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Uma pauta musical aberta na madrugada

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Naquele instante, sobre o precipício de si, nascera uma decisão. A decisão de um passo. Que importância tinha isso? Afinal, quantos passos damos na vida? E em que direcções? E ele longe de tudo isto. Sob o crescente inebriar da vertigem. Como se a saboreasse. Voltemos à sua decisão. Mais em concreto, à sua génese. Nunca há uma razão. Isto devia ser uma lei de carácter universal. E cansada de tanto se repetir. Há, isso sim, razões. Dito de uma outra forma: a razão é sempre plural. Sim, soa melhor. Neste momento, uma brisa com aroma de sul no seu rosto. Esboça o agradecimento na forma de um sorriso. Desde que ali chegara, mantém-se de olhos fechados. Não por cobardia. Mas para exponenciar o sentir último das coisas. O corpo num balançar ligeiro. Não, não se trata de qualquer vislumbre de nervosismo. Apenas um sinal de que o movimento encontra o pensar. Ele, neste momento, à janela do passado. A paisagem demora a aclarar-se. Puxa mais o estore. Abre, por completo, a janela. Demo...

Deste caminhar entre o céu e a terra

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Quando me falam em reféns do álcool, a primeira imagem a erguer-se na memória é a dele, parecia tão concentrado, senhor absoluto dos seus domínios, embora fossem apenas vinte metros quadrados subalugados num café, para mim era o mundo, um quiosque onde, entre jornais aborrecidíssimos para adultos ainda mais enfadonhos, brilhavam as revistas de super-heróis e as cadernetas de cromos, recordo-me ser alto, de facto quando crianças tudo é alto, depois, em adultos, percebemos quão errónea era a nossa perspectiva, neste ponto discordo, há vozes do ontem que, se ouvisse hoje, baixava-me de imediato, nem que tivesse de me ajoelhar, para continuarem a provir do alto, a de minha avó, por exemplo, jamais a voz de minha avó virá da terra, sempre proveio das alturas, mas como dizia, parecia tão concentrado, certa tarde, munido de uma providencial moeda, que possibilitava a aquisição de mais uma carteirinha de cromos, afinal, havia uma caderneta para completar, corro em direcção àquele univ...

A Alma reflecte-se num Espelho d´Água

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Assim que ela entra no parque, num gesto próprio do rito, baixa a cobertura do carrinho de bebé. Por vezes, sem motivo. Como é o caso de hoje, em que as coisas surgem num indistinto pardacento, o que lhes confere uma angústia de grito sem eco. Como se proviessem de uma distância sem vislumbre. No fundo, como se não fossem tangíveis. E nestes casos, só nos resta o nosso refúgio. O que, na maior parte das vezes, é insuficiente. Aí chegados, vogamos numa corrente indistinta sob uma tonalidade com o aroma da indiferença. E, num lugar de nós, que teimamos em negligenciar, compreendemos o miserável da nossa condição. Mas regressemos aquela mulher que, num ritual de perfeição, cobre o carrinho à entrada do parque. Caminha no passo decidido de quem conhece, há tempo suficiente, a próxima paragem. Senta-se, como sempre, num dos bancos da praça da fonte. Mais precisamente, naquele que fica debaixo do choupo, que tem uma das traves, do encosto das costas, partida, e a tinta, verde-escura,...

Balanço

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Há uns tempos escrevi que, no fim de tudo, só dois ou três momentos valeram a pena, e devido a esses fugazes instantes conseguimos levar adiante esta caminhada, de facto, não é muito (dois ou três momentos…), não é nada, se contabilizarmos a imensidão de dias que preenchem um viver, o fastio do seu desenrolar, decidi, aqui chegado, realizar um balanço, se terá valido a pena ter caminhado por este lado das coisas, não é fácil uma conclusão quando não temos memória de outros trilhos, porém, resolvi aferir se valeu a pena, e nunca gostei de declinar desafios, ao olhar para trás retenho dois ou três momentos, um em particular, fantasias de um sótão abandonado, neste ponto, creio com sinceridade que as fantasias é que foram abandonadas pelo caminho, o sótão sempre por aqui esteve, como é triste largar fantasias pelo caminho, ocupam muito espaço, e a vida não lhes permite respirar...
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