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Quanto tempo dura uma sombra?

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De repente, vejo-me diante deste estranho, com um aspecto frágil, delicado mesmo, e a questão (“Então, o que a traz cá?”) suspensa entre nós, embora só me pese a mim, quase me ensurdece (“Então, o que a traz cá?”), eu opto por olhar à volta, não me passou despercebido o silêncio da divisão, convidativo ao fluir da palavra, embora talvez um pouco artificial, uma vez que, lá fora, a dessintonia habitual da hora citadina, era uma sala agradável, um pedaço de lar ali colocado, as cores suaves, das paredes aos objectos, ao centro pontificavam dois cadeirões, de frente um para o outro, num convite implícito ao diálogo, assim que os vi, nasceram-me palavras... 
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… não vivemos, vamos morrendo, mais lenta ou rapidamente, esta é a realidade... in Divagações

Ao Sabor de um Eléctrico pelas ruas da Cidade

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São sete da manhã. Ele permanece ainda deitado. Chegara a dormir? O estore corrido não consegue travar o anúncio de dia. Levanta-se, numa dificuldade crescente do acumular dos dias. Mas, sim, levanta-se. Após arranjar-se, e antes que o silêncio da casa lhe ensurdeça a razão, senta-se num banquito de madeira para comer um copo de leite e um bocado de pão com marmelada. É uma casa pequena. Da cozinha avista a cama por fazer, e os bibelôs empoeirados por cima da televisão. Primeiro, sorve um pouco de leite. Não sabe porquê, mas sempre se habituou em jejum a ingerir primeiro líquidos. Talvez por ser mais digerível. Só depois vem o pão da véspera acompanhado com um poucochinho de marmelada. Mastiga, também, com a dificuldade do tempo acrescido, no ensurdecedor crescente silêncio da casa. Por fim, embrulha tudo e repõe nos sítios. Ao abrir o frigorífico, sempre se espantou com o excesso inato de prateleiras. Afinal, o dele emanava a brancura do vazio. Sempre foi assim. Até em anos ...
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Divagações

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A partir de hoje, se me perguntarem porque escrevo, responderei: porque a vida não me chega! É um facto: a vida não me chega! Aqui chegado, continuo sem lhe encontrar um sentido, quanto mais o Sentido, tantas teorias, da religiosidade às filosofias, porém, nada que, no quotidiano, mitigue uma extenuada questão regressada na voragem do acontecer: O que ando aqui a fazer? Se me perguntassem a coisa de uma outra forma (Gostas da tua vida?), a minha resposta seria pronta: Não! Quem responde o inverso (seja pela instaurada tirania do maldito politicamente correcto, para não ferir susceptibilidades próximas, pela ditadura do sorriso, a fraqueza de não reconhecer erros…), mente ou mente-se...

Uma janela para qualquer coisa de bom

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A primeira vez que ali entrei, pela mão dos meus pais, teria os meus sete ou oito anos, desde logo, fascinou-me a grandiosidade e a beleza do espaço, pude contemplá-lo demoradamente porque havia uma fila considerável, compreendi, pelas rasgadas janelas, um verde, lá fora, a relembrar-me aventuras em paragens longínquas, enredos de cinema ou banda-desenhada regressaram-me à vista de tão luxuriante paisagem, quando chegou a nossa vez, uma voz sussurrou-me (não me recordo se meu pai ou minha mãe), “Agora escolhes quatro variedades”, eu, atónito, a contemplar as múltiplas iguarias, algumas pela primeira vez, hesitante, renitente, a voz insistia: “Escolhe quatro variedades”, quase tacteando lá procedi à minha selecção, depositaram-me o prato no tabuleiro (não me recordo se meu pai ou minha mãe), seguiu-se a escolha da sobremesa, o meu olhar, não sei porquê, perdido numa iguaria verde, nunca vira um doce com tal coloração, com a exigida educação (sim, houve tempos em que a educaçã...