
Uma
frase que me regressa com frequência é “Quem
está de fora vê melhor o filme”, tudo na
vida tem um tempo, a própria vida é uma porção de tempo que nos é concedido, cada
um gere como pode, sabe ou desconhece, de facto a maioria obstina-se em esquecer
este singelo facto (a própria vida é uma porção de tempo que nos é concedido),
sempre o recorrente virar de costas à problemática da morte, como um
indesejável que, volta e meia, nos toca à porta, e insistimos em ignorar,
apesar de termos consciência de que, num dado momento, forçosamente teremos de
acolhê-lo, mas alimentamo-nos da ilusão de fugazes eternidades para manter a
porta fechada a tão incómoda visita, andamos de distracção em distracção para
não nos olharmos, tudo serve para nos alhearmos, de minudências a futilidades (quantas
existências sobre a terra se balizam por aqui?) se nos olhássemos e, por fim, conhecêssemos,
compreendíamo-nos perdidos na noite da alma, sem um resquício de amanhã nesse
negrume infindo, certa noite, ouvi alguém dizer “Espera pela manhã. Não se
deve tomar decisões à noite! Com a manhã, verás tudo com mais clareza”, segui esse conselho, para minha surpresa, de
facto, na manhã seguinte, aprendi a soletrar devidamente cla-re-za, tudo se me
afigurou distinto à luz matinal, os problemas vespertinos, insuflados com o
negrume da noite, surgiram-me neutralizados, quase extintos, como se diluídos
pelo amanhecer...