Todos os anos é a mesma coisa, após as férias,
aí vem ela, naquele seu jeito acelerado, com os meus dois netos, o meu filho
sempre cinco a seis passos atrás, entra e senta-se sem o mínimo de um
providencial com licença, nunca me
habituei a isto, nem quero tal coisa, houve quem já me dissesse Não ligue! Ignore, que é o melhor que faz…
Esta geração é assim! Que se há-de fazer? A isto, eu respondo Educação desconhece idades ou gerações.
Simplesmente, ou se tem ou não, repito, nunca me habituei a isto, nem quero
tal coisa, mas, como dizia, ela já sentada, os miúdos ainda no corredor, o meu
filho, coitado, a fechar a porta de casa, a relatar-me as férias, para melhor
ilustrar o vazio das suas palavras, socorre-se do rectângulo do hoje, a forma
do indicador aterrar na superfície envidraçada confere-lhe, confesso, uma
ilusória noção de elegância, que, em verdade, nem ela nem os seu desengonçados
gestos possuem, contudo, na aparência tudo é sempre uma outra coisa, e ela,
coitadita, de dedo em riste, puxa imagem daqui, empurra outra para acolá, como
se eu, alguma vez, com os anos que tenho desta desgraçada estadia neste
estranho lugar a meio sempre de qualquer coisa que só no fim saberemos o que é,
esperamos bem que sim, ficasse pela superfície das coisas, o irritante e
incansável indicador fazia-se acompanhar da sua inqualificável voz Já viu? Esta tirámos de propósito para si.
Esta praia fica mesmo em frente ao hotel. É fantástica, não acha? E os seus
netos ficaram tão bem… Entretanto, os miúdos entram, a voz dela cessa, por
pouco, bem sei, cumprimentam-me e logo se vão sentar, denoto que nem o esforço
de abrir uma porta de diálogo, pois, nunca me habituei a isto, nem quero tal
coisa, por fim, o meu filho, ainda por cima único, tanto que eu e o pai
sonhámos para ele, cumprimenta-me com pudor sempre que na presença dela, há
tanto que li estas entrelinhas, ainda namoravam, e ela já lhe atirava à cara És mesmo um menino da mamã! Isto parece
que se lhe interiorizou, desde então, este pudor de gestos e palavras, como se
um espartilho, olho-o e percebo-lhe uma sombra pousada no rosto, não,
acreditem, não é coisa de mãe, muito menos um delírio de velha, há muito que o
meu filho, ainda por cima único, vive com uma sombra pousada no rosto, nem de
propósito, quase de seguida, a boçal atira Já
viu? O seu filho é que fica sempre cá com uma cara… Sinceramente! Vira-se
para ele e acrescenta Não és nada
fotogénico! Aqui quase lhe respondia, mas, num último instante, consegui
segurar a frase que me deixava (Se não é
feliz, não pode ter boa cara!), confesso desconhecer o porquê de me ter
calado, talvez essa fala pertencesse a uma outra voz, sim, talvez seja por aí,
afinal, não foi para mim que ela se virou (Não
és nada fotogénico!) … Teria de ser ele a afastar a sombra pousada no seu
rosto, há coisas que já são uma nossa pretérita pertença, como se estivessem
largadas no mundo à espera da nossa passagem, este momento aguardou por ele,
sempre ali esteve, de todas as formas possíveis, o eco ainda se arrastou pelos
ares da tarde (Não és nada fotogénico!),
ele impassível, parecia habitar outro contexto, a sombra pousada no seu rosto
vencia-o sempre, reparei que, nos momentos seguintes, evitou o meu olhar, nada
de novo, quantas vezes, desde que ele abriu a porta da nossa casa à boçal, isto
se repetiu? Tanto que eu e o pai sonhámos para ele! Ainda me lembro, pelos seus
últimos dias, o meu querido marido, em esforço, a articular Mulher: vê se metes algum juízo na cabeça do
nosso Fernandinho! Aquela mulher nem para um bode serve! E, pouco dias
depois, partiu… Com este desgosto, é certo, mas que fazer? Abrimos a porta do
mundo aos filhos, mas são eles que escolhem a que sombras querem repousar, para
mim, a tarde já vai alta, relembro a janta que tenho de fazer, ela percebe o
toque, que eu sei, embora se faça desentendida, mudo de estratégia E agora que as férias acabaram, vai procurar
trabalho? Ou acha que não vale a pena? Já conheço a sequência desta cena,
os movimentos aceleram-se-lhe, enquanto procura desconversar, as feições
endurecem, empurra os miúdos para a porta, por fim, pelo rosto do meu filho,
leio-lhe uma censura inarticulada pela minha última frase: nem sombras, nem
ecos, nem fotogenia: apenas uma reprovação silenciada pelo gesto feito frase.
Entretanto, a boçal já a chamar o elevador, os miúdos nem um adeus, pois, nunca me habituei a isto,
nem quero tal coisa, por mim, já vão tarde, afinal, as pontes só ligam margens
possíveis, e eu estou cansada, tão cansada, desta desgraçada estadia neste
estranho lugar a meio sempre de qualquer coisa que só no fim saberemos o que é,
esperamos bem que sim, que agradeço a paz restituída, vou à janela, vejo-os lá
em baixo, a boçal à frente, depois os miúdos, ele para o fim, cinco a seis
passos atrás, naquele seu modo de andar desarticulado, sorrio para mim à vista
disso, quase o revejo de sapatos ortopédicos, mochila às costas, a caminho da
primária, parece que foi há bocado e, afinal, aconteceu numa outra vida,
suspiro longamente enquanto um pensamento regressa-me abrimos a porta do mundo aos filhos, mas são eles que escolhem a que
sombras querem repousar…

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