Carne-podre aos cães e às cadelas
Chegou aquela altura do ano, neste canil, onde cada rafeiro verá se tem ou não recompensa pelos seus préstimos, entre as gratificações está o lugar que ocupam (ter cobertura, ser mais próximo da comida, entre outras regalias…), os passeios pelos campos adjacentes, muito apreciado entre os rafeiros – pois, de facto, neste canil só há rafeiros, mas todos têm direito à vida, como é sabido –, o número de desparasitações anuais, as possibilidades de adopção, para aceder a este leque de benesses, os rafeiros têm imperativamente de demonstrar a sua subserviência aos donos, neste caso, um casal, constituído por um idoso e uma mulher de meia-idade, a porta do canil abre-se, os rafeiros logo com as orelhas em alerta, surge-lhes a figura dela a arrastar um saco, o idoso uns passos atrás, velado por uma sombra, uma autêntica criatura das trevas, pelos ares do canil um pestilento cheiro a putrefacção, ela abre o saco e atira o primeiro pedaço de carne-podre, cai ao pé de uma cadela de nome Po...