Livros do Escritor

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domingo, 4 de novembro de 2018

Algodão-doce



Quando me apercebi, falávamos disto e daquilo, pareceu-me que já nos conhecíamos, nesta vida, de facto, pela melodia da voz, a familiaridade peculiar de um gesto que risca o ar, a compreensão derramada por um olhar, há quem, de facto, pareça caminhar há muito a nosso lado, ela segurava um copo de sumo, embora o ignorasse, desde que encetáramos o diálogo, à nossa volta só ruído, porém, nós permanecíamos naquele peculiar universo velozmente criado para nos comunicarmos, nunca fui festivo, por isso, nessa noite, ali desaguei somente pela promessa de que seria uma pequena reunião de amigos para celebrar o aniversário do… Pois, não interessa, não vou chamar para aqui o seu nome, como dizia, fui dos últimos a chegar, de facto, não havia muita gente, embora, para mim, fosse sempre gente a mais (…)

quinta-feira, 1 de novembro de 2018


… nesta vida, todas as horas chegam, sempre mais depressa as das partidas do que as das chegadas, esta é uma das veladas amarguras do existir…

in O que queria ser um pássaro se não o fosse?


Rua das Buganvílias


A primeira vez que ouvi falar nisto foi num fim-de-semana, ainda olhava os meus pais do humilde rés-do-chão dos meus oito anos, enquanto eles, nos píncaros da sua razão, debatiam temáticas ininteligíveis e chatíssimas de despesas e facturas, creio que era Sábado, depois do pequeno-almoço, é aquela altura em que, por força do ócio, cada um se senta diante do seu desígnio, e compreende a sua nitidez ou total empalidecer, nunca é fácil sentarmo-nos diante de nós, nem no rés-do-chão dos oito anos e ainda menos quando se atinge os píncaros da razão, mas, como dizia, foi a primeira vez que ouvi falar nisto, meu pai, sentado, o jornal quase o cobria na totalidade, minha mãe com o pó ou a fingir que arrumava coisas por ali perto...

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

sábado, 27 de outubro de 2018


e foi assim que nos fomos aproximando, manhã a manhã, quase sempre ele já na paragem, virado para Este, a contemplar uma qualquer coisa para além do meu entendimento, assim que dava pela minha presença, praticamente já a seu lado, virava-se com um sapiente sorriso de idoso, sentia-me reconfortada, e, de certa forma, protegida, como se um halo em nosso redor, onde o mundo não nos pudesse tocar…

in Paragem de autocarro



domingo, 21 de outubro de 2018

Creio que não podia ter sido de outra forma



Ando para te escrever há um bom tempo, bem sei, mas, confesso, não tenho encontrado disponibilidade para tal, e paciência ainda menos, sempre isto ou aquilo a interpor-se no caminho, contudo, hoje, quando cheguei a casa, decidi que este silêncio não devia persistir, daí a razão do meu telefonema, não, não precisas de dizer nada, ouve-me só, está bem? Bom, antes de mais, já sei em que pé estão as coisas, estes dois meses e meio foram balsâmicos para arrumar as coisas aqui por dentro, percebes, não é? Como se as coisas, algum dia, se arrumem definitivamente no armário do nosso sentir, vamos acreditar que sim, eu, pelo menos, voltei a entrar num cabeleireiro, isso é bom, não achas? Não, não vou fazer o número da mulher forte, independente, fria, senhora do seu destino, não, nada disso, sabes, com o tempo, cansei-me das máscaras, pesam muito, e só nos ensinam, com a demasia do seu peso, a olhar o chão (…)