Quando me apercebi, falávamos disto e daquilo, pareceu-me que já nos
conhecíamos, nesta vida, de facto, pela melodia da voz, a familiaridade
peculiar de um gesto que risca o ar, a compreensão derramada por um olhar, há
quem, de facto, pareça caminhar há muito a nosso lado, ela segurava um copo de
sumo, embora o ignorasse, desde que encetáramos o diálogo, à nossa volta só
ruído, porém, nós permanecíamos naquele peculiar universo velozmente criado
para nos comunicarmos, nunca fui festivo, por isso, nessa noite, ali desaguei
somente pela promessa de que seria uma pequena reunião de amigos para celebrar
o aniversário do… Pois, não interessa, não vou chamar para aqui o seu nome,
como dizia, fui dos últimos a chegar, de facto, não havia muita gente, embora,
para mim, fosse sempre gente a mais (…)
Livros do Escritor
domingo, 4 de novembro de 2018
quinta-feira, 1 de novembro de 2018
Rua das Buganvílias
A primeira
vez que ouvi falar nisto foi num fim-de-semana, ainda olhava os meus pais do
humilde rés-do-chão dos meus oito anos, enquanto eles, nos píncaros da sua razão,
debatiam temáticas ininteligíveis e chatíssimas de despesas e facturas, creio
que era Sábado, depois do pequeno-almoço, é aquela altura em que, por força do
ócio, cada um se senta diante do seu desígnio, e compreende a sua nitidez ou
total empalidecer, nunca é fácil sentarmo-nos diante de nós, nem no rés-do-chão
dos oito anos e ainda menos quando se atinge os píncaros da razão, mas, como
dizia, foi a primeira vez que ouvi falar nisto, meu pai, sentado, o jornal
quase o cobria na totalidade, minha mãe com o pó ou a fingir que arrumava coisas por ali perto...
sábado, 27 de outubro de 2018
… e foi assim que nos fomos aproximando, manhã a
manhã, quase sempre ele já na paragem, virado para Este, a contemplar uma
qualquer coisa para além do meu entendimento, assim que dava pela minha
presença, praticamente já a seu lado, virava-se com um sapiente sorriso de
idoso, sentia-me reconfortada, e, de certa forma, protegida, como se um halo em
nosso redor, onde o mundo não nos pudesse tocar…
in Paragem de autocarro
domingo, 21 de outubro de 2018
Creio que não podia ter sido de outra forma
Ando
para te escrever há um bom tempo, bem sei, mas, confesso, não tenho encontrado
disponibilidade para tal, e paciência ainda menos, sempre isto ou aquilo a
interpor-se no caminho, contudo, hoje, quando cheguei a casa, decidi que este
silêncio não devia persistir, daí a razão do meu telefonema, não, não precisas
de dizer nada, ouve-me só, está bem? Bom, antes de mais, já sei em que pé estão
as coisas, estes dois meses e meio foram balsâmicos para arrumar as coisas aqui
por dentro, percebes, não é? Como se as coisas, algum dia, se arrumem
definitivamente no armário do nosso sentir, vamos acreditar que sim, eu, pelo
menos, voltei a entrar num cabeleireiro, isso é bom, não achas? Não, não vou
fazer o número da mulher forte, independente, fria, senhora do seu destino,
não, nada disso, sabes, com o tempo, cansei-me das máscaras, pesam muito, e só
nos ensinam, com a demasia do seu peso, a olhar o chão (…)
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