Ela assoma à janela. Apenas olha para baixo. Espera pelo baque da porta do prédio, um som indistinto entre vidros e alumínios, e depois surge a figura dele, lá vai, numa passada em que se lê o saber da amargura do destino, mas obstina-se, lá vai, sempre, àquela hora, como se um rito, lá vai, ela mão no vidro, a sentir aquela frieza que traz consigo sempre a memória do real, a mão em adeus, ou num apelo, mas ele sempre, lá vai, a dobrar a esquina, até que, por fim, apenas uma mão no vidro. Horas antes, entrara em casa, com aquela expressão peculiar de quem se quer saber a sós, senta-se no sofá, nisto, a campainha, ela e a irmã em corridas para a porta, passam por ele como se nada, aguardam já de porta aberta, nas suas costas apenas sofá e jornal, o elevador, uns braços cansados pousam a subsistência que ameaça as ténues margens plásticas dos sacos, ouve-se uma expiração com o comprimento da fadiga, ajoelha-se, as irmãs de novo em corrida, os braços cansados agora abrem-se num sorriso para as acolher, assim ficam as três, até se conseguirem, por fim, reerguer, de seguida, entram, uma aresta de subsistência consegue romper a margem plástica do saco, antes de se pousar na mesa, do sofá um aceno, com a cabeça, à vista dos braços cansados e dos sacos de plástico, nada mais, o jornal permaneceu aberto, num horizonte de golos e classificações, ela e a irmã em auxílio dos braços já em queda, como se cada subsistência arrumada mitigasse aquela fadiga jamais gritada, mas por todos sabida, com excepção talvez do sofá, e daquele panorama de remates, vitórias, e pontos, por altura do jantar, os quatro à mesa, trocam-se escassas frases sem entoação, ela e a irmã sempre com o horizonte dos braços cansados, dali questões por escola e deveres, o sofá com o prato, assistia a tudo num mutismo como se com a distância, talvez as observasse de um outro continente, ela e a irmã evitavam, se, por acidente, um olhar ali caía, rapidamente o apanhavam, bolso com ele num gesto envergonhado, e corrida, de novo, para aquele lugar onde brotavam espontaneamente questões por escola e deveres, por outras palavras, sons do seu mundo, já pratos debaixo da torneira, um último esforço daqueles braços, ela entre a mesa e o frigorífico, a irmã, nessa noite, com o trilho da despensa, a porta de casa abre-se, como sempre àquela hora, um gesto com a cabeça para aqueles braços que sustinham um último esforço de pratos e torneiras, a porta, agora, a fechar-se, ela a correr para o quarto, já terminara o périplo entre mesa e frigorífico, a assomar à janela, a vê-lo lá em baixo, após o baque da porta do prédio, um som indistinto entre vidros e alumínios, lá ia, a caminhar passos de amargura, lá ia, contudo, antes de chegar à esquina, antes de uma mão no vidro, na fugacidade imperceptível do momento, levantou o rosto, à altura da sua janela, e falou-lhe, sim, falou-lhe, longe de sofás e jornais, também perguntou pela escola, também perguntou por ela, e, antes de dobrar a esquina, pediu-lhe, sim, baixou a voz, num murmúrio, já a mão no vidro, a desenhar um adeus. Nunca assistiam àquele regresso, acompanhado de cânticos, antes da escola, percebiam-no ali a dormir, no sofá, com a mesma roupa, os braços amanhecidos a cobri-lo com uma manta, a pedir-lhes para evitar barulho, para se despacharem, com o leite, as bolachas, a vestir os casacos, a pôr as mochilas, e, nessa manhã sem sol, antes de fechar a porta atrás de si, ela olhou para o sofá, baixou a voz, e, num murmúrio, disse que sim, que jamais caminharia como ele.
Livros do Escritor
domingo, 22 de maio de 2022
segunda-feira, 16 de maio de 2022
Um amanhecer nunca se repete
O que leva aquela mulher a sair de
casa a estas horas? Lá vai ela, um saco de plástico na mão direita, um casaco
vestido na pressa de acautelar frios e ventos da noite, na sala da sua casa,
uma luz apaga-se enquanto o estore sobe, uma silhueta reflexiva segue-lhe os
passos, talvez mais próxima da apreensão, atravessa a rua, vira à esquerda,
desce uma escadas, e dilui-se num horizonte sem luar… Ao mesmo tempo que ela
deixava a entrada do prédio, um comboio desacelerava à vista de uma estação, na
segunda carruagem, um sujeito levanta-se num esforço de equilíbrios, também de
casaco, embora, pelos visíveis passos do tempo, apenas um sorriso tímido para
aquelas noites demasiado lentas, caminha, agora, passos do possível, sempre que
pode, uma mão estendida numa súplica muda por um apoio, os escassos passageiros
já com a distância, na pressa de um regressar por se saberem talvez esperados,
ele sempre com o possível de si, a deixar a estação, a alcançar o passeio, de
novo a contorcer-se, há dores que sempre nos pertenceram, mas obstina-se
passeio fora, até que se imobiliza ao perceber que alguém caminha, àquela hora,
na sua direcção, quem sabe ainda perdure numa certa memória, por vezes, o
singular é o suficiente, há quem lhe chame o mundo, ela pára à distância de um
olhar seguro, observa-o com esmero, e sempre desagua na derrota da ilusão,
estende-lhe o saco, o gesto suplicante de há pouco cai, no seu lugar a
sofreguidão, abre o saco, e vai-se sentar a comer naquele banco próximo, ela
segue-o, mas chegada ao banco permanece de pé, mãos nos bolsos (Seria do frio
da hora? Da escassez de verbo? Por um pudor que tolhe gestos e silencia os
lábios?), ele na distância de lisuras e de etiquetas, em cada gesto apenas
sobrevivência, (Em que momento nos
perdemos?) pensava ela, enquanto assiste àquele degradante assomo de
sobrevivência, horas antes, de certeza, ele caminhava em direcção contrária,
num qualquer vão de escada, ou numa esquina insular dos preceitos urbanos, ou
mesmo atrás da sebe de um jardim, sim, em todos os jardins há sombras onde não
ecoam risos de brincadeiras e acenos ao futuro, terá estado algures por aí, a
beber o esquecimento de si (Em que
momento se quis esquecer de si?), ela
não sabe precisar, porque tudo é sempre demasiado rápido, e há sempre aquelas
coisas em que insistimos na cegueira, a casa a despir-se, a despir-se,
primeiro, mais espaços nos tampos das camilhas, a seguir nas prateleiras, o
faqueiro de casamento oferecido pela sogra (ainda se recorda da frase que o
acompanhou: Toma bem conta disto. Já vem
da minha avó. Quero que um dia, o passes à minha neta) também uma ausência,
a contínua repetição da palavra dinheiro, sempre numa cadência obstinada, o pai
um dia a saber dele na faculdade, a garantirem-lhe que não o viam desde o
início do semestre, ainda repetiu o nome, embora num tom mais baixo, como se
receasse o veredicto, de novo, a confirmação: Sim, este semestre ainda não o vimos por cá. Mudou de curso? Sobem
ombros e enterram-se mãos nos bolsos, enquanto o olhar procura em desespero por
uma saída, à noite apresentaram-se-lhe os factos, mas ele já não se lembrava,
afinal, há muito que batalhava pelo esquecimento, refugiou-se na contínua
repetição da palavra dinheiro, sempre numa cadência obstinada, como se náufrago
de embarcação desconhecida, certa tarde, assim que entraram, perceberam que o
serão não seria televisivo, mudou-se a fechadura, o pai inflexível, ela ainda
renitente, apesar das mãos nos bolsos, peito e cabeça travaram uma cansada
batalha, sim, por ali nunca se falou de vitórias, assim que ele percebeu a
impossibilidade definitiva do regresso, houve gritos, a porta abanou sob
pontapés, murros, ela fechada na casa de banho, de luz apagada, a encadear
palavras para também se esquecer de si, há quem lhe chame orar, por fim, um
vizinho exasperado com o barulho apela às autoridades, desde então, deixou de
haver ausências da casa, vizinhos exasperados, apenas um saco de plástico parte
todas as noites, um estore sobe, uma silhueta reflexiva segue-lhe os passos,
talvez mais próxima da apreensão, e, de vez em quando, numa divisão da casa, de
luz apagada, alguém encadeia palavras para também se esquecer de si, há quem
lhe chame orar, e uma questão suplicante brota dos seus lábios Em que momento nos perdemos?
quinta-feira, 12 de maio de 2022
terça-feira, 10 de maio de 2022
domingo, 8 de maio de 2022
E atravessar uma estrada, não é atravessar um oceano
Acho que nunca me reconheci num espelho, pensava ele, àquela hora, no sempre arrastado
regresso, sim, regressar é um acto de lentidão, lá ia, passeio fora, na dúvida
das idades, talvez porque a idade tem a cor do pensar e nunca a do rosto, ainda
há pouco, no quiosque, a tratarem-no por O
que vai ser, caro senhor? E ele a estranhar, afinal, naquele momento, com
os seus dez anos, perdia-se com a capa, de cores quentes, de uma revista agora
em reedição, onde não havia espaço para a palavra limite e os conceitos éticos
elementares exibiam-se ao peito, por ali, apenas se velava o rosto, mas ele
também nunca se reconheceu num espelho, à hora do almoço, a insistência
demasiada do telefone, pelo toque adivinha-se o emissor, a mulher, a natação da
filha, a mochila já à entrada, ela, a essa hora, uma reunião na escola da outra
filha, a repetição com a mochila, logo a resposta, Sim, sim, não te preocupes, não me esqueço, mecânica, artificial,
no fundo, a ocultar, sempre, um outro sentido, o verdadeiro, Cala-te. Não me chateies com isso. Não quero
saber. Já me perguntaste que idade tenho neste momento? Desacelerou o
passo, como se não soubesse para onde ir, ou talvez se soubesse próximo da
paragem, àquela hora já cheia, imobiliza-se a uns metros de segurança daquela
anarquia de odores entardecidos, amarguras somadas, desalentos olhados, derrotas
silenciadas, mãos nos bolsos, o seu olhar levanta-se, num repente de ventania,
e leva-o ao passeio do outro lado, por aí, caminhava ela, com um fato próprio
de balcão de sucursal bancária, carteira debaixo do braço, o rosto numa
expressão imperscrutável, algures entre o cansaço e a ementa do jantar,
propício ao momento da tarde, ele a procurar-lhe linhas de felicidade, ou o
inverso, na paisagem da expressão, a frustrar-se pela opacidade, ela ainda não
o vira, mantinha-se balizada entre a fadiga e um possível horizonte de fogão,
ou talvez uma outra coisa, o desespero não gritado de uma gravidez tardia, é
possível, à distância tudo é possível, a ventania repentina agora do seu lado,
a encontrar-lhe o olhar, no passeio oposto, a compreender, pelo embaraço não
pronunciado, que ele já se demorava por ali há um pouco, ela a refrear a
passada, ao mesmo tempo que entreabre os lábios (Por surpresa? O efémero início
de uma saudação?), a opacidade do seu rosto a desvelar-se, e, no seu lugar,
apenas exclamação, nenhum se moveu, como se padecessem de uma imobilidade
súbita, a viajar apenas o olhar e o pensamento, sim, por aqueles instantes,
apenas se pronunciou o verbo do olhar, e tanto se falou, ele nem reparou que
ela ajeitou quatro vezes a carteira, que o espanto inicial deu lugar a um
sorriso reconfortado, que o pé direito ainda se levantou na direcção dele, que…
Ela, por seu lado, aquém do facto de ele ter silenciado a insistência do
telemóvel, de se obstinar nela e ignorar a chegada do autocarro, do esforço de
juntar palavras, como pedras sobre a água, para chegar ao outro lado, mas o
mundo a chamá-los, naquela sua fria e peculiar inclemência, talvez não o mundo,
mas o tempo, porque eles imobilizaram-se num outro tempo, sim, não tiveram que
perguntar por idades, enquanto se olharam sabiam que idade tinham, foi sempre a
mesma, por fim, cederam, ele recuou um passo enquanto esbatia o sorriso, ela
avançou um para a sua esquerda, o rosto fechava-se de novo, enquanto se
afastavam, o mundo devolvia-os à sua circunstância num desamparo cruel, sem
concessões, ainda perdurou, por mais um pouco, a encantada doçura de uma outra
idade, em que o tempo ainda um desconhecido, e onde o gesto nascia antes do
verbo.






