorteado

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Quem os visse, aos Domingos, a passear, no Campo-Grande, de mão-dada, apesar do abismo etário, acharia enternecedor, o avôzinho a procurar, no possível de si, relembrar à coluna a sua verticalidade, mas o apelo da Terra há muito se fazia sentir, volta e meia, o seu olhar na direcção do estacionamento, afinal, aí estava o descapotável, anacrónico, como não podia deixar de ser, comprado propositadamente para estas ocasiões, ela, a seu lado, sempre de mini-saia, compreensível, quando nada mais há para oferecer, só resta a carne, uma cara apatetada pontuada por duas órbitas-vazias, uma hora antes, cumpriu-se o rito domingueiro, após o almoço, saíam ambos do prédio, muito compenetrados, passada lenta, para toda a rua ver, ai de quem ousasse perigar a honra da mini-saia a seu lado, o avôzinho lá desatava a rosnar, houve quem pensasse estar com um   AVC, tal a espuma emitida entre lábios pelo avôzinho, alguns até se ofereceram para o ajudar a atravessar a rua, ninguém ia contestar as al...
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" ...  na crescente compreensão dos velhos, que ruminam incessantemente, com as suas bocas desertas, sonhos inconclusivos." in Queria rever o teu rosto ao entardecer

Queria rever o teu rosto ao entardecer - Pedro de Sá

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    O que amas nos outros? As minhas esperanças. A felicidade é impossível, porque há memória.   Friedrich Nietzsche     Índice     Partir……………………………………………………………………….4   Viajar…………………………………………………………………….25   Regressar……………………………………………………………….116   Partir   I Amanheceu monotonia. Há muito que não me lembro dos sonhos. Ouvi há tempos, alguém dizer que sonhamos sempre durante o sono. Não podia estar mais errado. E dessa certeza ninguém me demove. Mecanicamente, cumpri com as obrigações matinais, antes de enfrentar o desencanto de mais um dia. Antes de sair de casa, já da ombreira da porta, gritei um fugidio até logo. Como eco obtive: Tem um bom dia. Marta, minha companheira, tenho que introduzi-la desta forma, uma vez que não estamos documentados, respondeu-me assim, enquanto soterrava a nossa filha com agasalhos. Nunca compreendi a tendência para o excesso da maternidade. No fundo, talvez não que...