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A face demorada da tarde

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Voltar lá? Nem pensar! Para quê? Acabou? Acabou! Uma página que se fecha. Uma página com mais de quarenta anos! Quando ali comecei a trabalhar, nem casada era, hoje, os meus filhos já divorciados são, nesse aspecto não defraudaram os pais… O quê? Não sabia que eu era divorciada? Pensei que soubesse… Não é uma coisa que se ande para aí a anunciar ou de que se vanglorie, uma história cansada, embora, claro, nunca esperamos que nos suceda, infelizmente bateu-me à porta, uma mulher mais nova, bem mais nova, ele, tolinho, em passos de cachorro tonto lá foi, sabe, creio que chega uma altura, na vida de um casal, mais nos homens, de facto, em que lamentam subterraneamente contemplar o rosto macilento do outro por ser um genuíno espelho do seu, daí a sedução por aragens frescas, não sei se me faço entender, como descobri? É tão simples! Às vezes interrogo-me como há tanta mulher que se deixa enganar, ou talvez prefiram olhar para o lado, creio que seja isso, basta reencontrar no ros...
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Só te conto os meus desejos, se dermos as mãos

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Ela saía do trabalho por volta das cinco da tarde. Ele lá estava, do outro lado da rua, dentro do carro. Sorriam-se. Ela atravessava com uma cautela de garota devidamente avisada. Ao entrar no carro, segurava com a mão direita o cabelo, como se este pudesse ficar esquecido. Davam um beijo tímido, que servia mais para recompor a familiaridade, do que de cumprimento. À pergunta Como correu o teu dia?, ela encetava logo uma descrição, demasiado exaustiva para ser deste mundo, do seu desinteressantíssimo quotidiano laboral. Todos os dias, ele arrependia-se da questão, mas esta sempre surgia, há falta de qualquer outra coisa para dizer. E assim, ele iniciava a marcha, grato por qualquer obstáculo que lhe fizesse redobrar a atenção (um súbito peão desavisado, a inesperada travagem do carro à frente, o enervante vermelho que sempre cai quando quase lá se chega, um buzinar algures), para o afastar de um segundo cenário de trabalho que, de tanto o conhecer, é quase seu. Por fim, já...
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O que é a vida senão o tempo em movimento? in A eternidade é uma tarde de infância
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Quando uma Enxada mergulha na Terra, o homem ergue-se um pouco para o Céu

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Terminada a refeição, levanta-se da imemorial mesa de madeira, esvazia o resto escarlate do copo, limpa a boca com as costas da mão, coloca a boina na cabeça, e sai para o quintal. Aí, observa o frenesim das aves domésticas pelas sobras do almoço, que a mulher, numa paciência benévola, distribuía. Olhou-a. Dos traços que demoravam o seu olhar, agora apenas vestígios. Mas ainda assim, o seu olhar naquele rosto. Apercebia-se de que o tempo esbatia a luz daquele olhar. No fundo, a de todos os olhares. Seria o tempo? Ou as esquinas da vida? Pega na bicicleta, e grita-lhe do portão Vou andando , quando, em verdade, lhe queria dizer outras coisas, com outras palavras… Quantas palavras ficam por dizer na vida? E ele no portão, já em cima da bicicleta, e ela rodeada de asas estridentes, ainda mais restos do almoço, e ele apenas queria dizer-lhe que sim , se fosse hoje voltaria a pronunciar um sim diante do sacerdote, tudo, com ela, valeu a pena. Pedala com a indolência de um início de ta...