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Clareza

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  Uma frase que me regressa com frequência é “Quem está de fora vê melhor o filme”, tudo na vida tem um tempo, a própria vida é uma porção de tempo que nos é concedido, cada um gere como pode, sabe ou desconhece, de facto a maioria obstina-se em esquecer este singelo facto (a própria vida é uma porção de tempo que nos é concedido), sempre o recorrente virar de costas à problemática da morte, como um indesejável que, volta e meia, nos toca à porta, e insistimos em ignorar, apesar de termos consciência de que, num dado momento, forçosamente teremos de acolhê-lo, mas alimentamo-nos da ilusão de fugazes eternidades para manter a porta fechada a tão incómoda visita, andamos de distracção em distracção para não nos olharmos, tudo serve para nos alhearmos, de minudências a futilidades (quantas existências sobre a terra se balizam por aqui?) se nos olhássemos e, por fim, conhecêssemos, compreendíamo-nos perdidos na noite da alma, sem um resquício de amanhã nesse negrume infindo, certa ...
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  Tenho de me apressar, alguém lá atrás espera-me, numa madrugada, para reiniciar uma sempre adiada viagem. Não posso adiar mais! Tenho a certeza: foi ali que me perdi de mim.   in Deslumbramento
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“Se não fosse cobarde, matava-me!” O que mais me impressionou não foi o conteúdo da frase, a entoação, foi simplesmente a evidência de que ele dizia a verdade: “Se não fosse cobarde, matava-me!” Não, não pense que o tentei dissuadir com ideias ocas de vãs esperanças e de amanhãs melhores, até porque não sou o melhor exemplo para tal contexto, permaneci em silêncio e limitei-me a estender-lhe a mão...  in Harmonia

Um vaso à janela

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  Certa noite ela resolveu escrever este desabafo (“Prefiro a companhia dos bichos do que das pessoas, porque sei que eles nunca me vão desiludir”), escusado será dizer que o fez na praça pública do hoje, antes saía-se de casa para se encontrar os outros, pôr a conversa em dia, porventura exibir a nova indumentária, em todos os passos olhava-se o outro nos olhos, desde há uns tempos tudo sucede atrás de um écran, e tudo é motivo de exibicionismo, do lugar onde se está ao prato que se tem à frente, da roupa ao penteado, do carro à velocidade, do que se queria ser ao que se é, pois, as ilusões são mais férteis quando não se olha o outro nos olhos, vidas aparentemente tão preenchidas, realizadas, bem-sucedidas, preenchidas com sorrisos e repletas de cor, pois, as ilusões são mais férteis quando não se olha o outro nos olhos, o intransponível abismo entre o que se queria ser e o que realmente se é, uma vez alguém disse “Nunca vi ninguém publicar uma lágrima. E numa lágrima salgada está...
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  ... à nossa frente, agora, a encantatória beleza daquela praia, com o seu arco natural, do lado esquerdo, erigido pelas mãos líquidas do oceano, desde tempos para além da memória, percebi-te, também pela segunda vez nessa tarde, deslumbramento... in Deslumbramento

Tenho de aprender a deixar-me em paz

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  Sempre que o meu pai ia de férias inevitavelmente ouvia-o a exclamar “É essencial para descansar a cabeça!”, mas é também inevitável que só ouvimos os pais no início e no fim da vida, de outra forma, no início prestamos atenção às suas vozes, no fim ouvimos-lhe os ecos e a razão que os acompanha, então passei a encarar esse período, entre outras coisas, também “ para descansar a cabeça”, porém, devo confessar, neste ponto o meu absoluto fracasso, em miúdo, por exemplo, enquanto me dedicava, com o devido afinco, às brincadeiras próprias da meninice na areia, desde os jogos de bola aos mergulhos, volta e meia o meu olhar detinha-se nos adultos, deitados nas suas toalhas, concentradíssimos, virados para o sol, e um pensamento levantava-se-me, “Pois, lá está, estão descansar a cabeça”, acreditava piamente nisto, que tinham esse dom, o de desligar o pensamento, como se o arrefecessem para não ser tão incómodo, foi mais ou menos quando eu também ocupei uma toalha, concentradíssimo,...
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