Livros do Escritor
terça-feira, 14 de novembro de 2023
domingo, 12 de novembro de 2023
Subterfúgio
Há uns tempos escrevi que o tempo não existe, a melhor prova disso é a memória, num repente, levanta-se-nos um momento ido, e ali estamos, como se nunca tivéssemos partido, mudado, daí o constrangimento quando nos cruzamos com rostos do passado, esta verdade em nós (ali estamos, como se nunca tivéssemos partido), mas jamais assumida (o tempo não existe), e, do nada, surgem-nos ao caminho episódios que julgávamos idos no rio do esquecimento, há uns dias deparei-me com um, da perplexidade inicial até um sorriso ainda demorou o seu devido tempo (ali estamos, como se nunca tivéssemos partido), andei, durante esse período, a matutar no título desta crónica, primeiramente pensei: “O carro-preto”, já lá iremos; como segunda hipótese: “Ruas desertas na madrugada”; andava pela feliz altura onde o horizonte se povoava de brinquedos, por outras palavras, de sonhos, quem troca um horizonte de sonhos por um de problemas? Pois, o mundo dos adultos é muito aborrecido, já o afirmava em criança, e como tinha razão, duas vezes por semana, uma amiga de família desaguava lá ao serão, o marido chegava mais tarde do trabalho, assim sempre tinha companhia no visionamento da novela, e não é de somenos um interlocutor para debater o rumo de tão pertinente história, eu pelo chão construía as minhas histórias, os meus universos, os adultos, no sofá, sorviam avidamente histórias e universos pré-fabricados por um écran, uma vez mais, achava aquilo aborrecidíssimo, olhava-os com genuíno terror e questionava-me se, algum dia, tornar-me-ia em algo semelhante… Que terror! Andava eu pensativo, pelo chão, no rumo a dar às minhas histórias, aos meus universos, quando ouço, no sofá, apreensão pelo atraso da amiga que ali desaguava duas vezes por semana ao serão, “Já devia ter chegado”, “Deve-se ter atrasado com qualquer coisa… Não tarda nada, está aí a tocar”, “Sim, tens razão, deve ser isso,” as agulhas num incessante tricotar enquanto o olhar sorvia cada instante da novela, ele com o jornal, embora as pálpebras ameaçassem um precipitar iminente, de repente, a campainha, as pálpebras recompõem-se, as agulhas persistem no seu incessante tricotar, eu abandono, por instantes, as minhas histórias, os meus universos, para abrir a porta, não sei porquê, mas sempre que olhava o esforço e sacrifício dos adultos em sair do sofá, a imagem de um guindaste povoava-me, a amiga surgiu-me, à porta, menos efusiva, até lhe denotei uma certa palidez, cumprimentou-me com a habitual festa pelos cabelos, que tanto me irritava, entrou, não tardou muito a sentar-se ao lado das incessantes agulhas, o jornal estava numa poltrona, eu prestes a regressar às minhas histórias, aos meus universos, entretanto ouço “Sim, um carro-preto seguiu-me até aqui”, as agulhas, desta vez, imobilizaram-se, as pálpebras subiram, embora se mantivessem em silêncio, só as agulhas “Tem a certeza? Não estará a fazer confusão? Quer, antes de mais, um copo-de-água para se acalmar?”, fiquei logo alerta com esta questão, pois, a imagem de um guindaste povoava-me, “Obrigado, não é preciso… Claro que tenho a certeza! Não há ninguém, a esta hora, pelas ruas… Seguiu-me com as luzes desligadas, muito devagarinho, e, vendo bem as coisas, não deve ter sido a primeira vez, porque sabia muito bem o meu percurso… Seguiu-me, vejam bem, até à entrada da vossa praceta!”, o jornal permaneceu em silêncio, talvez compreendesse ser aquele um drama feminino, as agulhas agudizavam a sua desconfiança para tal enredo, embora refreassem perante o olhar da visita, eu opto pela prática, vou até à janela em busca do misterioso carro-preto, pelas ruas apenas o silêncio da madrugada, a ideia de que tudo no mundo está no seu lugar, como é enganador o silêncio da madrugada, nem um vulto no horizonte dali avistado, muito menos vestígios de ameaçadores carros-pretos, de luzes apagadas, em rondas persecutórias, ninguém se apercebera dos meus passos, também não o desejei, afinal era um assunto debatido no sofá, longe, muito longe, de um horizonte povoado de brinquedos, “Não quer ligar para a polícia?”, “Acha que vale a pena?”, pouco depois, lá veio, também do sofá, a funesta sentença para me deitar, intuí, desde logo, que não assistiria ao desfecho da história do “Carro-Preto”, não posso, aqui chegado, por um imperativo-de-consciência, deixar os leitores em suspenso, como agora é tão comum em filmes de qualidade duvidosa, o dia seguinte resolveu amanhecer sem tréguas para as sombras, com uma luz assim, carros-pretos, de luzes apagadas, a perseguir incautas velhotas, só no domínio do fantástico, como as circunstâncias mudam o nosso olhar sobre as coisas, antes de entrar na cozinha, ouvi as agulhas, agora totalmente imóveis, virarem-se para o jornal, agora depositado em cima da mesa, “Sinceramente, onde já se viu isto?! A ser perseguida por um carro-preto! Quem se daria ao trabalho de a perseguir?! Isso queria ela! Ontem, nem sei como, lá consegui conter o riso…”, era uma conversa de sofá, ainda hoje desconhecem que a ouvi, peço-vos que fique entre nós, não quero, doravante, ir de castigo para a cama mais cedo.
(12/11/23)
domingo, 5 de novembro de 2023
sábado, 4 de novembro de 2023
O sentido das coisas
Há perguntas que sempre o irritaram. Mas nenhuma supera
aquela que o obriga a pensar-se (se está
bem, como anda, o que tem feito), talvez porque obrigue a regressar, numa
demasiada rapidez, ao agora, exactamente de onde ele parte sempre que possível,
todos os dias, antes de regressar a casa, de mãos nos bolsos, passeio fora, lá
vai, naquela passada que proclama um indisfarçável fastio pelas coisas do
mundo, aquela frase que lhe ouviu há tanto, há tanto que lhe parece numa outra
vida, e nós que tantas vezes morremos nesta para regressarmos sempre tão
subtraídos, embora uns afirmem que regressamos sempre fortalecidos, tolos, apenas
isso, a frase dela Eu não durmo com
amigos, tão reveladora, lúcida, transparente, porém, na altura, ele aquém
destas inferências, a levar as coisas para bem longe, sinal de que ela era
séria, de confiança, responsável, felizmente com princípios e valores, isso é
bom, muito bom, Eu não durmo com amigos,
ainda hoje ressoa por ele, mas se, por um acaso, tivesse concedido o devido
tempo à reflexão, talvez as coisas fossem numa outra direcção, como quase
sempre acontece, aquela mania de pintarmos o mundo com as cores do nosso
pensar, é possível que o Eu não durmo com
amigos, em vez da colecção de qualidades que lhe procurou atribuir,
significasse simplesmente que ele lhe provocava o sentir morno da amizade,
apenas e só, longe em demasia dos mares encapelados e trovoados da paixão,
apesar disso insistiu, Tudo bem. Eu
compreendo…Mas podemos sair como amigos, certo? Se me deres tempo, talvez… Ela
cedeu-lhe o tempo, e ele percebeu o alcance das palavras, de facto, só podiam
provir de uma náufraga de mares deveras encapelados, naquela fase da vida em
que, num repente, viramos costas à criança do ontem, para sermos uma qualquer
coisa ainda por definir, ela depositou o seu coração nas mãos que lhe seguravam
o olhar, quatro a cinco anos de namoro, lá por casa os pais encantados, rapaz
de boas famílias, cursava Direito, o futuro à distância de uma esquina,
casaram, ela com vinte anos, ele com mais quatro, percebia-se-lhes a chama em
cada gesto, curiosamente, nas fotos desse dia sempre singular a harmonia ainda
não encontrara uma porta, é compreensível, afinal é a passageira do tempo, dois
anos depois, uma filha, as sombras, em redor da chama, a esmorecer, em verdade,
a harmonia, por ali, nunca encontrou uma porta de entrada, o tempo a passar,
ele sempre precisou de uma chama que lhe alimentasse os gestos, quando ela se
apercebeu dessa faceta, já ele fins-de-semana sucessivos ausentes, alugara uma
casa, nem sequer muito longe do lar original, ela recém-formada, também nos
labirintos da justiça, como não podia deixar de ser, apesar da filha, teria
nesta altura cerca de quatro anos, da casa, de toda uma forma de ver o mundo ao
lado dele, de o seu nome lhe nascer nos lábios contrariando o pensar, avançou
com o divórcio, para sua surpresa, foram os pais que a conduziram nessas diligências,
sem muitas palavras direccionaram-lhe o olhar para o amanhã, de facto,
resgataram-na para a vida, mas algo ficara soterrado para sempre nos escombros
do ido, ela nunca partilhou isto, fez questão de guardar para si esta ideia que
pairava no seu espírito à espera de uma forma, no fundo, é aquilo a que nós
chamamos certeza, jamais voltaria a depositar o seu coração em quaisquer mãos,
por muito que lhe tentassem segurar o olhar, em verdade, ela aprendera a olhar
o amanhã, mas o seu coração jazia, para sempre, numa estrada poeirenta do
ontem, foram uns amigos comuns que os apresentaram, desde então, ela
sentou-se-lhe no pensar, dali não queria sair, nem ele queria que saísse, não
se pode falar de uma simpatia à primeira vista, antes de um respeito, primeiro,
por posições antagónicas face ao redor, ele de raízes profundas, ela
conhecedora dos caprichos do vento, de certa forma, ele compreendeu-lhe o
cansaço na face, soube-lhe, depois, a causa, a princípio, amigos, como quase
sempre acontece, embora, para ele, fosse o início de um trajecto, após certa
tarde de cinema, Não quer vir jantar a
minha casa? Ela estacou, olhou-o demoradamente, o cansaço pela face tão
visível àquela tão jovem hora nocturna, e a resposta Eu não durmo com amigos, lacónica, sem lugar a réplica, nesse
momento, ele percebeu que o coração de uma mulher tem um lugar que só é ocupado
uma vez, mesmo assim, não desistiu, ele estava a ficar fora de prazo, achava
graça àquelas ideias que ela debitava tão contrárias às suas, soube ser paciente,
a idade ensinara-lhe o tempo, certa manhã, surpreendera-a preenchendo-lhe o
anelar, emudecida, beijou-lhe carinhosamente a face e pediu tempo, por esta
altura, a filha perto da faculdade, o espelho cada vez mais uma sombra
cinzenta, os passos mais desenhados, meses depois, aceitou, desta vez, a
harmonia entrou pela porta da frente em cada fotografia, nem sinal de um
resquício flamejante, de mãos nos bolsos, passeio fora, lá vai, naquela passada
que proclama um indisfarçável fastio pelas coisas do mundo, a matutar naquela
ideia: o coração de uma mulher tem um lugar que só é ocupado uma vez, sabia
disso, mas insistiu, talvez consiga, no espaço que lhe coube, que ela, um dia,
por lá se sente a seu lado a ver o mundo…






