Rio Pranto II
Ao olhar para o fundo da rua, mais ou menos quando as
janelas em volta se iluminam, e a única palavra que faz sentido é regresso, ainda se lembra dos gritos e
das portas que batiam, mas o que lhe doía mais era o facto de as portas se
fecharem diante de si, como se lhe gritassem inclementemente indesejado, o cenário mudou várias
vezes, rés-do-chão, segundo-andar, chegou a conhecer um sexto-andar, e uma
cave, contudo, os gritos e o bater de portas subsistiam, o inclemente grito de indesejado também, havia outros pontos
em comum, das janelas só a sombra dos prédios em volta, às vezes, ele olhava o
passeio para, entre as pedras, sossegar a vista numa fragilidade verde que por
ali despontava, não eram necessários muitos passos para conhecer as escassas
divisões, regra geral, apenas uma salita, com uma amostra de cozinha integrada,
um quarto, e, para as necessidades básicas, um quadrado onde havia sempre
qualquer coisa avariada, de uma lâmpada fundida a uma torneira que teimava em
acompanhar o compasso do tempo, esta inconstância preencheu-lhe os primeiros
seis anos de vida, e mais uns meses, até que, certa tarde, ia buscar duas
pedras para demarcar o espaço de uma baliza, quando sentiu um frio repentino,
duas figuras, imóveis, no passeio, não descolavam os olhos de si, ainda se
baixou pelas pedras, talvez mesmo para ver se conseguia desviar-se daqueles
olhares, porém, sabia, sem direito a porquê, que a partir dali tudo mudaria, as
figuras, um homem, segurava uma pasta, e uma mulher, que, pelos passos e
gestos, se denotava cumprirem um guião escrito por outrem, deixaram o passeio e
avançaram ao seu encontro, atrás de si já se ouviam gritos impacientes, os
amigos da rua exigiam-lhe o regresso, e as pedras para demarcar o espaço de uma
baliza, não ousou olhar para trás, limitou-se a acompanhar as duas figuras até
a um carro, que ostentava a cor do fim, por acaso, a imagem de uma precipitada
corrida, rua fora, nem sequer lhe nasceu, estranhou esta sua apatia, mas assim
foi, desde que avistara aquelas duas imóveis sombras, no passeio, que o olhavam
numa insistência calada, quando um sentir sem verbo nos alerta para algo, pois,
algures por aí, os gritos impacientes, atrás de si, cresceram, mas deram lugar,
assim que entrou, ladeado pelas duas sombras, numa viatura, que ostentava a cor
do fim, mal estacionada, a um doloroso espanto, como se, naqueles escassos
segundos, tivessem compreendido a noite da vida, ficaram ainda, largos minutos,
de braços caídos, o olhar o fundo deserto da rua, o carro há muito se diluíra
dos seus olhares, nessa tarde, não houve mais jogos, conversas, brincadeiras,
houve duas pedras que não cumpriram o seu desígnio de demarcar o espaço de uma
baliza, permaneceram caídas num chão
agora vazio, cada um regressou para sua casa, fechou-se no quarto, e ruminou, deitado a olhar para o tecto,
pensares inconsequentes sobre o que era, afinal, a noite da vida?
Ao olhar para o fundo da rua, mais ou menos quando as
janelas em volta se iluminam, e a única palavra que faz sentido é regresso, sentia o seu coração serenar,
havia outros miúdos, também àquela hora, de regressos e janelas iluminadas em
volta, que cumpriam o mesmo ritual, talvez, por alguns momentos, todos os
corações serenassem, não com a imagem do fundo da rua anoitecido, mas com a
luz, por muito ténue que fosse, de uma esperança com o rosto de mãe, contudo,
acabavam por regressar à frieza dos seus leitos, no infindável dormitório, tudo
é infinito na meninice, não obstante o desamparo da hora, de aqui e ali haver
lágrimas cantadas, de hoje um frio mais sentido que no ontem, de um esforço
maior para largar o fundo da rua anoitecido, sabia que amanhã, à mesma hora,
regressaria àquele horizonte, não sabia porquê, mas dali parecia-lhe sentir,
mais perto, a voz de sua mãe… Certa tarde, caminhava, desta vez não por duas
pedras, mas por uma bola que foi parar na distância de um erro, quando, à sua
frente, dois vultos imóveis, percebeu, num relance, que não havia pastas nem
guiões escritos por outrem, ela de braços estendidos, prontos para o acolher,
baixara-se à sua altura, precipitou-se, de imediato, numa corrida ao seu
encontro, atrás de si já se ouviam gritos impacientes, os colegas exigiam-lhe o
regresso e a bola, assim que se viu no calor daquele amplexo, o horizonte de um
fundo de rua anoitecido já uma memória muito difusa, a mãe sussurrava-lhe
perdão e amor aos ouvidos, enquanto ele sentia lágrimas, embora ignorasse a
fonte, nisto, o outro vulto aproxima-se, numa sintonia de passos e gestos
deselegantes, pela mão, um saco de plástico, baixou-se também, sorriu-lhe
enquanto lhe estendia o conteúdo, sob a forma de uma nova e reluzente bola de
futebol, do saco, tinha um rosto simultaneamente afável e sofrido, como se a
esperança não tivesse inteiramente dali partido, aproximadamente teria a mesma
idade que a mãe, soube, depois, que ganhava a vida atrás do volante de um
camião, por vezes, dias e noites seguidos, alimentado a cafés e químicos que
permitissem cortar metas sem medalhas, um sujeito que lhe demonstrou, em
gestos, o significado da palavra pai, ficou
perplexo porque, ao contrário de antes, com ele nunca houve gritos nem portas a
bater, indesejado também se tornou
uma muito difusa memória, aos Domingos, tornou-se habitual um galão e um bolo
numa pastelaria próxima, sabia-lhe a céu, claro, um vulto que, a cada instante,
ganhava cor, a mãe simultaneamente aquém pressas, caminhavam ao sabor do
instante, fascinava-o vê-los de mão dada, como se, de repente, a vida lhes
abrisse uma possibilidade de, pois, de lavar a memória, como seria bom, certo
domingo levaram-no ao Jardim Zoológico, entrou às cavalitas do pai (foi assim
que se intitulou, por um qualquer acaso, e como lhe soube bem…), cumpriu com o
rito da moeda ao elefante, seguiu-se a sonoridade da corneta, como eram longas
as tardes de infância, porém, aquela afigurou-se-lhe apenas um instante, como
sucede com a felicidade, daí o nosso permanente desencontro, embora tanto a
invoquemos, ainda teve direito a algodão-doce, num certo momento, deteve-se a
olhar a mãe, parecia tão mais nova, como se nunca houvesse gritos e bater de
portas no seu viver, além da constante sombra dos prédios em volta, nesse final
de tarde, durante o regresso ao colégio, custou-lhe calar uma questão, já as
luzes se faziam anunciar ao fundo da rua, daquele lugar de uma só palavra, de
facto, não há muitas para um espaço de desencontros,
quando ouviu sua voz, muito segura, perguntar Afinal, quando é que me tiram daqui? Foi ele que, uma vez mais,
desceu para olhar o mundo do mesmo lugar, pousou-lhe as mãos nos ombros
descarnados e assegurou-lhe, baixinho, com a confiança de um amanhecer, O mais depressa possível! O mais depressa
possível! Ela, um pouco mais acima, acompanhou-lhe as palavras em silêncio,
enquanto um sentir excessivo lhe distorcia as cores do momento.

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