Não
sei porquê, de repente, o meu olhar em lentos passos pelo seu rosto àquela
hora, devia a tarde estar no auge, ou talvez já caminhasse um adeus, ele
sentado à janela, na cadeira do costume, sempre com a rua, ou talvez não,
pousei o que me ocupava o momento (e penso que mais vezes devia ter pousado o
que tanto me ocupou os momentos…), enterneci-me com a expressão que ostentava,
o menino do ontem e o velho do hoje num duelo para ver quem ocupava mais espaço
naquele rosto, não se apercebeu de que pousara o que me ocupava o momento para
o olhar, a luz de adeus do exterior, não sei porquê, inclinava as coisas a
favor do menino do ontem, os cabelos de prata tornavam-se dourados, os sulcos
da vida impressos na face tornavam-se difusos no jogo de sombras daquela hora,
aproximei-me, não se apercebeu, sempre a rua, talvez aí procurasse o menino do
ontem, estendi-lhe a mão e encaminhei-o para dentro, a dificuldade em se
levantar acentuava-se, ainda há uns dias, a nossa mais velha A mãe tem de se mentalizar o que é melhor
para todos. Qualquer dia, dá cabo da sua saúde também… Isto assim é que não
pode continuar! Acha que o pai daria pela diferença, nesta fase, de estar em
casa ou num lar? Sinceramente, devia poupar-se… Desde cedo, percebi a
proximidade entre palavras e lâminas, quase lhes sinto uma certa
consanguinidade, por uns momentos, detive-me a olhá-la pelo lado do ontem,
talvez por saber que ajuda a suavizar as coisas, dessa janela, via-a às
cavalitas do pai, a insistir, nas manhãs de escola, quase em birra, para que
fosse o pai a levá-la à escola, e aquela noite, antes de jantar, eu sabia de
antemão do que se tratava, a campainha, disse-lhe para descer e ajudar o pai
com as compras, lá em baixo deparou-se com um carro novo, assim que a viu, o
pai atirou-lhe as chaves, ela entre a incredulidade e uma alegria irreprimível,
quase o sufocou com um daqueles abraços sem amanhã. A irmã, bem mais nova, não
se conteve Quando for mais velha, também
vou ter um, não é? Não tardámos com o Sim.
Veio numa fase em que, de certa forma, já estávamos acomodados, a sua
chegada fez-nos despertar para a existência, como se revivêssemos um período há
muito ido. Mas a mais velha, talvez pelas exigências da idade, ou do
temperamento, exigia-nos mais cuidados. Sempre que pensava nas diferenças entre
elas, a imagem da minha vizinha com os dedos estendidos e a frase recorrente a
ilustrar Pois é, os filhos são como os
dedos da mão, têm a mesma origem, mas são todos diferentes. Nunca se esqueça disto!
Anos depois, a mais velha, claro, exigia-nos mais cuidados, trocou o curso
por um súbito casamento e uma maternidade quase imposta, não gostámos da sua
escolha, mas sabíamos, de antemão, que, neste particular, escolher estava além
do nosso jardim, respeitámos, claro, embora isso não quisesse dizer que
aceitássemos, certa noite, levou o sujeito lá a casa, teria mais uns dez anos
que ela, um divórcio às costas, dois filhos reféns desse outrora lar,
sobrevivia pelo ramo imobiliário, denotava-se pelo discurso tiques de vendedor,
assim que o vi, confesso, desagradou-me, o mesmo sucedeu com o pai, bastou
darmos as mãos, enquanto eles entravam, para nos percebermos… Desde o fato
profusamente coçado, à pasta de gel que reflectia candeeiros, aos despojos de
acne de uma juventude sofrível que lhe pontuavam o rosto, à artificialidade dos
gestos e modos que indiciavam somente um carácter sem chão, de facto, não, não
gostámos da sua escolha, ainda hoje, quando, num acaso da vida, regresso a
estes momentos, não é difícil, basta olhar o rosto do meu neto, questiono o que
levou minha filha a olhar aquele sujeito, o miúdo, coitado, sempre o mantivemos
fora desta arena de sentires desordenados, embora lhe reconhecesse, em certos
traços de carácter, a herança paterna, talvez na verbosidade, muitas vezes, de
assuntos onde estava tão aquém… O curso esfumou-se, o filho ficou, o sujeito
partiu, foi reflectir candeeiros para outras paragens, o resultado expectável,
não houve censuras, recriminações, nada, quando a campainha soou mais pesada,
parecia anunciar o filho e as malas que ela trazia, o pai limitou-se a
abrir-lhe a porta com uma expressão ternurenta, preferiu calar-se a dizer algo
desajustado, eu não consegui, assim que as malas e o miúdo sob a luz do
candeeiro da entrada, não me contive Pois…
Pois, de falta de aviso não te podes queixar… Estava escrito! Só não viu, quem
não quis, não ousou ripostar, no fundo, ela sabia de que lado estava a
razão, e apesar de orgulhosa, a sobrevivência impunha-se. A irmã não se
manifestou, estava naquela fase da vida em que a manhã compreende que se torna
tarde. Não se seguiram tempos fáceis, porém, ela não permitiu que o miúdo se
tornasse em mais uma despesa nossa, empregou-se, apesar da insistência paterna
para que retomasse o curso, respondia laconicamente Agora é impossível! Tenho um filho. E sou eu que tenho de lhe pôr o pão
de cada dia na mesa. Tínhamos orgulho pela assumpção da responsabilidade,
contudo, havia em nós simultaneamente uma dor inconfessada pelo curso
abandonado e por uma existência inconclusa: sempre que a olhávamos, víamos duas
pessoas: a real e a sonhada; a que é, e a que podia ter sido. Ela também o
sentia, daí a pressa constante, nos gestos e palavras, sempre que na nossa
presença. É sabido que, pelo menos, vivemos duas vidas: a pensada e a vivida.
Somos plurais, é um facto. Foi o pai que a fez reaprender a lentidão dos gestos
e palavras, quando se aproximou do neto, lhe aligeirou, com o seu saber, o
fardo de existir, e, por fim, fê-la sorrir, como um caminho que, sem saber
muito bem porquê, nos esquecemos ou deixámos de usar por uma qualquer súbita
conveniência…
Desde
cedo, percebi a proximidade entre palavras e lâminas, quase lhes sinto uma
certa consanguinidade, por uns momentos, detive-me a olhá-la pelo lado do ontem,
talvez por saber que ajuda a suavizar as coisas, mas não, pelo contrário, como
é que ela ousa Acha que o pai daria pela
diferença, nesta fase, de estar em casa ou num lar? Sinceramente, devia
poupar-se… Depois de, numa outra vida, foi tão ontem que assim me parece,
com uma infinita paciência o pai tê-la feito reaprender a lentidão dos gestos e
palavras, quando se aproximou do neto, lhe aligeirou, com o seu saber, o fardo
de existir, e, por fim, fê-la sorrir, como um caminho que, sem saber muito bem
porquê, nos esquecemos ou deixámos de usar por uma qualquer súbita
conveniência… Hoje vejo uma sombra do homem que foi, mas, pelo menos uma vez
por dia, através de um olhar, um gesto, um sorriso, a sombra dilui-se e ele
ressurge, como se não houvesse ontem, como se nunca tivesse partido, e isso
para mim é mais que suficiente.

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