A arqueologia de mim
Ultimamente uma questão acompanha a minha sombra: o que
perdurará de mim quando partir? Volto do trabalho, ainda na escada, percebo que
a casa cheira a jantar, entro, cumprimento-a enquanto tiro o casaco, começa, de
imediato, a narrar-me as vicissitudes do seu dia, as peripécias do bairro,
finjo atenção e simultaneamente dirijo-me para a janela, acompanha-me os passos
e preenche-me os ouvidos até a um certo ponto, mais ou menos até à mesa da
televisão, que demarca a sala da marquise, aí chegados, não sei porquê,
regressa de imediato para as suas lides, enquanto eu, grato pela devolução do
silêncio, puxo de um cigarro e por ali fico, não a olhar aquele cenário
extenuado, mas à espera dos passos do pensar, nestes últimos tempos têm-me
levado a um lugar lá atrás, quando o agora apenas um sorriso confiante no
rosto, talvez se lá regressar volte a ostentar um sorriso confiante no rosto,
continuo a ouvir-lhe a voz, mas não a mensagem, volta e meia, viro-me para
dentro, e Pois… Sim… Tens toda a razão!
Claro! De facto… E lá continua a ecoar a sua voz, como se um rádio ou
televisor, esquecido noutra divisão, debitasse inclementemente o que estivesse
no ar, um qualquer conteúdo na ânsia de um desprevenido receptor, porém, eu com
uma distância segura das coisas, a caminhar pelas cores de um ontem só meu,
afinal, falo do meu viver, a pensar num lugar, creio, com sinceridade, que
todos temos um lugar neste mundo, como se, desde sempre, estivesse à nossa
espera, o problema é que a maioria isto desconhece, mas eu nunca fui de
aglomerados, curioso, quando todos se sentavam na casa do sim, eu, renitente, apenas na soleira da porta, perdia-me a
contemplar a casa do não, como se
para aí me devesse dirigir, pois, como dizia, nunca fui de aglomerados, e,
desde muito cedo, percebi onde fica o meu lugar (é curioso, fica tão perto de
um local de Adeus), há tanto que parece quase uma
irrealidade, lá na aldeia, num ontem tão ontem que eu um outro, saía da missa,
pela mão de minha mãe, meu pai uns passos atrás, falava de colheitas e chuva
com um vizinho, quando o meu olhar a encontra pela primeira vez, compreendo, no
espaço de um expirar, que, afinal, não me bastava, e como isso me doeu… Ela
saía também da missa, pela mão de sua mãe, e, apesar dos meus oito anos,
percebi, de imediato, a quem ia confidenciar sonhos na madrugada e secar as
lágrimas no desamparo do dia, o meu olhar estava refém, era comum um pouco de
conversa após a cerimónia, a profusão de temáticas não era assim tão vasta
(colheitas, chuva, sementeira, subida dos preços da matéria-prima, descida das
receitas...), de repente, o aglomerado adensa-se, ela sai do meu horizonte,
sei-me perdido, deixo a mão de minha mãe, só percebo que o fiz após o acto, ela
felizmente distraída com a conversa, claramente de outros contextos, eivados da
leveza elegante do feminino, procuro, com avidez, aquele rosto a quem ia
confidenciar sonhos na madrugada e secar as lágrimas no desamparo do dia,
circulo o templo, de um lado, o cemitério, do outro a panorâmica sobre o longo
vale, povoado no Inverno pelo rio, no Verão sobressaíam bosques e arrozais, foi
a sua silhueta que encontrei, nesse final de tarde, a contemplar a distância
das coisas que aquele lugar nos proporciona, tinha (como me lembro!) um vestido
branco rendado e uma fita da mesma cor nos cabelos, aproximei-me
cautelosamente, apesar dos meus oito anos, percebi, de imediato, a quem ia
confidenciar sonhos na madrugada e secar as lágrimas no desamparo do dia,
ocorreram-me várias possibilidades para encetar um diálogo, das mais
rasteirinhas às mais rebuscadas, porém, nenhuma se me afigurou digna de uma
silhueta com um vestido branco rendado e uma fita da mesma cor nos cabelos,
resolvi apenas ladeá-la e olhar na mesma direcção, sinceramente não me recordo
das primeiras frases, apenas guardo a melodiosa familiaridade da sua voz e o
primeiro horizonte que partilhámos, e isto foi há tanto, num ontem tão ontem
que eu um outro, antes de me ir embora, quero regressar, num entardecer, àquele
local, creio, com sinceridade, que todos temos um lugar neste mundo, como se,
desde sempre, estivesse à nossa espera, não duvido disto, há uns meses que lhe
falo nisto, desconversa e queixa-se dos múltiplos afazeres domésticos, termina
sempre com uma cansada frase sua (Sabes,
uma dona-de-casa nunca tem folgas!), eu insisto, às vezes num murmúrio (Ao menos, chega aqui…), talvez se, da
janela, olhar na mesma direcção que eu, nem que seja num cenário extenuado, se
lembre de ir buscar um vestido branco rendado e de colocar, nos cabelos, uma
fita da mesma cor, quem sabe se, nesse momento, eu acordo um sonho esquecido na
madrugada.

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