A dificílima arte desta coisa de nome viver
E, de repente, compreendo que já percorri mais de metade do
meu caminho. Resolvo sentar-me e reflectir nisto. Olho para trás e tudo se me
afigura uma irrealidade, como se uma névoa turvasse a minha estadia por aqueles
lugares, apenas as cicatrizes como testemunho da autenticidade do ido. Tão
estranho: já percorri mais de metade do meu caminho… E continuo à procura de
uma razão para caminhar, como se, em grande parte, me tivesse deixado conduzir,
ao sabor de uma corrente de velada fonte, por vezes, vislumbro um sentido para
as coisas, contudo, logo de seguida desvanece-se do meu horizonte, no seu lugar
apenas um desdenhoso absurdo, que me atomiza de encontro aos meus mais turvos
receios, desde muito cedo, apercebi-me da minha diferença em relação aos demais,
como se o meu pensar obedecesse a uma outra respiração, possivelmente aquando
da circunstância o meu olhar numa outra coisa que não ali, lembro-me ainda bem,
numa manhã, talvez fosse Inverno, pelo cinzentismo do mundo, eu perdido de mim,
dominado pela circunstância de tempo e pressa, servo de um mecanismo, de nome
horas, que nos dita os gestos e passos do existir, como dizia, ia sob a pressa
do momento, nessa manhã de Inverno, não sei porquê, mas sempre corri atrás do
desdenhoso ponteiro enquanto maldizia qualquer coisa em mim que me fazia
dispersar em pequenos nadas, que, no
fundo, são o tudo, e por talvez intuir esta verdade, eu a perder-me nesses pequenos nadas, enquanto inexoravelmente
os ponteiros seguiam a sua unívoca marcha rumo a um destino de silêncios e
sombras só por si conhecidos, já atrás do volante, rumo àquilo que, em
linguagem-corrente, se denomina de ganha-pão,
como se o pão fosse uma conquista e não uma bênção (de facto, há tanta
questão por se erguer!), quando, antes mesmo de sair da minha rua, um carro,
numa esforçadíssima marcha-atrás, a interromper-me o caminho, esforço, ainda a
frio, os travões, enquanto liberto, em surdina, um rio de insultos àquela lenta
e exasperante intromissão, de imediato, começo a tamborilar os dedos no
volante, na esperança de um desaguar para os nervos que ameaçavam submergir-me,
após três ou quatro tentativas de sair do lugar, interrompidas, claro, por uma
vez em que deixou o carro ir abaixo, lá conseguiu seguir caminho, neste ponto,
só queria ultrapassar, buzinar demoradamente e gritar-lhe todos os impropérios
de que me lembrasse, afinal, já me havia roubado largos minutos, após deixar a
minha rua, naquela peculiar marcha de quem desconhece ponteiros desdenhosos e
unívocas marchas, assim que percebo uma oportunidade de ultrapassar, cumpro com
o meu desígnio, e quase prendo a mão à buzina, ao volante da viatura ia uma
desorientada senhora, numa clara sintonia de gestos e cabelos, tal a hesitação
de um curso, creio, com sinceridade, que, ainda hoje, não se terá apercebido de
mim, da obstinada mão na buzina, do meu esgar enfurecido, porém, alguém naquele
carro reparou na minha desmedida fúria, pela hora, pelo momento, pelo contexto,
de facto, tudo em mim naquele instante era um excesso, seguia no banco atrás da
desorientada senhora (seria filha? Talvez neta…), olhava-me com indulgência e, ao mesmo tempo,
com incompreensão, a verdade é que aquele rosto de menina (teria uns doze
anos), espelhou-me o absurdo da minha desmedida, não lhe li censura,
reprovação, crítica, reparo, nada, apenas um silencioso espanto emoldurado por
uma genuína indulgência, seria natural que me sentisse miserável perante um
olhar tão desarmante, porém, o meu sentir flectiu numa outra direcção, na
súbita evidência de que perdera a criança que fui, procurei calar este sentir
desordenado, até um semáforo, sempre num persistente vermelho, devolver-me a um
espelho, de novo, diante de mim, aquele olhar com indulgência e, ao mesmo
tempo, com incompreensão, procurei, de início, em passos relutantes, a criança
que fui, nada, nem vestígios, um imensurável deserto sob uma densa noite à
minha volta (Que fazer? Gritar por ela?), corro num sem sentido, de repente,
uma buzina numa estridência demasiada devolve-me à minha circunstância, de
semáforo, agora verde, antes da mudança, do acelerador, aquela buzina, numa
estridência demasiada, ressoa, pela segunda vez nessa manhã, começo a
tamborilar os dedos no volante, na esperança de um desaguar para os nervos que
ameaçavam submergir-me, de novo, a compreensão de que já percorri mais de
metade do meu caminho, e a evidência retumbante de que não o soube fazer…

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