Livros do Escritor
terça-feira, 12 de novembro de 2024
segunda-feira, 11 de novembro de 2024
Serenidade
Caminhavam
desencontrados, embora na mesma direcção, o extremo do
molhe, onde
um banco para assistir ao nascer da noite, ele numa passada
vagarosa, hesitante, como se aguardasse ela,
primeiro, no banco, a segurança de se saber esperado, uma desavença (o
quê?) fê-los caminhar
desencontrados,
tantas são as fontes da discórdia, ela parou a meio, virada para
Oeste, olhos nas águas, a brisa entardecida ondulou-lhe uma melena, ele fingiu
não reparar, não asfixiava palavras, mas sentires, o orgulho a nortear-lhe os
passos, daí o caminhar desencontrado, os olhos dela nas águas, nenhum pousava o
orgulho, há poucas coisas piores do que morrer de amor por dentro em troca da
esterilidade do orgulho exterior, calar o sentir para suster a altivez, num
repente, após levantar os olhos da água, ela regressa, passa por ele como se
lhe invisível fosse, compreende-se-lhe um vislumbre de a seguir, talvez o
orgulho, num derradeiro instante, o imobilizasse, em desespero olha o extremo
do molhe, onde um banco para assistir ao nascer da noite, por fim, ela já uma
ausência, agora é o olhar dele a encontrar as águas, ambos, como é evidente,
sabem o que os fez caminhar desencontrados, não alcança, desta vez, o banco
onde se assiste ao nascer da noite, pouco depois, acabou por também se ir
embora, o olhar caído a espelhar que nada saiu como esperava, não há assim
tanta coisa que faça um casal caminhar desencontrado, uma gaivota levantou vôo
ao perceber a chegada estridente de uma criança a pedalar o triciclo, a mãe não
se distanciava um passo, quase corria para o acompanhar, imobilizaram-se a meio
do molhe, a criança deixou o triciclo e correu para abraçar a mãe, teria dois
ou três anos, a mulher pegou-lhe ao colo e apontou extremo
do molhe, onde
um banco para assistir ao nascer da noite, a criança passou a
mãozita pela face, onde um traço salgado corria, da mãe, a mulher ainda deu um
passo em frente, hesitou, deu outro, em direcção ao extremo do molhe, onde um
banco para assistir ao nascer da noite, lentamente coloca o filho no triciclo e
inicia o regresso, a criança, agora, pedala ao ritmo da passada materna, nem vestígios
da chegada estridente que fez uma gaivota levantar o seu vôo sobre as águas,
talvez retorne assim que o molhe em silêncio, entra um casal de velhos, ela ligeiramente à frente, parece guiar-lhe os passos, ele segue-a numa obediência
quase infantil, numa infinita confiança de jamais correr riscos, passos curtos
embora seguros, não, nunca chegam ao extremo do molhe, onde um banco para
assistir ao nascer da noite, a velhota continua ligeiramente à frente, fala-lhe
ininterruptamente, o olhar ausente dele parece não ouvi-la, talvez seja só uma impressão,
interrompem a arrastada marcha também a meio, é possível que ela levantasse a
memória de quando, naquele exacto ponto, ele, a seus pés, lhe erguia o símbolo de amor e compromisso, ela, por todos os meios, a
contorcer-se para disfarçar as faces ruborizadas, até que, se inclinou para lhe
murmurar “Sim, aceito,” passaram pouco mais de cinco décadas,
todos os finais de tarde, desde que o tempo permita, descem a rua, ela ligeiramente
à frente, parece guiar-lhe os passos, as suas palavras a iluminar este e outros
momentos da sua história, a única que lhes importa, o resto apenas uma ilusão de
entretenimentos, ele, no entanto, devorado pelo esquecimento, um vazio caminhante,
uma ruína, onde o interior somente vegetação rala desprovida de qualquer beleza, o
olhar de ambos nas águas, o espanto de mais de cinco décadas passadas, as águas
parecem sempre as de ontem, a expressão dele, nesses instantes, suaviza-se, parece
rejuvenescer, olha-a com um brilho que, pois, é isso, fá-la ruborizar, não fosse
o facto de, no seu anelar-esquerdo, figurar o símbolo de amor e compromisso, não haveria duvidas de que, uma
vez mais, ele se ajoelharia para o erguer à sua altura, uma repentina brisa
relembra a chegada da noite, ela aproveita para lhe endireitar o cachecol, iniciam
os passos do lar, mais uma vez, a velha ligeiramente à frente, antes dos seus olhares
se despedirem das águas, as falanges dele, com uma enérgica ternura, relembram
as dela que as águas parecem sempre as de ontem, recua um passo, assim vão os
dois, amparados, rumo à única janela iluminada da noite, para trás fica o
molhe, onde uma gaivota assiste, de um
certo banco, à serenidade de um fim.
domingo, 10 de novembro de 2024
quinta-feira, 7 de novembro de 2024
Deixai a aparição emergir no seio da aparência
Há vozes que, apesar de já
caladas, ainda nos norteiam os passos, volta e meia, frases suas fazem-se
ouvir, como é o caso desta, por norma, assim começava as frases (“Meus amigos,
meus amigos…”), depois lá vinha a sentença, hoje só vou falar desta (“Deixai a
aparição emergir no seio da aparência”), de facto, há frases que levam uma vida
para serem compreendidas, ou talvez mais, o primeiro convite desta frase é à
paciência, à espera, tão difícil, sobretudo para quem já olhou a “finitude” nos
olhos, tão bem a sabe, e compreendeu que o presente é um constante passado, de
vez em quando, dou por mim a revisitar velhos álbuns de fotografias, neste
momento, há fotos de grupo onde se somam mais ausências que presenças, começa a
enraizar-se a ideia de transitoriedade, também eu, um dia, serei uma ausência,
um gesto esfumado, uma voz sumida, um rosto distorcido, é curioso, se antes,
perante este “abismo”, apoderava-se de mim um terror frio e desmesurado, agora,
somente resignação, uma espera consciente pela noite que se aproxima, com a sua
passada indistinta e surda, nesta fase da vida, creio que a precipitação, a
impaciência, em vez de agilizar as coisas, apenas as agudiza, as demora num
doloroso arrastar, como se atentássemos “a ordem natural das coisas”, outra
voz, outra sentença, hoje por aqui, “Meu filho, meu filho, o que é teu à tua
mão virá ter”, pois, outro convite à paciência, à espera, tão difícil,
sobretudo para quem já olhou a “finitude” nos olhos, tão bem a sabe, e
compreendeu que o presente é um constante passado, a voz da primeira frase era
de um sacerdote, homem idoso (o outro tem sempre a idade de quando o
conhecemos), consagrado aos estudos, de trato fácil, humano, sapiente, a voz da
segunda frase era de uma mulher idosa (o outro tem sempre a idade de quando o
conhecemos), com a quarta-classe, mas a antiga, detentora da reconhecida
dignidade (quantas vezes, meu pai, lá por casa: “Valia mais a quarta-classe
antiga, do que o vosso liceu…”, curioso, hoje talvez lhe conceda uma larga
percentagem de razão), sofrida, amarga, com o seu quê de intriguista (pena
serem as últimas impressões a perdurar…), porém, ambas as vozes, provenientes
de dois continentes distintos do panorama humano, apontam no mesmo sentido: o
da paciência, da espera, tão difícil, sobretudo para quem já olhou a “finitude”
nos olhos, tão bem a sabe, e compreendeu que o presente é um constante passado,
mas, se bem analisar, quantos erros cometidos por silenciar estas vozes? E
outras? Talvez por isso, volta e meia, dê por mim a revisitar velhos álbuns de
fotografias, neste momento, há fotos de grupo onde se somam mais ausências que
presenças, há uns dias, olhei não a foto de grupo do meu casamento, mas o lugar
onde foi tirada, uns degraus, pareceram-me mais na altura, à porta da igreja, e
contabilizei mais de oito ausências, ainda nem duas décadas, e oito ausências,
daí a dor, a incompreensão, de revisitar velhos álbuns de fotografias, e a
questão sem voz a levantar-se: “Ir-nos-emos reencontrar?”, não tanto para onde
vamos quando formos uma ausência aos olhos de alguém, mas se, de facto, aqueles
idos rostos, silenciadas vozes, esfumados gestos, serão de novo uma presença? E
o Sentido? Onde? Detenho-me ainda com essa foto, na forma de uns degraus
entardecidos, afinal, a fotografia em mim e não diante do meu olhar, ali apenas
os degraus, em pedra, indiferentes, como se, nem há duas décadas, tivesse ali
sido tirada uma fotografia, com uma centena e meia de convidados, agora, pelo
menos, mais de oito ausências, sem contar os casais separados, muito para além
do simples oito, sobre os degraus uma brisa vespertina, continuo a olhá-los, e
neles encontro a paisagem interior que me habita, vozes animadas, felicitações,
cortesia, boa disposição, futuro no olhar, como se isto fosse o viver, quando,
de todo, não o é, não se somassem já mais de oito ausências, sem contar os
casais separados, muito para além do simples oito, tudo uma ilusão, só os
degraus testemunham a realidade da paisagem que me habita o pensar, e a brisa
vespertina traz-me o eco de vozes animadas, felicitações, cortesia e boa
disposição, num dia por vir, alguém revisitará velhos álbuns de fotografias,
possivelmente se detenha a olhar estes degraus, e eu já seja mais uma ausência
a somar na fotografia, se atentar na brisa vespertina sobre os degraus, talvez
encontre um vislumbre destas palavras, afinal a ausência está sempre no olhar.
domingo, 3 de novembro de 2024
Passagens nocturnas
Acordou com o berço
em tumulto, antes de abrir os olhos, já um pé, no soalho, relembrava-lhe
Inverno, nem hesitou, seguiu-se o outro, e dois ou três passos até ao berço,
ali estava, nesse momento, o seu universo, bastou os lábios pela testa para se
aperceber da febre galopante, nem forças para o choro, havia cuidados prementes
que urgiam, olhou para o outro lado da sua cama, deitado de bruços, boca
aberta, assemelhava-se a um suíno, uma imediata resolução clarificou-se-lhe:
não valia a pena despertá-lo! Vestiu um longo casaco, mudou o calçado,
agasalhou o máximo que pôde a criança, e saiu para a
noite do Inverno, àquela hora, de um dia de semana,
na aparência tudo dormia, os carros pareciam
brotar a cada passo, o deles ficara na rua de baixo, já somava duas décadas,
nem vislumbres de mudança, os bolsos mal davam para a manutenção na oficina,
sempre que uma luz nova, por este ou aquele motivo, ele em impropérios raivosos
ou murros no volante, como se daí proviesse o desejado milagre de bolsos fartos
e de luzes caladas, serpenteou, com o
filho nos braços, entre viaturas, a adrenalina escudou-a do frio e fê-la
estugar o passo, o sono ficara na almofada assim que o berço em tumulto, ao
jantar, pela apatia, previra que o filho acolhia a primeira gripe daquele
Inverno, ainda lhe falou nisso, a atenção dele, no entanto, com um qualquer
jogo da bola, aquando do namoro não se apercebera da sua paixão pela bola,
representamos tanto, pensou ela, talvez demasiado, escondemo-nos e
escondemo-nos para quê? Para, numa noite de Inverno, compreender a inutilidade
que, a seu lado, dorme, de boca aberta, e ronca como um suíno, se o acordasse,
saberia, de antemão, o rosário de desculpas para a dissuadir de, àquela hora,
sair com o bebé nos braços (“Deixa-te de coisas! Lá estás tu a ver filmes! Não tem febre
nenhuma! Descansa, deixa-nos dormir, amanhã verás que está tudo bem! Deve ser
uma gripezita de nada! Normal nesta altura do ano…”), pois, não valia, de
todo, a pena acordá-lo, depois de colocar o filho, na cadeirinha, no banco traseiro,
sentiu o frio do momento assim que pousou os dedos no volante, só nesse
instante compreendeu que saíra para a noite do Inverno, à primeira o carro não
pegou, o frio não tolhia só os pensantes, as máquinas também se ressentiam, foi
à segunda tentativa, a luz da reserva iluminou-lhe o rosto, afinal, havia luzes
no seu horizonte, soltou uma longuíssima expiração, não se recorda de pegar no
carro sem visualizar aquela desesperante luz amarela, parecia gritar-lhe a
insuficiência dos bolsos, calculou o que restava de combustível e
simultaneamente a distância, de ida e volta, até às urgências mais próximas, o
filho emudecido no banco traseiro, ela desesperada com a situação, ensonada,
sozinha na noite do Inverno, passada a adrenalina, o frio ameaçava engoli-la, dentro de quatro horas, o seu despertador relembra-lhe que
o Inferno não é um lugar tão longe assim, ainda tem de realizar cálculos
matemáticos especulativos para saber se consegue ir e regressar, àquela hora,
de um dia de semana, encolheu os ombros e confiou que sim, ao contrário do
habitual encontrou um lugar próximo da entrada, talvez pouca gente por ali, o
porteiro, dentro da sua gaiola, lia ou folheava, no hoje ler é um verbo em
crescente desuso, um jornal, não fosse o seu desespero com a apatia do filho, e
ter-se-ia espantado com o facto de o porteiro não estar agarrado ao maldito
rectângulo destes dias, quão raro isso é, disse ao que vinha, ele prontamente
indica-lhe o óbvio: a luminosa e simultaneamente funesta entrada a cinquenta
metros; para lé se dirige com o filho nos braços, não sabe a razão, mas
pareceu-lhe mais leve, assim que percepciona a multidão ali dentro, nem uma
cadeira vazia, mesmo as paredes, segundo recurso para quem vai enfrentar a
espera, com escassíssimos espaços vazios onde se encostar, uma cacofonia de
espirros e tosse, instintivamente cobriu, com suavidade, o rosto do filho, na
aparência tudo dormia, como as coisas mudam no espaço do viver, ali parecia
meio-dia, o retirar da senha, o enfrentar da espera, o cansaço a traduzir-se
numa crescente dor-de-cabeça, permaneceu próxima da entrada, por ali o ar ia-se
renovando, meia-hora depois, o seu número pelo altifalante, nem se apercebeu de
que já respondia, numa mecanicidade crescente, a números de cartão, mais
números de outros cartões, estranhou a ausência de questões pelo nome (Quando passámos
a ser apenas um número?), perguntou-se, “A pediatria está sobrecarregada…
Quanto tempo? Mais de três horas! Segundo-piso, corredor do lado direito… À
entrada tem uma máquina-de-café, também há aqui outra, do lado…”, deixou de
a ouvir, dentro de quatro horas, o seu despertador relembra-lhe que o Inferno
não é um lugar tão longe assim, desvela o rosto do filho, que a olha com uma
indizível ternura, como se fosse a única luz do mundo.





