O que amas nos outros? As minhas esperanças.
A felicidade é impossível, porque há memória.
Friedrich Nietzsche
Índice
Partir……………………………………………………………………….4
Viajar…………………………………………………………………….25
Regressar……………………………………………………………….116
Partir
I
Amanheceu monotonia. Há muito que não me lembro dos sonhos.
Ouvi há tempos, alguém dizer que sonhamos sempre durante o sono. Não podia
estar mais errado. E dessa certeza ninguém me demove. Mecanicamente, cumpri com
as obrigações matinais, antes de enfrentar o desencanto de mais um dia. Antes
de sair de casa, já da ombreira da porta, gritei um fugidio até logo. Como eco obtive: Tem um bom dia. Marta, minha
companheira, tenho que introduzi-la desta forma, uma vez que não estamos
documentados, respondeu-me assim, enquanto soterrava a nossa filha com
agasalhos. Nunca compreendi a tendência para o excesso da maternidade. No
fundo, talvez não queira compreender. Aí reside a beleza virginal dos
mistérios. Essa aparente inacessibilidade a uma resposta. Mas é mera ilusão.
Porque, sei hoje, não há questões sem resposta: tudo parte de uma simples
mudança de perspectiva. E, então sim, assistimos ao desmoronar dos enigmas
espartilhantes. Mudar de perspectiva: trocar a segurança das certezas
apaziguantes pela vertigem elíptica da dúvida.
II
Vivemos num subúrbio da capital, onde sempre vi mais carros
do que gente. E mais gente do que pessoas. Saí para os primeiros acordes do
alvorecer. O laranja iniciava a sua luta pelos domínios do horizonte. O frio
dominante recordou-me a doçura da palavra lar. O Inverno preparava a sucessão.
A azáfama matinal, das diversas casas, derramava-se na rua. Era uma orquestra
de pratos, talheres, estalidos de torradeiras, bater de portas, furiosas
torneiras, autoclismos do Niágara, tudo sob o compasso de um grito omnipresente:
Despacha-te! Entrei no carro, que
ainda ostentava, orgulhosamente, o manto da madrugada. Era dos primeiros a
abandonar a praceta sonolenta. Bastava atentar nos poucos lugares vagos.
Desertores de uma triunfal parada mecânica. Entre ligar ou não o rádio, pensar
se queria notícias ou música, desembaciar os vidros, saber do telemóvel, dei
por mim já na auto-estrada e perante a inexorável fila quotidiana. Já me
habituara. Tempos houve em que praguejei, procurei percursos alternativos, mas
a conclusão foi apenas uma: desgaste de nervos e de travões. Agora, ia ao sabor
daquela vagarosa corrente metálica. Sabia que a jusante me aguardava uma foz
conhecida. Cedi à irresistível força do hábito. É espantoso como o nosso
instinto de sobrevivência anda a par com a nossa capacidade de capitulação. A
nossa vontade sucumbe perante os nossos mais elementares interesses. Por vezes
desconhecidos. Pensamentos deste género povoavam-me entre o travar e o
acelerar. Tratava-se da altura do dia mais propícia às minhas filosofices.
Sempre escolhi o visível em detrimento do invisível, o conhecido em vez do
desconhecido. Embora, em momentos idos, sonhasse com harmonias de alvores nunca
amanhecidos.
III
Tenho 43 anos. Sou bancário. Trabalho numa sucursal em Lisboa.
Marta tem 39 anos. É fisioterapeuta. Trabalha numa clínica perto de casa.
Desconhece o flagelo do trânsito. Desconhece no verdadeiro sentido: não o
sofre. Antes da clínica, deixa a Filipa na Escola. Damo-nos bem. No fundo,
toleramo-nos. Isso é o que acontece com todos os casais, a partir de certa
altura. Já vi casais bem encarquilhados anunciar, a plenos pulmões, a
eternidade do seu amor. Não me assustam. Compadecem-me. Porque, após oito anos
juntos, posso proclamar apenas tolerância. Daqui também não me demovo. Não
quero com isto afirmar a extinção definitiva da centelha. Tem os seus
reacendimentos. Cada vez mais intervalados. O problema está na incontornável
derrota da magia face ao quotidiano. Daqui não há saída. É uma troca cruel. E
injusta. Daí que muitos optem por uma constante troca de parceiros, de forma a
perdurar aqueles inicias e inebriantes momentos. No fundo, a eternizá-los.
Estes são os mais inexperientes de todos. Nunca passaram da infância de uma
relação. E acabam sempre por partir sem nunca conhecer um vislumbre do outro.
Sem dúvida, isto é sempre uma derrota. Porque só nos apaixonamos por ideias.
Precisamente a ideia que formamos do outro. Nada mais. E o desvanecimento da
magia não é mais do que esbater dessa mesma ideia. Apercebermo-nos do outro na
sua essência desnudada… Daí que desilusão seja vocábulo recorrente quando se
fala de relações humanas… A morte de uma ideia é sempre trágica! Apenas
contemplar, numa total orfandade, a funesta sucessão de dias, sem o prenúncio
melodioso de auroras sonhadas. E aqui entra o passado, para reescrever o futuro
que nunca foi.
IV
Hoje estou particularmente sonolento. Parece-me sempre haver
cada vez mais carros. São sete horas e trinta e três minutos. Estou há
precisamente 43 minutos dentro do carro. Se começasse a somar o tempo que passo
sentado dentro do carro ao longo de uma semana, um mês, e, por fim, um ano, o
resultado só podia ser um: derrame de vida. Tempos houve, em que equacionámos
ir para uma dessas vilas pacatas do interior. Marta ainda pesquisou casas e
preços, invariavelmente muito mais reduzidos. Tentou seduzir-me através da
propalada qualidade de vida. Mas eu
resisti-lhe. Sou da cidade,
respondia-lhe. E, em minha defesa, relembrei as vezes em que visitávamos os
seus pais, lá na aldeia, por mais que três dias: na segunda manhã já acordava
inquieto, e assim ficava, pela ausência de movimento. E esse pânico crescia em
mim, ao verificar a lentidão reinante, como se a vida tivesse sido extinta da
face da terra. A tranquilidade regressava só na auto-estrada, quando o trânsito
recrudescia perto de Lisboa. Estava de volta ao meu ecossistema natural. Cada
um nasce com a sua forma. Não há como mudar. A persistência de Marta, nesta
questão, ainda se arrastou por dois meses. Evocou um casal nosso conhecido,
que, aparentemente, estava muito feliz, tinha ganho muito tempo para os seus
afazeres, na sua nova vida algures na planura alentejana. Claro, o que é que têm para fazer? Andar à volta do coreto? Assim,
lhe respondi. Evoquei, depois, as oportunidades de futuro de Filipa, os
serviços de saúde, os nossos empregos, e logo a sua atenção se desviou para uma
qualquer problemática, que prontamente trataria de me apresentar. Nesse
aspecto, o de me exercitar a paciência, ela sempre foi extremamente dedicada.
O trânsito continua a arrastar-se. O condutor do lado
contrasta a gravata civilizacional com a animalidade de um bocejo pontuado pelo
amarelo dos seus dentes. Logo cresce em mim, o irresistível apelo orgânico de
um salvífico bocejo. Sempre detestei esta coisa da indução. Procurei
resistir-lhe. Sintonizei música. Tudo em vão. Acabei por exibir os meus dentes
ao mundo amanhecido.
O sujeito e o seu persistente bocejo omnipresentes na minha
lateral direita. Olhei-o. Devia ter aproximadamente a minha idade. Embora, em
verdade, nunca fosse feliz nesta matéria. A recorrência de constrangimentos
obrigou-me a um mudo sorriso contemporizador. Findo cada bocejo, o seu rosto
readquiria o devido manto de seriedade. O fato de acordo com a viatura. Tudo
numa harmonia condizente com imperativos metafísicos da lusitanidade.
Continuava a olhá-lo. Apesar da seriedade, vislumbrava outras gradações naquele
rosto. Como alguém que perde um objecto querido algures, mas esquece-se de que
o perdeu. No fundo, eu não analisava o seu rosto, mas sim o espelho que este me
oferecia. Ambos provínhamos da mesma leva, e ostentávamos, agora, o
desencantado perfil reconhecido em nossos pais. Onde nos perdêramos? Em que
altura capituláramos? Neste momento, a minha fila anda um pouco mais. Estou a
ultrapassá-lo. Já não boceja. Rói o punho, e fixa o olhar onde o desalento o leva.
Onde nos perdemos? De novo, esta questão. Será este o destino de todas as
gerações? Uma derrota amnésica? Talvez seja por isso que nos olhamos com uma
hostilidade envergonhada. Como se nos acusássemos, mutuamente, ao descobrir
que, afinal, somos despojos de um conflito efémero com a idade do mundo.
Percebo que ele ouve música, pelo tamborilar ritmado dos
dedos no volante. Que música ouvirá? Serão ecos de meninice? Não há sabor, como
os sons da infância! Continuo fixado neste meu espelho. É estranho, como, ao
longo da vida, entre os muitos espelhos que encontramos, os mais preciosos, a
dada altura, sejam os que invocam passado! De novo, ele mostra o seu amarelado
esmalte à manhã. Em mim, anuncia-se o desejo. Mas, neste momento, estou muito
longe. Vence a saudade…
Escuto risos, guinchos, alguém conta, virado para uma
parede, um, dois, três, quatro, cinco…, enquanto outros se
apressam na urgência de esconderijos, um vira
aos cinco acaba aos dez, é gritado numa convicção de vitória, o disparo de
um fulminante, de uma fisga, o roçar do giz no alcatrão, para remarcar os
traços, esbatidos da véspera, do palco do polícias
e ladrões, de uma televisão, a
música do Tom Sawyer, e logo o desejo
de me descalçar, vejo ramos a tocar em aflitos bichos-de-conta, cheira-me a
lareira, e, de repente, tenho o vislumbre de um pôr-do-sol no campo,
contemplado de uma cadeira de praia… E sou harmonia.
Agora é a fila dele a assumir a dianteira. Ultrapassa-me.
Ostenta, a esta hora da manhã, um olhar de final de dia. Não lhe encontro luzes
de infância no rosto. Apesar de iluminar a minha. Que memórias trouxe consigo?
Lembrar-se-á da sua BMX? Dos joelhos cor de terra pelas olimpíadas de guelas?
De olhar a lua de perto, antes do sono, envergando um pijama do Espaço: 1999?
De chamar o amigo gordo de Piranha, e logo começar a trautear aquela mágica
melodia azul de verão? Ou de chamar Chanquete a cada velhote com ar marítimo?
De nadar à Homem da Atlântida? De
sair de casa com a lista telefónica, que se convertia em munições, para a
guerra de canudos? Da primeira arritmia de amor? Da melodia do amolador – Sinal de chuva, dizia-lhe a professora
primária? Da primeira aparelhagem, seguida dos primeiros discos? Dos singles (45 rpm)? Ou dos LP (33 rpm)?
Do fascínio sentido enquanto o disco girava, e das colunas envolverem-no no
sublime da música? Foi assim que conheceu os Scorpions, os Alphaville, e
tantas outras bandas míticas, que se afirmavam, em primeiro lugar, pela altura
das permanentes? Ter-se-á refinado o ouvido, com o tempo? Ou será, para ele,
cada uma destas melodias, um daqueles lugares que se leva no bolso, não vá
haver um surto de nostalgia? E dos aniversários, que recordações transporta?
Terá, na sua biografia, natais de província? Será daqueles que sonha ao
saborear o cheiro de terra molhada? Ainda guarda, nos pés, as marcas das tiras
das sandálias de plástico? Ainda ostentará, orgulhoso, as meias das raquetas?
Não sei. Mas, pareceu-me vê-lo retirar qualquer coisa do bolso, não se vá dar o
caso de vir um surto a caminho…
Hoje ainda tenho uma reunião, após o expediente, por causa
de uma hipotética fusão. Nada é certo nestes dias. Apenas uma crescente
angústia nos corações daqueles cansados de tanto olhar o mundo.
V
Sei que Marta não gosta destes prolongamentos laborais.
Apenas isso. Não acho que a sua imaginação (ou chamar-lhe-ei ciúme?) vá tão
longe! Mas que sabe um homem do coração de uma mulher? O coração de uma mulher
não é para se conhecer, mas sim para se sentir. Aqui reside o equívoco da
maioria dos homens. Também já andei por ali. Até me aperceber de que tudo leva
o seu tempo. E, no fim de tudo, aprendemos a maior e mais dura das lições: tudo
tem o seu tempo. Marta, como penso ter referido, provém de famílias remuneradas
do interior. Talvez por isso, a voz da terra ainda lateje dentro de si,
clamando o seu regresso. É uma mera hipótese. O seu primeiro contacto com a
capital deveu-se ao curso. Antes disso, não me recordo de ouvir passos seus
pelos labirintos de Lisboa. Nos seus relatos desses tempos, é indisfarçável o
deslumbramento sentido.
Ficou em casa de uns primos. Um casal com duas filhas da sua
idade. Uma cursou direito, a outra perdeu-se numa viagem até ao Intendente. Foram educadas da mesma maneira, era
frase que mais se ouvia naquela casa, entre olhos embaciados e lenços. Dizem
que seguiu os passos do namorado. Por ali deambulou. De poeirentos quartos de
pensões, aos lancis dos passeios, até aos estofos desgastados de automóveis
conduzidos por capitulações de lares nunca concretizados. Longa e subterrânea
foi a sua epopeia. Tudo em nome de uma pátria intravenosa e alienante. Por
vezes, os pais viam-na de longe, a abordar condutores, pediria uma boleia?
Talvez. De seguida, entrava. Talvez fossem para um destino comum. Talvez… No
fundo, já não viam a sua menina. Viam uma ruína do templo que procuraram, ao
longo do tempo, erigir. O que mais lhes doía, mas que nem ousavam confessar,
era reconhecerem naquele rosto amarelecido, sujo, esquálido, vestígios de uma
inocência que lhes sorria e, ao mesmo tempo que os abraçava, lhes aquecia os
corações. Regressavam a casa abraçados, num amparo mudo, como se temessem
naufragar no indizível de uma dor que lhes turvava para além do ser. Nunca
falaram destes passeios à outra filha. Ela também nunca questionava. Embora o
pressentisse. São poucos os motivos que levam alguém a entrar em sua casa com a
alma na sola dos sapatos.
Mas a inevitabilidade do regresso a casa é o destino dos
pródigos. E recentemente, tal como partiu, ela começou a ter lampejos do
caminho de volta ao lar. A estudante de Direito nem queria ouvir falar desta
possibilidade. Há muito, no seu íntimo, havia cumprido o luto fraternal. Entre
a vergonha e o rancor balizavam-se os seus sentimentos, enquanto os pais
procuravam o vitelo mais gordo.
Até à festividade ainda havia uma longa caminhada. Contudo,
depois de uma fractura, nunca mais se caminha da mesma forma. E talvez aqui
residisse o grande equívoco do supliciado casal: borracha e solidez nunca foram
sinónimos. Afinal, o passado está sempre presente.
Pelo menos, uma vez por semana, Marta visita os primos. De
ingratidão não sofre. Aprendeu muito cedo que, só se vira as costas, depois de
assegurar que a porta se fechou.
VI
O rádio fala de um acidente qualquer, a umas centenas de
metros à frente do local onde me encontro. Já não me questiono do porquê dos
acidentes diários ocorrerem sempre à minha frente. Sim, porque todos os dias
há, pelo menos, um. E sempre à minha frente. Se ao menos fosse atrás. Que gozo
sentiria! Ouço Marta: Escusas de te
queixar! Vai de transportes públicos. Assim não sofres com o trânsito e poupas
bastante em gasolina. Como se fosse assim tão simples. Ainda experimentei
durante uma semana. E, além de levar o mesmo tempo em cada deslocação, o
desconforto não compensa. Encontrões, viajar de pé, correr do comboio para o
metro e vice-versa, tudo somado contribuiu para a irreversibilidade da minha
decisão: venha o trânsito! Mas houve um aspecto que pesou sobremaneira no meu
juízo, e que, ainda hoje, ao recordá-lo, me auxilia a dieta: os odores alheios:
autênticos alucinogéneos gratuitos, à distância de um snifar. Recordo uma ocasião
em particular, em que o destino me providenciou a graça (ilusória,
descobri-lo-ia mais tarde) de viajar sentado. As estações sucediam-se, a
vertigem de entradas e saídas intensificava-se. E o meu olhar fixava-se onde
agora repousa – no indefinível que vai entre o desejo e o pensamento. Uma
emergência sentida fez-me emergir à tona das minhas sensações. Rapidamente,
procurei a génese deste alarme: poluição olfactiva foi a resposta. Não tardei a
encontrar o emissor. Viajava no banco bem à minha frente, exibia-me
orgulhosamente as suas cáries, num sorriso de bom-dia, a sua volumetria devia
contribuir devidamente para as poças, em franca progressão, na sua camisola,
sobretudo nas axilas: onde se visualizava com nitidez duas autênticas
circunferências húmidas e negras. Ela devia andar perto dos quarenta. Segurava
um saco de plástico. Ainda hoje não tenho qualquer curiosidade em relação ao
seu conteúdo. O balançar do comboio agudizava-me os sintomas. Não tinha como
sair dali. Afinal, latas de sardinha e transportes públicos, em português, são
sinónimos. Procurei, à minha volta, parceiros de suplício. Não havia olhares
disponíveis. Desde há muito que reina um hermetismo pardacento nos rostos
portugueses. Talvez um cansaço da espera por uma incógnita promessa feita
algures. Por fim, confrontei-me com a fonte de todos os meus males. Pontificava
nos seus pés: um belo par de peúgos, outrora brancos, mas àquela hora já
exibiam um orgulhoso castanho (afinal, ainda não eram oito horas!), dentro do
respectivo par de socas. A partir desse dia, só consegui, e muito de vez em
quando, comer apenas queijo fresco. Entre as divinais peúgas e a saia, ela
exibia uns troncos de futebolista, onde proliferava uma amazónia de pêlos que
faria as delícias de qualquer pulga com um mínimo de bom gosto. Todavia, ainda
me recordo de que, entre o despudor do seu sorriso e a limpeza do seu olhar, a
malícia não tinha encontrado alojamento. Saiu antes de mim. Sorriu-me um com licença e dilui-se na hora de
ponta. E eu, miseravelmente, nem um vestígio de simpatia. Raras vezes me senti tão imundo.
VII
Bocejo novamente, já com as amoreiras à vista. Resolvo ouvir
música. Mudo de estação. Não sei o que procuro. Como se, de alguma forma, estes
nadas de gestos me evadissem deste cárcere diário. Começo a sentir as costas.
Marta repete incansavelmente a mesma coisa: Marca
uma consulta! Pedi-lhe, por diversas vezes, o auxílio da sua arte. De novo,
a consulta e a urgência de uma radiografia, como resposta. Mas, eu continuo relutante em conhecer a cara do meu médico de
família. E o mal-estar agudiza-se. Tenho de ver se marco até esta sexta-feira.
Nunca compreendi esta desistência gratuita, este laxismo, face às mais banais
imposições da nossa vivência quotidiana. Será um traço genealógico da nossa
lusitanidade? Este deixar andar? Será do meu carácter? Serei eu, um
irreversível acomodado, que não gosta de se aventurar por águas obscuras? Mas
eu sempre me queixei da aborrecida previsibilidade do quotidiano. Afinal, onde
me situar? Concluo que, afinal, não raciocino, apenas levanto uma torrente
infindável de questões. É isto que me sucede, sempre que me proponho a pensar
as coisas. Nada concluo, apenas me enredo na teia asfixiante da incerteza.
Bocejo, desta vez, para as incertezas, dúvidas, asfixias, questões, para mim
próprio. O meu olhar fixou-se no velocímetro. Rolo a 15 km/h. Os números no
mostrador terminam no 280.
De súbito, acordo para a histeria da música. Para
dissonância, já me basta a realidade exterior. Mudo, uma vez mais, de estação.
Silêncio… Até que, lentamente, começo a ver passado. Como se, cada acorde,
correspondesse a uma pincelada de uma tela ainda por desvelar. Assisto à magia
do alvor da memória, embalado pela melódica abertura deste sonhado Stairway to Heaven (da imortal banda
inglesa). Há muito que não ouvia. Compreendo, com tristeza, que a felicidade é
sempre retrospectiva. É sempre a estação deixada para trás. Toda a tristeza do
mundo desenha-me no rosto a ténue linha de um sorriso compreensivo – aquele que
provém do tempo.
Agora, sou um passageiro memória, e viajo à mercê do seu
passo. E começo a sentir os odores, a cheirar as cores, e a rever as emoções
daqueles dias, enquanto ascendo a azuis de outrora.
Viajar
VIII
A única luz que se escoava pelo quarto, provinha dos números
vermelhos do rádio/despertador. Luís desligou o alarme. Ia tocar dali a cinco
minutos. O mostrador anunciava 05:55. Dormira mal. Fruto, porventura, do entusiasmo
pelo que se avizinhava. Rolara na cama ininterruptamente. Sabia que, nestes
casos, nada havia a fazer. Apenas esperar pelo sono. Nunca se levantava antes
da hora prevista. Não sabia porquê. Sempre gostou de dormir. E a
horizontalidade tinha o condão de aligeirar os problemas. Como se ficassem
suspensos nalgum cabide, à espera do movimento de algum corpo de saída para o
mundo. Durante os trezentos segundos que lhe restavam, ouviu o silêncio da
casa, que lhe devolvia eternidade.
Às 6:00 em ponto levantou-se. Dali a 45 minutos, Tiago
estaria à porta do seu prédio. Luís tinha organizado a mochila na véspera. Não
deixava nada ao acaso. Tomou o pequeno-almoço e arranjou-se. À hora marcada,
fechou, atrás de si, a porta com cuidado, para não acordar a mãe e a irmã.
Chamou o elevador e desceu. Aguardou por Tiago no patamar do prédio. Estava
frio. Arrepiou-se ao pensar no cenário dos próximos dias. Se ali estava frio…
Sabia da pontualidade do amigo. Pouco depois, ouvia um motor e, de seguida, as
luzes de uma viatura iluminavam os seus passos. Tiago apontou-lhe para a
bagageira, e aí Luís depositou a sua mochila, com cuidado, ao lado dos
pertences do amigo.
IX
O carro fora prenda dos pais aquando da sua entrada na
faculdade. Tiago estava no segundo ano de engenharia. Vivia, com os pais e um
irmão mais novo, num apartamento de três assoalhadas nos arredores de Lisboa.
De uma forma menos eufemística, nos subúrbios. Com o 25 de Abril, e a
consequente chegada dos retornados, deu-se a grande dinamização desses jardins
de cimento coroados de infindáveis marquises. Os pais de Tiago não eram
retornados. Provinham do agonizante interior do país, mais propriamente do Alto
Alentejo. Vieram para a capital em busca de trabalho e mais oportunidades para
os filhos. No fundo, as razões de todos aqueles que se mudam. O pai era
carteiro e a mãe cabeleireira. Tiago, necessariamente, partilhava o quarto com
o irmão. Apesar de não se darem mal, tinham diferença de três anos, a
proximidade quotidiana agudizava as arestas. Tinham os seus momentos de
trovoada. Sonhava com um quarto só para si. Mas os rendimentos dos pais não o
permitiam. Assim, passou a encarar o carro como o seu oásis pessoal. Além de
constituir um factor de afirmação face aos demais. Havia quem, talvez por
maldade, dissesse que Sara aceitara o pedido de namoro por ele ter carro.
Talvez fosse, de facto, por maldade… Tiago conhecera Sara ainda no liceu,
através de um amigo comum. Ele frequentava o 12º ano, ela o 11º. Se lhe
perguntassem pelo ideal de beleza feminino, ele, ainda hoje, descreveria Sara.
Tiago sempre foi tímido. Demorou uns meses a declarar-se. Houve, também, quem
dissesse, talvez por malícia, que se socorreu de uns copos para o efeito. Sara
disse-lhe que tinha de pensar. A corte demorou ainda uns meses. Por fim, ela
capitulou. O namoro marcou uma nova etapa na vida de Tiago. Por um lado, os
amigos mais próximos afastaram-se, vencidos pela sua obsessão, por outro, o seu
quotidiano passou a realizar-se em dois lares. Os pais de Sara eram um espelho
dos valores tradicionais da sociedade portuguesa. O pai era polícia, a mãe
doméstica. Várias foram as vezes em que Tiago se lamentou pela ocupação
profissional da mãe da namorada. Certa noite, o pai de Sara, aproveitando uma
distracção da filha, chamou Tiago para um canto, pôs-lhe a manápula no pescoço
e, entre dentes, sussurrou-lhe ao ouvido: Sempre
com muito respeitinho, está bem, o respeitinho sempre acima de tudo. Para
continuarmos a ser bons amigos… Tiago jurava, anos depois, que a imagem de
um seminário o acompanhou durante umas semanas. Sara era a típica menina do
papá. Mantinha uma relação conflituosa com a mãe. Tinha vergonha do
analfabetismo materno. Nunca o confessou a ninguém. O que Sara nunca percebeu é
que analfabetismo e inteligência são duas coisas distintas. E, quanto à
segunda, a mãe tinha para lhe oferecer. E grande parte dos conflitos provinha
do adiantamento materno face às intenções caprichosas da menina. Dito de outra
forma, a mãe sempre procurou fixar-lhe os pés na terra. Nem sempre é fácil para
um jovem trocar a ilusão doce dos sonhos pela aspereza dos seixos da realidade.
Para Sara, ainda menos. Escudava-se, para sua afirmação, na imagem de autoridade
do uniforme paterno. Era filha única. Talvez houvesse mimos a mais na sua
educação. Vivia numa praceta relativamente perto de Tiago, num apartamento
também de três assoalhadas. Tiago invejava-lhe o espaço da individualidade do
quarto. Os pais de Sara também haviam migrado do interior. Neste caso, do Baixo
Alentejo. É compreensível, num país de marinheiros, esta sedução pelos ares
marítimos.
X
Era a primeira vez que Luís acampava. Nunca achou muita
graça à privação de certos confortos considerados, por si, como essenciais:
água potável e privacidade. Mas respeitava os fãs dos passarinhos, como lhes
chamava. Tiago pertencia a este clube. Desde muito novo que era escuteiro.
Encontrou aí, em primeiro lugar, uma forma de aligeirar a obrigatoriedade
paterna da comunhão. Com o tempo, passou a apreciar a largueza de horizontes,
em detrimento da exiguidade das assoalhadas do apartamento familiar. Afinal,
proximidade e hostilidade são velhas companheiras.
Tiago acolheu, como sempre fazia, o amigo de mão estendida.
Luís gostava profundamente deste acolhimento, mas jamais se permitiu
transparecê-lo. Porquê? Nunca o soube. Ou talvez soubesse. Admitir a nudez das
nossas emoções é sempre uma ignomínia. E a espontaneidade afectiva de Tiago
intimidava-o. Como se o obrigasse a desvelar-se, por retribuição, um pouco.
Luís retribuía sempre o cumprimento com um sorriso. Mas evitava o brilho da
amizade no olhar do amigo. Como se não se sentisse digno dele. Como se, mais
tarde ou mais cedo, o fosse desiludir. Esta ambivalência de sentimentos
diluía-se após as primeiras frases trocadas, e assim que a familiaridade era
reposta, não passava de uma estranha névoa deixada algures pelo caminho.
Luís travara conhecimento com Tiago nos primeiros anos de
Liceu. Foi aquilo a que se pode chamar de uma amizade natural. À primeira troca
de palavras, estabeleceu-se aquela corrente que sela um entendimento profundo
entre os homens de bem. A impetuosidade de Luís dava-se bem com a ponderação
calculada de Tiago. Não foi por acaso que, na era pós Sara, Luís fora dos
poucos sobreviventes. Embora disfarçasse mal a sua antipatia pela escolha do
amigo. Lidava mal com máscaras, fruto, porventura, da sua própria biografia.
Aprendeu, talvez demasiado cedo, que máscaras e circunstâncias têm a idade do
homem. Entrou para Direito, talvez para agradar à mãe, embora não o admitisse
para si mesmo. Nesta altura da sua vida, e como quase sempre acontece, é o
vento a ditar os passos.
Mas deve-se a Luís o facto de, nesta segunda-feira, de
férias de Páscoa, aqui estarem. Fora ele o primeiro a falar, há cerca de um ano
atrás, daquele estranho lugar. E das inquietantes histórias que se lhe
associavam. Mas Luís tinha outras motivações, mais visíveis e menos insólitas:
Bárbara.
Tiago estava eufórico. Era palpável. Há muito que aguardava
por esta oportunidade: ele e Sara longe do radar paternal. Talvez, desse modo,
conseguisse vencer a sua última réstia de timidez. E, assim, permitir-se a
entrar na ambicionada maioridade dos afectos.
Mas, simultaneamente, esta sua ambição estava eivada de
inquietude. E, em alguma parte de si, uma voz clamava na tempestade do desejo
que Sara há muito atingira essa meta. Tiago sufocava essa voz. Remetia-a para
um silêncio pardacento. Mas de novo era atravessado pelo seu clamor. E, nessas
alturas, perdia-se em busca de um coração caído nos trilhos da terra. Um
coração que sabia ser o seu.
XI
Luís, por seu turno, vinha apenas para caminhar ao lado de
Bárbara. Nada mais. Só existia esse objectivo na sua mente. Nunca fora dado a
jogos, nem a tortuosos esquemas. Não que fosse um inocente. Longe disso. Mas,
naquele momento, a sua única ambição era rever Bárbara. Falar-lhe e sobretudo
ouvi-la. Dito de outra forma: Luís estava apaixonado. Embora não o admitisse.
Sempre procurou pairar acima dessas manifestações sentimentais. Piegas, como
chegou a apelidá-las. Nunca esqueceu a primeira vez que viu o seu amigo chorar.
Chorar compulsivamente. Tinha ido a casa de Tiago. Dessa vez, não fora
necessário tocar à campainha. Encontrara o amigo sentado no antepenúltimo
degrau da escada de entrada do prédio. O rosto escondido pela mão direita. A
esquerda caída numa viuvez soluçante. Foi através desses soluços que Luís leu a
situação. Primeiro, veio-lhe a ira (sabia que Sara não era a certa para o
amigo). Mas a compaixão acabou por imperar, e sentiu a frieza dos degraus ao
partilhar as agruras alheias. Entre a solicitude da amizade e o embaraço pelo
despudor do amigo, Luís lá encontrou uma forma de lhe amenizar a dor. Mas, no
seu íntimo, havia um desdém pela fraqueza de Tiago. Como se não o sentisse
digno da sua amizade. Como se… Por fim, Luís enfrentava o eterno desafio da
paciência e refugiava-se no porvir, enquanto um lamento recorrente ecoava por
um vão de escadas.
Luís sabia que Tiago não era correspondido. Mas nunca o
verbalizou. Reconheceu, neste particular, a sua cobardia. No fundo, que provas
tinha desta sua convicção? Apenas a leitura de quem está de fora e analisa o
amargo correr do mundo. Nunca vira qualquer desvio em Sara. A única questão
prendia-se com o seu olhar perante Tiago: em vez de paixão, derramava
indulgência. E estas são relações com prazo de validade bem curto.
Havia outros aspectos que contribuíam sobremaneira para esta
conclusão. A forma de Sara se posicionar face ao mundo. Numa atitude de
permanente desafio. Escudada pelo mimo paterno. Ao contrário de Sara, Tiago
sorria para a realidade, e, não raras vezes, preferia baixar os olhos, de forma
a evitar a indigestão da vida. E quanto a cegueira, estamos elucidados…
XII
Nessa mesma tarde de pranto e soluços, Luís começou a
vislumbrar os seus limites. Olhou o futuro e afastou de si, naquele preciso
momento, o cálice salgado das lágrimas passionais. Já as vira antes e em
abundância. Num rosto ainda mais próximo: o de sua mãe. Noite após noite, o
menino que o tempo bebera, adormecia embalado pela melodia nocturna compassada
pelo soluço maternal. Cada soluço escutado era um passo de afastamento do pai.
Uma distância, hoje, irrecuperável.
Enquanto, de forma desajeitada, procurou aquietar o amigo,
olhava a rua. Como se daí proviesse uma qualquer entidade salvífica. Sabia que
não. Mas a fé do seu olhar, atraiçoava a razão das suas convicções.
Sucederam-se outras tardes de choro. E como o cansaço tem
origem no aborrecimento, Luís procurou despertar o amigo. Num sentido de
esclarecimento. Como se… Enfim, como se lhe fosse possível, porventura,
compreender que houvesse mais mulheres no mundo. Como se, alguma vez, o seu
olhar pousasse noutra que não ela. Como se o seu rosto esboçasse alegria sem
reconhecer Sara. Por fim, Luís compreendeu a distância entre amor e obsessão.
Ou estariam relacionados? Seria um estádio do amor? Enquanto aconselhava Tiago,
deparava-se com uma aporia interrogativa, que lhe iluminou as lonjuras da sua
ignorância.
Estas crises obedeciam a um guião há muito estabelecido.
Tudo partia do virar de costas de Sara e de uma ameaça velada de rompimento. E
Tiago ficava siderado, como se fosse um Job sem a âncora divina. No meio de
tudo isto, não se pode dizer que Sara fosse pérfida ou algo de semelhante.
Simplesmente, era uma garotelha imatura que se deliciava com um novo brinquedo:
o poder. Chegava a fazer apostas com
as amigas, acerca do tempo que Tiago demoraria a tocar à sua campainha. Neste
particular, não há homem nenhum que se possa rir de Tiago. Porque todo o homem
atravessa a fase do circo – e aí desempenha os mais variados papéis:
trapezista, palhaço, malabarista… Afinal, há um momento na vida em que o
coração dita os passos. E, neste particular, o coração de Tiago era tirânico.
Por conseguinte, as economias de Sara andavam de boas cores.
Luís compreendera o malogro dos seus esforços. Como resposta
aos seus conselhos, obtinha um contínuo anuir de cabeça. Como se Tiago,
efectivamente, estivesse a assimilar a mensagem. Nada mais errado! O anuir de
Tiago, permitia-lhe refugiar-se no insondável de si, surdo para o mundo, e
olhar em redor na busca do caminho mais ligeiro para Sara.
Passadas umas horas, Luís encontrava-os, de mão dada, no
café do costume, a lanchar. Como se tudo fosse harmonia. Nem um vislumbre da
borrasca sucedida. Apenas risos e dedos entrelaçados. Não se podia falar de
cumplicidade. Porque ela parecia representar um papel. Quanto a ele,
dificilmente um cego representa, quando muito deixa-se conduzir. E, no café, já
não havia vestígios do palhaço pobre das escadas. Antes parecia um atlético
trapezista com os dedos firmados no objecto salvífico. Mas isto era o quadro
que Luís via.
Por esta altura, os olhos de Luís caíram nas mãos, que lhe
devolveram vazio. E uma imagem impôs-se no seu pensamento: uma imagem de luz: a
imagem de um rosto… E quando um rosto domina o pensamento de um homem, a
inquietude torna-se a sua senhora.
XIII
Luís, como sempre acontece no rés-do-chão do amor, não se
recordava da primeira vez que vira Bárbara. Se lhe pedissem para a descrever,
não o saberia. Era capaz, como é natural, de traçar linhas muito genéricas, mas
de forma automática. Porque, a surgir uma questão assim, nesse mesmo instante a
sua mente povoar-se-ia daqueles instantes indeléveis, que fazem um coração
saltar do peito ao se pronunciar um nome. Sim, frequentaram a mesma escola.
Sim, ter-se-ão cruzado centenas de vezes. Sim, tinham conhecidos em comum. Mas
em que momento a sua ausência lhe amargou o rosto? E sentiu, pela primeira vez,
o silêncio dos acordes da sua voz? E terá melodiado o seu nome?
Sem fazer um grande esforço, conseguia elencar quatro ou
cinco situações que, a seus olhos, fizeram Bárbara ganhar cor ao mesmo tempo
que o mundo empalidecia. E quando tal acontece, entramos numa via de sentido
único. Como se renascêssemos. Sim, é um pouco isso. Deixamos definitivamente
uma pele para incorporar uma outra. Afinal, abrimos portas em nós que
desconhecíamos por completo. E algo nos sussurra em contínuo ao ouvido: doravante, tudo muda. E, sem o sabermos,
já somos um outro. Um outro incompleto. Mais fraco. Frágil. Inconstante. Que
carece de uma outra face para se harmonizar. Para sorrir. Para ter um Sentido.
E, a partir daqui, rebobina-se a história mais repetida do mundo, para de novo
a exibir. Mas há uma originalidade nesta saga face às demais: apesar de o guião
ser conhecido, os actores entregam-se aos papéis sempre com uma abnegação virginal.
Como se nunca tais personagens tivessem sido representadas. Há algo de estranho
em tudo isto. Mas, para quem está em palco, cada instante é a Eternidade.
E Luís está em palco. Nesse instante, em cena dentro do
carro, ao lado do amigo, numa madrugada de Abril.
L. – Quem vais buscar
primeiro? (Acabada a questão, arrependeu-se. Isso só acontece, quando
conhecemos a resposta. E esta Luís conhecia há algum tempo. Logo, cresceu em
si, um certo desprezo pelo amigo. Não tanto por ele, mas sim pela atitude –
imbuída de uma total subserviência. Mas, simultaneamente, a par do desprezo
emergia uma certa compreensão. Afinal, dentro de si, prenunciava-se um
alvorecer, similar àquele que alaranjava naquele momento os céus para os lados
de leste, e assim a luz da compreensão amolecia a rigidez das suas convicções.)
T. – A Sara, se não te
importas. É que ela já deve estar à nossa espera. E, estou mesmo a ver,
acompanhada dos pais. Nem sei como a deixaram vir!
L. – (De novo o desprezo a manifestar-se: e Bárbara, não
estaria também acordada e à espera?) Sim,
tudo bem. Mas não vais entrar e pôr-te na conversa?!
T. – A esta hora?
Estás a gozar! E sabes como eu gosto do pai dela…
L. – Mas olha que ele
gosta de ti.
T. – Porquê?
L. – Porque será?
Ouve, não podes continuar a ser um tipo de vistas curtas. Afinal, já estás na
faculdade. E depois vem o mercado de… (Aqui optou por fazer uma inflexão no
discurso: a hora e o contexto a isso obrigavam. Mas sobretudo o bom-senso:
nunca se ouviu falar de discursos paternalistas ao raiar do dia.) Esquece… Mas, pensa bem, achas que, se não
gostasse de ti, deixava a querida filha ir acampar contigo? E, sinceramente, já
te vê como um filho. Será que não te apercebes disso?! Além do mais, estás na
faculdade. Que mais podiam querer para a filha? És um tipo simpático, sem
vícios, e, ainda por cima, com um passado de escuteiro. Quem não te queria como
genro?
T. – Bom, realmente,
as minhas vistas são bem curtas comparadas com as tuas. Fazes cada filme! Tudo,
para ti, exige logo uma análise psicossocial. Devias escrever enredos.
Sinceramente… Ouve, grande filme!
L. – Antes não eras
tão irónico com as minhas análises. (Esta frase saiu-lhe fria, como se
adviesse da própria manhã.)
T. – (Tiago sentiu o arrefecimento. Não baixou o rosto
devido à condução. Nunca se dera bem com o embaraço. Para ele, a eternidade
residia aí: nesses momentos pétreos que se limitam a espelhar, de forma
inclemente, a nossa infinita infelicidade. Optou pelo silêncio. Sabia que Luís
acabaria por falar. Afinal, ele é que provinha de um lar de sal e soluços.)
XIV
Luís escudou-se num silêncio hostil. Teria as suas razões.
Acima de tudo, tinha pressa em chegar ao local. Os seus pais haviam-se
divorciado uns anos antes. Engrossaram a estatística pós 25 de Abril. É sempre
difícil lidar com a novidade. E assim foi com os portugueses e a liberdade
reconquistada. Não souberam o que fazer com ela. Como se fosse um brinquedo
oferecido de surpresa a uma criança, sem manual de instruções. Muitos lares
ruíram. Luís lidou mal com a situação. O pai era oficial do exército e a mãe
professora primária. Tinha uma irmã dois anos mais velha. Ambos, após o
divórcio, ficaram com a mãe. A alternativa pai também nunca se colocou. Tinha
um génio difícil, dizia-se. Somara comissões atrás de comissões, durante a
guerra colonial. Estivera no interior angolano. Havia quem falasse em
diamantes. Ao certo, nada se sabia. Apenas que viviam muito desafogadamente,
num apartamento de cinco assoalhadas, junto a uma das praias da linha do
Estoril. O pai deixou-lhes a casa, que tinha sido paga a pronto, e foi viver
para Cascais, para um apartamento novo, com uma jovem de rosto familiar. Mais
tarde reconheceram-na: era uma das empregadas da messe dos oficiais, onde com
frequência almoçavam. Passaram a visitar o pai quinzenalmente, num misto de
desconforto e de obrigação. A mãe leccionava perto de casa. Encarou o divórcio
como uma derrota. Estava definitivamente arredada do jogo das aparências. Mas
aprendeu, a muito custo, que guerra e juventude são adversários a evitar. Ainda
equacionou refazer a vida. Mas o espelho matinal furtava-lhe as esperanças. Por
fim, entregou-se ao destino. Até ao presente momento, não havia novidades. Mas
quem sobrevive a um casamento com um militar, a uma guerra, à educação dos
filhos sozinha, supera com facilidade o reflexo de qualquer espelho.
XV
O súbito emudecimento do amigo constrangeu Tiago. Afinal,
fora ele o causador desse embaraçado silêncio. No fundo, todo o silêncio é
embaraçoso. Como se não fôssemos criaturas destinadas a essa total imobilidade
de som. A uma suspensão de diálogo, de música, de mero ruído… O fito da música
não é o silêncio? Não é a sua mais elementar aspiração? Sim, é. Então, qual o
porquê de, nesta gélida manhã, estes dois amigos contemplarem o seu próprio
vazio, enquanto se remexem nos bancos, após um deles cortar o diálogo com uma
observação revestida da própria matinalidade? Nenhum deles, neste momento,
procurava resposta para esta questão. Estavam muito longe disso. Tiago esperava
que Luís corrigisse o seu erro. Não pela frase, mas sim pela frieza do tom. Não
foram as palavras que o magoaram, mas sim a forma de as proferir. É curioso
como uma palavra – reconhecida, enquanto tal, por todos – ganha uma acepção
distinta pela forma de se pronunciar. Como se a palavra brotasse da essência do
próprio sujeito. Como se lhe pertencesse desde sempre. Dito de outra forma:
como se fosse sua criação naquele momento. É estranho, tudo isto. Mas, afinal
há ruído! Não estivesse a viatura em andamento… Porém, eles nada ouvem, a não
ser um lancinante grito interior, a exigir o ar da alma: a compreensão alheia.
Este não é, definitivamente, um mundo de silêncio. Estamos
submersos de gritos, vozes, apelos, sinfonias, buzinas, uivos, ladrares,
choros, risos, sussurros, confissões… Basta fecharmos os olhos, numa tentativa
surda de repouso, para compreender a utopia jamais tangível do silêncio…
Por fim, Luís lá encontrou um caminho de palavras (através
de uma questão trivial) e restaurou a normalidade, ao mesmo tempo que
recuperavam o conceito de tempo. Estavam quase a entrar na sonolenta praceta de
Sara. Tiago estava agradecido pela reposição do diálogo. Como se lhe abrissem
uma janela, e mesmo que não assomasse lá, bastava-lhe o facto de a saber
aberta.
Sara viu-os chegar. Nem acenou nem sorriu à aproximação da
viatura. Limitou-se a recolher. Tiago, nesse momento, cingia-se a um sorriso
aparvalhado. Embora Luís detectasse o aparecimento, ainda que de forma muito
ténue, de um novo traço no seu rosto: o de uma desencantada vergonha. Luís
alegrou-se. Afinal, havia esperança para o amigo. Quando ainda existe uma
réstia de pudor, a palavra esperança ganha sentido. Neste entretanto, Tiago
saíra do carro, cumprimentara os pais da namorada, sentira a sua mão
desaparecer na gigantesca concha do pai dela, fora buscar as malas ao quarto,
ouvira, sempre numa solicitude primária, as recomendações dos potenciais
sogros, e, por fim, precedido de Sara, saíra do prédio. Luís, ao vê-los emergir
da soturna entrada, apenas se pôde recordar das comédias italianas dessa
altura, em que paquetes com malas, senhoras presunçosas, e hotéis, eram uma
constante.
O desprezo de Sara crescia proporcionalmente ao encurtar da
distância para o carro. Luís nem saiu para a cumprimentar. Aqui jogou-se o
primeiro confronto: quem iria viajar no banco da frente? É curioso como, de uma
forma inata, sabemos escolher os adversários. Sobretudo para confrontações
directas. Como se houvesse, em nós, um sentido para além dos cinco, que nos alertasse
se este ou aquele é apetecível ou evitável. No fundo, basta-nos pesar o olhar,
ou o que emana dessa presença, para radiografarmos esse alguém. De seguida,
como se de uma ciência exacta se tratasse, sabemos o grau de dificuldade que
advém de um embate com determinada pessoa. Naturalmente que há surpresas. E são
bem-vindas. Mas só acontecem àqueles que têm os sentidos primários embrutecidos
por tanto investirem na aparência – pois é disso que se trata – de civilizados.
Os outros, que mantêm os elos da ancestralidade, não se deixam surpreender por
confrontos desnecessários. Basta-lhes as batalhas que imperativamente têm de
travar. O demais gasta-se na contemplação de um céu estrelado que lhes devolve
o olhar dos seus antepassados.
Sara não padecia deste mal. Apesar de ser uma menina da
cidade, sabia, há muito, que objectivos e sobrevivência são vizinhos. Daí que,
para si, no jogo da vida, todas as ferramentas fossem poucas. Desse modo, e
apesar do seu asco visceral, sabia que Luís era um daqueles a evitar. Mal o
via, desenhava-se-lhe no rosto um sorriso de distanciamento, que funcionava
como um muro face ao intruso. Curioso como, na sua expressão, sorriso e
distância fossem peças íntimas. Luís, por seu turno, disfarçava mal as emoções.
Quase tudo estava à vista. Quanto a emoções, Luís era como o esqueleto de um
edifício em obras. Assim, nunca careceu de máscaras para cada eventualidade.
Ainda menos de sorrisos: de proximidade ou de distância. Entregava-se ao
momento, e à leitura que o seu olhar fazia a cada instante da realidade. E, à
vista de Sara, o azedume que pintou o seu rosto apenas se esbateu pela sua
educação, que o impeliu a pronunciar um audível Bom dia, tudo bem?
Tiago olhava-os enquanto organizava a bagageira. Embora, no
fundo, organizasse mais as suas emoções quanto à tristeza de não conseguir
conciliar, no mesmo espaço e de forma saudável, a namorada e o melhor amigo.
Sentia-se um estrangeiro perante aquele quadro. Como se aquele azedume fosse
uma questão íntima entre eles. Quiçá algo mal resolvido no passado. Mal estes
pensamentos afluíam, logo tratava de fincar os pés na terra, inspirar fundo,
para logo expirar, e aumentar a velocidade dos movimentos, como se, por
correspondência, a Terra acelerasse o curso das coisas.
XVI
Puseram-se a caminho da casa de Bárbara, que ficava
relativamente próxima. Tiago e Sara falavam, enquanto Luís pensava no que
dizer. Não via Bárbara há umas semanas. Foram Tiago e Sara a tratar dos
pormenores finais deste passeio. Enquanto pensava em Bárbara, era acometido de
uma estranha vertigem. Só por uma vez, padecera de tal sintomatologia. E saíra
magoado. Desde aí, soube anestesiar-se, passando a somar apenas alegrias
breves. Até que o mundo, de novo, se sintetizou num rosto. Num olhar. Numa voz.
Numa forma de andar. De se movimentar. De dizer as coisas. De expor as ideias.
De sorrir. E quando um homem precisa de tudo isto, como de oxigénio, está
perdido. Luís sabia-o. Não estava feliz. Considerava esse sentimento como uma
derrota. Uma derrota muito particular. Como se falhasse um objectivo nuclear de
vida. Neste momento, de rosto encostado à janela, olhava para as suas ideias,
que desfilavam diante de si, sob a nitidez da manhã. Sabia-se impotente de
parar tal desfile. Deixara de ser senhor dos seus pensamentos. Eu amo-a, era esta conclusão a que não
queria aportar. Obnubilava esta certeza. Talvez por orgulho… Talvez por… Como
alguém que acaba de bater no veículo da frente, e não quer crer no sucedido.
Sim, é um pouco isso. Assim continua ele, a sentir o frio do vidro madrugador,
surdo para o circundante. Mas uma questão se impõe. Porquê tanta relutância
face ao amor? Desde já, não podemos descurar a sua biografia. Afinal, foi
criado com um náufrago dos sentimentos. Mas há mais factores. Um desgosto em idade
muito precoce, por exemplo. A namoradinha que mudou de terra. Ainda se
escreveram uns meses. Até que o tempo e a distância acabaram por esbater as
poucas memórias contidas num jovem coração. E as últimas cartas, escritas quase
como um imperativo ético, e cada vez com menos linhas, eram já dirigidas a uma
quase estranha, que ele não tinha bem a certeza de ter conhecido. A própria
relação do amigo também não ajudava. Por motivos óbvios. Há, no entanto, algo
de muito subterrâneo, e que concorre sobremaneira para o seu cepticismo. O amor
coloca-nos na dependência do outro. Se eu amo, logo careço do objecto desse
amor. Numa outra perspectiva: abro, em mim, portas que apenas me vão fragilizar
enquanto sujeito. Como se ficasse numa posição subalterna. Aguardasse o
veredicto do outro como uma proclamação dos céus: serei ou não correspondido? E
a seguir? De que forma se desenvolve o sentimento? Como a dependência de um
vício? Poder-se-á comparar a nobreza do sentimento do amor, ao viciante
opróbrio de um toxicodependente? Nesse momento, Luís concluía que sim. De
súbito, uma lomba na estrada fez com que a sua testa embatesse no vidro. Não é,
de todo, aconselhável viajar, nas estradas portuguesas, com a cabeça apoiada
num vidro. Porque, em Portugal, as estradas são único e sério concorrente aos
buracos financeiros. É curioso como um país é pródigo nesta analogia entre
alcatrão e finanças. Mas este embate fez com que Luís despertasse da sua
letargia. A realidade apresentou-se-lhe fria e sólida testa dentro. Primeiro,
estremeceu. Sentiu a pancada como uma negação do real face às suas inferências.
Como se, por vias enviesadas do destino, a vida lhe dissesse que estava errado.
Não, o amor… Só que as suas convicções têm subcave. E, neste momento, lembra-se
de uma conversa com Tiago, tida no café de sempre, em que se começou a
aperceber do abismo existente entre ambos, e, depois desse dia, perdeu parte de
um espelho, mas, em contrapartida, assimilou, por inteiro, o conceito de
alteridade, e toda a estranheza que a vida lhe viria a oferecer, desde aí,
seria recebida com uma sorridente compreensão.
T. – A Sara está quase
a chegar.
L. – Não te preocupes,
mal ela dê sinal de vida, eu piro-me.
T. – Nunca percebi
essa tua atitude. Parece, não sei… Parece que não suportas a felicidade dos
outros.
L. – Ouve, não me
venhas com tretas. Desde quando alguém pode chamar felicidade a uma relação
como a tua. Mas estás a falar com algum estranho ou quê?
T. – Não precisas de
levantar a voz. E onde é que já viste relações perfeitas? Por acaso tens
alguma? Ou já a viveste?
L. – Não vi e sei que
não vou ver. Simplesmente, por que não acredito nisso. Agora, de uma coisa
estou certo: a tua relaçãozinha está muito longe da perfeição.
T. – Tu, às vezes, és
deprimente.
L. – Ah, eu é que sou
deprimente! Sinceramente… Pensa, antes de falares! Pareces um cãozinho atrás
dela. Toda a gente vê! Já reparaste quantos amigos perdeste? Já ninguém te
convida para nada. E é melhor pararmos por aqui…
T. – Não, continua. Se
começaste, acaba. O que mais queres acrescentar? Vá, força… Vocês têm é inveja
de nós!
L. – Ouve, ao menos
não percas a vergonha. E não sejas ridículo! O único sentimento que tu provocas
é pena! Toda a gente vê como ela te controla. És uma autêntica marioneta nas
mãos dela. Além, claro, do dinheiro em prendas, etc… Já te avisei para mudarmos
de assunto.
T. – Porquê? Pensas
que eu sou burro ou quê? Sei muito bem, o que esse bando de frustrados diz nas
minhas costas. Já agora, acrescenta o carro. Vá, força! Pensas que eu sou assim
tão tapado?
L. – Acho que estamos
a ir demasiado longe. Vamos mudar de assunto.
T. – Porquê? Estou a
gostar bastante. Qual é o vosso problema? É eu preferir estar com a Sara do que
com vocês? É o facto de nós já termos planos para o futuro?
L. – O quê? Essa é
nova! Estás a falar a sério ou estás no gozo? Pensas mesmo em… Com ela?
(Neste ponto, recorda-se, com nitidez, não ter conseguido proferir o nome de
Sara. Era demasiado, para si. Quando há um sentimento como a amizade, é sempre
doloroso assistirmos impotentes aos erros alheios. Mas não é correcto falarmos
de erros. Nem de futuro. Porque o amor, por essência, é presente. Luís estava
aquém deste sentir. Tiago estava demasiado submerso para o compreender. Um
casal apaixonado só fala de futuro, para tentar aprisionar o fugidio presente
de cada instante. Afinal, o futuro é sempre uma projecção das nossas
aspirações. Ou dos nossos temores. Só assim a sua existência tem sentido. Mas,
Luís e Tiago estavam, ainda, nas faldas destas verdades. A vida ainda só lhes
soprara, embora por vezes desagradáveis, brisas no rosto. Neste momento, eles
não tinham qualquer percepção das tempestades vindouras. Afinal, nesta fase da
vida, horizonte e imediato são sinónimos. Só começamos a alargar as vistas após
atravessar a primeira intempérie.)
T. – Claro que sim. É
das poucas certezas que tenho. Será que não podes respeitar?
L. – Não se trata de
respeito. Para já, deixaste-me completamente atónito. Ouve… Nem sei o que
dizer… Bom, o que vale é que ainda têm muito para crescer. (Outro erro: a
doce perspectiva da longevidade. Olhar o devir como um difuso e longínquo ponto
no horizonte. Como se padecesse de uma total imobilidade. Quem não compreende o
saber do rio do tempo, desde muito cedo, arrisca-se a encalhar em escolhos anacrónicos,
onde o azedume é sublinhado nos rostos e o olhar ganha o brilho esbatido da
desesperança.)
T. – Ouve Luís, essa
tua mania de te julgares mais crescidinho que os outros, já não irrita ninguém.
E sabes porquê? Porque já é motivo de piada. Nunca te esqueças de uma coisa:
todos temos costas.
L. – (Aqui chegados, Luís apercebeu-se de que as palavras
lhe fugiam. Refugiou-se numa onomatopeia…)
T. – Sempre tão
crítico, a olhar tudo e todos de cima. Mas quem tu julgas que és? Só por seres
filho de pais divorciados, pensas que percebes mais da vida que os outros? É
por isso que a Sara não te suporta. Essa tua irritante mania de, antes de
falares com toda a gente, procurares um degrau. (Infelizmente, Tiago
enganava-se. Pelo menos em parte. E logo na que mais lhe tocava. A cegueira é
sempre particular. A desempatia entre Luís e Sara tem outras funduras. Que
remonta aos idos do próprio homem. Por outras palavras: há pessoas a quem basta
um fugidio trocar de olhares, para logo os acordes da desarmonia ecoarem em si,
e as palavras secarem na boca. Apenas isso: um vislumbre do outro. Nem o nome
se conhece. E logo a repulsa está na ponte das emoções. Sara, como é natural,
não era o único receptor destes sentimentos. Neste campo, a explicação ainda
não encontrou porta para entrar. E pelo natural evoluir das coisas, não é
crível que algum dia o consiga. Tiago, por seu turno, valia-se daquelas
explicações que, tal como os adesivos, são utilidades momentâneas, mas apenas
relevam a existência de uma ferida por sarar. Luís intuía que este era um
sentir com génese distante e anónima. E quando os sentimentos falam uma outra
linguagem, o único eco audível denomina-se silêncio.)
L. – (Tiago atingira-o. Ambos o sabiam. Se fosse outro, Luís
embrenhar-se-ia na senda da violência. Há quem diga que é o caminho mais fácil.
Depende da perspectiva. Por vezes, este é definitivamente o mais difícil, e o
único que nos permite sair de palco a coberto do manto da dignidade. Mas a
amizade refreou-lhe o sangue. Em sinceridade, não foi tanto a amizade, mas sim
o respeito. De alguma forma, Luís nutria um respeito muito particular por
Tiago. Ele próprio desconhecia o porquê. É algo que brota em nós, quase que de
forma espontânea, e, na maior parte das vezes, o receptor pouco fez para
merecer tal desígnio.) Eu nunca precisei
de degraus para falar fosse com quem fosse. E sabes porquê? Porque, antes de
mais, dou-me ao respeito. E se, por acaso, na tua linguagem respeito chama-se
degrau, então estamos conversados. Bom, talvez seja pela tua recorrente convivência
com as escadas do teu prédio… Ah, e quanto a divórcios, aprende, porque talvez
ainda vás a tempo, que não deves falar daquilo que desconheces. (É velha a
similitude entre palavras e punhos. Uma aprendizagem da vida. Luís, pelo que se
vê, já tinha umas boas luzes. Nesse momento, concluiu que só lhe restava virar
costas ao amigo. E foi o que fez. Tiago nada balbuciou… A resposta de Luís fora
devastadora. Teve que se sentar. Afinal, nunca se fez uma boa análise de pé.
Sentiu-se arrasado. Também havia remorsos à mistura. Luís tinha razão. Ele
sabia alguma coisa de divórcios? Porque enveredara por ali? Que sabia ele de um
lar em que a omnipresença de uma ausência é uma constante? Nada. Porém, Luís
tudo sabia. Tinha um conhecimento profundo e vastíssimo da matéria – estava-lhe
gravado na carne. Ainda hoje, recorda que, quando a mãe o abraçava, antes de se
deitar, o seu olhar buscava a porta, numa desamparada esperança de que o pai
daí emergisse, e, desse modo, os enleasse a ambos, porque, em algum lugar da
sua meninice, algo lhe gritava que, aquele abraço maternal, era um efémero
abraçar por dois. E, noite após noite, o seu quarto povoava-se de desalento e
os seus sonhos despiam-se de alegria. Como se aquele lar fosse uma obra
inacabada. Mas a pior altura sempre foi à saída da escola. Não pelo facto de os
outros terem o pai e a mãe à sua espera. Não era isso que mais o feria. Nem
quando ambos se ajoelhavam para receber, como tantas vezes acontecia, num
abraço de família, o colega que aí aportava. O que, de facto, lhe envenenou o
coração, foi a contemplação repetida do olhar misericordioso dos colegas e
familiares, ao entrar nos carros, porque o dele sempre fora conduzido apenas
pela mãe…)
XVII
Bárbara estava à porta do prédio. Não, não estava bem à
porta do prédio. Deambulava, num compasso pensante, como se não estivesse ali
por inteiro. Parecia estar além do cenário. Era uma daquelas pessoas que
caminharia sempre da mesma forma, independentes, alheadas, do circundante.
Trazia a mochila apenas por uma alça. Não levantou logo os olhos para o carro.
Luís sorvia cada gesto. Como se fruísse de um espectáculo. E há espectáculo
maior que a contemplação da mulher amada? A resposta é óbvia. Há muito que se
endireitara no assento. Temia que a tempestade interior ecoasse. Odiava a
possibilidade de Sara se aperceber do seu estado. Sim, parte de si já admitia.
É espantosa a nossa complexidade. A quantidade de divisórias, arrumos,
despensas, que possuímos. Neste preciso momento, Luís era só olhar. Tudo aí se
concentrava. Bárbara era relativamente alta e esguia. Envolvia-a um recato
muito particular. Como se fosse imbuída por uma áurea de inacessibilidade (este
era um dos seus traços que mais o apaixonava). Tinha o cabelo comprido, a
atirar para o castanho claro, que a maior parte das vezes usava solto (Luís
preferia vê-la assim). Era daquelas pessoas que, apesar de se notar que
acompanham as correntes da moda, têm a capacidade de criar um estilo muito
próprio. Desse modo, salvaguardam a sua originalidade sem descurar os
imperativos estilísticos. Apesar do recato transparecido, Bárbara tinha uma
particularidade rara: a de emanar o precioso e raro brilho da inteligência.
Bastava, para o efeito, sentir, por uns instantes, a singular intensidade do
seu olhar. Não era um olhar de desafio, nem de compaixão… Não, nada disso. Era
uma outra coisa. Luís sabia do que se tratava, mas as palavras fugiam-lhe. Não,
não lhe fugiam, porque ele nem sequer as encontrara. Bárbara, no fundo, não nos
olhava. Bárbara lia-nos! E como ele carecia dessa leitura. De alguém que
abraçasse a sua essência por inteiro, e, talvez nesse momento, o seu olhar
deixasse de procurar memórias latejantes numa porta entreaberta…
Temos, neste momento, três jovens dentro de um carro, numa
fria manhã de Primavera. E há uma jovem, com uma mochila, de andar pensante,
que os aguarda. O jovem que guia, não obstante estas funções, vai com os olhos
centrados no retrovisor, a contemplar a rapariga sentada no banco de trás. O
amigo que viaja a seu lado, só olha em frente, para a rapariga da mochila, que
destila pensar a cada passada, e que os aguarda no passeio. Eles olham em
direcções opostas, mas para destinos idênticos.
Tiago parou o carro. Seguiu-se o ritual do depositar da
mochila e dos cumprimentos. Luís não saiu. Foi Tiago quem a acolheu, na sua
solicitude característica. Sara também permaneceu sentada, mas por motivos
distintos de Luís, e bem mais orgânicos: ainda estava ensonada. Bárbara entrou
com um sonoro Bom dia, que se
revestia, simultaneamente, tanto de genuína simpatia como de formalismo.
Deixava no ar a impressão de que, se houvesse outras pessoas dentro do carro, o
seu cumprimento seria aquele. Isto irritou Luís, que lhe retribuiu com um Bom dia seco. Há que salientar aqui um
pormenor: a irritação dele não se prende tanto com o cumprimento. Mas sim com o
efeito que aquela voz provocou em si. Aquele prenúncio de distância, imbuído no
singelo Bom dia, atomizava-o. E, ao
mesmo tempo, seduzia-o. Era a primeira vez, na sua vida, que conhecera alguém
com a capacidade de se colocar, por inteiro, na entoação de um cumprimento. Ele
sabia que Tiago e Sara estavam aquém destas inferências. De alguma forma,
porventura inexplicável e muito particular, achava-se o destinatário daquela
entoação. Como se ela aí procurasse desvelar-se. Neste preciso ponto, Luís
respirou fundo. E pensou como é curioso sempre ter ouvido falar apenas em fantasias de mulheres. A sua imaginação
já o havia naufragado em ilhas nunca antes sonhadas. Era pródigo nestas
navegações. Receava, naquele preciso momento, deixar-se arrastar por essas
correntes. Atentou na conversa à sua volta, que se centrava nos aspectos
práticos da viagem. Olhou para Tiago com um sorriso. Estava-lhe reconhecido, por
ele ter saído prontamente do carro para acolher Bárbara. Isso permitira-lhe
salvaguardar a sua identidade (somos tão complexos!). Ainda hoje, desconhece se
o gesto do amigo foi intencional. Mas nunca ousou questioná-lo. Embora, lá no
fundo, algo lhe murmurasse que sim. Porque só um amigo tem o dom de se nos
antecipar face ao embaraço da vida. E, desse modo, remover o escolho anunciado.
Recorda, neste particular, um episódio. Tinham ido ambos, com um grupo, a um
bar. Como a fanfarronice é uma inevitável companheira dos passos do homem, a
dada altura todos tinham um copo, com a bebida da maioridade, diante de si. Só
restava saber quem seria o mais rápido a acolher em si o néctar do
amadurecimento. A rapidez de Tiago destacou-se. Contudo, ao aperceber-se de que,
a seu lado, o copo do amigo estava intacto, e este permanecia com as mãos em
cima do balcão, numa evidência de derrota, por lhe ser impossível ingerir uma
bebida que o seu olfacto recusava, num passe de prestidigitador trocou os
copos, e descoloriu o de Luís antes que algum juízo se formasse. Nunca, entre
eles, se falou deste episódio. Talvez por pudor. Luís limitou-se a levantar uma
das mãos do balcão e a apertar o ombro do amigo. Apenas isso. Nada mais.
XVIII
A presença de Bárbara harmonizou o ambiente. Talvez por
restaurar o equilíbrio entre géneros. O diálogo passou a fluir com naturalidade.
Rumaram à turística ou laboriosa, depende do destino, estrada que ladeia o mar,
e que, no fim, abraça a serra. Viam-se, ainda, poucos carros. Talvez devido à
hora ou por ser sábado. O dia crescia nas suas costas. O horizonte deles ainda
se pintava de azul-escuro, pontuado por estrelas irreverentes. Eles repararam,
do seu lado esquerdo, na abundância de esguias sombras, que desafiavam, em
simultâneo, o abismo e as águas, num equilíbrio precário, como se não
pertencessem a nenhum dos mundos, ou talvez pertencessem a ambos, porque das
suas mãos saía o elo da abnegação.
Luís também se debruçava, neste momento, sobre um abismo:
perscrutava as diferenças entre Bárbara e Sara. E regozijava-se! Desconhecia,
ainda, o carácter particular da beleza. Embora seja uma questão sempre
discutível. Mas sejamos honestos. Ele detinha uma argúcia muito particular, que
alguns de nós possuem, e que lhe permitia transcender a omnipresente barreira
da aparência. E quanto à beleza da interioridade, lamentamos, mas já não se
pode falar com tanta facilidade do seu carácter particular. É curioso como,
neste momento, já não havia olhares em direcções opostas. Tiago e Luís, em
total sintonia, olhavam para trás. De Bárbara, já falámos. Mas, se nos
cruzássemos com Sara numa qualquer rua, teríamos, neste momento, dificuldade em
reconhecê-la. Sara era loura de olhos azuis. O suficiente para estontear a
cabeça de qualquer latino. Sim, poder-se-á afirmar. Sara, todavia, não era
bonita. Sim, nem todas as louras são bonitas! E ela pertencia a esta última
classe. Embora Tiago não o admitisse. Mas também não se podia afirmar, com
convicção, que fosse feia. Sara era de estatura média. A largura das suas ancas
prometia facilidades maternais, e futuras dificuldades em encontrar cintos. O
seu rosto possuía o indelével e irritante traço, visível em alguns adultos, do
mimo. Tinha, também, uma cara demasiado redonda. Luís recordava-se sempre dos
anúncios ao campeonato do mundo. O seu timbre de voz não era dos mais
agradáveis, algures entre a cozinha de um restaurante e a casa dos pássaros do
zoológico. E se acrescentarmos o vácuo do seu discurso, pontuadíssimo de
lugares-comuns e de laivos caprichosos, conseguimos, neste momento, e com toda
a certeza, reconhecê-la da próxima vez que se cruzar connosco. Eis o
antagonismo que deliciava o olhar crítico do espirituoso Luís. Convém, desde
já, sublinhar um aspecto crucial para não cairmos em falsos juízos: Luís respeitava
Sara. Errado! Desculpem, Luís respeitava a namorada de Tiago. Agora sim, está
correcto. Por conseguinte, várias vezes teve de elevar a voz na ausência do
amigo, para silenciar maledicências que sempre ocupam os lugares vazios. E, com
o tempo, aquela história dos pólos opostos começou a fazer-lhe algum sentido. E
havia um aspecto que ele admirava em Sara: nunca se ouvira falar de confianças
desnecessárias na ausência de Tiago. E se estamos a falar de carácter, e de
relações humanas, aqui está a sua coluna vertebral: o respeito!
Embora o ambiente estivesse suavizado, a fria manhã
sentia-se no interior do Renault. O frio tem o condão de nos recolher sobre nós
próprios. Como se nos tornasse, ao mesmo tempo, em criaturas ensimesmadas. Com
a excepção de Tiago, por motivos óbvios, todos estavam de mãos nos bolsos. Mas
com um sorriso nos lábios. Afinal, havia um prenúncio de aventura no ar.
Bárbara, ao contrário de Sara, que apenas olhava para a frente e alimentava a
questão dos aspectos técnicos, de vez em quando, alienava-se do diálogo,
absorvida pelo espectáculo do mundo que contemplava da janela. Luís seguia-lhe
cada pestanejar. E apercebeu-se de que a contribuição dela para o diálogo
intensificava-se mais nos semáforos (sempre vermelhos) ou sempre que o mar se
ausentava. Mas ela silenciou-se, por completo, durante uns sete ou oito
minutos. Assim que a serra se anunciou no horizonte, com um grito de majestade
e uma promessa de aventura, e a palavra oceano começou a fazer-lhes sentido,
perante aquele inesgotável mar verde que relembrava, em cada investida,
desilusões e saudade, cada um deles, no silêncio interior, compreendeu vida… A
certa altura, Bárbara abriu ligeiramente o vidro, de forma a sentir aquela
revigorante maresia, emergida das escarpas. Ninguém obstou. Todos se
aperceberam de que ela, nesse momento, estava muito longe. Imperceptivelmente,
começaram a falar mais baixo. Assim que lhes surgiu a última e ventosa praia,
antes do abraço à serra, Tiago reduziu a marcha e acabou por imobilizar o
carro, na berma da estrada. Aquele era um espectáculo sentido. Sem tradução
linguística. Bárbara, naturalmente, foi a primeira a sair do carro, e trocou a
sua passada pensante, por um passo tímido e lento. Luís secundou-a. Tiago e
Sara, por fim, também saíram. Bárbara parou, ao lado da escada de madeira de
acesso à praia, no cimo da falésia. Luís aproximou-se. Ao vê-la ali, de costas,
estranhou não crescer em si o desejo de abraçá-la. Abstraiu-se, por breves
momentos, do espectáculo da natureza, e matutou na questão: afinal, que sentia
ele por Bárbara? Nas suas, ainda, fugazes e verdes relações, a marcha dos
afectos iniciava-se, precisamente, por esse sentido gesto do abraçar. Que
transmitia toda uma mensagem sublimada de ternura e protecção. Mas Bárbara não
lhe despertava estes sentimentos. Ele sentia-se perdido. Como se lhe tivessem
roubado um guião, neste caso dos sentimentos, que ele sempre cumpriu. Neste
momento, ele estava três ou quatro passos atrás dela. Ela permanecia de mãos
nos bolsos. Mas de uma forma que só ela podia estar. E ele sabia que expressão
o seu rosto agora assumia. Uma expressão de distância. Como se, para ela, o
acto de contemplação estivesse eivado de uma religiosidade que preconizava
silêncio e interioridade. Se houvesse mais pessoas assim naquele momento, Luís
tinha a certeza de saber identificar Bárbara. Não nos esqueçamos de que ele se
mantém, curtos passos, atrás dela. Luís deleitava-se sempre que ouvia o nome
dela. Ou quando lhe afluía à mente. Perdia-se, vezes sem fim, a soletrá-lo. No
fundo, não era um nome que apreciasse por aí além. Mas concordava, em absoluto,
que ela só podia ter aquele nome. Como se ambos, mutuamente, se
transfigurassem. É evidente que, agora, ele amava aquele nome. E, pela sua vida
fora, sempre que o ouvir, o sorriso da memória será turvado pelo vazio da
saudade.
XIX
Tiago e Sara acabaram por ladeá-lo. Nada disseram. Assim que
os viu, Luís avançou para Bárbara. Eles seguiram-no. Desse modo, ficaram os
quatro sobre a falésia, aquém verbo, a olhar a praia que, a seus pés, se
estendia até ao opulento e desafiador promontório, num incessante baile de
ares, areias e águas. Movimento, foi
a palavra que adveio ao espírito de Luís, e que traduzia, na perfeição, aquele
cenário. Nada era estático. Tudo se mobilizava, a começar nas incessantes
colinas de água das vagas, que se diluíam na areia, para logo ressurgirem no
zénite líquido, tudo pautado pelo contínuo silvar do vento, passageiro das
ondas, intemporal escultor dos caminhos do homem.
Ainda ficaram mais algum tempo, inebriados de sal e
horizonte. Por cima deles, o voo desdenhoso das gaivotas. Não nos esqueçamos de
que estes jovens provêm dos recém-erigidos subúrbios da capital portuguesa,
construções de qualidade duvidosa, férteis em sombras e escassez de espaços.
Bebiam, com avidez, qualquer vislumbre de distâncias. O som da morte das vagas,
no amanhecido areal, ecoava de forma diferente no interior de cada um. De certa
forma, definia-os. Sim, o eco que damos aos sons do mundo indicia a vibração da
invisível mão da alma, a tanger os acordes hárpicos da nossa essência. Sara
estremecia, embora disfarçasse; Tiago inquietava-se, sim, de certa forma,
tratava-se de uma inquietação respeitosa; Luís fascinava-se pela opulenta
manifestação de poder de uma natureza gloriosa; Bárbara era espanto, porque o
seu olhar revestia-se de um brilho de primeira vez, e dela emanavam infindáveis
questões, inspiradas pelo eterno abismo divisor de realidades. Mas, no alto
daquela falésia, alumiada por um sol da manhã, todos comungaram, indizivelmente,
de um sentir virginal. Como se na multiplicidade de cores, sons, cheiros,
sensações, ecoasse um Sentido, dito de outra forma, perpassou-os a ideia de
Unidade, e, no íntimo de cada um, surgiu a imagem de um distante lugar de
regresso. Nada foi dito. Nem expressado. Isto só sucede quando percorremos as
mesmas paisagens interiores.
Por fim, regressaram ao carro. Iniciavam, agora, a subida da
serra, o azul do céu cobria-se de verde, e, de novo, viveu-se silêncio entre
eles. À medida que o dia ia ganhando forma, a paisagem ia-se despindo de casas.
Após as primeiras curvas da serra, só a estrada como vestígio humano. Cada um
olhava para a sua serra. Tiago manifestava aquela concentração própria dos
condutores inaptos, onde é tangível o esforço de cada gesto. Lia-se
arrependimento na sua face, perante a sucessão de curvas, e os abismos
perscrutados. Sara revelava uma expressão de curiosidade, que podia exibir numa
outra qualquer situação, perante uma montra que lhe suscitasse interesse, por
exemplo. Luís procurava olhar a serra de Bárbara. E via um rosto por vezes à
sombra, outras vezes amarelecido, mas sempre em busca de um invisível que só
aqueles olhos conheciam. Luís gostou daquela paisagem. Detinha a beleza do seu
encantamento. E prometia compreensivas sombras, sob as quais brotavam diálogos
ociosos – sempre os mais revigorantes –, e clareiras de luz, onde o riso
poder-se-ia espraiar até ecoar nos cantos da memória.
Quando se familiarizaram com o verde, as curvas, e a
vertigem, o diálogo reencontrou uma porta. Sara, a dado momento, pediu a Luís
para colocar uma cassete. Hesitantemente, ele acedeu. E o habitáculo do Renault
foi invadido por uma erudição de nome Modern Talking. Sara exultava; Tiago
optava pelo disfarce, mas, com um pouco de atenção, divisava-se o compasso dos
dedos no volante, e a prolongada distensão dos cantos da boca; Luís estava
aterrorizado; Bárbara sorria indulgência. Se atentarmos um pouco,
compreendemos, com facilidade, o terror de Luís. Ele percepcionava claramente
um problema de descontextualização. E isso afectava-o. Aquela piroseira tinha o
condão de destituir aquele exuberante cenário de qualquer vestígio
encantatório. No fundo, soterrava-o. Apercebeu-se, assim, do poder da música. À
custa dos Modern Talking. Abriu ligeiramente a janela. Enquanto o fazia, o
vidro devolveu-lhe o rosto. Olhou-se. Mas não era bem o seu rosto que via. Mas
sim, o rosto da criança que fora. Um rosto sorridente, com qualquer coisa de
temeroso, pareceu-lhe, de alguma forma, contemplar o indelével traço da
maturidade, embora o olhar ainda fosse de luz. Perdeu-se. Como era possível a
criança de ontem trazer a indisfarçável marca do tempo? Talvez beijasse rostos
com leitos de lágrimas… Talvez contemplasse, vezes de mais, durante as
refeições, uma cadeira vazia… Talvez se apercebesse, demasiado cedo, da surdez
do silêncio… Talvez fosse do seu temperamento… Talvez… Olhou-a, de novo. Ali
estava ela. A olhá-lo do vidro. Estava do lado de fora do carro. Nas suas
costas corriam árvores. Ele, de dentro, sorriu-lhe. A criança não reagiu.
Permaneceu com o mesmo semblante. Percebeu-lhe algo numa das mãos. Um brinquedo
qualquer. Talvez… Não, não conseguia descortinar. Continuou a olhá-la. Subitamente,
apercebeu-se de um turvar nos seus olhos. Como se de uma acusação se tratasse.
Perscrutou aquele rosto. E apercebeu-se, com uma dor profunda, que ele a
desiludira. Fechou os olhos. Não conseguia suster aquele olhar desiludido.
Quando, por fim, os reabriu, de novo árvores a sucederem-se. Da criança, nem
vislumbre. Apenas uma dor latejante, nas suas raízes, testemunhava a veracidade
dos factos. A dor de alguém que, de repente, descobre que se desiludiu a si
mesmo. Esta será, porventura, a mais amarga das descobertas: quando nos
apercebemos ter desiludido o eu passado.
É sinal de que nos desviámos em demasia da rota traçada.
XX
Pensaram ter chegado onde queriam. Talvez se enganassem.
Mas, por enquanto, não tinham dúvidas: era ali que queriam estar. Era uma manhã
de Abril, com um frio de Dezembro. Saíram do carro numa comunhão em êxtase pela
beleza indesmentível do lugar. Passava pouco das onze da manhã. Inspiraram o
momento. Assim ficaram durante algum tempo. A voz de Sara quebrou o encanto, ao
relembrar os afazeres. Luís virou-se e derramou desprezo. Tiago, no entanto,
seguiu-a. Luís aproximou-se de Bárbara, que, de mãos nos bolsos, permanecia
numa imobilidade contemplativa. Como lhe era habitual. Olhava as coisas como se
lhes descortinasse o seu mistério último. No fundo, estava sempre com o longe…
L. – Esperavas isto?
B. – Não sei. Acho que
superou a minha imaginação.
L. – (Sem encontrar outras palavras, optou pela praxis.) É melhor irmos ajudá-los.
B. – Em que direcção
fica aquilo?
L. – Vamos seguir pela
margem direita, e fica, mais ou menos, num vale próximo daquele monte além.
É curioso como Luís não era tão contemplativo como Bárbara.
Embora lhe apreciasse, sobremaneira, essa característica. Um pouco como aquelas
pessoas casadas com alguém bastante devoto, que sentem as obrigações piedosas
cumpridas através das orações do outro. Neste caso, tratava-se das obrigações
estéticas. Luís virou-se e foi ajudar os outros a descarregar as mochilas do
carro. Bárbara permaneceu imóvel de olhos na distância. Já nada via, apenas
sentia. Assim ficou ainda mais alguns segundos, até que uma estranha sensação
lhe despertou a urgência de companhia.
Sempre que se altera o contexto das relações humanas, há uma
necessidade premente de se readquirir a familiaridade. Como se esta fosse
intrínseca a um lugar efectivo. Quantas vezes não evitamos cumprimentar alguém
conhecido, por exemplo, quando inesperadamente o avistamos no local onde
estamos de férias? Como se esse alguém ali não pertencesse. Estivesse a mais.
Ou nos devolvesse um espelho que, naquele momento, nos é indesejado. E se não
podemos evitar as obrigações da educação, caso estejamos mesmo diante da
pessoa, gera-se, inquietantemente, um sentimento de estranheza, como se as
palavras não afluíssem à boca, como se nos descobrissem uma faceta privada,
íntima. E entre a timidez do sorriso e as palavras de ocasião, procuramos um
espaço de fuga, para de novo reorganizarmos o nosso pequeno mundo. E, refeitos
do percalço, seguimos em frente, imbuídos na oxigenante alienação da
existência…
Eles, neste momento, experimentavam emoções similares.
Tinham que readaptar os elos emocionais que os uniam à novidade do cenário. Uma
aprendizagem que se iniciava sempre pelo degrau da espontaneidade – não fossem
eles jovens!
T. – Então Bárbara, é
lindo ou não é?
B. – É extraordinário.
Superou as minhas melhores expectativas.
S. – O que se passa
Bárbara?
B. – Nada. O que é que
foi?
S. – Não sei. Pareces
assustada!
B. – Que disparate. É
do frio.
Luís não deixou de notar a observação de Sara, enquanto
arrumavam o material, e dividiam as mochilas a transportar.
L. – Achas que vai
haver problemas com o carro?
T. – Espero bem que
não.
L. – Não preferes
deixá-lo num sítio mais escondido?
T. – A acontecer
alguma coisa, acontece em qualquer lado. Ao menos aqui está visível. E pode ser
que pensem que estamos por perto.
L. – És capaz de ter
razão. Estão prontos?
De mochila ao ombro, viraram costas ao último vestígio de
civilização, o Renault 5 (Laureate) branco de Tiago, e embrenharam-se na serra.
Tiago ainda se virou, para dar um último vislumbre à sua afirmação social. Como
se, através do olhar, lhe lançasse um véu protector. Entristeceu-o a solidão da
viatura no meio de todo aquele verde.
Ainda sob o efeito da inebriante beleza do lugar, caminhavam
contemplativamente. Ninguém ousava desafiar a música da natureza. Pontuada por
cânticos alados e pela intemporal melodia, que só os mais atentos escutam, do
rumorejar do vento por entre as árvores. É uma melodia apaziguante, mas pode
também prenunciar inquietantes mudanças. Como as marés dos oceanos. Foi com um Não caias!, dito por Tiago a Sara, que
finalmente se recompusera a espontaneidade da juventude.
S. – Ia-me espalhando
bem. Não querem fazer uma pausa?
B. – Acho bem. Também
não estou habituada a andar tanto. Ainda para mais, com uma mochila destas. (Luís
apercebeu-se do carácter diplomático desta afirmação.)
T. – Bom, então o
melhor é comermos alguma coisa.
L. – Se começamos a
parar desta forma, nunca mais lá chegamos. Acho que viemos com um propósito, e
não em turismo.
Esta afirmação, de Luís, teve o condão de despertar neles
uma súbita noção de dever, até então adormecida. Mas este despertar afluiu às
consciências em tons esbatidos, dissipou-lhes o brilho do espanto e, em troca,
consubstanciou-lhes um temor indizível.
S. – Tudo bem, mas
podes acalmar-te um bocado. Acho que não estamos na tropa! (Terminada a
frase, o arrependimento precipitou-se sobre ela. Não pela expressão de Luís,
por si só bastante ilustrativa. Mas pela dor invocada. Todos conheciam a
fragmentação familiar, a história do militar, o divórcio, a menina da messe…
Afinal, os portugueses têm a língua muito próxima dos ouvidos. Pela primeira
vez, a expressão de Bárbara transpareceu aquém, no olhar reprovador dirigido a
Sara. Não escapou a Luís. Tiago, uma vez mais, revelava-se um malabarista das
emoções.)
T. – Acalma-te lá Luís, ainda agora praticamente chegámos, e
já estás todo stressado.
XXI
A contragosto, Luís cedeu à maioria. Sentaram-se em círculo,
na margem do rio, e saborearam a primeira refeição na casa da natureza. Todos
sentiram um apetite inabitual, mas o pudor derrotou-os. Regressamos, de novo, à
questão contexto/relações humanas. Como se o simples facto de saciar o apetite,
constituísse uma ignomínia aos olhos de outrem. A questão que mais se repetiu (Não queres mais?), durante a refeição,
revestia-se da efemeridade omnipresente de uma resposta interiormente
partilhada. É estranho este pudor que desce sobre os nossos gestos quando
receamos certos olhos. Como se tudo se jogasse nessa imagem que julgamos
emitir. Se ali estivessem apenas Luís e Bárbara, a parcimónia seria a mesma.
Tudo mudaria ligeiramente com Tiago e Sara, por motivos óbvios. Mas até um
casal, como é o seu caso, cumpre o rito cerimonial diante de terceiros. E ali
estavam os quatro, com o apetite ampliado pela respiração da natureza, mas com
o sorriso da educação desenhado no rosto, olhos nos ténis enquanto mastigam, e
desejosos de aquietar o estômago rapidamente. Embaraço foi o saldo da primeira
refeição. No fundo, talvez seja o de todas. Há sempre um desvelar quando se
assiste ao mastigar de alguém. Como se o orgânico rompesse a imagem almejada –
modas, tiques, manias… – e relembrasse apenas bílis e tripas. Ao longo da
refeição, falaram de trivialidades. Havia, bem latente entre eles, um clima de
desconforto à medida que se afastavam de cenários familiares. Embora, talvez
fruto da idade, o desconhecido ainda fosse um cântico sedutor. E assim se
preenchiam os seus pensamentos, entre paradoxos insolúveis, mas que moldavam os
seus estados de humor.
Todo o entardecer é um glorificar do fim, como se nos
relembrasse repetidamente que nascemos para morrer. E aquele final de tarde não
constituiu excepção… Caminhavam, agora, numa contemplação inquieta. A
inquietude é parente próxima dos nossos objectivos. E neste momento, pontuado
por profundas inspirações e longas expirações, após uma sempre longa subida,
cada um revia os seus objectivos e, acima de tudo, se ainda eram alcançáveis. E
começavam a perceber, com alguma amargura, que a inquietude não é mais que o
descolorir de um sonho. Tiago apercebia-se da crescente distância de Sara.
Talvez nem fosse propositada. De alguma forma, muito recôndita, a presença de
Bárbara feria-a. Incomodava-a. É uma situação recorrente nas mulheres. Elas
apercebem-se com bastante facilidade quando o sol se debruça com mais prazer
sobre uma delas. E isto não tem que ver com ciúmes. Trata-se apenas de um estado
natural do elemento feminino. A ânsia de luz. O masculino, neste particular, é
distinto. Caracteriza-se, para sua afirmação, pelo protagonismo, dito de outra
forma, anseia também por uma luz, no entanto, uma luz sempre artificial. Porque
a par do protagonismo anda sempre o efémero. E a esta verdade o masculino chega
sempre na noite da vida. Se é que lá chega. Enquanto o feminino, sempre mais
clarividente, com o tempo, vai maquilhando o rosto com um desesperançado véu,
para dar uma ilusão de cor. Sabe, há muito, que o espelho só lhe oferece, como
reflexo, um continente de sombras.
Regressemos a Tiago, e às suas intenções bastante claras e
naturais. Apercebeu-se, assim que Bárbara entrou no carro, que estavam
condenadas ao malogro. Sara estava inquieta. Ainda mais desagradável. Como se
andasse em busca do seu lugar natural. No fundo, Sara estava hoje aqui, como
poderia estar numa praia do Sul, ou numa aldeia do interior. Desde que longe de
casa. E da mãe que lhe relembrava, vezes sem fim, a diferença entre sonhos e
devaneios. O problema da mãe de Sara é que a vida se apresentara demasiado
cedo, e, quando isso sucede, a cabeça não se reclina o tempo suficiente para
conhecer o sonho. Infância de interior. A troca sempre prematura dos livros
pela enxada, a mãe sempre deitada, a apresentar-lhe mais um irmão, enquanto o
regimento já existente aguardava, à mesa, que ela servisse a janta, as
ausências paternas, talvez mais irmãos noutra aldeia, quando presente ampliava
o silêncio aos cantos da casa, nunca um sorriso, ainda menos um diálogo, o
rosto do pai, ainda hoje, um cabeçalho de jornal. Só no velório lhe foi
possível ir além do cabeçalho. Descobriu um rosto pintado por muitos sóis,
endurecido por muitas intempéries, mas que revelava, simultaneamente, um cansaço
de prazer. Como se regressasse, para fugir às agruras, a um lugar só seu. Nada
mais pôde ler naquele rosto. Era feito de mármore à sombra.
Sara cresceu no extremo oposto da vida em relação à mãe. O
pai de rosto demasiado sorridente, por vezes apatetado, para os caprichos da
menina. Filha única. Sua mãe havia lavado demasiadas fraldas e demasiados
narizes. Uma bastou-lhe. A vida sugara-lhe a paciência. Mas dá-se bem com os
irmãos. Embora, por vezes, lhes note uma indulgência com raízes na gratidão.
Mas talvez seja uma impressão sua. Assim, procura, e por imperativo maternal,
acinzentar um pouco os horizontes da filha. Não fosse o cinzento a cor da
maturidade. Sara fugia-lhe… É compreensível. Que jovem trocaria a doçura tépida
da ilusão pela sombra pardacenta de uma certeza?
Os objectivos de Luís conhecemos há muito. E os de Bárbara?
Porque veio? Estará hoje aqui, apenas, para conhecer o lugar onde se deram os
factos? É uma possibilidade… Bárbara provém de um lar onde nada está fora do
lugar. Desde o sorriso da mãe, à entrada, somos confrontados com uma
artificialidade asséptica. É uma daquelas casas onde, pouco depois de
entrarmos, somos invadidos por um desejo irresistível de levantar o canto de
uma carpete e espreitar. Porque talvez aí se esconda um vestígio de vida. O pai
é contabilista, a mãe funcionária pública. Tem uma irmã, mais velha três anos,
a cursar veterinária. Moram num 2º andar. As irmãs partilham o mesmo quarto – sempre
as exiguidades dos subúrbios –, cada uma com a sua cama, de ferro branco,
ornamentadas com colchas de um rosa demasiado rosa, e coroadas com uma boneca
de louça, sentada, vigilante, de um pálido fantasmagórico, com um vestido
antepassado. Havia quem falasse na vontade maternal. Havia quem dissesse que a
irmã encolhia os ombros. Havia quem jurasse que, a boneca da cama de Bárbara,
só ocupava o seu posto, muito depois de ouvir a porta da rua. E, não raras
vezes, a mãe apanhou-a do chão após o regresso da filha. A eucaristia, ao
domingo, é de consumo obrigatório. Assim como as visitas aos avós. E outros
entusiasmantes programas familiares. Tudo pontuado por cumprimentos e
saudações, a caminho do carro, aos vizinhos. Não se ouviam as vozes naquela
casa. Mesmo a televisão, bastante digerida por sinal, um dos poucos traços em
comum com os outros lares, sempre baixa, quase inaudível… Quando a idade lhe
permitiu compreender que nada iria alterar, Bárbara resolveu crescer de costas
voltadas para aquela casa. Percebeu, muito cedo, que o amadurecer é a
compreensão dos avós.
XXII
O ar expirava ocaso. O laranja indefinia as cores da
vegetação em volta. As sombras emagreciam em prolongamentos esquálidos. Eles,
neste momento, olhavam o céu nas águas langorosas do rio, e recebiam o
entardecer, nos seus corações, como a esperança de uma promessa por cumprir.
Estavam sentados. Sara encostada a Tiago. Apenas… Embora um ombro aguardasse
pelo reclinar de um rosto. Luís e Bárbara, uns metros imperceptíveis a jusante.
Tiago sentia Sara. Sara, nesse momento, apreciava a compreensão dele e
agradecia o seu calor, por outras palavras, o seu coração iniciava os
preparativos de uma longa viagem… Ambos, sem o saberem, inspiravam, de olhos
fechados, entardecer. Luís e Bárbara, por sua vez, ouviam aquela repousante
melodia líquida, de olhos no indefinido. Nenhum deles desafiou o silêncio do
verbo.
De repente, Bárbara levanta-se e dirige-se às tendas.
Regressa, pouco depois, com o seu Sony Sports amarelo. Antes de se sentar,
sorri para Luís. Ele retribui com o rosto, questiona com a razão, e agradece
com a emoção. Por fim, ela estende-lhe o auricular direito. Aos primeiros
acordes da música, ele aproxima-se um pouco mais dela, os ombros já se tocam, e
assim permanecem, numa comunhão de sonhos e melodias, embalados por uma canção
só sua, que lhes relembraria, para sempre, a eternidade do momento. Nada
disseram. Assim permaneceram enquanto durou a música. E um pouco depois…
Tinham escolhido, para pernoitar, uma clareira aprazível
próxima da margem. As tendas aguardavam já as estrelas. O costume de se sentar
à volta de uma fogueira é imemorial. Eles também se sentaram em redor do
elemento luminoso e quente. Tal como os seus antepassados longínquos. Havia uma
expectativa muda nos seus gestos e olhares. Uma ansiedade indizível – ou seja,
que a noite desse lugar ao dia. Mas a ansiedade humana retarda sempre o normal
fluir do tempo, e na altura todos desconheciam este singelo facto. E esta
primeira noite ia ser longa, muito longa…
XXIII
Se os observarmos cuidadosamente e de uma certa distância,
apercebemo-nos, apesar do diálogo, em volta da fogueira, decorrer com bastante
animação, de um indizível temor. Mas o que temiam eles? É uma questão que só
pode ser respondida por quem, efectivamente, experienciou a noite na sua
essência. Não será por acaso que, em qualquer publicidade turística, as
paisagens são-nos sempre apresentadas de dia. Como se, de alguma maneira, tal
facto nos aquietasse. O almejado controlo do espaço. Eles, neste momento, olhavam
em volta e não reconheciam o aprazível lugar escolhido, escassas horas antes,
para montar as tendas. Como se tivesse sofrido uma metamorfose. Afinal, fosse
outro. E era-o, de facto. Eles não conseguiam tanger esta verdade. Estavam
ainda aquém destes saberes: basta a luz para multiplicar uma só paisagem. A
noite confunde. Ressoa no seu abraço um apelo ao sonho, ao desregramento… E no
íntimo de cada um, lateja, de forma imperceptível, mas insistente, o clamor
pelo limite: génese da confiança intrínseca na relação com o mundo.
E ali estavam eles, sob o manto ancestral dos sonhos, no
coração verde de uma serra, a mais de uma dezena de quilómetros da alcatroada
civilização. A refeição obedeceu, uma vez mais, aos preceitos da etiqueta jovem
e do pudor. Mastigares cautelosos e horizontes de solo. Neste particular, Luís
familiarizava-se com o chão do mundo. Relembremos que ele não tinha passado de
escuteiro. A sua natureza era a praia. Fascinava-o a irregularidade daquele
solo: raízes deformadoras, pedras, ondulações de génese profunda, formigueiros,
troncos caídos, ervas, arbustos espontâneos, mais pedras, pedregulhos… Porque
seriam os espaços humanos tão lisos? Os seus pés aprendiam o caminhar da
natureza, enquanto a sua mente se enleava em porquês de sabor tardio. Curiosamente, todos evitavam olhar as
tendas. Como se não existissem. Talvez por simbolizarem uma fronteira de
géneros que, intimamente, procuravam transpor. Mas ali estavam elas, alumiadas
pela prata luar, majestosas, a proclamar valores com outras paisagens. Mas tão
presentes ali, naquele preciso momento, como se fossem próximos àquelas
árvores, àquele céu, àquele nocturno cântico líquido… Havia uma impronunciável
revolta interior neles. Porque, ao mesmo tempo, seduzia-os a doçura do
esquecimento, e compreendiam que o destino de qualquer viagem é o regresso.
Como se um regresso fosse uma capitulação. O proclamar de uma derrota. Talvez
por já conhecer o caminho. Talvez pelo cansaço de tanto o percorrer. Talvez, no
fundo, por não querer regressar… E almejar um partir sempre adiado pelo
desencanto regresso a um cansaço do conforto conhecido.
Sempre souberam o resultado daquele confronto. No fim, cada
tenda iria acolher apenas elementos do mesmo género. Compreendiam, com
tristeza, que as suas raízes eram mais profundas e tortuosas. Talvez por isso,
não houvesse almas lisas.
O diálogo exterior contrastava com o monólogo interior. No
fundo, contrasta sempre: o pensamento é sempre mais rápido que as palavras.
Talvez por falar uma outra linguagem…
B. – Isto é
fantástico. Nunca sonhei passar uma noite assim. Parece que estamos num filme.
É completamente diferente estar assim, aqui, do que ver nos filmes. (Luís
percepcionou o tom afectado de Bárbara. Como se acabasse de emitir a fala de
uma personagem teatral que lhe coubera em sorte.)
S.- Podes crer. Mas
estou com um bocado de frio. (A imagem das tendas emergiu, de novo, no
horizonte estrelado. Sobretudo na mente dos rapazes. Seria uma indirecta, de
Sara? Tiago quis acreditar que sim. Luís, por sua vez, compreendia que não.
Sabia, há muito, que ela padecia, de entre outras coisas, de desnutrição de
subtileza.)
L.- Para mim, está
óptimo.
T.- Alguém quer mais
comida? (De novo, a diplomacia.)
S.- Estou saciada.
L.- E tu, Bárbara?
B.- Também estou
cheia.
L.- Mas não comeste
quase nada…
T.- O que estarão os
nossos pais a fazer a esta hora? (Muito tempo depois, Luís ainda
questionava o porquê desta súbita e descontextualizada intervenção do amigo. Na
altura, quis confrontá-lo. Mas a sucessão de instantes é o alimento da
hesitação.)
S.- Estou
interessadíssima. A minha mãe a lavar louça e o meu velho já a dormir, depois
de ter anunciado, pelo menos vinte vezes, que pega às cinco. Já não o posso
ouvir. (Sara tornava-se mais audível pelo tom do que, propriamente, pelas
palavras. Comunicava emoções em
detrimento de ideias. Há muita gente assim. Regra geral, são os mais felizes: a
vida basta-lhes…)
L.- Estás a ser
injusta, Sara. Certamente, se não fosses tu, o teu pai não teria de trabalhar
tanto. (A indignação vencia-o sempre.)
S.- Não pedi para vir…
B.- Essa é velha! Já
te imaginaste com a idade dele? (Uma aliada para Luís. O bom-senso não
nasceu para o silêncio.)
S.- De certeza que vou
ser diferente!
B.- Isso é o que todos
dizem. A minha mãe… (As palavras silenciaram-se ainda no seu interior. Um
silêncio de mágoa. E de vergonha. Porém, a vergonha era mais profunda. E
Bárbara, nesta altura, ainda não o compreendia. É natural: a compreensão chega
sempre depois do sentimento.)
XXIV
…E a conversa prolongou-se madrugada dentro. Enquanto as
trevas cobriam a terra dos homens, os sonhos permaneciam coloridos. Com o tempo
descobrimos que as cores dos sonhos se vão esbatendo...E as cores das memórias
intensificando-se…Há quem chame a este fenómeno envelhecimento, e há quem o
denomine por resignação.
Sara foi quem primeiro anunciou a retirada. De imediato,
olhou Bárbara. Esperava, como é natural, solidariedade de valores. Bárbara
lia-lhe os gestos. Por fim, e um pouco a contragosto, levantou-se. Luís e Tiago
olhavam, agora, cinzas. Havia, entre eles, uma atmosfera de derrota. Ilustrada
por um emudecimento que se prolongou em demasia. Nenhum deles, nesse
entretanto, ousou levantar os olhos para o destino dos seus pensamentos. Assim
ficaram, por mais algum tempo… Luís revolvia cinzas, numa rapidez crescente,
talvez a mão acompanhasse as emoções… O rosto de Tiago alumiava-se de vermelho,
volta e meia, perdido que estava entre as cinzas e o gesto do amigo. Por fim,
Luís declarou sono. Tiago levantou-se de imediato, com o intuito de olhar a
tenda já habitada. Sentara-se de costas para o objectivo. Percebia-se luz, lá
dentro. Provavelmente, as lanternas. À medida que caminhavam, para o frio
desolador da sua tenda, nascia entre eles uma repulsa, talvez por se espelharem
derrota… Dessa noite, eles apenas guardaram a imagem das cinzas incandescentes.
Não houve mais frases. Cada um, no seu saco-cama, revivia cada momento, cada
frase, desse ansiado dia, numa tentativa de compreensão, que desaguou em
malogro. Só anos mais tarde, é que compreenderam a sapiência das cinzas. A
compreensão alarga-se com os anos. Mas, nessa noite, sem o saberem, perderam
algo mais. Irrepetível. A possibilidade de alguém os ouvir. Ouvir, em verdade.
No fundo, somos os principais obreiros da nossa solidão. E o problema da
aprendizagem da vida é que chega – quando chega – sempre tarde… Demasiado
tarde…
Elas ainda conversaram um pouco. Embora Sara assumisse,
quase sempre, o papel de emissor. Mas Bárbara conseguia, em simultâneo,
responder-lhe e focar-se nas suas questões. Só uma mulher é capaz de tal feito.
E Sara falou, falou… Por fim, exausta do dia, e cansada de tanta
superficialidade, Bárbara mergulhou:
B. – Amas o Tiago?
S. – (O rosto atónito, deformado pela surpresa da questão,
foi a única resposta. E o mais, silêncio…)
B. – Então, qual é o
teu problema? Ama-lo ou não?
S. – Bom, eu… Não sei…
Quer dizer, nunca me colocaram o problema assim…
B. – Ouve, é muito
simples: ou sim, ou não. Aqui, não há meio-termo. (Bárbara objectivava a questão.
No fundo, conhecia a resposta há muito. Só queria despertar consciências.
Talvez se, neste último entardecer, não estivesse tão alheada com walkmans e
melodias, e tivesse olhado ligeiramente para montante, fosse menos contundente
no tom emprestado à questão.)
S. – Mas porque é que
queres saber? (A questão/resposta estava eivada de uma certa indignação e
de algum pudor.)
B. – (Bárbara detectou-o. Não carecia de perspicácia, como
sabemos. Deteve-se, por instantes, a observar-lhe o rosto. Cada uma no seu
saco-cama. Estavam deitadas de lado. Mas, em vez de uma intimidade conspiradora
de amigas, havia uma deferência resultante de um facto do destino. Crescia em
Bárbara a convicção de que aquele rosto apenas lhe suscitava distância. Sim,
apenas isso: distância. Nada de antipatias. Como se olhasse alguém proveniente
de um lugar remoto, e adivinhasse uma comunicação deficitária. Porém, esgotava
todas as possibilidades de lançar pontes comunicacionais, como se pretendesse
atingir uma margem com ecos de naufrágio. Ainda assim, persistia nos seus
intentos. Em algum recanto do seu ser, percebia-se a razão daquele esforço. O
óbvio, no humano, tem sempre como destino alguma despensa. Talvez por anunciar
um desconforto indesejado. Bárbara continuava a analisar-lhe o rosto. O olhar
pisco que anunciava curtas distâncias, a deformação do mimo, as linhas de
imaturidade, a ausência de sofrimento… Todas estas características não a
irritavam, muito pelo contrário: suscitavam-lhe compaixão. Ela sabia que o
sofrimento bate a todas as portas: ou entra num hesitante vagar até se alojar
por inteiro, ou numa invasão repentina… Esta última possibilidade é dramática:
instantes transformam-se, dolorosamente, em anos. Para Bárbara, aquele rosto
iria beber o cálice do instante. Lamentava-o… Respondeu-lhe qualquer coisa, que
pouco depois esqueceu. Bárbara compreendia, com tristeza, a distância que as
separava. Uma distância inultrapassável por palavras. Esta sensação iria
tornar-se, com o decorrer dos anos, familiar. Não é fácil, na vida, encontrar
espíritos capazes de inspirar ideias e mergulhar na vertiginosa espiral do
velho diálogo. Disse um fugidio Até
amanhã, virou-lhe costas e apelou ao sono, enquanto aguardava, com
paciência, os famintos pensamentos dos últimos instantes de vigília, que apenas
relembram, em cada dia de existência, que, no fim de tudo, a eternidade
acolhe-nos em solidão.)
XXV
Um despertar é sempre uma violência. Foi Luís que, naquela
manhã de serra, primeiro abriu os olhos. Despertara-o um irritante e rouco
cantar de uma rola. Ele despertava com facilidade. Afinal, tinha um sono
povoado de sons. Basta recordar os anos de suspiros e sal maternais. Não é
cântico para uma meninice. Em Luís, o sofrimento, pé ante pé, foi-se apresentando,
até se tornar num velho conhecido. E ele ainda não completou duas décadas de
vida. Há casos assim. São aqueles que, verdadeiramente, mudam.
Tiago ainda dormia. Luís saiu da tenda sem olhar o amigo. O
mundo aguardava-o no seu esplendor matinal. A luz ajudou-o, pouco a pouco, a
reconhecer o que as trevas haviam ocultado. Uma neblina desprendia-se da terra.
Ainda não deviam ser oito da manhã. Havia uma multiplicidade de sons no ar. E
nas árvores mais próximas ao rio. Ele inspirou longamente. O único que se lhe
gravou na memória. Talvez por ter sido o mais longo. O mais desejado. Não, nada
disso. O que se lhe gravava para sempre era o momento: um alvor recortado por
montes, emoldurado por árvores, e cantado pelos seres.
De repente, sentiu leves passos atrás de si. A atenção
retirou-o do torpor. Um nome ecoou em si: Bárbara! Virou-se, na ânsia do
repente. A desilusão equilibrou o fascínio do inspirar de há pouco. Sara
sorria-lhe, com um aspecto ainda mais apatetado, fruto do despertar. Luís olhou
a tenda de onde ela emergira, num olhar de socorro por Bárbara. Nada… Entre o
clássico Bom-dia e o típico Dormiste bem?, assim se desenrolou a
conversa. Decidiram ir buscar água ao rio, para o pequeno-almoço. A actividade
é a melhor terapia para o embaraço. À medida que caminhavam, Luís apercebia-se
de espontaneidade em Sara. Nada lhe saía teatralizado. Cada gesto, passo,
palavra, mesmo o olhar, entre o ensonado e a admiração. Afinal, ela também
comportava estética. Nunca estivera, antes, cinco minutos a sós com ela. Sempre
o evitara. Admirava-se, agora, de se enternecer com aquele ar despenteado, os
bocejos regulares, e a humildade singular de um rosto recém-acordado.
Aproveitaram, igualmente, para encher os cantis. A caminhada ia ser longa, e o
dia amanhecia ameno. Parecia que o frio sentido na véspera não passava de uma
impressão longínqua, quase irreal. O presente é uma ditadura. Tiago
surpreendeu-os na vinda. Sara ria, com vida, de uma qualquer piada de Luís.
Tiago passou do espanto para o azedume, pouco antes de eles se aproximarem. O
seu rosto testemunhava-o. Embora procurasse escondê-lo através de um plástico Bom-dia. Luís não desvelou pelo rosto,
mas pelos arames da saudação. Aquele instante marcaria, indelevelmente, as suas
vidas. A desconfiança e o ciúme aportaram entre os amigos. Sem aviso. Algo se
quebrara. Talvez os ingénuos laços da espontaneidade. Abria-se a porta à
obsessão, ao interior. Luís soube-o, de imediato. Tiago e Sara levariam o seu
tempo. O olhar de Luís, imperceptivelmente, pousou na tenda que acolhia
Bárbara. Como se buscasse, em si, vestígios desta mudança intuída. A tenda
respirava imobilidade. Entretanto, no exterior, tudo se metamorfoseara. A
questão de sempre: a realidade não sonha, é sonhada. E o tempo do sonho não é o
tempo do homem. É uma outra coisa. Daí a dor do acordar…
XXVI
Luís furtou-se ao pequeno-almoço com Tiago e Sara. Precisava
de tempo e espaço. Ao afastar-se, escudado por uma desculpa circunstancial,
reparou que Sara subira de novo ao palco. Ou seria a de há pouco, aquela que o
enterneceu, a actriz? Não, não podia ser. É impossível representar no desvelo
de um sono. Esta sim, é que representa um papel. Porquê? Esta questão
acompanhou-lhe os passos. Se a outra, envolta no fresco manto da humildade, lhe
suscitou simpatia, porquê a assumpção desta patética figura? À medida que se
distanciava, subindo um dos montes próximos, outra luz descia sobre os
acontecimentos. No fundo, a compreensão das coisas advém com a distância.
Sorria, interiormente, para Sara. Porque sorrir é
compreender. Ela representava a personagem por quem Tiago se apaixonara. E, no
fundo, ela receava perdê-lo. Daí o receio do desvelo. Daí a arrogância. Daí a
infelicidade… De se perder nos escombros de uma imagem.
A meio da encosta Luís parou, e inspirou, de novo, a leveza
fresca daquele ar serrano, e sentou-se encostado a uma árvore. De onde estava,
podia observar parte do caudal cintilante do rio, mais em baixo, e com mais
amplitude os montes circundantes, trajados de árvores e mais árvores… Reparou
que o céu estava mais próximo. Desencostou-se do tronco, e deitou-se de costas.
Ficou a olhar um céu primaveril que ostentava o azul. Um azul perpassado por
umas fímbrias brancas. Desconhecia o facto. Apurou a visão. Sim, de novo o azul
acompanhado por uns ténues filamentos brancos. E tudo se movia. Sim, afinal era
o céu que se movia. Os livros estavam errados, e com eles todas aquelas
teorias. Quem poderia contradizer a visão? E, subitamente, ao olhar aquela
eternidade azul, sentiu Bárbara longe. De facto, tudo ficava longe…
Por fim, o sol obrigou-o a desviar-se. Olhou um ramo
próximo. Admirava, agora, a graça com que se alongava, em contínuas
multiplicações, numa harmonia de matéria e céu. Como se abraçasse o todo, e tangesse
a impossibilidade. De súbito, levou a mão ao rosto. Contemplou as inscrições
gravadas na palma. E, então sim, compreendeu…
XXVII
Bárbara já estava a pé, quando ele regressou. Arrumavam as
coisas. Assim que a vislumbrou, ouviu o convite da vida. Ela viu-o a
aproximar-se. Não sorriu. Cumprimentou-o, laconicamente. Ele retribuiu. Quem os
visse, lia indiferença. Quem os sentisse, compreendia a promessa…
E assim partiram. Na vida há sempre sinais, avisos, para se
mudar de rumo. É lastimável que só com o avançar da idade estes outros ouvidos sejam apurados. A surdez da
juventude é flagrante! Caminhavam, de novo, pela margem, em direcção a
montante. Como se desafiassem a ordem da natureza, o próprio curso das águas.
Luís evitou Tiago. A sua presença, agora, fazia-lhe o sangue descer para as
mãos. Mau princípio… Daí o seu afastamento. Tiago começava, nesta altura, a
avaliar as consequências do momento. A sua durabilidade. Como se,
aleatoriamente, certos momentos tivessem o condão de se projectar no futuro.
Por outras palavras: transpor o fugidio presente e abraçar a eternidade: por
constituírem um contínuo presente: revivido até à exaustão pelas atormentadas
almas terrenas.
À medida que subiam, a vegetação intensificava o povoamento
das margens. Foram obrigados a desviar-se um pouco para o interior. Nesta fase,
o sol não encontrava caminho por entre o manto verde. A inquietude sussurrante
das sombras contribuiu, ainda mais, para a crispação. Não se ouvia um pássaro,
há muito. Apenas os seus passos, intervalados pelo constante estalar de ramos
caídos, pisados ao longo do caminho. Bárbara aproxima-se de Luís, que seguia
ligeiramente mais à frente. Afinal, ainda havia questões por responder…
B.- Ouve, Luís,
conta-me lá mais pormenores do que realmente aconteceu.
L.- Bom… não sei muito
mais coisas. Então… Ele estava como guarda-florestal há vários anos por aqui. A
família vivia lá em cima. E diz-se que…
B.- Mas o que é que o
levou a…
L.- Diz-se que foi do
lugar.
B.- Do lugar como?
Ficou possuído?
L.- É uma forma de se
colocar a questão. O grande problema foi a solidão. Enlouqueceu-o.
B.- Parece que o
desculpas?!
L.- Não julgo ninguém.
B.- Bom, se não
julgas, é porque aceitas… E pior, compreendes!
L.- Ouve, Bárbara.
Estou noutra. (Neste momento, ele cai em si. E compreende que não queria
ter dito metade das coisas que disse, nem usado aquele tom, a caminhar para a
altivez distante. Sempre a inultrapassável fronteira entre pensamento e acto.
Não ousa olhá-la. Sabia, de antemão, a facilidade feminina em perscrutar os espelhos da alma.)
B.- Parece que, de
certa forma, cada vez mais te identificas com tudo isto.
L.- Longe disso. Mas,
não sei… Há uma parte em mim, que sim, que compreende a loucura daquele homem.
Vejo o amor e a morte muito ligados… (De novo, o arrependimento das
palavras.)
B.- Andas muito
trágico! Acho que o amor pertence à vida. De certa forma, celebra-a…
L.- Estás muito
filósofa!
B.- E tu, muito
estranho. (Ele não gostou desta frase. E apercebeu-se, lentamente, de que
também estava a representar um papel. Um papel que desconhecia. Navegava, neste
momento, ao sabor das palavras.) Mas
voltando à questão. Ele amava a mulher?
L.- Era louco por ela.
Segundo consta, era lindíssima. Foi cortejada durante muito tempo por um colega
de escola, que chegou a pedi-la em casamento. Ela recusou. Esse colega seguiu
diplomacia, e chegou a ser embaixador no Brasil.
B.- Como é que sabes
tudo isso?
L.- Pelo meu avô. Ele
conhece essas histórias todas.
B.- E ele sabe que
viemos ao local onde aconteceu…
L.- Claro que não!
Achas que sou doido?! É outra mentalidade.
B.- Coitada! Podia ter
acabado embaixatriz, e, em vez disso, mulher de um guarda-florestal que
enlouquece e… Realmente… O amor é tão estranho. Parece que as pessoas estão
destinadas sempre a apaixonarem-se pela pessoa errada.
(Durante algum tempo, só ouviram natureza…)
L.- É o destino,
Bárbara, é o destino. Nunca tinha pensado nesses termos, mas agora que o dizes…
Porque será?
B.- Não sei! Mas não
faz qualquer sentido. Vejam bem, ela ainda podia estar viva, ser feliz,
se…Pois, se…
L.- O embaixador veio
ao enterro e quis ser testemunha de acusação no julgamento.
B.- Amava-a, de facto…
L.- Pagou todas as
despesas dos funerais.
B.- Bem, o teu avô
deve viver numa biblioteca!
L.- Não. Vive aqui
perto e frequenta o mesmo café há muito tempo, e, ainda por cima, tem a mesma
empregada há décadas. São três bons motivos para se estar bem informado.
B.- No meio do horror
ainda há lugar para a beleza!
L. - Andam sempre lado
a lado.
B.- Estou aqui a
pensar se será pior a solidão ou estar com a pessoa errada?
L.- Ambas são
péssimas. Mas antes só do que… (Ele não conseguiu concluir a frase. O
pensar travou-lhe a língua.)
B.- Não sei, mas estar
só é… Imagina certos dias do ano… Ir almoçar só… Chegar à noite a casa e não
haver ninguém à nossa espera… Deve ser… Venha a pessoa errada! (Esta última
observação desiludiu-o. Afinal, ela brilha mais à distância. Coitado!
Desconhecia, ainda, esta lei universal…)
L.- Venha a solidão.
B.- Não sei…
XXVIII
Os sonhos são a voz e a cor da memória do homem. Devíamos
aprender a ouvi-los… Ainda hoje, talvez nenhum deles tenha aprendido essa
lição. Na altura, nada sabiam disto. No fundo, sabiam muito pouca coisa… ou
quase nenhuma. Bárbara, contudo, já aprendera a ouvi-los… É curioso como
amadurecemos com ritmos tão distintos.
Avistaram a mãe-d’água ao início da tarde. A luz continuava
ausente dos seus passos. Pousaram as mochilas. Permaneceram, por algum tempo,
numa imobilidade silenciosa. Como se, por algum motivo, qualquer som
constituísse um sacrilégio. Foi Luís quem rompeu o estatismo. Avançou para
aquela construção, redonda, cinzenta, completamente descontextualizada, como se
ali tivesse aterrado, num prenúncio de outras vidas, mas, ao mesmo tempo, havia
nela um clamor radical, inerente a qualquer fruto da terra. Luís contornou-a,
enquanto os outros assistiam, algures entre o espanto e o herético. Bárbara
compreendeu, instintivamente, o círculo de Luís. Não foi um assomo de coragem.
Muito pelo contrário, foi uma declaração de medo. Medo talvez não seja o mais
correcto. Tratava-se, digamos, de uma inibição respeitosa. Assim que avançou,
ele deparou-se com a abertura da edificação, e, por não lhe ser permitido
recuar – o ancestral orgulho masculino, sempre! –, optou, sagazmente, por
contorná-la. Por fim, os outros avançaram. Uma muda exclamação irradiava dos
seus rostos: Então, é isto! Como se
esta conclusão encerrasse o seu declarado desapontamento. Mas, simultaneamente,
havia um desconforto sentido, mas nunca verbalizado. Como se aquela mãe-d’água
correspondesse a uma anciã, que os olhava com desdém, por pressentir questões
acerca das armadilhas da vida, que responderia numa mudez obstinada. Foi
Bárbara quem ousou, em primeiro lugar, perscrutar os ecos sombrios da
construção. Avançou decidida, em direcção ao desconhecido de pedra. Majestosa.
De certa forma, arrogante. Como se obedecesse a um inaudível chamamento. Mas,
ao mesmo tempo, havia na sua decisão e no seu passo uma naturalidade tal, que
parecia uma encenação previamente estabelecida. Apenas trevas e um ténue canto
de uma linha de água. E um gotejar omnipresente, que apenas evocava tempo e
memórias. Aberto o caminho, outros seguiram-se. Regressaram, para junto das
mochilas, numa perturbação controlada. A juventude, talvez pela frescura dos
juízos, intui, com celeridade, os paradoxos da realidade. Como pode, um lugar
de nascença, acolher nos seus braços um múltiplo fim? Pode, uma mãe,
simultaneamente, ser princípio e fim?
O mito é o respirar do sentido. Estas verdades ainda não
lhes eram tangíveis. Mas Luís, ao aperceber-se da desilusão generalizada,
recuperou o mito: e, assim, o local começou a transfigurar-se a seus olhos. Por
outras palavras: a realidade passava a ser vista pela lente do mito: fértil em
cor e ruído…
L.- Dizem que tudo
sucedeu de noite. Trouxe para aqui os corpos e…
S.- Chega! Não
precisas de explicar mais nada.
L.- É só para que
percebam. Como deves calcular, não pretendo assustar ninguém! Só me estou a
cingir aos factos.
B.- Não sei se é por
conhecer a história, mas este lugar tem qualquer coisa. Já repararam, é que nem
se ouve um pássaro. E esta construção… Já viram a data? 1910. (O ano era
irrelevante. Bárbara sabia-o. Para eles, aquela construção tinha a idade do
mundo.)
T.- Sim, tens razão.
Está visto. Regressemos.
B.- Eu acho que ele
matou por amor.
S.- A família toda?!
B.- É difícil
explicar. Mas, de certa forma, compreendo-o. Ele foi vencido pela solidão e…
S.- Ouve, acho que te
estás a passar com esta história toda. Para mim, chega! Vou-me embora, e é já.
B.- Eles não se deviam
falar muito: pai, mãe e filhos… Algo de irreversível ter-se-á instalado. E
vencera-os. O silêncio, por vezes, é um insaciável devorador de palavras. Acho
que, para ele, foi como se os protegesse. Ele devia ser muito sofrido. E tu,
Sara, sempre com juízos mais rápidos que a língua! Bom, mas nunca o irias
compreender…
S.- Talvez se tu,
inteligência, o explicasses, eu tivesse alguma possibilidade.
B.- (Desta vez, Bárbara já não respondeu. Sempre a distância.
O seu olhar, que elucidava fim de diálogo, recaiu na mãe-d’água e nas árvores
circundantes.)
T. e S.- (Pegaram nas mochilas e afastaram-se ligeiramente,
numa expectativa de partida. Era Tiago quem refreava as ânsias de regresso a
Sara. Sempre a diplomacia! Embora, interiormente, se visse, já dentro do seu
carro, apenas com Sara. Mas o exterior é um tirano inclemente.)
L.- (Luís perdia-se em Bárbara. Como se aquele lugar
aguardasse, desde sempre, por ela. Como se ela conhecesse cada sombra daquela
estranha história. Como se, a seus olhos, se purificasse um pouco a sordidez
dos acontecimentos. No fundo, parecia um lugar carente de compreensão. E só um
habitante da solidão, seria capaz de tal gesto.)
Ainda demorou algum tempo, mas, por fim, regressaram…
Regressar
XXIX
Li uma vez, já não me lembro onde, que para fazermos Deus rir devemos contar-lhe os nossos planos. Mas,
naquele tempo, nós éramos os próprios deuses. E ríamos bem alto… Até que os
risos se tornaram um eco longínquo. Até o tempo o silenciar por completo. Até
que, por fim, nos alimentamos de memórias do que fomos para nos esquecermos
daquilo em que nos tornámos. Porque só olha para o passado quem sente o
desconforto do presente.
Do regresso, apenas guardo vagas impressões de silêncio e
incómodo. E a neblina que caiu dos picos, pintada de ocaso, no último
entardecer. Como se velasse os pecados da terra. Ainda hoje retenho a sua
textura, o seu odor. Foi-nos impossível prosseguir. Pernoitámos por ali. E
compreendemos que, entre nós, já não havia laços. Tudo se diluíra. Como se,
cada casal, naquele curto espaço de tempo, tivesse construído o seu próprio
mundo. Com linguagem, regras, valores, distintos… Apenas Sara pisara as duas
realidades. Mas, no fim, optara pela segurança da familiaridade. Talvez por
saber com o que contar…
Sim, ainda se parou na praia. Talvez para respirar. Eu e
Bárbara afastámo-nos, num desamparo de incerteza. Por fim, cedemos à fadiga
enquanto o nosso olhar repousava no horizonte. Na minha memória, só ecoa o
final…
L.- Acabámos
por não chegar onde queríamos…
B.- Enganas-te, Luís.
Só chegamos onde podemos.
L.- Pareces uma velha
a falar.
B.- E sinto-me uma,
acredita… (Nisto, Bárbara vira-se para Luís e beija-o na face, enquanto lhe
dá a mão sob a areia.) Obrigado…
XXX
Do passado regressa sempre connosco um passageiro
indesejado: a melancolia. E somos vazio… Foi assim, num arrastar sofrível de
pés, que entrei no banco. Aí chegado, iniciei um jogo, que disputo há muito,
mas onde nunca pedi para entrar; ao certo, não sei como acaba; mas há jogadores
que vão sendo desqualificados; as regras são, mais ou menos, estas: ver quem se
arranja melhor, quem se ri mais, quem aguenta mais humilhações, quem está
disposto a regressar a casa mais tarde, quem não se importa de juntar cada vez
menos moedas… É, de facto, um jogo estranho. Ainda hoje, não percebo o porquê
de o disputar. E, pasme-se, ainda não o perdi…
A meio da manhã, as filas do costume, e, de novo, rostos
crispados, ansiosos, suplicantes… A maioria das imagens uma perfeita antítese
dos famintos pecúlios. Como trapezistas entre o palco do mundo e as misérias
pessoais. E, de dia para dia, cada vez mais candidatos ao céu dos circos… A
hora de almoço é uma corrida até ao balcão do café mais próximo, uma sopa
sorvida entre alguns encontrões, raramente seguidos de um singelo desculpe, uma sandes de ovo e salsicha a
contemplar o calcorreado passeio, vultos num contínuo movimento, em direcções
opostas, mas, de alguma forma, aquele movimento ajuda-me a engolir a indigesta
sandes, talvez por me recordar a urgência de destino…
A tarde é sempre mais vagarosa que a manhã. Nunca percebi o
porquê. Passou numa lentidão de sombras espreguiçantes. Fechadas as portas,
ouvem-se as piadas agrestes dos colegas, algumas recebidas numa indulgência
olímpica, tal a sua exaustão, confidências masculinas, de fins-de-semana
estrepitantes, que são, no fundo, ruínas de ilusões para ocultar lares
cambaleantes, por divórcios, fadiga e desencanto.
Durante a reunião, no final do dia – sempre me questionei
acerca da intimidade entre reuniões e finais de dia –, remeti-me ao silêncio,
primeiro passo para a divagação… Pensei em Tiago… E Sara. Acabaram por casar.
Era previsível. Sempre os limitados horizontes suburbanos a acompanhá-los. Ouvi
dizer, que vão para o quinto filho. Nunca imaginei, aquela palerma mimada, a
cumprir abnegadamente as funções da natureza. Parece que se converteram em
papa-hóstias. Não sei o que os influenciou. Talvez a necessidade de uma pousada,
onde reclinar a cabeça, no meio da odisseia das dúvidas. E, convenhamos, no
reino da batina e da estola a diplomacia é um excelente cartão-de-visita. Nunca
mais nos falámos. E, ainda hoje, não sei bem porquê.
Enfrento, agora, a fila do regresso. Ainda mais lenta. Ainda
mais cansada. Nem dei pela passagem da reunião. Mas sei que a vivi. As marcas
ficam. Ficam sempre: um contínuo subtrair de entusiasmo. O seu equivalente
traduz-se na crescente compreensão dos velhos, que ruminam incessantemente, com
as suas bocas desertas, sonhos inconclusivos. Seduzimo-nos por brindar ao que
foi, e esquecemo-nos de brindar ao que poderia ter sido. Hoje, neste regresso a
casa, uma vez mais na auto-estrada da monotonia, vejo, à minha direita, a serra
que se oculta na névoa do entardecer, e, à minha esquerda, o mar de sempre.
Nasce, em mim, o desejo de um rosto pintado de promessa.
Pedro de Sá
(30/03/11)