Livros do Escritor

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sexta-feira, 2 de setembro de 2022

O Kilimanjaro


 

Há figuras que só nos fazem sentido num contexto, como é o caso do vulto hoje retratado, como se, deslocados desse ambiente, perdessem relevância, espessura, mesmo a voz que ecoa, em nós, se fosse diluindo, perante a irreversibilidade destes factos, resolvi dedicar-lhes estas linhas e, desse modo, guindá-las à posteridade, por norma, ocupava sempre o mesmo banco-de-supino, a um canto da sala, onde permanecia deitado de costas, confesso que nunca o vi em qualquer outra máquina, só ali, deitado de costas, porém, o que saltava à vista de qualquer um era a gigantesca proeminência na zona-abdominal, nem a cabeça se lhe  via, tal a altura daquela saliência, a camisola que envergava permanecia muito acima do umbigo, em pé ou deitado, o que lhe conferia uma aura de personagem de desenhos-animados, a força era irreversivelmente contrastante com a vertigem das alturas daquela proeminência-abdominal, por conseguinte, chegado aos trinta quilos, era comum ouvi-lo “Oh, meu irmão, meu irmão, dás-me aqui um toque… Vigia só, se vires que  preciso, irmão, então, aí sim, ajuda…”, e lá ia deitar-se, por vezes, achava enternecedor tanto cuidado e alarido para um peso tão infantil, no entanto, ele lá se esmifrava para levantar a barra, mas por muito que se esforçasse por erguê-la, jamais ultrapassava a saliência-abdominal, sublinho que o espectáculo era deveras arrepiante, à medida que levantava a barra do enfezado peito, o barrigão inchava, inchava, inchava, como se, de facto, aí residisse a sua real força, depositava a barra, com o devido estrondo, nos suportes, como se acabado de levantar insuperáveis toneladas, respiração igualmente sonora, convém para dar credibilidade à coisa, depois, depois, depois… A questão maior: como se iria erguer? Confesso ter interrompido o meu treino para saciar esta curiosidade, afinal, estava deitado num banco-de-supino, e, com aquela saliência-abdominal a pesar-lhe tanto, seria tudo menos fácil, lenta, muito lentamente, com o inevitável apoio de uma das mãos, um esgar de esforço no rosto, o desviar a cabeça da barra servia para maquilhar a manobra, na urgência de recuperar o fôlego permanecia o tempo necessário sentado, começava em movimentos rotativos da cabeça, como se, por um escasso segundo, tivesse consciência do que efectivamente estaria a fazer, contudo, há coisas que se fazem apenas porque ficam bem, quem o visse, sentado, a rodar e rodar a cabeça, provavelmente julgaria estar na presença de um entendido em prática-desportiva, sem dúvida estaria muito longe de ser confundido com um nutricionista, dizia-se que tinha um tio endinheirado, tudo à custa de negócios na sombra, em troca de um favor, o tio ofereceu-lhe um BMW, era, então, vê-lo, quando ia ao café do bairro, mesmo sem ter lugar à porta, a deixar o carro em segunda-fila, de óculos-escuros, saía do automóvel e olhava à volta, como se esperasse alguém, cotovelo apoiado no tejadilho, quem sabe copiasse os mesmos passos de algum anúncio-televisivo do seu agrado, entrava no café, nem dois minutos passados, regressava ao carro, como se esquecido de algo, abria a porta, debruçava-se para o interior, mas não muito, não fosse a proeminência-abdominal obedecer aos imperativos da gravidade e fazê-lo cair para a frente, uma vez mais, cotovelo no tejadilho, olhar em volta como se numa ansiosa espera, em verdade, nada daquilo era necessário, já todo o bairro sabia que o carro era seu, uma prenda do tio das negociatas-sombrias, o certo é que ninguém ousou explicar-lhe tal, no fundo, era confrangedor, por vezes, vê-lo em esforços para sair do carro à porta do café, uma luta titânica só para se erguer, havia nele uma qualquer coisa de sapo-inchado, o barrigão, mais a baixo dois caniçozitos que se estendiam até ao chão, contaram-me que, certa tarde, o viram, de camisa e  gravata, no tal banco-de-supino, parece que aproveitou uma pausa no trabalho, houve quem acreditasse, outros duvidaram, como é habitual nestas ocorrências mais inusitadas, repeti, em jeito de questão, o final da frase: “… de camisa e gravata?” Peremptoriamente ouvi “Sim”, dirigi-me para o mais famoso banco-de-supino da história, naquele peculiar canto da sala, olhei o chão, pois, ali estavam três provas irrefutáveis da sua passagem, de camisa e gravata, sob a forma de três botões caídos, qual a camisa capaz de suster o despontar daquele Kilimanjaro? Ainda o censuraram por ali estar de camisa e gravata, sinceramente, mas aquele não é o seu canto? O respeito escasseia por estes dias, às vezes dá-me para isto, sonhar, só faltava àquele canto algo para o quadro ficar completo: o BMW; imaginem: após pousar a barra, com o devido estrondo, nos suportes, como se acabado de levantar insuperáveis toneladas, respiração igualmente sonora, convém para dar credibilidade à coisa, erguer-se a custo, muito custo, rodar a cabeça vezes infindas, depois levantar-se, abrir a porta do carro, pousar o cotovelo no tejadilho e olhar em volta… Ainda há quem diga que o céu não tem lugar na terra!

(02/09/22)


segunda-feira, 29 de agosto de 2022

Como é que é, Brother?


 

Alguém só nos morre, por inteiro, quando deixa de habitar na memória, nem por acaso, hoje iluminou-se-me, nesse espaço que traz o ontem ao hoje, um vulto singular que, do seu jeito, deixou uma marca indelével sob a forma de uma frase, mais concretamente de uma interrogação, mas já lá vamos, conheci-o por frequentarmos o mesmo ginásio, quando alguém entra num espaço, pela primeira vez, de forma natural suscita curiosidade, neste caso foi amplificada por características deveras particulares, entrou com um ar desconfiado, semblante carregado, a olhar os próprios passos, um gorro na cabeça que lhe conferia uma aura simultaneamente anacrónica e descontextualizada, como se, algures no seu caminho, perdesse a direcção, um presídio norte-americano ou uma plataforma no Alasca ser-lhe-ia o destino indicado, porém, ali estava ele, à minha frente, a tirar o supracitado gorro, um sobretudo que se arrastava pelo chão, deixou-os a um canto da sala, como se não houvesse balneários para o efeito, talvez nem conhecesse o conceito, também não era eu a explicar-lhe, ali só o treino me interessava, nem sabia se falava Português, ou qualquer outro idioma, os demais presentes também se mantiveram focados nos exercícios, ninguém interrompeu a sua actividade por causa de um gorro e sobretudo a mais na sala, reparei que o rabo-de-cavalo, naquele caso, talvez pela baixa-estatura, tez morena, lhe conferia aspecto de médio-Oriente, sim, algures por aí, um Aladino rebelde que resolveu alistar-se nos talibã, olhou à sua volta com familiaridade, apesar dos passos-arrastados, postura-curvada, a olhar o chão, ia decidido para uma máquina, ao passar por mim, proferiu, quase em surdina, sob a forma de um nítido cumprimento, uma frase que iria alterar, irreversivelmente, a minha mundividência, foi, para mim, como se uma epifania, estava quase a ladear-me, repito, no seu passo arrastado, a olhar o chão, quando ouço, como se um eco vindo de uma galeria cavernosa, “Como é que é, Brother?”, de início, repito, pareceu-me um longínquo eco, proveniente de um qualquer subterrâneo, demorei a processar a informação, até porque não tinha um rosto a olhar-me para devolver o inusitado cumprimento, contudo, a frase continuava, nesse momento, a ecoar em todos os cantos do meu ser “Como é que é, Brother?”, pois, o emissor só podia ser o recém-chegado, o imperativo da educação obrigava-me a devolver o cumprimento, olhei-o, apesar do passo-arrastado, só apanhei as costas, não obstante este facto, devolvi a saudação “Como é que é?”, deixei cair o anglicismo, neste ponto outros valores levantaram-se-me, felizmente ainda perduram, assim teve início a nossa comunicação, de forma lenta, desconfiada, contida, mas nenhuma grande história começa com fogo-de-artifício, não é verdade? Vinha sempre à mesma hora, a postura não se lhe alterou um milímetro, passo-arrastado, olhar centrado no chão, semblante desconfiado, porém, sempre que se aproximava, “Como é que é, Brother?”, nem todos se podem gabar, nesta vida, de receber uma saudação vinda de uma galeria cavernosa, foi mais ou menos por volta da terceira semana desta intensa troca de informações que me colocou, de forma original, uma das mais antigas questões da humanidade, aqui ressalve-se o seu espírito-criativo, nesse princípio de tarde, ao contrário do habitual, denotei-lhe os gestos ligeiramente mais nervosos, olhou-me, após o inevitável e tão desejado “Como é que é, Brother?”, prontamente acrescentou “Conheces alguma fêmea?”, é sabido que a Filosofia nasce do espanto, talvez esteja aqui a génese do meu percurso académico nesta nobre área, logo uma resposta formou-se-me para aquietar a questão suspensa “Conheces alguma fêmea?”, “Não me digas que estás na época do cio?!”, a verdade é que esta figura se esfumou do meu horizonte, ressalvo a minha mágoa, o ar não ficava mais pesado com a sua presença, isso é bom, muito bom, dizem as más-línguas, não sei se é verdade ou mentira, que, certa tarde, se sentiu mal e quase teve de ser reanimado, devido ao seu estado, acharam por bem tirar-lhe a camisola, mas havia mais uma, e outra, outra ainda, e, afinal, restava uma, não, duas, perceberam não estar perante um homem, mas sim uma autêntica cebola, este episódio potenciou a maledicência, conceberam-se as mais rebuscadas teses para explanar o sucedido, que usava muitas camisolas para parecer maior, que era para suar mais e assim ficar seco rapidamente, teses paradoxais, enfim, também houve quem proclamasse bem-alto que a causa do seu mal-estar se deveu a alguma substância que ingeria para obter resultados de forma célere, o certo é que não mais apareceu, nos dias seguintes ainda olhei para aquele canto-da-sala a ver se por lá estavam depositados um gorro e um sobretudo, tudo em vão, nada, dele só restou a inusitada saudação “Como é que é, Brother?”, peço-vos que a divulguem em sua homenagem, quem sabe se, este nosso “Brother”, no dia seguinte ao episódio da cebola, conheceu a fêmea da sua vida, talvez seja esse o motivo da sua ausência até hoje – conhecem razão melhor?

(29/08/22)


sexta-feira, 26 de agosto de 2022

A princesa da TAP



 

Uma das questões essenciais que nos devíamos imperativamente colocar é: Será que as nossas palavras interessam aos outros? À luz desta premissa, a sua imagem levantou-se-me no pensar, conheci-a por frequentarmos um espaço-comum, educada, polida, cheia de ressalvas, “Agora, só regresso para a semana, como a minha irmã faz anos amanhã, vamos passar estes dias fora; Estive a manhã toda no cabeleireiro, nota-se bem, não é? Confesso que tenho andado um bocadinho preguiçosa, para semana compenso; Então, como vai o nosso Benfica? Eu vi o jogo, lembrei-me logo de si, dos seus nervos, mas felizmente lá ganhámos… Estive para lhe mandar mensagem, mas não quis alimentar mal-entendidos! Já sabe como sou, não gosto nada de histórias mal-contadas!” Pois, de facto, será que as nossas palavras interessam aos outros? A noite já lhe entrara na existência, apesar de uma energia incomum para a idade, e de se mobilizar com o auxílio de duas bengalas, o que, à distância, lhe conferia um ar de aracnídeo, a sua baixa-estatura robustecia o quadro, as frases saíam-lhe  numa velocidade inversamente proporcional aos passos, contudo, mantinha a sua auto-estima, um aspecto muito positivo, porque efectivamente só nós a podemos devidamente alimentar, “Sabe, não tenha dúvidas, quando era mais nova, chamavam-me a princesa da TAP! Assim fiquei conhecida por lá. Era muito elegante, de parar o trânsito”, confesso, para remissão dos meus pecados, que, nesse momento, o meu olhar resvalou para os acessórios de locomoção, se a referência a parar o trânsito se devia à sua notória lentidão, mas foi por escassíssimos segundos, “Custa-lhe a acreditar? Agora vê uma velha, mas acredite, em nova fui a coqueluche das hospedeiras-de-bordo, em todos os voos queriam a princesa da TAP!” Como é óbvio, procurei enaltecer as qualidades do hoje, uma tarefa árdua, porém, nunca gostei de desafios fáceis, enalteci a sua nobre postura, invulgar simpatia, as idas ao cabeleireiro, a crescente boa-forma física, pelo menos atravessava a porta do ginásio de vez em quando, muitos nem isso, enfim, quase que, com uma lanterna, procurava iluminar o possível de  verbo, longe, muito longe, dos vislumbres com lentos aracnídeos a atravessar estradas, “Sim, é verdade, ainda aqui estou para as curvas. Tomara muitas chegarem-me aos calcanhares. Estou plenamente de acordo consigo naquele aspecto: o nosso amigo precisava de uma mulher mais madura! Parabéns: analisou muito bem a questão. Devia ter, a seu lado, uma mulher com outra experiência, mais estabilidade-emocional, mais confiança em si mesma, que não andasse a brincar aos joguinhos de ciúmes, não acha? É um profundo disparate! Por isso, evito contactá-lo aos fins-de-semana, já viu se a outra ainda faz uma cena de ciúmes?”, de facto, era uma possibilidade evidente, quem não teria ciúmes da princesa da TAP? Argumentei que os homens são eternas crianças, onde já se viu alguém trocar a princesa da TAP por qualquer outra mulher à face da terra?! Vivemos a era do Absurdo, acrescentei resignado, quando chegava a hora do adeus, os vislumbres com lentos aracnídeos a atravessar estradas materializavam-se para nosso terror, “Então, onde vai almoçar hoje?”, um passo, lá respondia, “Gosta mesmo desse restaurante! Olhe, no Domingo, fui com a minha irmã e o meu cunhado a um, muito bom, em Cascais, deixe-me ver se recordo o nome”, outro passo, até à porta faltavam uns trinta, àquela velocidade, talvez daqui a dois dias, como sempre fui generoso, desculpei-me com uma urgência e parti, ainda acredito em finais-felizes, por conseguinte, deixei esta princesa com o seu destinado príncipe, podiam pôr a conversa-em-dia sobre o seu Benfica, talvez, quem sabe, sob aquela lenta cadência, o príncipe encontrasse a almejada estabilidade-emocional enquanto os seus olhares refectiam sonhos por sonhar. 

domingo, 21 de agosto de 2022

Ouço, em mim, um cemitério de palavras


 

Denota-se-lhe uma passada, àquela hora de jantares e famílias, de quem se sabe não ser esperada. Sempre tempo para mais um cigarro, agora à porta do prédio, mas não entra (para quê?), ainda lhe falta o pão, assim retarda, por mais um pouco, a evidência da derrota, quantas vezes, quase como cartão-de-visita, anunciara, Sabe, eu tenho muitos amigos, perante isto, os outros fitavam-na entre a perplexidade e o espanto, ela insistia, Sabe, eu tenho muitos amigos, como resposta, ombros encolhiam-se e ela ficava a contemplar costas que se afastavam, mas, nesses tempos, sempre tinha com quem se sentar a uma mesa, a partilhar cafés e cigarros, hoje nem isso, apesar do esmero antes de sair de casa persistir, um livro debaixo do braço, volumoso o suficiente para captar olhares e suscitar admirações, de vez em quando, alguém mais incauto questiona-a acerca daquelas páginas, logo, ela assume uma expressão reflexiva e debita o que julga serem profundidades, o resto da indumentária também não é deixada ao acaso, percebe-se-lhe um latente antagonismo com o inverno da sua face, no passado, parecia filha da pressa, como se, de facto, a esperassem em múltiplos lugares simultaneamente, o passo também era outro, mais leve, mais decidido na sua representação, hoje o (seu) mundo outro, a filha no exterior (Quando partira?), primeiro, há alguns anos, juntara-se com um namorado, talvez o seu terceiro, que tinha uma loja de produtos para animais, ela grata pela saída da filha, mais espaço, sempre aquela competição velada, mãe/ filha, pelo olhar masculino da casa, marido/ pai, alugaram um apartamentozito relativamente perto, a filha encantada por trabalhar com animais, várias vezes o afirmou, de forma bem audível, o pai em silêncios, talvez já houvesse demasiado barulho à sua volta, os namoros da filha, as múltiplas amizades da mulher, era um lar já bastante movimentado, ela reticente com a escolha da filha, não apreciava o olhar rasteiro do rapaz, vária vezes avisou Minha filha, minha filha, ele vive do momento, nunca há-de pensar o amanhã, mas surdez e juventude viajam na mesma carruagem, uma tarde, as malas reentram em silêncio, a filha de óculos escuros elucidativos, afinal, os olhares do rapaz eram ainda mais subterrâneos que o vaticínio materno, quem se habitua a enjaular seres vivos, e a comercializá-los, dificilmente muda de perspectiva, de novo, por ali, vozes a elevarem-se, mãe e filha sempre em lados opostos, certa noite, ao regressar do café, luzes de alarme à porta do prédio, uma maca a ser transportada, o coração a sussurrar-lhe ao ouvido, ela a compreender, mas a optar pela surdez, o marido sempre com África, desde o regresso, virara costas ao sorrir, o frio, as gentes daqui, pequenas como os seus horizontes, os inúmeros trabalhos que fora coleccionando, nem todos desaprendem de mandar, a partir de certa altura, preferiu o passado, aí vivia, escudado por fotos,  discos, copos e memórias, mantinham-se à tona apenas com o ordenado dela, há dias em que a evidência nos atira contra uma parede, com uma frieza inclemente, talvez o inopinado regresso da filha, talvez os envelopes das contas amontoados na mesa de entrada, talvez um cansaço, jamais pronunciado, pelo facto de a mulher ter optado pela representação, talvez um excessivo frio exterior, hoje não revisitou memórias emolduradas, nem ouviu melodias quentes, não, hoje resolveu outra coisa, encontraram lamelas vazias ao lado de um copo outrora cheio, não chegou a conhecer o hospital, sim, a meio do caminho, abraçou outra viagem, a derradeira, ela nunca aceitou esta decisão, de certa forma, sentiu-se traída, como se uma derrota, a filha, neste particular, seguiu os passos do sentir materno, o embaraço presidiu aos gestos do adeus, contudo, só em surdina se ouviu falar de lamelas vazias ao lado de um copo outrora cheio, certa manhã, o calendário a relembrar os anos que passaram desde as luzes de alarme à porta do prédio, quando o coração lhe sussurrou ao ouvido, ela a compreender, mas a optar pela surdez, sobre a mesa-de-cabeceira, um envelope com uma paisagem suíça, era da filha, partira para lá com outro namorado, talvez o quarto, entra no café, àquela hora pouca gente, apenas duas ou três mesas ocupadas, pede o pão, enquanto aguarda, repara numa revista abandonada sobre uma mesa, a capa dividida por duas paisagens, uma de montanha a outra de savana, recebe o pão, já frio, entrega as moedas, preparava-se para sair, mas volta atrás, pega na revista, durante uma indefinição de tempo talvez a olhe, e, sem saber muito bem porquê, hoje, ao caminhar para casa, sentiu-se esperada.

terça-feira, 16 de agosto de 2022


 
O acto criativo jamais pode ser dissociado de uma alma repleta de sombras.

in Nascer

domingo, 14 de agosto de 2022

Quando os sonhos não cabem em mim


 

Quando realmente irei acordar? Talvez não hoje. O despertador, aquele som sempre numa demasia ritmada, os pontos vermelhos a piscar, num vermelho ostensivo devido à escuridão do quarto, a procura da tecla do silêncio, por fim o indicador a encontrá-la, de novo, paz, a cabeça, uma vez mais, apoiada, como se um retorno, ainda bem, talvez assim os problemas flutuem por mais um pouco, dela, neste momento, apenas o ombro, mesmo assim, opta por cobri-lo, não dera pelo despertador, tal como em todas as manhãs pretéritas, valia-se da paciente insistência dele, para assim correr pelo pão diário, ele tinha gosto nisso, afinal, só a reencontrava, como sempre em cada regresso, sob a fluorescência da cozinha, entre o fogão do jantar e a porta aberta da máquina da roupa, numa demonstração de ubiquidade digna de qualquer ilustre taumaturgo, ele, da porta, assistia num fascínio mudo àquela multiplicidade de gestos, que brotavam de uma harmonia inata ao continente feminino, sempre a margem e o fascínio, levanta-se, o ombro na mesma posição, embora tapado, após o café, que bebia sempre naquela chávena amarelada, com uma lasca na pega, duas torradas, a manteiga derretida que lhe acabava em cascata nos dedos, regressa ao ombro adormecido, palavras sussurradas, uma mão sai do lençol para lhe passear pelo rosto, de seguida, o autocarro, sempre aquele instante do arranque, a relembrá-lo da importância de um amparo (talvez de um ombro), à sua volta, apenas vestígios de sono, não de sonhos, ele sempre em estranhezas, afinal, quantos sonhos enterrara em si? A marcha a prosseguir enquanto o espaço, em redor, se subtrai numa cadência de vaga tumultuosa, os pés procuram firmar a sua individualidade, como árvore em floresta, mas a corrente a arrastá-lo, assim que a paragem (talvez a sua?) imobiliza o autocarro, até que desce os degraus, em esforços de equilíbrio, a manhã ainda não se erguera, e um gesto, cansado e multiplicado, num absurdo diário, a confirmar a sua entrada, na testemunha de um cartão, dirige-se ao seu cacifo, aí deposita os pertences da sua outra vida, veste uma bata ainda azul, ilhas de óleo em vários pontos a manifestar um arquipélago de labor, caminha para o seu lugar, já é um outro, uma parte daquele tentacular todo, ao seu lado, mais batas azuis, com iguais arquipélagos, ouve frases de golos e penáltis, mas sempre aquém destas temáticas, a manhã em passos de idoso, enquanto o cansaço em galope por ele (quantas vezes já levara a mão à testa?), de vez em quando, à sua frente, a casa da aldeia, o aroma a frutos da brisa do entardecer, o olhar a correr pelo possível do horizonte, o som do ontem murmurado entre as ramagens, contudo, um estrépito metálico fá-lo regressar à sua circunstância, aos arquipélagos, à mão pela testa, a passos de idoso e a galopes indesejados, a discussões circulares por apitos e mais penáltis, o som de uma sirene fá-los baixar os braços, passa pelo cacifo, retira de lá o possível de um almoço, e vai sentar-se debaixo do enorme castanheiro, duas sandes, uma de ovo e outra de presunto, opta por comer primeiro a de presunto, recosta-se no tronco, como sempre fazia, mastiga devagar, talvez assim se multiplique qualquer coisa, e, na mesma proporção, se subtraia a necessidade, de novo, à sua frente, talvez murmurado pelas ramagens, talvez desenterrado de si, a casa da aldeia, o aroma a frutos da brisa do entardecer, o olhar a correr pelo possível do horizonte, caminha na sua direcção, agora, nem vestígios de mãos pela testa, de arquipélagos, de passos de idoso ou de galopes indesejados, tudo já com a distância, à espera que a maré da madrugada venha recolher, de repente, a três passos da porta, pára, sim, é verdade, pareceu-lhe ver um ombro a passear por uma das janelas.