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  Mas os adultos perdem algures a essência: são crianças esquecidas de brincar. in Deslumbramento

Só o sol para ensinar a sombra

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  Os seus passos, agora lentos, mas não menos decididos, naquela cadência muito própria de quem ainda procura um apeadeiro, onde talvez apenas o vento, pelas mãos aquelas pedras de súplica, os lábios a conferir-lhes um sentido, tudo numa singular discrição, afinal, a oração sempre é um caminho, o destino, agora, a uns passos, sobe os degraus daquela forma infantil, ainda se lembra, é verdade, tudo é regressar, àquela hora ainda o silêncio, e como ela o apreciava, há lugares que nos elevam, talvez não muitos, mas a igreja da sua terra era um deles, poucos vultos por ali estavam, pelo xaile dizia-lhes os nomes, deixou-se ficar perto da porta, ali queria estar por inteiro, olhar aqueles quadros com ressonâncias das alturas, perder-se no precioso brilho emanado por cada vela, aquele frágil equilíbrio que se derruba a cada brisa, mas que se reergue num milagre aparente para iluminar e, quem sabe, guiar passos alheios, e, sim, o silêncio, a amplificar os gritos que há muito soterrara, ...
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Algo me diz que estamos algures por aí, perdidos no deslumbramento que fomos, num tempo onde o sono se harmonizava com o sonho, nós éramos futuro, não uma memória. in Deslumbramento

A compreensão do Inverno

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  Uma dor algures na cabeça, logo em todo lado de si e à sua volta, a luz, de novo, a piscar, o auscultador, antes da primeira sílaba, fecha os olhos, talvez uma súplica para que a dor o esqueça por uns instantes, agora a voz sai-lhe naquele tom que tão bem conhece, afinal uma criação sua, mas que não é o seu, do outro lado, a voz de uma mulher jovem, percebe-lhe urgência pela velocidade das palavras, a questão cansada ( E pretende o crédito para… ), não tardou a resposta cosmética ( Para obras… ), a mensagem, agora, a sair-lhe destituída de qualquer sentir, como se emitida por uma voz demasiado distante da sua, Vou precisar do número do seu B. I. e do número do seu NIF. Tem-nos aí à mão? Há questões, de tão repetidas, que se sabe o tempo da resposta, assim que o NIF a chegar-lhe pelo auscultador, logo os seus dedos a iluminar o ecrã, o BI era apenas um pretexto, nunca o chegava a apontar, por ali, nada de novo, mais alguém que perdeu a corrida com os números, de novo, como se em...
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Nasce-me uma questão: Haverá ruas diferentes desta? Não me parece, morei em tantas e todas me pareceram a mesma. Que diferenças pode haver entre ruas se a essência que as habita é a mesma? Todas as ruas deviam ter o mesmo nome: Rua dos Sonhos Sepultados . in Deslumbramento

Um repente pode durar a vida

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  Uma qualquer falha, no passeio, fê-la regressar ao momento, quase o tornozelo cedia, parou, esperou a dor, veredicto de imobilidade prolongada certa, felizmente apenas uma impressão, nada mais, talvez o carrinho, onde o filho, de meio ano, dormia, ajudasse ao equilíbrio, retomou a marcha, o carrinho, de novo, aos estremeções, passeio fora, pouco depois, avistava o destino, do outro lado da rua, àquela hora, já uma fila considerável, atravessou, os travões de um carro, que se imobilizou numa evidente contrariedade, alarmaram-na, olhou o condutor com uma indisfarçável repulsa, este devolveu com a máscara do desprezo, como se ela não fosse bem-vinda a este lado do existir, afinal, mais um escravo dos ponteiros de um qualquer relógio, talvez os segundos ali subtraídos demasiado preciosos, não se deteve, por muito mais, a olhá-lo, seguiu para a cauda da bicha, que entretanto se avolumara, o carro arrancou numa sonoridade, de pneus guinchantes, desajustada, todos os olhares convergir...