in Anoiteceu
Livros do Escritor
segunda-feira, 16 de outubro de 2023
sábado, 14 de outubro de 2023
quinta-feira, 12 de outubro de 2023
O pároco e a alternadeira
Há demasiados anos que o pároco saturninos
estava à frente dos destinos daquela paróquia, era um homenzito vulgar, nada
tinha que destoasse, indumentária condizente com o
estatuto de sacerdote, com o seu quê de naftalina e um vislumbre de moldura
sobre um naperon, numa qualquer camilha, de uma tia velha, a única nota
dissonante do pároco saturninos estava precisamente no rosto,
as feições pareciam o resultado do cruzamento entre um sabujo e um velhaco, falava-se,
amiúde, pelas ruas da freguesia, das suas fraquezas pelo feminino, longe, muito
longe, dos ditames norteadores da cruz que representa, e, em verdade, nunca houve
muita concorrência para aquela diocese, havia também uma característica, no
pároco saturninos, que contribuía sobremaneira para que passasse incólume à
maioria dos vendavais da existência, falava, com todos, num
tom baixo,
arrastado, que instava logo concentração e reverência, como se dele proviessem
verdades do além, não nos esqueçamos: indumentária
condizente com o estatuto de sacerdote, com o seu quê de naftalina e um vislumbre
de moldura sobre um naperon, numa qualquer camilha, de uma tia velha; um dos
principais atributos do tempo é tudo desarrumar em volta, aquela paróquia não
escapou a esta regra, falava-se, há uns bons anos, em cada canto da freguesia,
da paixão do pároco saturninos por uma alternadeira de Amarante, a diferença de idades ia muito para além de duas décadas, não
obstante todo o falatório, ninguém colocou em causa o seu papel de
guia-espiritual daquelas gentes, pois, há fenómenos
muito estranhos debaixo do céu do mundo, quem sabe se uma indumentária
condizente com o estatuto de sacerdote, com o seu quê de naftalina e um vislumbre
de moldura sobre um naperon, numa qualquer camilha, de uma tia velha, ajudasse
a serenar dúvidas e a refrear a maledicência, e como era possível, o pároco saturninos,
com o seu tom baixo, arrastado, que instava logo
concentração e reverência, como se dele proviessem verdades do além, desviar-se,
mais de duas décadas, dos ditames norteadores da cruz que representa?! Há, de
facto, fenómenos muito estranhos debaixo do céu do mundo, ninguém falava das óbvias
fraquezas do pároco saturninos com o feminino, de estar envolvido com uma
alternadeira de Amarante, não, nada disso, as conversas centravam-se na
diferença de idades ir muito para além de duas décadas, como se o resto fosse
aceitável, pouco demorou até que as gentes dali dessem de caras com a
alternadeira à frente da tesouraria da paróquia, era uma sujeita baixa, de
carnes muito, muito, fartas, um cabelo permanentemente
de costas viradas para a escova, uma cara de suína que jamais conseguiria maquilhar
um carácter boçal, esta transição do alterne de Amarante para a tesouraria de
um edifício encabeçado pela sagrada-cruz ocorreu, para aquelas gentes, com toda
a naturalidade, no fundo, como se sempre ali estivesse a boçal-sorridente,
ostentava no focinho um omnipresente sorriso, talvez um conselho do pároco
saturninos, para facilitar a sua integração por aqueles lados, a única nota
dissonante estava no tom de voz, ao contrário do pároco saturninos, com o seu tom
baixo, arrastado, que instava logo concentração e reverência, como se dele
proviessem verdades do além, a alternadeira simplesmente berrava, por ali se
detectava a sua génese, além da indumentária, claro, camisolas largas, de
qualidade duvidosa, que apenas lhe acentuavam ainda mais a fartura de carnes,
calças de ganga cujo efeito cénico era similar, e uns ténis de linha-branca que
somente acentuavam o carácter confrangedor desta personagem, perante o olhar
dos outros, jamais se viu uma intimidade entre o pároco saturninos e a
alternadeira de Amarante, embora, de noite, ninguém a visse a abandonar a sacristia,
nunca se levantou qualquer voz em contrário, as contas da paróquia lá se faziam,
o pároco Saturninos também não caminhava para novo, ninguém caminha, precisava,
nos Invernos, que alguém lhe aquecesse os pés, e, neste aspecto, a alternadeira
de Amarante era de carnes muito, muito, fartas, e, sempre que alguém tinha uma
crise espiritual, bastava bater à porta, lá surgia aquele rosto, parecia o
resultado do cruzamento entre um sabujo e um velhaco, pronto a dar um conselho num
tom baixo, arrastado, que instava logo concentração e reverência, como se dele
proviessem verdades do além, se estivesse frio, não tardaria muito, do
interior, a ouvir-se um berro: “Vem mas é para dentro que está frio!”
segunda-feira, 9 de outubro de 2023
A consertadora de corações
A última vez que a vi, já os candeeiros nos iluminavam os passos, numa ruazita secundária, eu, fora do carro, à espera de um
não sei o quê, talvez à espera de mim mesmo, e continuo a aguardar, quando,
antes de a ver, ouvi-a, as frases muito ritmadas, percebi
que iria passar à minha frente, permaneci imóvel, olhei na direcção da sua
voz, umas dezenas de metros mais abaixo, apercebeu-se de mim, por momentos,
brevíssimos mesmo, no fundo, a Eternidade, olhou-me, o espanto
inicial por ali me encontrar, as dúvidas de como reagir, tudo o seu olhar
transpareceu, por fim, o orgulho assumiu o leme,
lá seguiu caminho, rua abaixo, permaneci onde estava, embora pensar e sentir
num turbilhão demasiado, nada de novo para mim, confesso ter gostado do espanto
inicial por ali me encontrar, as dúvidas de como reagir, tudo o seu olhar
transpareceu, nem vislumbres de indiferença, também ela não me era indiferente,
bem longe disso, em tempos escrevi que não tenho jeito
para despedidas, reafirmo-o, talvez pelos vazios derramados no horizonte,
em verdade, não é uma arte que almeje: jeito para despedidas! Meses antes de
candeeiros que nos iluminavam os passos, numa ruazita secundária, eu, fora do
carro, à espera de um não sei o quê, talvez à espera de mim mesmo, e continuo a
aguardar, de lhe ouvir a voz, perceber que iria passar à minha frente, de o
orgulho assumir o leme, certa tarde ela, no meu carro, quase em desabafo, “Só me saem gajos com o coração
lixado!”, retive,
de imediato, a frase, nessa altura, de facto, era um gajo com o coração lixado,
creio que sempre fui, e, de certa forma, vi nela uma possível consertadora de
corações, só alguém com tal desígnio podia emitir uma frase assim, acredito,
ainda hoje, que ela ignore o facto de a ter memorizado, , “Só me saem gajos com o coração lixado!”, gostei do
conteúdo (elegâncias de forma não são para aqui chamadas) e da espontaneidade
com que a emitiu, por fim, vislumbrava uma possibilidade de conserto para tão
vital órgão, e como precisava, uma das frases que
ultimamente mais tenho repetido (“Vivemos
tempos estranhos… Vivemos tempos estranhos…”) não tardaria a bater-me
à porta, e, por acaso, não nutro peculiar júbilo por estar certo antes do tempo,
muito pelo contrário, sinal de mau augúrio, assim foi neste caso e,
infelizmente, em muitos outros, há muito escrevi, peço desculpa, hoje estou a
citar-me muito, uma frase que ilustra os meus passos pelo aqui: “Para onde
vou, levo-me comigo”; não gosto de teatralizações, de máscaras, maquinações
e afins, como em tudo há vantagens e desvantagens, sem máscaras geramos amor ou ódio (eu também amo ou odeio – deste último lado
está o politicamente correcto: a mais sublimada forma de tirania!), não há
meia-medida, pois, um notório maniqueísmo, o ontem sempre tão no hoje, são os
ditames desta apatetada sociedade, porém, o meu único juiz continua a ser o
espelho, se gosto do seu reflexo, sim, gosto, e espero continuar nesta senda,
há um imperativo nesta equação: jamais, jamais, abdicar do amor-próprio! Há
quem lhe chame orgulho, estejam à-vontade para dar as denominações que bem
entenderem, a verdade é que, no fim, só nos resta este desígnio para continuar
nesta caminhada de rosto erguido, aqui fica o conselho, não sou muito pródigo
neste particular, sempre considerei que cada um deve encontrar o seu caminho,
claro que a consertadora de corações se revelou um logro, um pouco como aqueles
botecos de bairro onde vamos por falta de opção momentânea, confesso, no
entanto, que, como sempre, ali entrei sem máscaras, teatralizações e afins,
apenas eu a levar-me comigo, embora, em certa medida, ela tivesse o arrojo de
estancar uma hemorragia latente, esta é a verdade, por conseguinte, honra lhe
seja feita neste aspecto, quem vê o mundo de uma enorme
distância, com a nítida percepção de que este não é o seu lugar, possui
necessariamente um coração lacerado, aqui começou o equívoco da consertadora de
corações, um coração lixado, num boteco de bairro, resolve-se com uma curita,
um coração deveras lacerado exige uma taumaturga das emoções, alguém que igualmente veja o mundo de uma enorme
distância, com a nítida percepção de este não ser o seu lugar, aqui
chegados, alguns podem questionar se me arrependo, não, é a resposta, porque,
no fim, soube, a tempo, pegar no orgulho e restituí-lo ao meu peito, já que no
meu rosto não havia máscaras, vivemos, em verdade, no meio de um
baile-de-máscaras, uma das frases que ultimamente mais tenho repetido (“Vivemos
tempos estranhos… Vivemos tempos estranhos…”), felizmente estou aquém de
tais contextos, e, assim que o orgulho me foi restituído ao peito, sem
quaisquer laivos de arrogância, fiz as contas, e, de imediato, compreendi quem
saiu a perder, não é todos os dias que caminhamos ao lado alguém que vê o mundo
de uma enorme distância, com a nítida percepção de que este não é o seu lugar,
restam-lhe os ansiados corações lixados para aplicar umas curitas, pouco mais,
nada de demorado que envolva a compreensão de não sermos daqui, custa muito
depositar uma máscara, imaginemos todas: amor ou ódio, não há meia-medida,
pois, um notório maniqueísmo, o ontem sempre tão no hoje, são os ditames desta
apatetada sociedade, viver é cair – facto –, não deve haver lamentos nem contas,
em verdade, no fim de tudo, basta um rosto levantado a vislumbrar o outro a
caminhar rua abaixo, pouco mais, um coração deveras lacerado exige uma
taumaturga das emoções, estas aliam o tempo à compreensão, talvez por
felizmente saberem o logro de uma curita…
domingo, 8 de outubro de 2023
Grandezas à janela, misérias num desvão empoeirado
Àquela hora, a cidade ostenta o rosto de
sonhos escondidos, como se a vida tivesse partido para outras paragens, a luz
do aqui a ocultar a chama longínqua dos tremeluzentes e dourados suspensos
pontos nocturnos, era uma noite de Setembro, no ar um prenúncio de que as
sombras se iriam demorar na despedida, no entanto, aqui e ali, uns faróis a
trazer substância às coisas, acompanhados daquele eco mecânico que parece
caminhar sempre na lonjura, contudo, nesse mesmo instante, ele aporta num lugar
de excesso de luzes, se, nesse preciso instante, qualquer um de nós ali
estivesse, e se, por um acaso qualquer, detivesse nos seus passos, percebia-lhe
a familiaridade, de há muito, com aquele cenário, imobilizou a viatura num
recôndito lugar improvisado atrás de uma palmeira, a cerca de oitenta metros da
entrada, dirigiu-se, de imediato, para lá, nem se apercebeu da quietude à sua
volta, daquela hora que nos contempla com um rosto de sonhos escondidos, como
se a vida tivesse partido para outras paragens, nem interiorizou que, naquele
momento, a luz do aqui oculta a chama longínqua dos tremeluzentes e dourados
suspensos pontos nocturnos, nada disso fazia parte da geografia do seu pensar,
o seu olhar fixado na porta, os seus acelerados passos para lá dirigidos, assim
que transpôs a entrada, virou à direita, o destino a três ou quatro dezenas de
metros, também lhe passou ao lado a expressão cúmplice e acrimoniosa dos
porteiros ao verem-no entrar, a vida, por ali, obedecia a outros ponteiros,
como se fosse meio-dia numa qualquer praça central de uma cidade de assinalável
dimensão, e, apesar do abraço de há muito da noite, nos rostos nem vislumbre
daquela resignada cedência ao cansaço de ser, pelo contrário, à sua volta
apenas rostos sequiosos, a mesma expressão por si ostentada, encostou-se a um
canto na discrição do possível, retirou a carteira do bolso interior do casaco,
recontou as possibilidades, como se de munições se tratasse antes da batalha, e
avançou, começou logo pela máquina que o ocupava há um trimestre, sempre o necessário
aquecimento para o desafio de facto, ali esteve bem mais de uma hora, nunca
questionou o porquê de, nos primeiros contactos, ter somado algum pecúlio,
desde então, uma espiral derrotista alimentada, curiosamente, não por uma
esperança de mitigar perdas, mas sim por uma outra coisa, bem mais antiga,
quase infantil, aquele tempo em que não estamos inteiros no mundo, como se
caminhássemos com um pé no aqui e outro no lá, só nessa altura é que nos
aproximamos de um abismo com um espanto inocente onde o terror não encontra uma
janela por onde entrar, e não olhamos um precipício, mas uma nuvem passeante
que quase tangemos, de uma outra forma, só se apercebe do abismo quem já caiu
(E como este é um mundo de quedas!), por ali, ele desaprendia o cair em voos
fugazes, sempre com um preço, aparentes quedas ilusórias para logo se reerguer
sob um custo sempre plural, àquela mesma hora, sentada numa teimosa cadeira
oscilante, uma mulher com o filho nos braços, procura adormecê-lo, ela, neste
momento, também com um pé no aqui e outro no lá, aquele tempo em que não
estamos inteiros no mundo, um seio ainda de fora depois de se cumprir, a
criança parece ter reencontrado os trilhos do sono, a mulher tacteia por forças
para se levantar, enquanto isso, olha a cama à sua frente, vazia, fria, mas
desarrumada, o seu olhar turvado de preocupação, frases ressoam nos cantos de
si, Não comeces com coisas. Quanto é que
já lá ganhei? Não me venhas enumerar o que já perdi! Porque eu recupero isso
facilmente! Dá-me uns dias… Não te admito isso! Não estou nada viciado! E não…
Nem voltes a repetir isso! Não nos vou levar à miséria! Por acaso, passas fome?
Frases curtas, herméticas, sem azo a réplica, em cima de uma
mesa-de-cabeceira avoluma-se um molho considerável de cartas, também por aí o
seu turvado olhar deambulou, o dele também, do atraso na prestação da casa ao
saldo ultrapassado no cartão de crédito, a insistência do telefone à hora de
jantar, sabia que a sogra andava preocupada, que ele chegava a inventar doenças
para que a mãe... Mas, o que mais lhe doía, era o facto de o compreender, como
se no lugar dele a sua volição fosse similar, sempre um pé no aqui e outro no
lá, aquele tempo em que não estamos inteiros no mundo (e isto há quanto?),
entretanto, ele deixa a máquina e encaminha-se para a outra sala, todos os
olhares numa espiral sobre uma mesa, tantos que caem (E como este é um mundo de
quedas!) para tão poucos que se erguem, uma vez mais leva a mão ao bolso
interior do casaco, pensou àquela hora encontrar mais, talvez se tenha demorado
pela máquina, e avança, se, nesse preciso instante, qualquer um de nós ali
estivesse, e se, por um acaso qualquer, detivesse no seu olhar, percebia-lhe o
fascínio hipnótico por aquela espiral sobre a mesa, a aproximação do abismo,
enquanto isso, ela devolve o filho, já adormecido, àquele diminuto leito
infantil, tapa-o com um esmero só possível a uma mãe, por um tempo sem tempo
detém-se absorta a olhá-lo, felizmente para ela o pensar em tréguas, àquela
hora, a cidade ostenta o rosto de sonhos escondidos, como se a vida tivesse
partido para outras paragens, uns olham filhos adormecidos, outros perdem-se em
espirais sobre mesas, cair, levantar, tudo acontece sob a chama longínqua dos
tremeluzentes e dourados suspensos pontos nocturnos…




