Livros do Escritor

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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Adeus, Shane


 

Sempre que me falam de cinema, é a cena final, deste maravilhoso filme, que me povoa, não sei porquê, ou talvez saiba, afinal, não há questões sem resposta, teria os meus doze anos quando, lá por casa, meu pai Tens de ver este filme! Ouvi-o e, de imediato, assenti, regra geral, sempre que meu pai (Tens de ver este filme!), acertava, neste caso, foi mais além… Não, não vou relatar pormenorizadamente a história, enaltecer as interpretações, realçar o tom crepuscular de todo o filme, bem como o sublimado triângulo amoroso, a magistral banda sonora, nada disso, vou simplesmente centrar-me no efeito que, após ouvir o lamento daquele miúdo (Adeus, Shane), teria mais ou menos a minha idade, aquele serão provocou em mim. De facto, há coisas, nesta vida, que nos espelham a geografia da alma, uma pessoa, um livro, um filme, uma música, até uma paisagem, nessa noite, oscilei entre o miúdo que era e o herói que partia ao crepúsculo, após cumprir a sua promessa (De não haver mais armas no vale…), sim, Shane era um homem de palavra, desconhecia o nim, hoje, já adulto, quase tudo é gente do nim, em todos os sectores desta apalermada sociedade, do profissional ao lúdico, é curioso, se alguém chamar o outro de palerma, poder-se-á considerar ofensivo, mas poucos se importam de fazer figuras aparvalhadas, desde assistir, por vezes boquiabertos, a autênticos dejectos televisivos, a aderir entusiasmadamente a todas as modas subterraneamente chegadas, como “caçar” bonequinhos imaginários, entre outros feitos dignos de causar a repulsa dos nossos avós, creio que, neste cenário, Shane jamais se apearia, continuaria a sua marcha rumo a um lugar digno de si, por estes lados, já ninguém olha o outro nos olhos, ainda menos os inimigos, que sempre existem, estão identificados, e este é o melhor dos mundos para eles se mobilizarem, tudo permanece numa anestesia de delírio e fúteis risos, estou a escrever isto com a profunda convicção de que nem meia dúzia conhece Shane, George Stevens ou Alan Ladd, pouco me importa, sou um afortunado, é tudo o que posso dizer, porque, num serão de há muito, alguém me disse Tens de ver este filme! Só havia dois canais, pôr para trás ou para a frente era ficção científica, daí que a nossa atenção sorvesse cada pormenor no seu irrepetível carácter, talvez por isso fôssemos mais atentos, talvez por isso não abraçássemos tanto a preguiça, findo o filme, nessa noite dos meus doze anos, permaneci sentado a arrumar sentimentos, e como precisava de arrumar sentimentos, gosto de filmes assim, que me desarrumem por dentro, são cada vez mais raros, hoje ou despertam bocejos ou atentam a inteligência na sua desmesurada estupidez, enfim, lá aparece um ou outro que vale a pena, ou talvez, no meu caso, seja uma outra coisa, a ausência de uma voz que me diga Tens de ver este filme! Como compreendi aquele miúdo que gritava para a noite Volta, Shane! Quantas vezes, numa vida, queríamos que as coisas tivessem a cor do nosso sentir? Ali, naquele espaço de uma despedida, a vida foi-me apresentada, nada foi como devia, talvez por compreender, num canto cá de mim, que tudo não podia ser de outra forma, a última fala de Shane é um quase sumido, mas num tom sem réplica, Adeus, pequeno Joe, após perceber que cada homem nasce com a sua fôrma, e por muito que faça, não lhe pode fugir, assim sendo, tinha de partir, nos dias seguintes, claro que rodei o meu revólver de fulminantes à Shane, creio que, agora mesmo, se o reencontrasse, voltaria a fazê-lo, uma das grandes lições deste magistral filme é exactamente essa: cada homem nasce com a sua fôrma, e por muito que faça, não lhe pode fugir. No que me concerne, a cada dia, vou descobrindo um pouco mais dessa minha fôrma, por isso, há uns tempos, escrevi: Para onde vou, levo-me comigo… Daí que não consiga articular nins… Daí que também não os compreenda… Se algum dia me sentir só com as minhas convicções, sempre posso ligar a televisão, agarrar num certo dvd, ouvir o eco de uma voz (Tens de ver este filme!), e rever Shane, e quando, no final, assistir à sua partida, rumo às montanhas anoitecidas, resta-me acompanhar o miúdo no seu grito final: Adeus, Shane!

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