Desencanto

 


Para ela, regressar, desde que se lembra, sempre uma aura de derrota, se lhe pedissem para explicar, nem uma sílaba emitiria, talvez por senti-lo nas funduras do ser, onde o verbo nem à porta ousa bater, como agora, descortinava-lhe um sorriso, apatetado, no rosto, os filhos, atrás, em tumulto, não olhava a estrada, perdida no labirinto dos seus pensamentos, em verdade, do sentir, uma notória tristeza ameaçava submergi-la, desde o início, da viagem, ali só o seu corpo, não que desejasse continuar a estadia, a partir de certa altura, aquela rotina – casa, praia, casa, praia, casa, praia…  – causou-lhe um enjoo que, em determinada ocasião, fê-la abrir a torneira e correr água fria sobre os pulsos, ouvira em algum lado este conselho, pelo menos, permitia-lhe, por uns minutos, abstrair-se do estatismo diário, há mais de uma década assim eram as férias, um apartamento, não disfarçava o tempo, alugado, a Sul, a distância da praia exigia automóvel, de certa forma, ela não descortinava diferença do seu quotidiano, como se aqueles dias fossem um extenso fim-de-semana de Verão, desde a primeira vez, nunca gostou da casa nem da localização, ele, orgulhoso,  “Já os meus pais para aqui vinham,” a frase pairou-lhe por uns instantes, indecisa se o que mais a irritou foi a fatalidade ou o orgulho da entoação, parecia haver nele uma manifesta necessidade de prolongar a infância, uma urgência de correr contra o tempo – o malogro de muitos – ou de cristalizar momentos – o malogro de não menos –,  nada partilhou destas suas conjecturas, não valia a pena, ele aquém de reflexões, apesar de, em determinadas circunstâncias, saírem-lhe umas bazófias, não de um contexto específico, ela sabia o porquê, em nada se destacava, daí a generalidade da prosápia, nos primeiros tempos, irritava-a solenemente, chegou a censurá-lo, sobretudo para a facilidade criativa de neologismos, ainda hoje ele desconhece este conceito, crê, com sinceridade, que tais palavras se encontram gravadas, há séculos, no dicionário, embora nunca as fosse verificar, estes laivos de gabarolice, nos últimos anos, só lhe despertaram um resignado sorriso, pouco mais, esta coisa de qualquer um estar munido, na mão ou no bolso, de um omnipresente rectângulo, com múltiplas portas abertas, para o desamparado vazio, permite a todos construir uma frase sobre a mais díspar temática, a renegada ignorância, sem dúvida a mais perigosa, por aqui ele respirava, nunca leu um livro, nem tão pouco tentou, ela sempre preferiu poucas janelas, mas que o horizonte levantasse sonhos, não por acaso, todos os dias, pela mão, um volumoso rectângulo de papel, assim a conheceu, de olhar absorto para uma página, difícil compreender o que une duas pessoas, talvez das questões mais complexas da existência, ela inclinada a assimilar ideias, ele a viver o instante, de futilidade em futilidade, nunca procurou sair da sua circunstância, faltavam-lhe arrojo e intelecto para tal, há muito se desapaixonara dele, recorda-se com nitidez quando, no decorrer de um diálogo, alguém lhe perguntou se efectivamente chegou a estar apaixonada, não conseguiu articular uma sílaba, não encontrou resposta, previsível, nunca se lhe colocara tal questão, difícil compreender o que une duas pessoas, enternecia-a a sua simplicidade, a dedicação aos filhos, o respeito do trato, a ausência de vícios perniciosos, a manifesta necessidade de prolongar a infância, uma urgência de correr contra o tempo, era carinhoso na intimidade, não obstante a crescente mecanização de ambos os lados, se lhe perguntassem, agora, que estação do ano traduz o seu sentir, ela responderia, sem quaisquer hesitações, o Inverno, pelo seu rosto, com um sorriso apatetado, apenas Verão, relatava-lhe, neste momento, o telefonema da mãe a convidá-los para jantar, disse que aceitara na esperança de ela não se importar, percebia-lhe a mensagem, embora não o ouvisse, estava longe, numa distância muito sua, desde o início, da viagem, ali só o seu corpo, como se, de repente, nesta nossa caminhada pelo aqui, uma questão nos atirasse por terra: alguém lhe perguntou se, de facto, chegou a se apaixonar por ele; só para iluminar uma evidência que sagazmente atirou para um qualquer recôndito canto da sua consciência, no entanto, tem presente a sua resposta: elencou as suas qualidades, dessa forma preencheu o opressivo silêncio que lhe fez cair a alma de encontro ao chão do mundo; nada lhe apetecia aturar os sogros, ainda mais superficiais que o filho, como se tal fosse possível, o tumulto dos miúdos, no banco de trás, longe de um fim, os gritos que nem lâminas na sua consciência, a certeza de cumprir um indesejado regresso, e uma palavra, paixão, a meio caminho entre os seus sentir e pensar, só por uma vez a conheceu, desse lugar nunca houve ânsias de partidas, pelo contrário, permaneceria ali para sempre, corpo, pensar e sentir irmanados, tão raro nesta caminhada atingir tal estado, perguntou-lhe pelos seus pensamentos, ela grata por não lhe questionar o sentir, tão desordenado estava, respondeu-lhe uma trivialidade, percebeu-lhe gratidão, parecia ansiar por uma resposta assim…

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