Depois de tudo…

 


Há sonhos que guardamos para nós, outros são partilhados, em determinada circunstância, às vezes com a pessoa certa, outras com a errada, esta madrugada, de forma inusitada, viu-se mergulhado num sonho há muito partilhado, o seu esforço, claro, foi o de lhe procurar o rosto, embora ela a seu lado, não o conseguia vislumbrar com clareza, aquela palpável distância dos sonhos, onde o aqui se torna um longínquo intangível, continuavam a caminhar à beira-mar, num contexto por si verbalizado, ouvia-lhe o riso, o rosto velado ora pelos cabelos, ora o olhar dela noutra direcção, o esforço para que se virasse, uma demasia de toneladas, acordou extenuado e com a desoladora convicção de sair de um sonho, virou-se para o outro lado e fechou os olhos, apesar da certeza de que ali jamais regressaria, os sonhos não têm segunda-parte, podem repetir-se, jamais continuar, há uns tempos, percebeu-lhe este sonho materializado, mas outro rosto a seu lado, ficou entre o riso e a incredulidade, como se partilha um sonho com alguém que o materializa com outro rosto?! Para mais, com traços de uma indesmentível boçalidade?! Riso e incredulidade, percebeu-se, felizmente, incapaz de tal acto, os sonhos respiram na essência de cada um, logo, se nos partilham, o respeito do silêncio é um imperativo, pelos vistos, longe de ser o caso, diante de si, a figura a quem partilhou o sonho subtraiu-se, subtraiu-se, subtraiu-se, a única soma, nela, foi de toneladas (como engordara, meu Deus!), nem passou tanto tempo assim, a velha história, um M transformou-se num XXL, por menos de meio minuto observou a foto dela no contexto do sonho partilhado, um quê de ridículo na sua pose, um quê de ruralidade somado ao subúrbio do subúrbio, a assumpção de um facto que não lhe pertencia, tanta pequenez de espírito, em verdade, ele nem gostava muito daquele contexto, sonhara por ela, para, no fim de contas, isto, o focinho do boçal mal se via, a volumetria dela tudo ocultava, sentiu comiseração pelo animal que a suportava na foto, como engordara, o rosto esférico, as suas ancas tão mais largas que as do animal, sabia-a apesar de não a reconhecer, tão estranho, levantou-se-lhe, não se recorda de onde, a história de um velho oculista, há muito falido, não obstante este facto, todos os dias, à mesma hora, abria a loja, por ali só entravam aqueles que, noutra vida, com ele brincaram ao peão e às fisgas, pouco mais, hoje a energia só lhes permite cartas ou dominó, certo dia, entrou-lhe uma burocrata, ofegante pela montanha de papéis transportados, pousou-os, com estrondo, em cima do decrépito balcão, o velho permaneceu impassível, sabia, de antemão, que os milhares de caracteres impressos se traduziam numa palavra, ao contrário do expectável, a burocrata não se revelou uma caixa-de-ressonância sem brilho no olhar, num tom pausado, com uma emotiva e pesarosa melodia, revelou ao que vinha, embora intuísse não constituir qualquer novidade, ouviu-a com uma atenção educada, apenas, quando se apercebeu de que o silêncio regressara, expirou longamente, ainda com as mãos pousadas no decrépito balcão, agora num tom mais pausado, com um sorriso de infinita tranquilidade, retorquiu “Pois, estou falido, eu sei… É crime? Não! Dar um tiro na cabeça?! Não, jamais, nem idade tenho para tamanhos disparates! Todos os dias, como vê, entram-me por aqui vestígios de infância, já viu que tesouro… Quando entro em casa, à volta do meu pescoço, tenho os bracinhos dos meus netos, pela casa, o aroma do jantar iluminado pelo sorriso da minha mulher, quer riqueza maior?! Estou falido? Confesso que não sei, bem vistas as coisas, considero-me um milionário!,” com um “Bem-haja,” num esforço redobrado, a burocrata pegou na montanha de papéis e saiu, pareceu ver-lhe, sim, de verdade, um vestígio de humanidade a descer pela face, nem a montanha de papéis conseguiu ocultar aquele ténue brilho, reflectiu se, em algum momento, o velho partilhara sonhos… Ou se limitava a viver o que a existência tinha para oferecer… De poses ensaiadas, eivadas de ridículo, em cenários de sonhos alheios, à dignidade de um balcão decrépito, onde um velho se resigna a erguer, com uma dignidade ímpar, o que a vida lhe tem ainda para oferecer, talvez pelas décadas, a corrigir vistas alheias, o seu olhar se direccionasse no que realmente importa, e guardasse os sonhos para si, quem sabe, todas as tardes, ao regressar a casa, vivenciasse o mais significativo: o aroma do jantar iluminado pelo sorriso da sua mulher.

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