Livros do Escritor

Livros do Escritor

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Nós temos sempre a idade do momento





Uma das piores coisas da vida é ver um erro grosseiro repetir-se, bem diante de nós, sem que nada possamos fazer para alterar o rumo do acontecer, isto geralmente devolve-nos um sentir de orfandade, uma regressada incompreensão das coisas, como se nos aproximássemos de uma janela, para vislumbrar a ansiada paisagem, contudo, quando estamos mesmo a chegar, mesmo a chegar, quase a sentir a brisa no rosto, logo se fecha, com estrondo, diante da nossa incredulidade, mas uma questão impõe-se: por que é que permitimos que um grosseiro erro se repita? De facto, se houvesse resposta para tal, eu teria sanado do meu existir tão nefasto regresso, em vez de assistir, impassível, ao seu desenrolar, bem diante de mim (...)

segunda-feira, 11 de junho de 2018



Percebi-lhe, aos primeiros olhares, uma miríade de emoções, entre a alegria de me ver e a dor infinda de se saber sentado, esmagado de encontro aos seus sonhos moribundos, mas é curioso, assim que trocávamos as primeiras frases, restabelecíamos a nossa singular empatia, que nos levava, madrugadas infindas, a confidenciarmos a alma, enquanto ouvíamos melodias que nos relembravam quantos já fomos nesta vida…
in Harmonia

quarta-feira, 6 de junho de 2018



Sabe que havia fila para o ver? Havia quem esperasse horas! Pois, eu bem sei, é muito fácil compadecer-nos com o mal dos outros, mas é extremamente difícil alegrarmo-nos com o seu bem, nessa altura, ele estava tão aquém desta verdade, e de muitas outras, a sua única verdade, naquele fatídico momento, assentava numa crescente vã esperança de que estivesse mergulhado no maior pesadelo da sua vida. Mas para quem está confinado a um leito hospitalar, a olhar, pela primeira vez, a frieza branca da cal daquelas paredes, que à noite parecem amplificar as inaudíveis dores da alma (e como a sua lhe doía!), talvez um rosto familiar mitigasse o naufrágio de se ser, ou talvez relembrasse o quanto se afastou de uma outra vida…
in Harmonia

domingo, 3 de junho de 2018

O carácter incomunicável da dor


Quando chega a hora de voltar para casa, a que muitos apelidam de regresso, ela sempre acometida por um sentir de orfandade, a plena consciência de que é um ser sem lar (de que sempre o foi), uma pressa generalizada domina gestos e passos à sua volta, ela apenas hesitações, há três meses vira-se obrigada a retornar à casa materna, precisamente àquela de onde sempre quis partir, mas não voltou só, fazia-se acompanhar por uma frágil mão dentro da sua, umas dezenas de centímetros abaixo, à sua volta, agora, frases recorrentes (Até amanhã! Ainda ficas? Não vens? Então, adeus… Vais fazer serão?), porém, ela ainda sentada, procurava, talvez, o segredo da existência (a compreensão da derrota)...