Aqui
chegado, creio que só os simples são felizes.
in O lento esvoaçar das cortinas pela manhã
Lá íamos nós, num Sábado à tarde, por
aquela estrada que eu já nem olhava, talvez por um cansaço demasiado de tanto a
percorrer, ou por uma familiaridade indesejada, desde há oito meses que, todos
os fins-de-semana, impreterivelmente, percorremos aquela dúzia de quilómetros,
para lá, depois de regresso, oito meses disto, nem ousei contestar quando ele
insistiu para que a mãe viesse para ao pé de nós, não incentivei, confesso, nem
tinha de o fazer, afinal, a mãe é dele, mas também não lhe coloquei quaisquer
óbices, remeti-me a um cómodo e impassível silêncio, tratou da papelada toda
sem me pedir ajuda, algo raro nele, que nunca saía de casa sem gritar, nem que
fosse por uma vez, o meu nome por algo que sempre se lhe escapava, enfim, tenho
de reconhecer que é a mãe dele, apenas e só, nunca a tratei por sogra, em
verdade, ela nunca soube ir além de ser mãe dele, há coisas fascinantes, parece
que nascemos com uma forma e é tão difícil daí sair, a nossa relação sempre se
pautou por princípios de cordialidade, porém, havia entrelinhas caladas que
eram tão perceptíveis, ainda me lembro, quando a íamos visitar, nos primeiros
passos do nosso casamento, antes de lhe bater à porta, já a mão dele partia da
minha numa fuga envergonhada e por mim até hoje incompreendida, as questões,
que, no fundo, são o alimento de qualquer conversa, saíam dela para o centro da
sua atenção, e percebia o quanto ele exultava com isso, apesar da contenção
exterior, por vezes, dava por mim a observá-lo com uma crescente apreensão, e
questionava se ele, de facto, alguma vez deixara os braços maternos, nesses
momentos, levantava-me e vinha, cá para fora, socorrer-me de um cigarro
nervoso, sempre achei curioso como dias há tanto idos, de súbito, irrompem no
nosso caminho, como se nunca dali tivessem partido, hoje, ela perdeu esses
dias, e muitos outros, porém, continuo a questionar se ele, de facto, alguma
vez partira dos braços maternos, tal a abnegação silenciosa com que segue os
passos do lar, infelizmente, nesta tarde, sob a forma de uma ruína
personificada numa velha abandonada pela memória, é uma casa térrea, com uma
artificialidade no ar que, há mínima contradição, ameaça desmoronar, a velha
está entre velhos, tão longe das certezas e convicções doutrora, assim que me
abeiro da entrada do salão, pejado de velhos que se afiguram a rochas
descobertas por uma inclemente vazante, confesso a minha dificuldade em
encontrá-la, no entanto, ele, pelo contrário, avança sem contemplações, ao
perceber-lhe os passos destemidos, compreendo que se trata mais de um regresso,
é tão estranho, tantas rochas similares naquela vazante e ele aporta sem hesitações
na de sempre, sem dúvida, é um regresso, está sentada num canto da sala, a
cabeça inclinada para a frente, pela boca entreaberta esvai-se-lhe o resto de
dignidade, inclina-se, de imediato, para ela, num misto de respeito e de
devoção, pousa o saco com doces e demais iguarias que relembram um mundo
deixado, como se nela ainda uma memória, a voz dele sôfrega Então, minha mãe… Como está? Pela cabeça
da velha nem um vislumbre de gesto, permanece inclinada para a frente, a boca
entreaberta, a esvair-se-lhe o resto de dignidade, numa lentidão condoída, já
não o ouve, ele sabe-o, contudo, uma qualquer forma de fé ignora-o, prossegue
com o monólogo visto da distância, dali de perto, se lhe perguntassem, diria
que sim, que a velha lhe responde, por fim, ladeio-o, é curioso, ele nem se
apercebe da minha chegada, ou talvez seja uma impressão minha, é possível,
talvez seja isso, permanece absorto naquela mecânica de gestos e palavras
consagrados à velha, chega a ajoelhar-se para lhe endireitar o rosto, permaneço
nas faldas deste meu lado de cá das coisas, não sei porquê, mas algo me dita
para por aqui ficar, a velha está entre velhos, tão longe das certezas e
convicções doutrora, como sempre acontece, enterneço-me com aqueles joelhos no
chão, o monólogo visto da distância, dali de perto, se lhe perguntassem, diria
que sim, que a velha lhe responde, a deferência dos gestos, a almofadinha de
que nunca se esquecia para lhe endireitar a cabeça na cadeira, assim se
estancava a fuga da dignidade, à minha volta, tantas rochas descobertas por uma
inclemente vazante, num abandono ímpar, suspiram por uma maré que se aproxima e
que, por fim, as abrace, até que nada delas reste, nem a memória de um dia
terem sido o horizonte de alguém.
Para quem quiser ler,
Vim
passar um período a casa do meu filho mais novo, chegados a esta fase da vida é
assim, deambulamos pelas casas dos filhos, ora num, ora noutro, embora eu
prefira estar na casa da minha filha, mais velha dos três, talvez por estar
mais próxima da minha, onde começa o Norte deste outrora país, estava a
terminar o jantar, e, de repente, o meu neto mais novo sai
da mesa, a minha incredulidade perante a cena emudeceu-me, as palavras
demoraram a nascer, virei-me para o meu filho, jamais para a minha nora, lá irei a seu tempo, e “Meu
filho, o meu neto sai da mesa sem pedir com licença?”
Ficou tolhido a olhar o prato, só me trouxe ao hoje a imagem da criança que
ainda vislumbro, volta e meia, na memória, encolhido, sem encontrar uma
justificação para o sucedido, parecia ter sido ele o autor da ofensa, “Deixe
lá, minha mãe, deixe lá… São crianças…”, fiquei incrédula perante a
atamancada justificação, não me passou despercebido o
resvalar da sua atenção para a minha nora, lá irei a seu tempo, estava de
pé, atrás de nós, com a louça da janta, numa sonoridade de movimentos para nos
culpabilizar de ainda permanecermos sentados, lá irei a seu tempo, como se não
fosse eu, que já somo oitenta e quatro anos de desilusões, a fazer o jantar e a
pôr a mesa, enfim, lá irei a seu tempo, como dizia, não me passou despercebido
o resvalar da sua atenção para a minha nora, receava não ter a sua anuência em
qualquer possível resposta, insisti “Meu filho, não foi assim que te
eduquei. Como é possível que um miudito saia da mesa sem pedir licença?”, o
olhar dele não descolava do prato, não tinha justificação, nisto a voz dela
trovoou “Aqui em casa, as regras são outras! Se o miúdo saiu da mesa, sem
nada pedir, é porque sabe que o pode fazer. Acho que há coisas bem mais graves
no mundo, não concorda?”, quando não se tem argumentos, tende-se a
universalizar as questões, numa efémera tentativa de as esvaziar, desta feita,
não me contive “O respeito pelos mais velhos semeia-se desde muito cedo!
Uma criança sem referências é um adulto perdido!”, meu filho cada vez mais
de encontro à mesa, parecia assistir à materialização de um profundíssimo
receio, a verdade é que nunca suportei aquela mulher: fútil,
vaidosa, superficial, embirrenta, mimada, em termos de ideias pouco além ia da
sola-do-sapato; este casamento, confesso, constituiu um enormíssimo
desgosto, como se vê, até os filhos usava para me atentar, da minha outra nora,
do meu filho-do-meio, também não era apreciadora, mas esta conseguia ser bem
pior, por uma simples razão: o meu filho era um capacho nas suas mãos, enquanto
o seu irmão lá se conseguia, volta e meia, impôr: uma substancial diferença! Se
narrasse alguns dos deploráveis episódios a que assisti ou me chegaram ao
conhecimento, em vez de uma singela carta, escreveria um romance! Não augurava
grande futuro para este meu neto, nem para o seu silencioso irmão, é triste uma
mãe assistir ao capitular dos valores, transmitidos a um filho, por uma mulher,
só a idade tem o dom de nos ensinar a arte de observar, o primeiro passo é o
silêncio, foi assim que, com ligeireza, inferi o facto de os meus dois outros
filhos não suportarem aquela mulher fútil, vaidosa, superficial, embirrenta,
mimada, em termos de ideias pouco além ia da sola-do-sapato, só o irmão, mesmo
assim escassas vezes, os fazia aproximar, havia sempre uma picardia, um
mal-entendido, uma dissimulada e irónica provocação, quantas vezes, enquanto
ali estava, não orei para que o tempo acelerasse, eu pensei que a face
comprometida dos filhos, sob o nosso olhar, ficasse na infância por uma travessura
descoberta, e ali estava, no seu rosto, a mesma expressão comprometida, só que já
era pai de dois filhos, dobrara os cinquenta, embora, para uma mãe, um filho,
em verdade, nunca abandona o berço, gosto de diariamente visitar a casa que nos
relembra os passos Daquele que veio pelos perdidos e
não pelos honrados,
ao Domingo, enquanto ali estou, na casa do meu filho mais novo, tenho de
os acompanhar, e eu que tanto gosto de estar sozinha, entre aquelas
paredes, perdida nas minhas orações, apesar das minhas frágeis e tão cansadas
pernas, sei que chegam para estas pequenas caminhadas, enfim, com o avançar da
idade há vontades que nos vão sendo vedadas, é uma aprendizagem da vida, quando
somarem oitenta e quatro anos de desilusões digam depois se estava errada, como
dizia, ao Domingo, enquanto ali estou, na casa do meu filho mais novo, tenho de
os acompanhar, ela faz parte do coro, bem à frente do altar, pasme-se, muito
direita, missal na mão, demasiado pintalgada, a juba cimentada a toneladas de
laca, e a soltar aquele vozeirão, questionava qual o critério de selecção para
tais sofríveis dissonâncias, o meu filho, mais atrás, na extremidade de uma
fila, sereno, concentrado nas suas orações, como lhe ensinei, ainda não partira
dele por completo, a seu lado, pasme-se uma vez mais, o meu neto mais novo,
pois, o tal que saiu da mesa sem pedir com licença, observei o miudito, olhava
fixamente, numa humildade respeitosa, a imagem, à direita do altar, Daquele que
veio pelos perdidos e não pelos honrados, pela segunda vez, desde que ali
entrara, sorrio, vislumbro esperança de que, no amanhã, haja menos um adulto
perdido.
Pedro
de Sá
(21/09/24)
Deixei de ir à janela, porquê? Só a parede do prédio em frente, nada mais vejo, se estou arrependida? Como não? Atenção: estou arrependida de para aqui ter vindo, não dele, claro que tem os seus defeitos, só nos cemitérios deixamos de os ter, como bem devias saber, bom, mas falávamos dele, continua uma criança, e isso enternece-me, sai para a rua praticamente mascarado: boné – às vezes, em casa, já discuti para o retirar, é já uma extensão de si –, a camisola.de-alças, de onde sobressaem aqueles bracinhos pálidos e descarnados, parecem uns ramos invernosos, ao pescoço, claro, um colar, como não podia deixar de ser a um habitante deste lugar, não te indignes, não vale a pena, é um facto: há toda uma indumentária a cumprir para os habitantes deste lugar! E o colar faz parte sim, quanto mais volumoso e brilhante, melhor, nunca pensaste viver para ouvir isto? Pois, eu também não, muito menos ter-me juntado a um sujeito assim, claro que tem os seus defeitos, só nos cemitérios deixamos de os ter, como bem devias saber, mas falávamos dele, continua uma criança, e isso enternece-me, uns calções de basquetebolista, são aqueles mais largos e compridos, ainda bem, assim só se vê um bocadito daqueles caniços, também muito esbranquiçados, por fim, uns ténis de gosto muito duvidoso, mais para a bota, confere-lhe um ar de rato Mickey, não me perguntes o porquê, e assim está pronto para um novo dia, se já assentou num trabalho? Achas? Felizmente há trabalhos onde a etiqueta jamais permitiria que sujeitos assim vestidos se aproximassem, por que continuo com ele? Não há uma resposta, são múltiplas razões, não, por favor, não me venhas falar do… Já sei que está formado, com uma carreira em ascensão, neste momento podia ser sua mulher, a partilhar a liderança na clínica, que, num certo momento, virei costas a tudo, ao curso, a uma carreira promissora, às investidas amorosas do meu colega, por me ter encantado por um sujeito de boné, camisola-de-alças, colar, calções de basquetebolista e botas-.ténis, que lhe conferem um ar de rato Mickey, imagino as alegrias de que privei os meus pais, em todos estes anos foste a única a bater-me à porta, não os censuro pela ausência, investiram tanto no meu curso, só o microscópio… Eu sei que se hipotecaram, minha mãe tão feliz quando lhe apresentei o meu colega de faculdade, não, não vale a pena trazer o seu nome ao presente, diligente, atencioso, educadíssimo, dos melhores alunos da universidade, enchia-me de atenções, provinha de uma família com posses, o marido ideal, segundo os meus pais, gostava da sua companhia, diligente, atencioso, educadíssimo, acreditas que nunca me fez rir? Como me poderia incendiar o coração? Também nunca aceitaste que virasse costas ao curso, não é? Não tanto ao colega de faculdade, diligente, atencioso, educadíssimo, pois, como te hei-de explicar…? Não vivia, cumpria um guião escrito para outra personagem, será que assim me faço perceber? Tudo estava delineado, à espera de alguém que não eu… Certa noite, quando me ia deitar, desejei tanto que o amanhã não viesse… Há algo pior que isto: não desejar o amanhã? Isto aterrorizou-me, e bastante, pousei a cabeça na almofada e senti-me literalmente a afundar no negrume da minha infelicidade, nada em mim era espontâneo, pois, cumpria um guião escrito para outra personagem, as conversas dele aborrecidíssimas, pouco variavam das que ouvia por casa – Verões no Sul, Invernos na neve, tudo esquemático –, até que, como bem sabes, um pneu furado, ele à minha frente “Estou a ver que estás bem enrascada,” já buzinas se multiplicavam atrás, não se conteve para as buzinas “Oh, vamos fazer pouco barulhinho, ouviram, pouco barulhinho,” certo foi o cessar do barulho, “Primeiro temos de encostar o carro aqui ao passeio e deixar estes palhaços passar,” dos gestos às expressões senti-me transportada para uma outra realidade, enérgico, espontâneo, brincalhão, tinha qualquer coisa de criança a correr atrás de uma bola, era a sensação que me dava, e eu já sorria, o resto conheces, chamou o reboque, mandou, com o meu consentimento, o carro para a oficina de um amigo, onde fazia umas horas, levou-me a casa no seu, denotava-se-lhe um indesmentível orgulho naquela viatura toda transformada, engraçado ser da mesma marca que a do pai, embora tão distinta, rebaixada, parecia colada ao chão, tive que me esforçar tanto para me erguer, acreditas? E aquela coisa atrás conferia-lhe um ar de nave-espacial, cheia de luzes no interior, parecia que o Natal dali nunca partia, até os cintos-de-segurança num vermelho demasiado, o que ri, pois, tão para além do guião que me haviam estabelecido, no dia seguinte estava à minha espera, quando fui à oficina levantar o carro, com um sorriso infantil “Antes de ires, não queres ir ali tomar nada?” apontou na direcção do que me pareceu um café, “Vamos!”, não me recordo de ter processado a resposta, quando me regressei, estava sentada, lado-a-lado, com ele ao balcão de um café rústico, repara: sentada, lado-a-lado, com ele, ao balcão: tão distante de mesas com toalhas, serviço cerimonioso, talheres-reluzentes, tudo numa lentidão exasperante; olhei a porta aberta para uma outra realidade, onde me vi a rir desassombradamente, sem vestígios de esquemas-rígidos, com o rato Mickey à minha frente, como pude resistir? Até a fumar me pôs, queres melhor? É um apartamentozito acanhado? E, para mais, rés-do-chão! Não tem vista e o sol desconhece o caminho para as suas janelas? Pois, são factos… Está uma boca a caminho para alimentar? Mais um facto. Trabalha em vários lados, embora nenhum seja certo? Outro facto. Se é isto que quero para o futuro? Sei o que não quero: pousar a cabeça na almofada e sentir-me literalmente a afundar no negrume da minha infelicidade, foi isso que senti na casa da tua filha, pois, cumpria um guião escrito para outra personagem, há tanta coisa por resolver que me esqueci do amanhã, tens de nos visitar, sabes, até podemos dar uma volta no carro dele, cheio de luzes no interior, parece que o Natal dali nunca parte.
(13/09/24)