A beata maledicente II
Hoje
levantou-se-me a lembrança de uma história que, na juventude, um amigo contou, havia,
na rua onde ele morava, uma cadela que se fartava de parir, ao ponto de, segundo a sua descrição, enquanto deambulava pela rua, as crias já lhe caíam de forma
natural, não fui o único receptor, na altura, ficámos entre a incredulidade, um
esgar de riso e simultaneamente de horror, duas emoções, na aparência, tão
antagónicas, não foi acaso iniciar a narrativa com esta reminiscência, ao saber da farta
actividade parideira da beata maledicente, foi a imagem, da cadela a parir, ao
longo da rua, que me surgiu, embora, aqui, faça uma ressalva significativa: é
tão mais digno o animal! Se, porventura, o leitor tiver presente a anterior
crónica sobre esta figura tétrica, lembrar-se-á de que a sua principal
actividade consiste na maledicência, sobretudo num contexto familiar, onde se sinta à
vontade para debitar boçalidades, temperadas com o seu peculiar toque beatífico,
é capaz de caluniar indivíduos com quem nunca trocou uma palavra, apelida de
drogado o sujeito que nunca fumou um cigarro, de bêbedo o que nem o cheiro de
vinho suporta, de violência doméstica quem daria a vida pelos seus, de
homossexual quem tanto gosta de mulheres, enfim, o número de exemplos é
exaustivo, estranho o facto de, há uns dias, a beata maledicente ser avistada de
óculos-escuros, o que esconderia? Um olhito-negro? Será que transfere para os
outros a sua experiência? Entre procissões, rezas e hossanas, terá a mãozita do
idoso rechonchudo, com quem partilha o lar, escorregado para o focinho da
beata? Uma questão pertinente, aqueles óculos-escuros tão suspeitos, num
espaço-fechado, além da notória falta de nível, como é óbvio, o que esconderia?
No meu entendimento, a obsessão desta figura tétrica em maldizer tudo e todos,
pelas costas, à sua volta, resulta, sem dúvida, do fenómeno da transferência,
só uma mente muito desordenada e problemática conseguiria conceber tais
calúnias, em verdade, tudo resulta da sua experiência, apesar de muito ter
parido, não a julguem pródiga no zelo do lar, como salientei na crónica
anterior, gosta e muito de passeatas, nem que seja na companhia de uma
porcachona até Madrid, com tantas crias em casa, é bem possível que uma, na
carência do afecto materno, procure um substituto para tal em aditivos químicos,
área que a beata domina na aparência, é provável que, numa ida ao quarto
dos pais, por lá tenha encontrado algo, cheirou, gostou, enrolou, um bocadito
de lume, e partiu para outra dimensão, quem sabe tenha encontrado a nossa
senhora apregoada pela beata, porque a Mãe de Cristo não faz parte da geografia
destas funestas personagens, a beata maledicente também é frequentadora de
vales com rios, dizem que lá vai por dinheiro, fiquei incrédulo, com tantos
hossanas, missas, procissões, persegue o vil-metal? Com sinceridade, beata
maledicente! Pois, o tempo para tanta coisa parida não abunda, aí começam os
desvios, dizem que um, lá por casa, proclama o direito de ali trazer o
seu querido, um choque para a beata, o que pensará a sua seita, um ser, por si
expelido, com tais inclinações… Vai daí a transferência, está explicada aquela
língua mais porca que a sua cloaca, ai beata maledicente, ai beata maledicente,
percebo, agora, as tuas corridas, atrás do pároco sabujo, por corredores
sombrios, para te confessares, tanto tempo ali fechada com o pároco sabujo, ainda não
concluí qual de vocês o mais ímpio, é provável que estas idas ao
confessionário tenham chegado aos ouvidos do idoso rechonchudo, e, coitadito,
não se conteve, lá esticou a patinha redonda, ainda bem que não acertou nos amarelados e disformes incisivos da beata maledicente,
que se destacam à légua, quanto a apelidar de bêbedo um estranho, não haja dúvidas,
com tanta homilia, onde chafurda não devem faltar beberrões, ressalve-se que a
barriga do idoso não é de ontem, se lhe somarmos ciúme, o resultado é um par de
óculos-escuros no focinho da beata, pelo menos, desta feita, salvaram-se os amarelados
e disformes incisivos, esperemos pela próxima, não vá a beata maledicente
surgir de burca e charro na boca, creio que aí nem o pároco sabujo lhe abrirá a
porta do confessionário.

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