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  ... tudo tão veloz, de facto, a tragédia é filha do instante, mas mãe da amargura de uma vida... in Desta coisa absurda chamada viver

Desta coisa absurda chamada viver

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  A primeira vez que a vi, bom, confesso que me desagradou bastante, não há como lhe fugir, ostentava uma expressão bolorenta, como se o simples facto de respirar constituísse um acto de contrição, olhar os outros, nem se fala, era como aportar noutro continente, estava a meio daquela década em que nos despedimos de algo para compreender uma outra coisa, como se fôssemos corrigidos, por mão oculta, na direcção do olhar, pois, cinquenta e cinco anos somava agora ela, dizia, então, eu, que a primeira vez que a vi, bom, confesso que me desagradou bastante, não há como lhe fugir, sempre considerei as primeiras impressões determinantes, como se aí residisse a essência do outro que encontramos no mundo, quantas vezes nos enganamos? Não sei, apenas sei que não nos cansamos de errar… Certa manhã, atrás de um balcão, num desses muitos locais onde inevitavelmente caímos por mais um qualquer papel, sempre exigido no insaciável labirinto do hoje, revi-lhe a expressão bolorenta, estava partic...

Já esqueceste o Canto-da-Sereia? III

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  Ela percebeu-lhe a distância logo de início, o ar apatetado, sonhador, de criança com um brinquedo novo, um renovado zelo com a indumentária, a minuciosa utilização do perfume, não era necessária muita agudeza no olhar para inferir tais mudanças, ele também não procurava ocultar, imbuído que estava em retornar ao início da caminhada, uma nova possibilidade de corrigir passos erráticos, nada lhe passou despercebido, ela de vinte e poucos anos, com o desgosto, passou a aparentar quarentas e… , olheiras, as maçãs do rosto descaídas, uma magreza e flacidez simultâneas, das piores combinações possíveis, quando o olhava, a seu lado, na cama, concluíra que o coração de uma mulher só conhece uma Primavera, e a sua terminou, há muito, numa manhã de Domingo, com um indesejado regresso à casa paterna, entre eles   nunca houve paixão, apenas sexo , ela cedo aportou a esta certeza, porém, não iria regressar uma segunda vez à casa paterna, jurou para si mesma que, aos olhos da famíl...

Já esqueceste o Canto-da-Sereia? II

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  Enquanto esperava por ela, dentro do carro, ao final da tarde, levantou-se-lhe, vindo de parte incógnita, um viés da mais densa das noites onde há uns anos mergulhara, tentou rapidamente afastar aquela indesejada intromissão, por instantes, ainda reflectiu no porquê de tal reminiscência, quando, de repente, os nós dela no vidro, para destrancar a porta, devolveu-o à sua circunstância, era a segunda vez que a ia buscar à saída do trabalho, a primeira foi consequência de mais três idas, sozinho, ao café, olhares demorados, tantas frases por ali desfilam, lá procurou dar o corpo da sua voz a algumas, sempre tão aquém do ideal, o receio da voz dela não corresponder à doçura do olhar, afinal soou-lhe melodiosa, de início, tudo é sonho, estava tão perdido naquele olhar esverdeado, atencioso e doce , que nem se lembrou de ocultar a aliança no anelar-esquerdo, se reflectisse bem nesse gesto, afigurar-se-ia ridículo, a palidez da marca gritaria bem alto, e ele nunca fui muito escrupulo...
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  ... as paixões nunca se esquecem, apenas podemos adormecê-las... in Já esqueceste o Canto-da-Sereia?

Já esqueceste o Canto-da-Sereia?

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  Tudo começa com uma demora nos olhares, tantas frases por ali desfilam, parte-se com a certeza de que por ali muito ficou por dizer, ele não prescindia, a meio da tarde, de um café, esta necessidade agudizou-se há uns meses, descia com um colega, atravessavam a rua e entravam no café em frente, nessa dezena de minutos nunca falavam de trabalho, como se um acordo tácito, frases de circunstância e pouco mais, eram apenas colegas ávidos de sair um pouco daquele asfixiante espaço, inundado de papéis, papéis e mais papéis, ecos, por todo o lado, de ininterruptos telefones, pouco conheciam do outro, mas o suficiente que permitisse atravessar uma rua para um café, um casado há uma década, com duas filhas, desposou a mulher para esquecer uma paixão, a mulher desposou-o para deixar de ser a divorciada, era uns anitos mais velha, em verdade, uniram-se para esquecer paixões, um erro grosseiro, as paixões nunca se esquecem, apenas podemos adormecê-las, ela, muito cedo, entregou-se ao calor...

Filadélfia

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  Hoje resolvi levantar a memória de uma figura que, num certo contexto, ficou conhecida pelo supracitado título (homónimo de um aclamado filme), nesta altura, estar-se-á o leitor a questionar: Porquê Filadélfia? Bom, já lá iremos… A primeira característica a ressaltar era a sua irritante voz, algures entre um boneco-de-corda e uma criancinha com mimo em demasia, para agudizar o efeito, tinha o condão de muito pouco se calar, era efectivamente simpático, nada a obstar, no entanto, aquele timbre, algures entre um boneco-de-corda e uma criancinha com mimo em demasia, assassinava a paciência de qualquer um, falava com todos, diálogos de superfície, pouco mais, embora, por vezes, tentasse dar um passito para além do circunstancial, para o efeito, elegeu a música como seu baluarte, sobretudo uma área recente – a denominada “ música alternativ a” – ou lá o que isso seja, creio, com sinceridade, que, por estes dias, haja nichos para tudo, de volta à personagem em apreço, há que sublin...