Livros do Escritor

Livros do Escritor

sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

Rua das Alfazemas

 


Quem morava na rua das Alfazemas? Todo o mundo ali morava, afinal, numa rua cabem os sonhos vivos e enterrados de cada um de nós, logo após o almoço, ela vinha para a janela, ali ficava até à hora da janta, sabia das rotinas de cada um, mas era um saber-lhe amargo, não era isso que a levava até à janela, mas o que já não encontrava por casa, afinal, numa rua cabem os sonhos vivos e enterrados de cada um de nós… Há quanto tempo ela morava na rua das Alfazemas? Foi depois de, sim, foi depois disso, ainda foram remetentes de outras moradas, talvez duas ou três, até que assentaram na rua das Alfazemas, ele partiu há três anos, mais concretamente trinta e nove meses, foi de madrugada, parece-lhe que foi ontem, de repente, algo a chamá-la para o lado de cá das coisas, o telefone parecia contorcer-se para que ela o viesse silenciar, por ter de se socorrer de um candeeiro para lhe alumiar os passos, lá fora, o mundo ainda uma harmonia de silêncios e sombras, o frio do momento fê-la cobrir-se, de imediato, com o robe e valer-se também de um xaile, compreendeu que a vida ainda não recomeçara, pelo contrário, despedia-se, antes de silenciar aquele obsceno grito na noite do mundo, sabia o que ia ouvir, sentiu-o no peito antes do silêncio pelo auscultador levantado, o coração partira de si para um qualquer lado, o pensar uma tela branca, por fim, uma voz mecânica, que mal conseguia disfarçar a total ausência de um calor sentido, informou-a de que o marido se finara, há uns minutos, em paz, o que lhe ficou, desse momento, foi a imagem de um imenso deserto diante de si, nada mais, afastou o auscultador, do outro lado, a voz mecânica persistia no seu desfiar de trivialidades, acalme-se, por favor, queira sentar-se… Quer que lhe mande algum apoio? Está-me a ouvir? Tem a certeza de que está bem? Ouça, infelizmente esta era uma situação expectável… Pense que, ao menos, o seu marido não sofreu… Partiu em paz… Um dia, irá juntar-se-lhe, acredite, lembre-se… Desligou, que sabia aquela voz ou qualquer outra de situações expectáveis e de partidas em paz, não, não se sentou, foi para a janela olhar o céu, há quanto não assistia ao nascimento da vida, tudo se inicia com um tímido alaranjar a Este, uns veios de luz que trazem substância às coisas, e o movimento na terra acompanha os passos da luz, como se tudo fosse um coro imemorial a saudar a vida, pensamentos assim passaram-lhe pelo espírito, saudar a vida, tão longe estava de tais desígnios, um imenso deserto diante de si, nada mais, ainda foram remetentes de outras moradas, talvez duas ou três, até que assentaram na rua das Alfazemas, e dali ele partiu para uma morada incógnita, a última, a por todos conhecida e por todos sempre ignorada, é acometida de um cansaço súbito, cede às horas de sono por cumprir, ao desgosto, à frieza doravante dos lençóis, à solidão impronunciada de cada sombra lá de casa, e um imenso deserto diante de si, agora, lá fora, a luz era demasiada para as cores do seu pensar, não sabe se a luz ou o movimento próprio da vida, talvez fosse o todo, correu a cortina e deitou-se à espera de não sabe o quê, mais de quarenta anos com ele a seu lado, tinha a qualidade rara de ser um edificador de sonhos, em verdade, nunca os alcançava, contudo, assim que se diluíam, logo partia em busca de um outro, assim foi quando de regresso à metrópole, após mais de uma década de África, onde se conheceram, encantou-se com aquela aparente segurança, que mal disfarçava a criança que, até hoje, se recusa a caminhar às escuras pela casa, mais duas solidões originaram um casamento, não há assim tantos anos tudo desaguava em casamento, no que respeita a partilhar vidas, depois começaram as dúvidas, as inevitáveis questões atiradas de fora, a cada instante, como pedras em feridas ainda por cicatrizar, Então, para quando um herdeiro? Não me digam que não está no vosso horizonte? Preferem menino ou menina? Não acham que já está na altura? Estão a deixar para muito tarde… Não vos parece? Assim era, mal saíam de casa, pedras vindas de todo e qualquer lado, algumas bem traiçoeiras, como doíam, ela pensou ser a fonte do problema, não se esquivou, pelo contrário, médico, exames, do seu lado, estava tudo bem, era uma fonte segura, afinal, ele é que… Nunca lhe mostrou qualquer exame, escondeu-os no fundo de uma gaveta sua, de roupa interior, até que, certo dia, resolveu mesmo deitá-los no lixo mais próximo, entre eles nunca houve acusações nem censuras por isto, ela, até hoje, nunca soube se ele tinha consciência da sua infertilidade, talvez sim, mas é apenas uma suposição, é curioso, mais de quarenta anos a partilhar tectos e lençóis e fica tanta coisa silenciada entre um homem e uma mulher, no fundo, ambos perceberam que já bastavam as inclementes pedradas exteriores, como doíam, não era preciso, entre eles, elevar os ecos da dor, quando aterraram na metrópole, obrigados por uma súbita incerteza que se instalou em cada canto da sua, e de todos os outros, existência, nada traziam, bolsos famintos, olhares caídos, o amanhã apenas um medo, olhavam os outros regressados nas mesmas circunstâncias, e perceberam que, dos anos de África, ao menos, traziam, pelas mãos, o fruto de algo chamado amor, eles nem esse desígnio atingiram, mesmo assim, lá seguiram em frente, como não podia deixar de ser, mais de quarenta anos a partilhar tectos e lençóis e fica tanta coisa silenciada entre um homem e uma mulher, à noite, antes do sono assumir o leme do pensar, ela incessantemente revisitava o passado, e assim percebia a outra que se negara ser, ou que a vida lhe subtraíra, com indisfarçável esforço, resolve levantar-se, ele partiu há três anos, mais concretamente trinta e nove meses, foi de madrugada, acredita que ele a espera em algum lugar, longe das inclementes pedradas exteriores, como doíam, abre a cortina, já é noite, a rua num silêncio iluminado pela luz derramada dos candeeiros, os lençóis na cama persistem no seu frio há mais de três anos, se, ao menos, pelas mãos, o fruto de algo chamado amor, quando regressaram de África, se não houvesse tanto silêncio sob um tecto, entre um homem e uma mulher, talvez a vida uma outra, e possivelmente uma existência fosse resgatada de um estigma de nome orfandade, lá fora nem um carro se ouve, se alguém ali passasse, àquela hora, diria que tudo está em paz na rua das Alfazemas.


 

terça-feira, 10 de dezembro de 2024


... reencontrar a praia onde as águas verdes do rio abraçam o mar, sobretudo da parte dele, sempre encontrou ali algo de hipnotizante, o único local com o dom de permanentemente se metamorfosear, ou pela luz, ou pelas areias emergentes aquando da vazante, o seu espírito aquietava-se, como se exorcizasse de si todas as noites somadas neste caminhar...

in Desolação III

domingo, 8 de dezembro de 2024

Desolação III

 



Assim que abriram a porta do quarto, de novo a sensação de imutabilidade, nada se havia alterado, nem o cheiro, um quê a flores-silvestres e a madeira, para trás ficou o varandim, as águas verdes do rio que, pouco mais à frente, abraçam o mar, o ar povoado pelo cântico estival das cigarras, como se um grito da vida, efémero, trágico, mas que o mundo ouve, os olhos dela em tristeza pelo fim anunciado da doçura daquelas águas, entraram dois naquele quarto, saíram três, nada disseram, tudo se gritava entre eles, de novo, o equívoco de ali terem regressado, quantas vezes ele desejou que o pensar se apiedasse de si, jamais, incessante, feroz, nem por um fragmento de tempo o largava, neste ponto, sabia-a mais quieta, tranquila, como se em cadência com o vagar do dia, assim que a porta do quarto se fechou, ele abriu a janela e ficou a contemplar o possível de montes e águas-esverdeadas, ela a desfazer a mala, queria povoar o quarto da sua identidade, ele procurava-se, ela derramava-se, nesse momento estavam de costas, o silêncio do pensar – entraram dois naquele quarto, saíram três –, as minudências acabam por despertar o verbo, saíram do quarto já a tarde em despedidas, desceram a rua principal até à praia, a ligeireza do ar permitiu-lhes sorrir, lá estava a pastelaria do ontem, um espelho onde ambos gostaram de se rever, ao menos por ali não havia vozes com um timbre solene e, ao mesmo tempo, deveras irritante, tudo como dantes, excepto um ou outro apontamento da denominada modernice, no regresso lá entrariam, havia neles uma latente urgência de reencontrar a praia onde as águas verdes do rio abraçam o mar, sobretudo da parte dele, sempre encontrou ali algo de hipnotizante, o único local com o dom de permanentemente se metamorfosear, ou pela luz, ou pelas areias emergentes aquando da vazante, o seu espírito aquietava-se, como se exorcizasse de si todas as noites somadas neste caminhar, ela chegou aqui depois, pela mão dele, também se sentiu esperada neste lugar onde as águas verdes do rio abraçam o mar, o olhar dele acabava por se perder inevitavelmente pelas areias ora douradas, ora alaranjadas, da margem Sul, ali só um cafezito de madeira como testemunha de haver homem no mundo, daí o seu fascínio, acabava  por ali repousar o olhar e assim  iluminar sonho, ela sempre lhe respeitou os silêncios, talvez intuísse haver nele divisões  onde nem à porta queria passar, não se trata do incomunicável de nós, mas onde sepultamos os nossos sonhos, quantos sonhos suporta um homem? Quantos sonhos suporta uma mulher? Talvez a mulher, pelo seu carácter prático, seja mais lesta a sepultá-los, ou talvez seja o inverso, pois, não sei, ele, como o miúdo que foi, e ainda é, segundo o próprio, olhava para Sul, como desde sempre o fez, a intuição ditava-lhe que talvez na distância o pensar se apiedasse de si, ou por ali, quem sabe, houvesse sonhos à sua espera (quantos sonhos suporta um homem?), ela sabiamente apoia o rosto no seu ombro, num gesto pede-lhe para regressar da lonjura do Sul e, ao mesmo tempo, diz-lhe que alguém o espera, nunca foi insensível a tais singelezas, no rosto desenha-se-lhe um sorriso de gratidão, pensou no que leva um homem, com um tesouro ao lado, a olhar a distância, coisa mais estranha: a beleza das coisas morar num indefinível ponto só tangido pelo pensar; o grito de uma gaivota anunciou o aproximar da noite, ela ainda com o rosto no seu ombro, olhou-a e percebeu-lhe tristeza, ela, neste momento, acompanhava uma mãe, com infinita paciência, a limpar a areia, lá em baixo, na praia, dos pés do filho, teria uns três anos, preferiu manter o silêncio, os argumentos para justificar “entraram dois naquele quarto, saíram três” há muito se lhe esgotaram, bem como a paciência, facto, não foi a sua fonte a secar, mas a dela, antes de entrar naquela sala, as ocas palavras de incentivo (Incentivo para quê? Para o indesejado? Há fases, numa vida, para o amor? Para acolher uma vida nos braços?): “Vai correr tudo bem! Não te preocupes! Tudo voltará a ser como dantes…”: nada foi como dantes, uma fonte ali secou, se o olhar dele, há pouco, pelas areias ora douradas, ora alaranjadas, da margem Sul, o dela simplesmente uns metros abaixo, nos degraus, de madeira, para o areal, onde uma mãe, num zelo só possível à maternidade, procura o último grão de areia dos pés do filho, este segura um avião de plástico nas mãos, em si talvez o desejo da distância, ela reflectiu no que leva um garoto, com um tesouro ao lado, a olhar a distância, ele tentou juntar palavras que os levassem a regressar, não as encontrou, ainda menos que fizessem sentido, nada tinha substância perante a cena a que ela desoladamente assistia, por fim, ela levantou o rosto do ombro dele, com o olhar soletrou-lhe “Entrámos dois naquele quarto, saímos três.”

Não te esqueças de trazer um sonho contigo

 


Assim que ali entrei, depois de folhear três ou quatro revistas, que, de certa forma, reclamavam um merecido descanso, de tão manuseadas serem, além do evidente atestado anacrónico, bastava atentar nas temáticas, não era necessário o preciosismo de verificar devidamente o cabeçalho, espalhadas numa mesa, bem à nossa frente, depois de também percorrer, por mais que um par de vezes, os outros para ali sentados, suficientes para não haver cadeiras vagas, mais elas, é verdade, sinal dos tempos, o feminino aprendeu a determinação, também me olharam, os outros para ali sentados, mais que uma vez, percebi isso, o mais velho devia andar próximo dos quarenta, talvez já tivesse dobrado esse cabo, vinha dentro de um fato habituado a estes cenários, estava sentado muito direito, ao colo uma mala, de couro, coçada em várias partes, também velha viajante destas paisagens, percebia-se-lhe a nervoseira pelo permanente oscilar de joelhos, embora se revestisse de uma expressão imperturbável, como se soubesse ao que vinha, pois, a aparência, a geada da madrugada que se dilui ao irromper da luz primeira de um recomeço, no anelar esquerdo o flagrante vazio, num gritado branco, de um anel retirado, talvez na velocidade da raiva, talvez na lentidão dolorosa do arrependimento, talvez na lucidez fria de quem olha o fim chegado, quem sabe se daquele gritado branco não ficaram despojos, que oscilam, aos fins-de-semana, entre lares, desde que olham o mundo, abaixo da altura de um banco, compreendem na carne do sentir o ser-se indesejado, seres apátridas submergidos na veloz e tumultuosa corrente do hoje, sem direito a réplica, ainda olham o mundo, abaixo da altura de um banco, e já sabem que, entre um homem e uma mulher, para sempre é uma expressão votada a um tempo algures adormecido nos idos da História, foi isso, abaixo da altura de um banco, o que o mundo lhes ensinou, mesmo em frente, uma mulher mais jovem que eu, não devia ter deixado os bancos da faculdade há muito, não sei porquê, mas foi o que me pareceu, havia nela um traço de arrogância de quem se distanciou em demasia da realidade, mas que se vai gradualmente esbatendo à medida que compreendemos a distância entre uma ideia, traduzida por caracteres, gravados na impessoalidade branca de uma página, e a agonia de uma viagem, em hora de ponta, num qualquer transporte público, devia morar em casa dos pais, é possível, denotava-se-lhe ainda aquela segurança de quem desconhece o flagelo da calculadora para se manter à tona até ao final de cada mês, usava as roupas do hoje recicladas, como sempre acontece, ao ontem, não se conseguia perceber se bonita ou feia, tal a dose de efeitos especiais providenciados pela maquilhagem, ao contrário do quase quarentão, permanecia impassível no lugar, de certa forma, parecia mais curiosa do que outra coisa, como se uma exploradora num território inóspito, de facto, desconhecia o flagelo da calculadora para se manter à tona até ao final de cada mês, a dada altura, começou o entra e sai de um gabinete, cada um demorar-se-ia cerca de uma dezena de minutos, percebi que, para o efeito, usaram a ordem de chegada, pareceu-me justo,  por fim, ouvi o meu nome, numa voz sumida, do interior do gabinete, levantei-me e avancei, entrei ao mesmo tempo que fechava a porta atrás de mim, deparei-me com um sujeito um pouco mais novo que eu, nem se dignou a levantar para me cumprimentar, estava dentro de um fato impecavelmente engomado, a gravata condizente, para já, no conjunto, só os modos a destoar, e o cabelo, que insistia em reflectir a luz do tecto por um desencontro de há muito com o champô, os gestos transpareciam a indolência  de quem cumpre um papel a contragosto, e a expressão não desmentia o enfado, pelo contrário, só o acentuava, era outro que desconhecia o flagelo da calculadora para se manter à tona até ao final de cada mês, estendeu-me a mão sem me olhar o rosto, optei pela educação, encontrei uma mão pequena e oleosa, um cumprimento débil, talvez um eco do seu carácter, ouvi, uma vez, que o carácter de um homem se vê pelo vigor do aperto de mão, não sei se é conversa resultante da soma de testosterona e álcool, mas reconheço-lhe alguma credibilidade, e aquele afigurou-se-me um exemplo flagrante, “Ora vem-se candidatar ao…”, optei por encurtar o diálogo e ir ao cerne da coisa, “Sim, e aqui tem o meu currículo”, enquanto lhe estendia uma pasta, com umas quantas folhas impressas, por ali andavam muitos sonhos seguidos de outras tantas frias manhãs, vencia um monte, naquele cume pensei repousar, mas, ali  chegado, só encontrei a sombra de um outro ainda mais alto, logo iniciava nova escalada, com a esperança de alcançar nesse outro cume o merecido repouso sob a luz revigorizante de um sol apenas meu, o sujeito virou as folhas, não sem antes levar o indicador à boca, nem conseguia disfarçar o desinteresse, o facto de nem estar a ler, finalmente, devolveu-me a pasta,Pois, de facto, tem um currículo muito interessante… Como deve calcular, para já, não podemos garantir nada. A ver vamos… É uma questão, se for seleccionado, de aguardar o nosso contacto. Tenha um bom dia!” E lá me estendeu, pela segunda vez, aquela sua mão untuosa, seguiu-se o cumprimento débil, talvez um eco do seu carácter, levantei-me, dirigi-me para a porta, antes de sair, observei o sujeito, nem que fosse uma vez, teria de o ver de cima, claro que nem se apercebeu destas minhas conjecturas, perdido que estava no seu próprio enfado de despachar papéis, sem se aperceber que despachava vidas, que nessas folhas que teatralizava ver, havia muitos sonhos seguidos de outras tantas frias manhãs, muitos montes vencidos, e quando se julgava poder repousar, ainda a arfar pelo cume conquistado, só a sombra de um outro ainda mais alto, logo se iniciava nova escalada, com a esperança de alcançar nesse outro cume o merecido repouso sob a luz revigorizante de um sol apenas seu, mas era o suíno que se sentava atrás de uma secretária, era o suíno que decidia quem teria a possibilidade de lutar, na manhã seguinte, pelo pão de cada dia, nestes momentos, sinto-me um viajante que caminha por cenários longínquos, já não reconheço o meu mundo, um suíno atrás de uma secretária, que leva o indicador à boca para virar folhas, onde estão impressos muitos sonhos seguidos de outras tantas frias manhãs, saio para o que resta da tarde, no ponto onde estava no passeio, percebo a sombra derramada pelo edifício em frente, terei de iniciar uma nova escalada…

domingo, 1 de dezembro de 2024

Desolação II


 

Nos arredores da povoação caiada de branco debruçada sobre o mar, o possível verde de Sul cedia ingloriamente ao cinzentismo dos trolhas, pois, não há quase lugar, no hoje, onde essas patas imundas não cheguem, entre eles, no interior do veículo, apenas silêncio, tentavam reconhecer um vislumbre do lugar das primeiras férias juntos, como estava difícil, o possível verde de Sul cedia ingloriamente ao cinzentismo dos trolhas, a dificuldade maior residia, sem dúvida,  precisamente no interior do veículo, entre eles, aí, sim, nem vislumbres do que eram aquando das primeiras férias juntos, não por acaso ela procurava suspender o tempo, para reencontrar algo que talvez por ali estivesse entre lençóis, areia e mar, ele talvez nem se recorde de, numa manhã de Domingo, lhe tocar à porta coberto com um frondoso ramo-de-flores, à entrada da povoação caiada de branco debruçada sobre o mar, do lado direito, havia uma tascazita, sombria, com similitudes a filme do faroeste, ele prontamente olhou para lá, nada, portas fechadas, o casebre anunciava, num anglicismo, ser hospedaria para quem viesse do exterior, um reflexo do hoje neste território que, há cinquenta anos, faleceu como nação independente: uma hospedaria para quem chega do exterior! A rua principal, que atravessa a povoação caiada de branco, com, pelo menos, o triplo dos carros, os passeios sem vagas para mais transeuntes, tão longe das primeiras férias juntos, como se todos, em Agosto, para ali se precipitassem, ao silêncio, entre eles, no interior da viatura, somava-se um desolado espanto, como se uma sabida vã esperança de se terem enganado no destino, andavam uns metros e logo tinham de se imobilizar, ora pela imperativa passadeira, ora por um carro, na sofrível e mal executada marcha-atrás a sair de um lugar, nova passadeira, outro a sair, de marcha-atrás, num constante pára e arranca cumpriram, durante mais de quinze minutos, os cerca de trezentos metros até ao alojamento das primeiras férias juntos, foi ele a reservar, tal como no passado, um conhecimento de família, aqueles lugares, não obstante a sua centralidade e opulência, exigem um contacto prévio, até um vasto estacionamento interior possui, assim que saíram do carro, não evitaram sorrir, a leveza do ar mantinha-se como da primeira vez, afinal, algo subsistia, dirigiram-se para a entrada, a austeridade das instalações em flagrante contraste com a luminosidade e leveza do exterior, quase se entreolharam para “Afinal, era isto? Na altura, pareceu-nos tanto, e era só isto…”; mas foram surpreendidos por uma figura do passado, uma mulher tão ou mais austera que as instalações, no fundo, parecia uma extensão animada daquelas paredes e ambiente, a voz com um timbre solene e, ao mesmo tempo, deveras irritante, intuíram que ela os reconhecera, apesar de jamais o verbalizar, procedeu à entrega da chave do quarto e a relembrar as regras e horas das refeições, ali, de facto, o tempo suspendera-se, ele chegou a se questionar “Alguma vez entrei ou daqui saí?”; tudo imutável: regras, mobiliário, quadros, as personagens, o timbre, até as flores dos canteiros, no exterior, talvez fossem as mesmas, no entanto, eles destoavam, porque se sabiam outros, de imediato, naquele entreolhar incumprido, compreenderam o equívoco de ali terem regressado, mas era tarde, jamais ousariam confrontar a voz com um timbre solene e, ao mesmo tempo, deveras irritante, e ele já com a chave-do-quarto na mão, quase ousou virar-se para a figura do passado, uma mulher tão ou mais austera que as instalações, no fundo, parecia uma extensão animada daquelas paredes e ambiente, “Não nos víamos há tanto, não é verdade?! A senhora está na mesma…”, no entanto, afigurou-se-lhe ridículo, estéril, descontextualizado, olhava à sua volta e não encontrava quaisquer pontes de diálogo, até as múltiplas figuras religiosas expostas pareciam aquém da compreensão, apenas espelhavam silêncio e sofrimento, o quarto ficava num anexo sobre o rio, tudo permanecia imutável, como se aguardasse pacientemente pelo seu regresso, o olhar dele procurou a racha num dos degraus, ali estava, imperturbável, orgulhosa, como se proclamasse a sua vitória face ao tempo, antes de entrar, ficaram, por uns instantes, do varandim a olhar as águas verdes do rio que, pouco mais à frente, abraçam o mar, o ar povoado pelo cântico estival das cigarras, como se um grito da vida, efémero, trágico, mas o mundo ouve, os olhos dela em tristeza pelo fim anunciado da doçura daquelas águas, entraram dois naquele quarto, saíram três, ela numa total solidão, nada lhe disse, ele tão aquém da compreensão da tristeza pelo fim anunciado da doçura daquelas águas…