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Quantas vezes os outros sonham connosco?

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Iniciou um sorriso no decorrer de um sonho. Um sorriso do sentir. Todo ele estava no sonho. Talvez por isso o sorrir. Talvez por isso o sentir. Porque só se sente por inteiro. Não há sentires parcelares. E ele sorriu, não ao sonho, mas à memória. À memória revivida. Ao instante reavivado com outras colorações, mas com o mesmo aroma. Sim, só se sorri devido a uma doçura. E ele, naquele instante de uma outra realidade, com cambiantes de si, revivia a possibilidade de outros caminhos jamais trilhados. Como se, de alguma forma, pudesse ter sido outro. E quem não gostaria, nem que fosse por uma vez, de ter sido outro? O sonho abre-nos essa porta, mas não muitas vezes. Com o tempo, ele começou a compreender os sinais: um primeiro e tímido chiar de porta, uma luz anunciada num soalho empoeirado, e, por fim, a luz desvela-se mais um pouco, porque esta porta jamais se escancara. Apenas se entreabre. Como se proclamasse, num indizível de si, não demores… Ele, no seu tempo de son...

O que ficou lá atrás?

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Não me recordo de a ver sorrir, não, de facto, um permanente traço de azedume no rosto, característico dessa gente que, num momento da vida, cansou-se de olhar o mundo, já nada dele espera, a compreensão de este ser um lugar muito pouco recomendável, de manhã, saía pelo pão, fazia questão de anunciar ao prédio, pelo estrondoso bater da porta, um aspecto que nunca compreendi, aquele estrondoso bater da porta, em contraste flagrante com a figura, muitos Invernos no rosto, baixa, seca, embora os gestos e a passada em dissonância com os Invernos somados no rosto, compreendia-se, mesmo da distância, um constante ruminar de palavras entredentes, de facto, talvez fossem insultos a quem com ela se cruzasse ou ao fado que lhe calhou, curioso, esta questão ainda por aqui (Que ruminava ela entredentes?), morava sozinha, desde a partida do marido, as duas filhas emigradas, desde a partida não mais regressaram a Portugal, as más-línguas diziam que nem os netos conhecia, mas nunca gostei de...
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... há vozes do ontem que, se ouvisse hoje, baixava-me de imediato, nem que tivesse de me ajoelhar, para continuarem a provir do alto, a de minha avó, por exemplo, jamais a voz de minha avó virá da terra, sempre proveio das alturas...   in Deste caminhar entre o céu e a terra
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...o sentir engana-se menos que a razão, porque o sentir habita no presente, a razão tem varanda para o passado... in Balanço
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Que voz fala pela minha mão?

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Escrever, estranha actividade esta. Para que se escreve? Esta é, em certa medida, uma questão redundante. Porque a escrita é, sem dúvida, necessária à vida social. Mas ao trazer à liça esta questão, procura-se evidenciar um outro nível da escrita, quiçá mais subterrâneo, o eu que se derrama numa folha de papel. Sim, o desafio supremo: fundir a vida num rectângulo branco. Nunca, como hoje, se publicou tanto em Portugal. Não quero entrar pela problematizante dicotomia quantidade/qualidade. É demasiado evidente. Basta olhar a montra de uma qualquer livraria. Há uns dias, a título de exemplo, vi um romance extraordinário ( Cotovia, de Deszo Kosztolanyi), por uns meros 4,50, em 2ª edição. Note-se que a 1ª edição data, se não estou em erro, de 2003. É espantoso! Um romance magnífico que, no nosso país, está num verdadeiro limbo. Poderia, como é evidente, citar muitos outros. Mas por aqui me fico. Já não é nova a questão de se ensinar a ler , mas a sua pertinência está em crescendo, ...