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… para onde foi o tempo que passou?  in Dolorosamente

Dolorosamente

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Já passaram três dias, não sei o que hei-de fazer, meu filho, meu querido filho, nem se levanta, é estranho, caiu num torpor, o estore para baixo, o quarto num negrume, rejeita qualquer alimento, a voz sai-lhe arrastada, apenas o nome dela nos é inteligível, maldita seja! Ainda há uma semana, ele em sorrisos, mais esbatidos, é certo, ainda assim em sorrisos, logo que o via ( “Chegou a minha alegria!” ), abraçava-me sempre, meu filho, meu querido filho, como quando era menino, embora, para uma mãe, os filhos nunca vão além da meninice, só o facto de estar, enchia a casa, há quem tenha esse dom, falava-me dos projectos, dos sonhos, dos anseios, e, é verdade, o nome dela omnipresente, Madalena, sempre que proferia Ma-da-le-na, os olhos numa claridade primaveril, a voz amenizava, talvez por soar mais melodiosa, Ma-da-le-na, todos sabíamos, melhor dizendo, aqui em casa todos receávamos que se não proferisse Ma-da-le-na, o seu olhar turvar-se-ia, foi num repente, sabe como é, as c...

Oficina de corações

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Olhava o impressionismo exterior através da larga tela envidraçada da janela, tudo sob a cadência balouçante da carruagem, no fundo, olhava o exterior para evitar os rostos circundantes, talvez não lhe apetecesse sair de si, não lhe interessava assim tanto a tela envidraçada, mas sim a possibilidade de se pensar sob uma cadência balouçante, nem há um ano fizera este percurso em sentido inverso, embora o impressionismo exterior fosse o mesmo, de facto, sob uma cadência balouçante, é sempre o mesmo, numa contrariedade e angústia intraduzíveis, sabia quem arquitectara a sua saída da casa paterna, contudo, a sua dor focara-se na apatia do pai e não tanto nas maquinações da madrasta, talvez desconhecesse o singelo facto de que, quando um homem cai aos pés de uma mulher, até lhe traz as nuvens para servirem de chão, o seu sentir, pelo pai, oscilou entre uma profunda decepção e uma inultrapassável amargura, por simultaneamente ser quem mais admira, embora neste regresso, por uns es...

A Cor do Abandono

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Hoje ele pediu-me para mostrar a casa a um casal (estrangeiro?) que estaria interessado. Precisamente hoje, um Domingo. Eu ainda ripostei, mas a mãe interveio. Que podia fazer? Todos sabemos que é à sombra da mãe, que uma família repousa. Lá fui, contrariado. Porque não ia ele? Que tinha para fazer num Domingo à tarde? Pelo que me apercebi, nada. Só saía para trabalhar durante a semana. Os fins-de-semana, desde há uns meses, passados hermeticamente no anexo que lhe cedemos nos fundos do quintal. Com excepção das horas das refeições, claro. Afinal, todo o eremita tem de ter uma mesa próxima. E este soube, muito bem, escolher a sua. Chegada a hora, lá fui. Sempre contrariado. A minha mulher acompanhou-me à porta. Os meus passos ritmados pela resmunguice. Ela: Está bem, está bem, mas despacha-te, que ainda chegas atrasado. Olha que não devemos perder estas oportunidades. E eu a pensar ( Quais oportunidades? Na minha idade, já não encontro essa palavra no dicionário. E ele den...
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Foi no alto de uma colina, que aprendi a olhar o Mundo

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Hoje fui ver a minha Escola Primária. Pus-me ao caminho com a timidez e a abnegação de quem cumpre o dever de visitar um familiar indevidamente negligenciado. Percorri aquela estrada paralela à linha de comboio, e ao mar. Chegado a um certo ponto, vira-se à esquerda, e enfrenta-se aquela íngreme subida. No cimo, à direita, lá estava aquela casa, de três pisos, num irreconhecível silêncio. Olhou-me, com uma expressão entre a indulgência e um tímido sorriso de agrado, e questionou: Sempre voltaste? Porque não haveria de voltar? (retorqui); Chegas tarde. Já sou outra (respondeu-me) . E eu constrangido, consciente do meu atraso, sem qualquer desculpa nos bolsos, a olhá-la do lado de fora do portão, sem quaisquer laivos de me intrometer, respondi-lhe: Eu também sou outro. Mas a saudade… Ela num jeito de adeus: Tens de procurar noutro lado. Aqui nem os ecos encontras. Olho, agora, a calçada. Dirijo-me para o carro. Abro a porta. E, sim, lá está ela (sem estar), a árvore, no rec...
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