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Eu

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  Uma questão que jamais me colocaram, e sem dúvida a mais essencial, foi: “Quem és tu?” Em verdade, quantos já se confrontaram com esta pergunta? Raros, calculo, raros, perante tal pergunta ( “Quem és tu?”), logo se me iluminam possíveis respostas , meu Deus, fui e sou tantos, o que rosna um cumprimento ao vizinho com que antipatiza, sorridente para a septuagenária, do terceiro-andar, com que engraça, facilmente irascível com azémolas ao volante, melancólico ao entardecer, sonhador com melodias do ontem, agressivo com os velhacos do hoje, obstinado, enfim, tantas possibilidades para uma singela questão: “Quem és tu?” O que nos caracteriza mais: os amores ou os ódios? Os amores espelham-nos, os ódios repulsam-nos, algures numa indistinta zona, entre estes dois aparentes sentires antagónicos, esteja a nossa essência, creio que, num certo ponto da caminhada, perdi o meu Eu, sei onde ficou, embora, se lá voltasse, a certeza de não o encontrar, as coisas nunca ficam onde as deixámos, ...
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 ...  desde então, não há semana em que não visite a caixa de sapatos, abro-a e disponho as fotos por cima da colcha: fico a olhá-las e, por vezes, lembro-me, não sei porquê, dos velhos nos jardins da cidade, entre pombos ávidos e sombras indolentes, em conversas do ontem para calar a dor do hoje... in Da arte de viver
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O carácter transitório das coisas

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  Há qualquer coisa, numa manhã de céu encoberto, estranha, como se a noite ainda por ali, a adiar a sua partida, subiu a extensa escadaria para o trabalho, não diria conformado, mas abnegado consigo mesmo em cumprir um imperativo muito seu, sempre os mais relevantes, parou para um café, surge-lhe aquela colega, mais velha, que o tempo ensinara a respeitar, ela “Faleceu a minha mãe,” ele prontamente “Os meus sentimentos,” não sem antes a punhalada de um despovoar de palavras, afinal “Faleceu a minha mãe,” a morte de um estranho apenas uma informação, tão distinta da morte de um conhecido, quanto mais de alguém que tem lugar reservado no nosso coração, ele a reflectir nas dores que nos estão vedadas, “Faleceu a minha mãe,” sempre por uma dor tão maior que se esvaziou, e a morte, ao contrário do que se julga, sabe-a quente, harmoniosa, pacífica, somente a ouviu, os quilos perdidos, as viagens para a aldeia, limitava-se a anuir e a um ou outro lugar-comum, pouco mais, há dores que nos...
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Da arte de viver

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  Lembro-me de uma frase, acho que a li em casa dos meus avós (“Um dia, quando eu morrer, não quero choros nem gritos…”), estava numa jarra pendurada na cozinha, sempre pensei, um dia, retirar dali a jarra para ler o resto da frase, ocultado pela parede, nunca o fiz, guardei para um amanhã que nunca amanheceu, o que se seguiria a “Um dia, quando eu morrer, não quero choros nem gritos…”? Não me lembro do meu pai, nem da voz, sempre o que perdura em nós depois de tudo, dos gestos, da forma de andar, de ser, sobretudo de quem ele afinal era, nada, às vezes, na escola, talvez pela surpresa, talvez por simples crueldade, os colegas “Ao menos, lembras-te do nome? Ou nem isso?” Do nome, sim, e do rosto também, até há pouco, volta e meia, dava por mim a abrir uma caixa de sapatos onde a minha mãe guarda as fotos, há duas lá do meu pai, numa está abraçado à minha mãe, noutra comigo ao colo, e é tudo… Há quem ache pouco, mas, para mim, é tanto… Que fazer? Confesso que não visito a caixa ...