Uma Vaca chamada Vaz
Soube
há poucos dias da existência desta Vaca, de nome Vaz, é natural, o meu olhar ,
confesso, não se demoraria numa Vaca velha, feia, muito
feia, disforme, varizes por todo o lado, a relembrar os velhos e saudosos
mapas de estradas, a cada mugido só lhe saem
boçalidades e cobardias, como sempre, nas costas alheias, nada de novo,
somente uma Vaca velha, feia, muito feia, disforme,
varizes por todo o lado, talvez este facto a fizesse interessar por mapas,
quiçá ao olhar-se, em determinada ocasião, a pergunta a nascer-lhe: não onde
levará esta estrada, mas sim, como é óbvio, onde desembocará esta variz? É uma
Vaca que gosta de passeatas, ora é vê-la, nos prados, com as suas congéneres,
ora em arribas – expectável, com as toneladas avolumadas jamais desceria
meio-metro, a menos que um guindaste próximo –, as companhias são as
expectáveis de uma Vaca desta dimensão, um boi-albino castrado, também dado a
mapas, talvez hipnotizado pela profusão de varizes nos enchidos da Vaca Vaz,
uma Porca-da-Índia, traída e abandonada, na gaiola, pelo cônjuge, a solidão é
dramática, esta porquinha-da-Índia, em prantos e soluços, lá se viu na
contingência de recorrer ao perdão, a vida e as suas incessantes voltas, uma
porquinha-da-Índia com chifres (onde já se viu tal coisa?!), a Vaca Vaz, perante
estes acontecimentos, anuncia, num desses lugares do hoje, o seu casamento,
como se alguém, por mais ingénuo que fosse, concebesse um boi capaz de tocar
numa Vaca velha, feia, muito feia, disforme, varizes por todo o lado, nem para
sola de sapato a Vaca Vaz serve, quanto mais para repasto de gente, reprodução,
no seu caso, só dos dejectos que expele pelo ânus –
velho, putrefacto, balofo, disforme como toda ela – e pela boca, a cada
mugido só lhe saem boçalidades e cobardias nas costas alheias, gosta de
perguntar por ausentes, assim permite-se mugir alto, com sinceridade Vaca velha
Vaz, dobrados os sessenta, e nem um resquício de dignidade? Bem sei que é um
conceito obsoleto para tamanha Vaca, em verdade, se me dessem a escolher, antes cadáver do que existir como uma Vaca destas, não
te esqueças Vaca Vaz, deixas rasto para onde quer que vás, as tuas tetas,
podres e descaídas, já se arrastam pelo chão, puseste os banhistas em pânico,
na praia, quando te abeiraste da falésia para aquela desprezível e lamentável
foto, quão ridícula és Vaca Vaz, a tua amiga porquinha-da-índia, mesmo com um
inusitado par de chifres, que tu, como Vaca, há muito possuis, engoliu o
orgulho e correu atrás do seu porquinho fugidio, por não aguentar o frio
nocturno, nem esta veleidade te resta Vaca Vaz, quem se deitaria contigo, minha
Vaca velha, feia, muito feia, disforme? Se julgas que as marcas das tuas tetas,
podres e descaídas, a arrastar pelo chão, são um possível fio de Ariadne, enganas-te
rotundamente, não tens regresso, Vaca Vaz, muito menos alguém se preocupará em
saber do teu paradeiro, se, por acaso, num estado de alucinação, alguém ousasse
ir no teu encalço, com a visão do teu traseiro velho, putrefacto, balofo,
disforme como toda tu, recuperaria instantaneamente a sanidade, talvez, num
gesto de arrependimento, o incauto se atirasse da falésia onde pousaste, sem dúvida,
lá em baixo, saberia que não chegavas, perguntaste qual foi o seu último
pensamento? Pois bem, responder-te-ei, no entanto, fica entre nós, por favor
não o partilhes, foi o seu último desejo: “Antes cadáver do que
existir com uma Vaca destas.”

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