Da latrina

 



Há certas criaturas que, devido à sua imundície, é dificílimo imaginar em certos contextos, como, por exemplo, a uma mesa, para redigir estas linhas, confesso, foi-me necessário um esforço desmesurado, por muito pródiga seja a minha imaginação, conceber estes dejectos sentados a uma mesa, com pratos e talheres, a degustar uma refeição, é do domínio da ficção-científica, assim sendo, levante-se a imaginação, mesa de jantar, personagens-tétricas há muito conhecidas, na cabeceira, o pároco-sabujo, com o seu peculiar focinho manhoso, a sua habitual postura de confessor inquisitorial, longe de posturas ululantes sentado em chaimites de pacotilha, a ilustrar mentiras, contadas a tolinhos, há cinquenta e dois anos, ai sabujo, sabujo, sei tão bem quem te espetava no chaimite, até o teu pulôver azul-clarinho ficaria irreconhecível, mas garanto-te um cravo no focinho para a eternidade, ao som de um grândola do cantaroleiro esquerdalho, passaste da batina para o avental num instante, antes da golpada nem da porta da sacristia passavas, de um lado, a sua alternadeira predilecta, formas disformes, buço mal disfarçado, como se aproxima a época de luzes e redenção, quiçá lhe ofereça uma gilete, tenha, pelo menos, algo de apresentável, e um calçado feminino, já que aquelas chuteiras brancas que lhe pontificam nas patas, de facto, só despertam a “lacrimosa” que nos habita (onde a alternadeira foi buscar aquelas chuteiras?! Ainda há quem afirme que resposta e questão nascem irmanadas! Aqui se desmorona esta tese… A primeira vez que vi aquela figura-esférica, com umas chuteiras nas patas, só me levantou a memória do Naranjito, mascote do mundial de 1982, em Espanha, apesar de a alternadeira estar nos antípodas de qualquer vitamina, dali só azeite, do mais grosso possível, e basta imundície…), do outro, a bichona tintim, esta bicha ora está colada aos ouvidos do sabujo, ora, em compartimentos fechados, com a porcachona, fácil compreender quem assume o papel de macho, esta bichona andou histérica, vá lá perceber-se, agora passou a mal-disposta, abandonou os imperativos da educação, uma bichona mal-disposta e mal-educada, como todo o rafeiro, ladra pelas costas, um dia pode ter azar e lá ficarão borradas as suas cuequinhas do tintim, cenário mais trágico, a própria bichona borrar o seu ídolo, não, nem na imaginação levantar tal cenário, os caminhos do mundo são indubitavelmente sinuosos, uma bichona sensível, de humores voláteis, como se salientou, ter, como companhia privilegiada, uma porcachona, rotunda como uma pipa, uma peruca amarelada e seca, a lembrar os trágicos despojos de um fogo florestal, uma omnipresente expressão, na focinheira, frustrada, um grito calado por falta de algo essencial, no entanto, duvido que o maior dos famintos pegasse numa porcachona em crescente volumetria, celulite a rodos, se fosse um alimento, a celulite da porcachona alimentava um continente, enfim, a menopausa é tramada, beleza e inteligência ali jamais pousaram, ao menos, encontrou um porto-de-abrigo na bichona, já que ninguém a faz sentir fêmea, resta-lhe sentir-se macho, para isso, nada melhor que uma bicha por perto, com ou sem cuequinhas do tintim, perto destes, o manguinhas-de-alpacas, outro velho conhecido, sempre a debitar um estéril discurso, provindo do seu sofrível intelecto, ninguém o ouve, ninguém quer saber, apesar de já estacionar próximo do sabujo, uma justa recompensa por anos a limpar as latrinas, do pântano, com a língua, e lá continua o manguinhas-de-alpacas a emitir alarvidades, volta e meia, ora pisca um olhito ao sabujo, ora à bichona, assim se mantém estacionado perto da cabeceira, com o seu casaquito de bombazina, o penteado de primeira-comunhão, quem este manguinhas pensou enganar?! O mundo é um lugar pequeno, fica a lembrança, talvez um dia alguém o despenteie de vez, segue-se-lhe a rainha do pedaço, outra menopausa-ambulante, óculos no cocuruto, o presunto de uma perna a despontar de um vestido comprado, a pressa, no último catálogo do Lidl (passe a publicidade), mas é onde desagua o “gosto” desta personagem, temos de respeitar, embora haja uma indesmentível ternura naquele presunto, ao léu, também com os seus infinitos pontos de celulite, como se o picotado de um jogo de infância, acresce ao confrangedor quadro a alvura desta tipa, só disfarçada nas trombas pelas toneladas de maquilhagem, imagino o estado do lavatório se, algum dia, lavar as suas trombas, outra com o cérebro ligado ao intestino-grosso, quando abre a goela, caro leitor, dá para ver o que sai, a seu lado, a nossa querida beata-maledicente, a caluniar, como lhe é habitual, algum desconhecido, de olhito-pisado, como apanha em casa do anafado marido, projecta nos outros as suas mágoas, há que compreender, um filho pelos caminhos das vielas e seringas, uma história trágica, a beata intitulou-se temente a Deus, mas como livro de cabeceira, ouviu dizer-se, “O manual satânico,” não por acaso a sua conduta tão longínqua dos passos da luz, em frente, outra obesa, pois, elegância e beleza são conceitos ignorados por estes lados, zarolhita, chegada do sul, com ânsias de protagonismo, fértil em ausências ao trabalho, saliente-se que sabe aparar o buço, ao contrário da alternadeira, não fosse este cuidado, teria uma bigodaça à Chalana, imagine-se a densidade capilar noutros pontos, de fazer inveja a muito macho, desposada com outro idoso, quando não há festa em casa, o grito da frustração plasma-se na fealdade de cada focinho, e um grito além da memória, sublinhe-se, num canto, o nosso amigo hispânico, tantas décadas de portugalidade, até nos cartões de identificação, e este tipinho subsiste com o sotaque espanholado, talvez para vincar a sua diferença, uma demanda idiota por originalidade, lamente-se o excesso de aguaceiros de cuspo dali saída, bem como nos cantos da bocarra, como se acabasse de devorar um qualquer prato repleto de maionese, ressalve-se que nenhuma destas tétricas-figuras sejam familiares da higiene, de alma são cloacas abertas, pensei em subtrair a bichona desta equação, porém, não tardará muito a borrar as suas cuequinhas do tintim…

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