Livros do Escritor
segunda-feira, 22 de dezembro de 2025
Purgatório
Apesar de em despedidas do Outono da vida,
desconhecia que sonho e pesadelo são faces da mesma moeda, quis terminar a sua
caminhada profissional naquele lugar, guiado pelo sentir de um regresso a “casa,”
também ignorava que as coisas nunca ficam
onde as deixámos, até ao último expirar por aqui se aprende, não fosse esta
existência a verdadeira escola, uns mais à frente, outros eternos repetentes,
há inevitavelmente os familiares das cábulas, por bem votados ao malogro na
hora final, esta decisão, de terminar a sua caminhada profissional, naquele
lugar, foi há uns bons anos, talvez a ânsia de reencontrar os passos do pai,
embora, de forma insistente, a voz materna, volta e meia, “Aquilo é uma
tropa fandanga comunista… Aquilo é uma tropa fandanga comunista… Aquilo é uma
tropa fandanga comunista…”, antes de se
oficializar o regresso, chegou a lá entrar como mediador de um litígio
burocrático, lírico como sempre, ignorava outro facto: “Não se joga limpo
num lodaçal”; foi gozado e encostado por
duas pantanosas criaturas, uma que até se apossou de actividades de outrem, no
lodo a ética não encontra porta de entrada, diante de um papelito forjado não
encontrou argumentos, pois, “Não se joga limpo num lodaçal”, denotou a entrada diferente, com uma inclemente
aridez luminosa, as copas do ontem, por ali, nem memória, tudo se evolou sob o
aval do sorriso manhoso do sabujo, mais conhecido por aqueles lados como o
Chaveiro, uma árvore é memória e prenúncio de amanhã, com o seu extermínio, ali
somente um eterno presente de mentiras, ou nem a isso chega, nada por aqueles lados se
abre ou fecha sem a anuência do Chaveiro, mais de quatro décadas de lodaçal
permitem-lhe, como é natural, um profícuo conhecimento do que deve ser exposto
ou ocultado, só a total carência de luz permite que tal criatura por ali
continue a chafurdar no lodo, um simples coitadito, chaves na mão, manha no
sorriso, é vê-lo a deambular pelos corredores, volta e meia detém-se atrás das
portas, a ver se algum hipotético prevaricador ousa uma mensagem contraditória,
o sistema de controle, por ali, tem a idade do homem, uns favores, na forma de
aparentes regalias, para enganar os tolinhos, carne-podre atirada a rafeiros
famintos, e logo os têm, do seu lado, atrás das portas, a ver se algum
hipotético prevaricador ousa uma mensagem contraditória, a outra figura
central, como não podia deixar de ser, deste lodaçal, foi eleita pelo Chaveiro,
fisicamente, para um homem com um mínimo de bom gosto, é o primeiro passo para
a beatitude, das mais que rotundas ancas, ao abolachado focinho, terminando nos
fios capilares semelhantes a uma qualquer esfregona em gritos de reforma, não
vale a pena gastar mais sílabas, ambos, há uns anos, realizaram uma purga, com
a conivência dos rafeiros famintos, alimentados com nacos de carne-podre, para
eliminar qualquer ser pensante, até passado e presente verdes caíram sob o
serrote de trolhas monossilábicos, quis terminar a sua caminhada profissional
naquele lugar, guiado pelo sentir de um regresso a “casa,” o conceito que, por estes dias, mais lhe
povoa o espírito está nos antípodas de casa, é desolação, onde antes ordem e respeito, hoje corredores
com corpos, subtraídos de alma, esparramados pelo chão, tudo num frenesim sem,
por um segundo, retirar os olhos de um cárcere rectangular, perplexo com tanta
arrogância provinda de corpos subtraídos de alma, figurinhas com anseios de
figurões, apenas e só, tudo promovido pelo Chaveiro, de sorriso manhoso, e pela
outra figura central, fisicamente, para um homem com um mínimo de bom gosto, o
primeiro passo para a beatitude, ainda tentou, por aqueles corredores, bater às
portas do ontem, deparou-se com a total impossibilidade, tudo fechado à chave,
um silêncio opressivo sobre as coisas, de forma insistente, a voz materna,
volta e meia, “Aquilo é uma tropa fandanga comunista… Aquilo é uma tropa
fandanga comunista… Aquilo é uma tropa fandanga comunista…”, há uns anos, realizaram uma purga, com a
conivência dos rafeiros famintos, alimentados com nacos de carne-podre, para
eliminar qualquer ser pensante, até passado e presente verdes caíram sob o
serrote de trolhas monossilábicos, o lugar do saber, povoado de lombadas e
lombadas, só visível através do vidro da porta, ainda há quem tenha, no
lodaçal, horário para dele se ocupar, mas como se o Chaveiro o encerrou?
Trata-se de uma figura masculina, não obstante possuir um aparelho-reprodutor
feminino entre as pernas, enfim, vivemos a era das aberrações, esta é mais uma de tão infinito
número, e como aquele lodaçal é fértil nestes vírus, o quadro foi-se-lhe
apresentando em todo o seu denso negrume, em certa ocasião, ouviu uma
sujeita, com nome de azeiteira, e uma proeminente barriguita, que sempre lhe
conferia ar de eternas esperanças, a debitar pura maledicência sobre, claro, um
ausente, todo o cão ou cadela ladra atrás de um portão, ousou intervir e
questionou se, por acaso, o conheciam, prontamente a azeiteira de nome,
detentora da proeminente barriguita, lhe respondeu que ouvira dizer, por outras
palavras, apresentou-se como um simples pombo-correio, não filtra a mensagem,
limita-se, como acéfala que é, a transmiti-la, que pena o cérebro estar tão
aquém da proeminente barriguita, talvez, desse modo, houvesse esperança de um
raciocínio mínimo, nada disto o demoveu, tentou, no que lhe concerne, realizar
o seu trabalho, no entanto, uma após a outra, uma após a outra, as portas
fechando-se, pelos ecos dos corredores apenas o sorriso manhoso do sabujo, mais
conhecido por aqueles lados como o Chaveiro, em certa ocasião, alguém relatou
que a eleita pelo Chaveiro, fisicamente, para um homem com um mínimo de bom
gosto, é o primeiro passo para a beatitude, das mais que rotundas ancas, ao
abolachado focinho, terminando nos fios capilares semelhantes a uma qualquer
esfregona em gritos de reforma, afirmou que todas as portas estavam encerradas
para um certo sujeito, coitadinha, todo o cão ou cadela ladra atrás de um
portão, o intelecto inversamente proporcional à volumetria das ancas, o sujeito
a que se referia, antes de sair, bateu estrepitosamente com todas as portas,
tem um asco-visceral a figurinhas que desejam passar por figurões, a
tropas-fandangas comunistas, a sabujos, de sorrisos manhosos, a aberrações que
renegam o que Deus lhes colocou entre as pernas, e, quanto a mulheres, está
muito longe dos caminhos da beatitude, por conseguinte, gosta e muito da beleza
feminina, por lá continua aquele que se deixou levar pela nostalgia, talvez um
dia encontre uma porta aberta para o ontem…
sexta-feira, 19 de dezembro de 2025
Um dia todos acabamos por cair
O céu… Apenas o céu, não parecia assim tão
longe, como se uma viagem que finda, à sua volta, vozes, mas parecia-lhe que à
volta de um outro, afinal, a sua viagem finda no azul que contempla agora tão
próximo, é estanho, o azul das alturas sempre lhe pareceu tão longínquo, quase
uma irrealidade, e agora diante de si, tangível, de facto, a viagem finda, como
se da carruagem percebesse a estação, levanta-se, aguarda apenas que se
imobilize para então se apear, e o resto tão longe, como, no fim, tudo se torna
uma imensa distância, pois, o céu, apenas o céu… Nisto, uma voz sumida,
proveniente de um qualquer canto de si, sussurra Não te levantes, não te levantes… Nem penses nisso! Sem perceber o
porquê, deixa-se estar, compreende que está caído no chão do mundo, a olhar o
azul das alturas, mas desconhece a razão da queda, um calor súbito convida ao
repouso, deixa-se ir, há quanto uma paz assim? O resto tão longe, como, no fim,
tudo se torna uma imensa distância, pois, o céu, apenas o céu… De um dos lados,
uma mão acompanha na insistência a voz, Não
durma! Ouça, não pode dormir! Olhe para mim! Mas porquê aquela insistência?
Só queria abraçar uma paz nunca antes sentida, ainda, em esforço, profere duas
ou três frases, Deixe-me em paz! Quero
dormir! Cale-se, quero descansar, todas num inequívoco sentido de partir,
contudo, a voz irredutível, a elevar o tom, Não
o vou deixar adormecer! Ouça, diga-me o seu nome! Onde mora? De repente, o
calor de há pouco cede o seu lugar a um frio crescente, o anunciado repouso
apenas uma miragem sempre por cumprir, entretanto, mais vozes à sua volta, umas
em murmúrios, outras elevadas em preocupação, a mão e voz insistentes, do mesmo
lado, Ouça, diga-me o seu nome! Onde
mora? Neste ponto, resta-lhe pousar a mala no cais de todas as partidas e
contemplar o vazio diante de si, chegou tarde, uns já partiram, outros
regressaram, àquela hora o cais deserto, e a pedra, sob os seus pés, tão gasta,
tão cansada, tão chorada, testemunha muda da tragédia humana.
O céu partiu, agora, sobre si, a brancura
artificial de um veículo, compreende, pelo soluçar constante, a marcha
acelerada, no exterior, aquele pânico cantado, percebe-se, nesse preciso
momento, personagem de uma peça escrita por mão incógnita, não sabe para onde
vai, do que padece (embora uma voz sumida, proveniente de um qualquer canto de
si, sussurre Não te levantes, não te
levantes… Nem penses nisso!), em que dia está, e, de facto, se não está do
outro lado das coisas, à espera de um breve sinal que o faça regressar ao aqui,
respirar fundo, compreender o alívio pela serenidade do seu quarto devolvida,
de, afinal, estar na sua cama, quantas vezes aí não acordou em sobressalto
regressado de cenários desolados e absurdos? Contudo, desta vez, havia qualquer
coisa de diferente, talvez a entoação daquela voz sumida, proveniente de um
qualquer canto de si, a sussurrar Não te
levantes, não te levantes… Nem penses nisso! Talvez aquela mão em sintonia
com a insistência da voz, Não durma!
Ouça, não pode dormir! Olhe para mim! Talvez o azul diluído das alturas que
deu lugar à brancura artificial de um veículo, talvez a compreensão de uma dor
adormecida que o ameaçava engolir, a marcha acelerada e o pânico cantado no
exterior cessaram, ainda mais vozes à sua volta, rostos debruçados sobre si não
lhe permitem vislumbrar o céu… Apenas o céu, não parecia assim tão longe, como
se uma viagem que finda, no entanto, hoje a sua viagem não termina, é só o que
sabe, como personagem de uma peça escrita por mão incógnita, hoje permanecerá
caído, hoje não sentirá alívio pela serenidade do seu quarto devolvida, não,
nada disso, continuará caído em cenários desolados e absurdos, se ao menos
aquela mão incógnita estivesse mais inspirada a escrever-lhe os passos… Se ao
menos o poupasse a uma dor adormecida que ameaça irromper a cada instante… Se
calasse a voz sumida, proveniente de um qualquer canto de si, a sussurrar Não te levantes, não te levantes… Nem penses
nisso! Se tudo fosse uma outra coisa, talvez estas linhas não povoassem a
brancura destas páginas…
quarta-feira, 17 de dezembro de 2025
terça-feira, 16 de dezembro de 2025
A Porcachona e o Tintim II
A pedido de muitos leitores, hoje vou dar
conta do paradeiro destas sinistras figuras, a Porcachona (uma obesa, com o
cabelo pintado de amarelo, que arranha castelhano, divorciada, mais que
previsível, quem aguentaria, por muito tempo, a Porcachona?) e o Tintim (um boneco
que ambicionava ter o dom da escrita, destino vilão que não lhe conferiu tal
dádiva, é vê-lo andar diariamente com um livrito debaixo do braço, sempre confere
um ar erudito, a melhor definição deste boneco proveio de um “dito
seu amigo”: “É como a cortiça, está sempre à superfície), que tanta emoção despertaram,
a crónica anterior serviu para as apresentar e reflectir no seu modus operandi,
por estes dias, o boneco é visto em diálogos sussurrados, só muda de interlocutor,
talvez questione se é assim tão dramático ou inabitual o facto de usar umas
cuequinhas do Tintim, uma questão merecedora da devida reflexão, quem passe por
perto nem uma sílaba ouve, um tema sensível compreende-se, do foro mais que
íntimo, a roupa interior não é para ser apregoada a uma brisa, quanto mais a
qualquer dos ventos do mundo, ainda há quem grosseiramente apelide o nosso
boneco de “Limões”, com sinceridade, que
falta de respeito, anda o nosso boneco, com uma profunda crise existencial, em
diálogos sussurrados, só muda de interlocutor, talvez questione se é assim tão
dramático ou inabitual o facto de usar umas cuequinhas do Tintim, e um qualquer
boçal apelidá-lo de “Limões”, a
Porcachona é uma das suas habituais confidentes, essa, como se sabe, muito
distante de umas cuequinhas do Tintim, pelas calças, não obstante o XXL,
apertadas, sobressaem as marcas do pára-quedas a que devia chamar de cuecas,
desculpem, pela dimensão acreditem era, sem dúvida, um pára-quedas, a
Porcachona ficou muito desagradada por este facto ter vindo a público, talvez
receie ser incriminada se algum pára-quedas desaparecer da base de Tancos, pois,
é uma chatice, um risco que corre a cada instante, assim sendo, tratou de arregimentar
maldizentes frustrados à sua imagem, fica um significativo conselho: Ten mucho
cuidadito, Porcachona, el mundo es pequenito; e, convenhamos, com aquela
volumetria, não é muito difícil encontrar a Porcachona, parece que, num
contexto onde tanto gosta de arrotar alarvidades (não sejam críticos, o que se
pode esperar de uma Porcachona?), entrou de focinho no chão e nem um singelo
grunhido emitiu, o que se terá passado? Nestes últimos tempos, prefere grunhir
com as portas fechadas, não vá alguém, mais indiscreto, reparar nas marcas do
pára-quedas a que devia chamar de cuecas, desculpem, pela dimensão acreditem
era, sem dúvida, um pára-quedas, o boneco felizmente não perdeu o seu andar
bamboleante – menos mal, as características inatas não declinem –, algo que lhe
é tão particular, embora se lhe denote, nestas últimas semanas, algum
cinzentismo, que nem as floridas e largueironas camisas, para encobrir as
notórias e emergentes rotundas formas, conseguem maquilhar, os infortúnios da
existência, por norma, servem de factor de aproximação, não era este o caso da
Porcachona e do Tintim, já o eram antes de se tornar pública a questão da roupa
interior, no entanto, aproximou-os ainda mais, recorde-se a aversão do boneco a
volantes e pedais, aqui chegados, e por uma questão de dignidade, tenho de
manifestar a minha solidariedade com o Tintim, onde já se viu apelidá-lo de “Limões”?!
Que grosseria! Era caso para interpelar
esse boçal e questionar: “Veja lá se quer levar um tabefe?” Grande falta de respeito! Escolhe-se, com o
devido cuidado, as cuequinhas do Tintim de véspera, para depois nodoarem, dessa
vil forma, a imagem de uma pessoa?! Não há direito! Há com cada um! Resta um
diálogo sussurrado, só muda de interlocutor, talvez questione se é assim tão
dramático ou inabitual o facto de usar umas cuequinhas do Tintim, uma questão
merecedora da devida reflexão, quem passe por perto nem uma sílaba ouve, um
tema sensível compreende-se, do foro mais que íntimo, também reforçou, há uns
dias, num tom piedoso e com umas sofríveis linhas, um adeus, fica sempre bem,
colhe aplausos da acéfala plateia, tudo em uníssono, não fosse aquele
desdenhoso “Limões”, quanto à
Porcachona resta-lhe fechar as portas, não vá alguém, mais indiscreto, reparar
nas marcas do pára-quedas a que devia chamar de cuecas, desculpem, pela
dimensão acreditem era, sem dúvida, um pára-quedas, aí já não se poderia
apelidar de “Limões”, nem de melancia
que, ao lado daquelas nádegas, afigurar-se-ia uma simples cereja, para arregimentar
maldizentes frustrados à sua imagem, mas fica um significativo conselho: Ten
mucho cuidadito, Porcachona, el mundo es pequenito.
domingo, 14 de dezembro de 2025
Leveza
Ainda
hoje, aquela é uma memória quente, sem dúvida, passei lá há uns dias, por
acaso, regressava do trabalho, um acidente a bloquear a estrada fez-me sair do
meu percurso normal. É curioso, olhei o lugar e parece que nunca ali vivi, tal
a indiferença com que me fitou, nesta vida há momentos em que duvidamos até de
sermos, este foi um deles, a praceta sem um vislumbre de verde, numa
humanização desumanizada, sempre à sombra, por ali a luz sempre foi escassa, de
manhã ou de tarde, tal a altura dos prédios e a desarmonia das formas, tudo num
tortuoso urbanístico do alcatrão do estacionamento às antenas dos telhados,
reparei, sem qualquer espanto, que em quatro ou cinco janelas, de casas
diferentes, Vende-se ou Arrenda-se eram palavras de ordem,
normal por ali, as casas tão pequenas, rápidos apeadeiros nesta jornada de nome
vida, desacelerei para ver a janela
onde, num certo tempo, olhei de dentro para fora, não conseguia, pois, a
desarmonia das formas, logo, atrás de mim, uma buzina nervosa, outro que,
devido ao acidente a bloquear a estrada, saiu do seu percurso normal, resolvi
encostar, baixei o vidro, e lá estava, no sexto-andar, para este lado, quase
irmanadas, sala e cozinha, o único quarto ficava do lado oposto, reparei que
estava habitada pelas cortinas, amarelecidas, é certo, mas ainda assim pintavam
o quadro geral de uma inquestionável dignidade, saí do carro, atravessei a
estrada, para aceder ao estacionamento, que nunca fora traçado, tinha-se de
subir o passeio, década e meia passada e tudo subsistia, um tortuoso
urbanístico do alcatrão do estacionamento às antenas dos telhados, nisto, ouço
um carro no esforço de subir o passeio, pela histeria mecânica que povoou os
ares, deduzi que se tratava de manifesta inabilidade do condutor ou de uma
reiterada declaração de reforma da viatura, por fim, lá conseguiu, depois de
muitos gritos e soluços mecânicos, vencer o passeio, estacionaram a umas
dezenas de metros de mim, tratava-se de um casal jovem. Ele saiu, expedito, abriu-lhe
a porta e ajudou-a a sair, de início, estranhei tanta diligência, deixei-me ali
estar, fingi esperar alguém, ninguém estranha aquele que espera, afinal, todos
esperamos sempre por alguma coisa, assim que as mãos deles se encontram
emolduradas por aquela singular desarmonia de formas, do alcatrão do
estacionamento às antenas dos telhados, e ela por fim sai, numa dificuldade
crescente, do carro, depois de se erguer, percebi-lhe uma gravidez adiantada,
uma longa expiração quase lhe esvazia a alma, ao mesmo tempo que leva as mãos à
zona lombar, como se numa súplica por leveza, ele já na bagageira, a depositar
quatro volumosos sacos de plástico no alcatrão, após trancar o carro, seguiram,
amparados, ela com o futuro dentro de si, ele com o presente, na forma do pão nosso de cada dia, ela em esforços
de equilíbrio, ele trémulo pelo peso dos sacos para tão descarnados membros,
ainda levou o seu tempo até à porta do prédio, pousou-os, pelo menos, duas
vezes, para reequilibrar tão desigual luta, entre quatro volumosos sacos e dois
descarnados membros, ela agradeceu, assim pôde harmonizar a respiração com a
passada, até que deles só restou, como memória, o carro estacionado que também,
volta e meia, expirava por um cansaço nascido tão ontem. Entretanto, as cortinas
amarelecidas iluminaram-se, e continuavam a emprestar, ao quadro geral, uma
inquestionável dignidade, nesta altura, ela devia estar deitada no sofá, a
queixar-se dos pés inchados, de um cansaço de tudo, de simultaneamente desejar
que o futuro se erga, mas recear por esse tão singular momento, ele a
distribuir os quatro volumosos sacos, ora pela despensa, ora pelo frigorífico,
a ouvi-la, mas os membros descarnados aquém de tais esforços, a capitular,
depois do jantar, ele de volta do berço, já faltava pouco, dizia, com vincado
orgulho, que a primeira cama do filho seria obra sua, neste ponto, ela
apressava-se a corrigi-lo e falava de filha, sorriam-se e uma anuência brotava
entre eles, Desde que venha com saúde, e,
de certa forma, o chavão lá conseguia adormecer inconvenientes angústias, não
por muito tempo, é certo, mas por algum, regresso ao carro, atravesso a rua e
entro, antes de rodar a chave, um último vislumbre às cortinas amarelecidas
daquele sexto-andar, talvez, daqui a uns anos, percebam que a filha precisa do
seu espaço, aí uma placa, a dizer Vende-se, encobrirá parcialmente as cortinas amarelecidas, mudar-se-ão para uma casa
maior, com três quartos, embora não muito longe, ela consegue progredir no
trabalho, sempre se ajeitou com as línguas, quantas vezes o pai (O inglês é o futuro! Ouve bem, o inglês é o
futuro!), com o tempo, a filha será a última, quase todos os dias, a
atravessar o portão da escola rumo a casa, e das primeiras, pela leveza do ar
das manhãs, a chegar, ele mantém-se na carpintaria, apesar das horas livres
crescerem numa inversão proporcional à escassez de encomendas, o patrão Esta gente não quer móveis a sério! Prefere
cartão endurecido que, ao mínimo abanão, se desmonta todo… Onde já se viu coisa
assim? Um móvel é como um casamento: é para a vida toda! Agora, chegámos ao
faça você mesmo! Como se toda a gente percebesse de carpintaria… Isto caminha
para o fim, acredite… Os meses tornam-se anos, ela começa a sugerir-lhe que
se lave e mude de roupa após o trabalho, o suor e o ar indigente começam a
desagradá-la, quando antes achava a sua graça, afigurava-se-lhe diferente,
talvez por nunca ter gostado de queques, mas daí a suor e indigência… Nesta
vida há sinais que só compreendemos depois do acontecer, como um aviso para o
qual ensurdecemos, muitas vezes sem sabermos muito bem o porquê, um desenlace
que teimamos em adiar, apesar da filha, da dívida comum pela nova casa, de,
volta e meia, nas manhãs de fim-de-semana, ainda uns laivos de antigamente,
compassados por suores e respiração ofegante, de não haver um rosto no
horizonte sentimental de si, talvez a habite uma noção de fim sobre as coisas,
é curioso, ela nada fez para alterar o curso do sentir, como se sempre soubesse
para onde tudo se precipita, ele tentou, no que pôde, contrariar o rumo das
coisas, falou, claro, na filha, na dívida comum pela nova casa, de, volta e
meia, nas manhãs de fim-de-semana, ainda uns laivos de antigamente, ela com a
distância, percebia-se-lhe no olhar, parecia já não o reconhecer, ele pensou
que fosse das horas livres crescerem numa inversão proporcional à escassez de
encomendas, de trazer menos de metade, em cada mês, que ela para casa, pois, (O inglês é o futuro! Ouve bem, o inglês é o
futuro!), como o pai dela tinha razão! E havia aquele embaraço envergonhado
no momento de o apresentar aos colegas de trabalho, afinal, o que percebia ele
de inglês? As encomendas, na carpintaria, cada vez mais escassas, porém, quando
surgiam, por telefone ou à porta, sempre em português, certa tarde, cansada
daquela histeria mecânica que povoava os ares, acompanhada de uma insistente
declaração de reforma, ela chega a casa num silêncio deslizante, ele, por
acaso, na rua, olhou com admiração as nuvens reflectidas na brilhante pintura
do automóvel, deslizavam em adeus, virou costas para fazer a mala… Percebo
noite à minha volta, ainda estou com as cortinas amarelecidas, entretanto
iluminadas, talvez, neste momento, ela desvie, para abrir a porta, os oito
meses de gravidez do lavatório, na exígua casa-de-banho, ele na sala, que tinha
o tamanho de um quarto, a levantar-se para lhe ir buscar uma colcha, sabia que,
à noite, ela se queixa de frio, e ele sempre ali ao pé, naquele sexto-andar,
para este lado, quase irmanadas, sala e cozinha, o único quarto fica do lado
oposto, é curioso, ali nunca me senti perdida, e agora, neste silêncio
deslizante, a pintura a reflectir as luzes da noite, não sei que direcção
tomar, de facto, nesta vida há momentos em que duvidamos até de sermos…
terça-feira, 9 de dezembro de 2025
Suave doçura
Parecia outro, não sei porquê, assim que
um cão, gato, até pássaros, por perto, os gestos serenavam, sorria, gesticulava-lhes,
creio, com sinceridade, que conversava com os bichos, prontamente em busca de
comida, como se uma inextinguível dívida, diante dos bípedes, proclamados de
humanos, rosto fechado, azedume e desprezo, com o tempo agravou-se, por norma é
o que sucede, há uns dias, uma vizinha não hesitou e, com a devida indignação,
abordou-me “Olhe, desculpe a frontalidade, estou muito
desgostosa com o seu marido, há uns dias, estava eu a passear o meu Petsi,
cruza-se connosco, prontamente se baixa em festas, carinhos e risos para o cão,
sabe como é o meu Petsi, sempre gostou muito de atenções, quando se ergueu,
virou costas, seguiu caminho e nem se dignou a me cumprimentar, creio que nem sequer
me olhou, se é que me viu”, “Deixe lá, deixe lá, não ligue, desde há uns tempos
que lhe deu para isso…,” “Afinal, somos vizinhos há quantos anos? Cumprimenta o
meu cão e ignora-me por completo?! Desculpe, não posso aceitar tal
desconsideração…,” neste ponto, nada mais
podia acrescentar, ao menos o Petsi feliz, lá por casa não retomaria o tema, acabava
em discussão, já houve bastantes, “Mas, agora, deste em mal-educado? Não
tens idade suficiente para ter juízo? Sessenta e três anos não chegam para
atingir tal meta? O que se passa homem?! Curvas-te perante os bichos e ignoras
os donos que, nem por acaso, na sua maioria, são nossos vizinhos de há
décadas!”, “Deixa-me, deixa-me, a essa pergunta há muito te respondi…,” “Então,
serei muito burra, continuo sem perceber a razão!”, “Queres que te repita? Pois
bem, cansei-me, cansei-me, só os bichos, como lhes chamas, não mentem! O resto
é demasiado mau…,” “Bom, nunca mais quiseste um cão ou gato em casa…”, “Se porventura
enviuvasse, Deus nos livre, iria prontamente em busca de outra mulher?”, “Só tu
podes responder a essa questão!”, “Contrapões assim, por saber que me seria
impossível… Logo, depois da morte da Babuska, como queres trazer para aqui
outro…,” “Desculpa, estás a comparar a viuvez marital com a de um bicho?!”, “Lá
estão vocês a confundir tudo! Depois vem com a conversa de eu me remeter ao
silêncio… Vou avivar-te um pouco a memória, faz agora quatro anos que conseguiste
acabar com o meu pombal no terraço,” “Em boa altura, já não era um terraço, mas
sim um antro de dejectos dessa maldita passarada,” “Como me vias feliz, lá
trataste de acabar com a coisa…,” “Desculpa, julguei, na altura, termos chegado
a um consenso… E que a decisão, de terminar com o pombal no terraço, tivesse
sido de ambos ou, por acaso, estou errada?”, “Colocas a pergunta e
simultaneamente respondes,” “Ai sim?! Talvez seja a altura de eu a te avivar a
memória: andavas sempre a queixar-te das costas por, dia sim, dia não, ires lá
para cima esfregar o pombal e quase tudo à volta… Além do cheiro, das moscas,
da fachada do prédio, suja em vários pontos, que já queixas suscitava dos
vizinhos…,” “Repito: como me vias feliz, lá trataste de acabar com a coisa…,”
“Estás a ser profundamente injusto! Falámos e falámos sobre a melhor solução
para o pombal… Queria ver-te, com essas dores nas costas, a ir lá para cima,
dia sim, dia não, esfregar o pombal e quase tudo à volta… Apontares-me o dedo
por, no teu juízo, ser a causadora do fim do pombal é cobardia!”, “Se o
dizes…,” “Tenho tanto orgulho nas medalhas que os nossos pombos conquistaram
quanto tu!”, “Nunca os trataste como também sendo teus…,” “Não te recordas de
um amanhecer, acho que seria final de Setembro, há doze anos, já se sentia um
arrefecer outonal, nós a contemplar o amanhecer da cidade, tu em ânsias com o
regresso da ave, com a missiva na pata, eu feliz por estarmos abraçados… Por
isso sei que foi há doze anos, pousei o rosto no teu ombro por mais que cinco
minutos… Se, para isso, fosse necessário aguentar todas as aves do mundo sobre
o meu tecto, não duvides que aguentava…,” “Já não tens esse robe… As águas do
rio espelhavam a coloração do amanhecer, foi das poucas vezes que te
interessaste…,” “Não me interessam pombos, mas sim o homem que escolhi para
caminhar a meu lado!”, “Então, devias respeitar as minhas decisões! Cansei-me,
há muito, de pessoas…”, “Pareces um adolescente a falar…”, “Não sei qual é o
problema… Perdi simplesmente a paciência para conversas de ocasião,
cumprimentos forçados, risos estéreis, todo o circo social, estou a repetir-me,
quantas vezes tivemos esta conversa?! Só nos bichos encontro, por muito que te
custe, espontaneidade, ausência de juízos, desinteresse… Quero sair de cena com,
pelo menos, um vestígio de inocência na palma da mão. Será pedir muito?”, “Com
o azedume que destilas à tua volta, acabas por também retirar inocência,
sobretudo aos nossos vizinhos de há décadas… O que te custa um singelo
cumprimento?”, “Sabes bem que nunca fica por aí, metem logo conversa, por isto
ou aquilo, não tenho paciência!”, “Tens consciência de que não casei contigo,
eras outro, e muitos foste ao longo destas décadas”, “É possível, também eras
outra, não tentavas impôr a tua vontade…”, “Nada quero impôr, apenas que
reflictas: o que tanto desejas estás a retirar aos outros com as tuas acções”,
“Só quero que me esqueçam!”, “Algo trouxeste do ontem, até certas frases, quando
passeavas, orgulhoso, a Babuska, todos os vizinhos paravam a fazer-lhe festas e
a conversar contigo, como apreciavas, não achas que…”, “Sei bem onde queres
chegar…”, “Posso pousar o meu rosto no teu ombro?”, “Ainda te recordas de como
gostavas?”, “Vou contar-te um segredo: para te ver feliz, aguentava todas as
aves do mundo sobre o meu tecto, não duvides que aguentava.”
sábado, 6 de dezembro de 2025
A Nininha II
Lembram-se da Nininha, essa mesma, aquela
personagem rasteira, maldizente,
sabuja, até de estatura não se distancia muito do chão, o focinho está a
meio-caminho entre uma mulher-a-dias e uma freira arrependida, a indumentária
também oferece o seu contributo para este quadro, mobiliza-se por sombras e
esquinas, pois bem, há novidades, desde logo, a que mais saltou à vista foi o
retirar da bandolete, chocante, dramático, dilacerante, sem dúvida, esperemos
que a anterior crónica não tenha contribuído para tal desfecho, mesmo assim, a
ruralidade não a larga, pois, há coisas que se colam à pele, ajeitou, à sua
maneira, claro, a disforme massa grisalha que lhe preenche o cocuruto, não sei
que desarranjo foi aquele, apenas acentuou os farrapos esbranquiçados, o efeito
final é de uma ratazana assustada a farejar em busca do esgoto mais próximo, lá
se foi o focinho a meio-caminho entre uma mulher-a-dias e uma freira arrependida,
como as coisas mudam no espaço do viver, e a bandolete, meu Deus, que tragédia,
sublinhe-se o facto de toda a ratazana ter entrada directa em qualquer episódio
do TV Rural, como anteriormente sublinhámos, encostou-se a um desses trabalhos
estatais onde a única aptidão passa por ser um perfeito analfabeto-funcional,
há uns dias, um conhecido meu, por inerência das suas funções, leu umas sofríveis
linhas saídas da pata da Nininha, uma redacção algures entre a terceira ou quarta-classe,
se ao menos a bandolete, essa é a dúvida, creio que se ainda a usasse, para
segurar a disforme massa grisalha que lhe preenche o cocuruto, no mínimo
sair-lhe-ia, não uma “Ode
Marítima,” mas, no mínimo, uma Ode Subterrânea, não fosse ela, como toda a ratazana, uma
criatura rasteira, maldizente, sabuja,
até de estatura não se distancia muito do chão, num final de tarde, esse meu
conhecido viu-se, numa sala, perante sinistras personagens que têm ocupado as
últimas crónicas, esta ratazana, por exemplo, em silêncio, talvez ainda
combalida pela ausência da bandolete, sempre que abre a boca só lhe sai fel e
alarvidades, pouco mais, abana a cabecita (proporcional à escassez de
massa-encefálica) enquanto destila o seu veneno, como se em espasmos, também lá
estava o célebre Bugs Bunny, da crónica anterior, com o seu anacrónico casaco a
lembrar a célebre série portuguesa “Duarte e Companhia,” as dentuças omnipresentes, numa clara ameaça
de trincar qualquer um, tal a sua dimensão, o sebo capilar reflectia os pontos
luminosos do tecto, não podia faltar a “dona do pedaço,” sedenta de
atenção, a carência é tramada, com a sua perna-de-presunto cruzada, embora,
como os enchidos estavam sob as mesas, não permitia ver se, desta vez, a
cruzara, desperta inevitavelmente a reminiscência do fumeiro em casa dos avós
na distante província, como se vê, nem tudo é mau, quando avistamos enchidos logo
pela manhãzinha ou à noitinha, pelo menos levanta-se a imagem da meninice junto
dos avós, também por lá uma baixota, de olhos-piscos, como se sopesasse a
mensagem perante o receptor, a espontaneidade há muito partira daquela
criatura, não por acaso aquele incessante piscar, um alerta aos incautos, que
nenhuma luz providencia ao acontecer, por fim, um sujeito, não fosse o
exagerado número de grisalhos, com um penteado saído da primeira-comunhão, o
cabelinho penteado para o lado enterneceu-me, outro que se gosta de ouvir, em
momentos assim, percebe-se-lhe o engrossar da voz, a necessidade de afirmação
tem, por norma, géneses muito profundas, sempre de casaco, confere, nos seus
padrões, um ar distinto, apesar de sentado, como os restantes, sentir-se-ia num
pedestal ao ouvir-se, apenas a vista o traía, mesmo com os óculos, a qualquer
momento, em ameaça de se precipitarem da ponta do nariz, a dificuldade em
encontrar as letras era notória, por mais que uma vez viram-no de casaco de
bombazina, que ternura, a infância a levantar-se em todo o horizonte, bombazina,
há quanto não ouço esta palavra, creio, com sinceridade, que fala com à-vontade
de qualquer temática, de futebol a geopolítica, de literatura a nutrição,
passando pelo mercado imobiliário e acabando em estética capilar, o arquétipo
do manguinhas-de-alpacas, a um olhar minimamente atento bastam duas ou três frases
trocadas para se compreender o logro, mais é um atentado à inteligência, um
ponto muito sensível desse meu conhecido, à quarta frase do
manguinhas-de-alpacas um vómito espiritual a nascer-lhe, perto do fim, só o meu
conhecido chamou a atenção para as sofríveis linhas saídas da pata lamacenta da
Nininha, uma redacção algures entre a terceira ou quarta-classe, ainda a
intrujice de ocultar que outros lhe perceberam ser rasteira, maldizente, sabuja,
porém, do fundo daquele lodaçal vieram hossanas à ratazana, foi vê-los, da perna-de-presunto
ao manguinhas-de-alpacas, dos olhos-picos às dentuças do Bugs Bunny, em
louvores com as sofríveis linhas da ratazana, com a vigarice de branquear quem
lhe apontou o desprezível esgoto que é, enfim, pensou o meu conhecido, a
Dignidade há muito dali partira, não se comunica com ratazanas, dentuças,
olhos-piscos e manguinhas-de-alpacas, bem diz o povo: “Aos burros dá-se
palha e não conversa;” Dignidade: será que conhecem este conceito? Basta
atentar na curvatura das costas de cada um dos infelizes, pois, tal como a
ratazana, o chão não lhes é um lugar assim tão longe.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2025
O Bugs Bunny
Caros leitores, as minhas desculpas por, nestas últimas crónicas,
retratar desprezíveis e sinistras figuras, desde uma Porcachona, a um autêntico
boneco que usa cuecas do Tintim, passando por uma perna-de-presunto com laivos
de “dona do pedaço,”
não se preocupem, voltarei, em breve, aos
vôos que sempre me nortearam a escrita, falta-me só retratar uma desprezível e
sinistra figura, embora com uma notória aparência de desenho-animado, assim que
me apresentaram, logo o meu olhar perdido naquelas mais que proeminentes
dentuças, como é óbvio, era-lhe impossível fechar a boca, confesso não lhe ter
ouvido uma sílaba, fascinado que estava naquele subir e descer das favolas, bem
diante do meu rosto, e eu sem uma cenoura para…, senti-me o maior dos pecadores,
como era possível tamanha falha, as favolas, bem diante do meu rosto, subiam,
desciam, subiam, desciam, subiam, desciam, e eu sem uma mísera cenoura para
sossegar aquele frémito, a indumentária também não me passou despercebida, o
casaco anacrónico, trouxe-me, de imediato, à memória uma clássica série
portuguesa, “Duarte e Companhia,” que
personagem, as favolas, e eu sem uma mísera cenoura para sossegar aquele
frémito, o casaco anacrónico, uns quase invisíveis óculos, tudo se desvanecia
atrás das mais que proeminentes dentuças, reparei também na oleosidade capilar,
talvez pelo reflexo das luzes, como todo o coelho, olhar receoso e atento, o
perigo surge de onde menos se espera, em certa ocasião, veio de um telefonema, não
obstante estar perante uma audiência, atendeu a chamada e prontamente aos
gritos que o estavam a ameaçar, quando me relataram este episódio, não contive a
minha angústia e uma lágrima – logo a imagem das favolas, do anacrónico casaco
(trouxe-me, de imediato, à memória uma clássica série portuguesa, “Duarte e
Companhia”), numa panela fumegante, pelo
menos, dessa forma, a oleosidade capilar saberia o que é água –, desculpem, mas
esta imagem é demasiado dramática, as dentuças subiam, desciam, subiam,
desciam, subiam, desciam, em pânico, “Está a ameaçar-me… Está a ameaçar-me…
Está a ameaçar-me!”, todos, por ali,
entre a incredulidade e o espanto por tanto terror diante de um singelo
telefonema indevidamente atendido, não era sua função nem contexto
para tal, sejamos condescendentes, talvez a esperança, quando o telefone soou, de
um saquito de cenouras, temos de ser compreensivos, há uns dias chegou com ânsias
de protagonismo, desejos de realizar mímicas, desde o primeiro segundo, percebi
que esta criatura tem a garganta proporcional às dentuças, o resto, como é
óbvio, demasiado diminuto, instado por mim a avançar com o número teatral, claro
que se furtou, expectável, tem a garganta proporcional às dentuças, o resto,
como é óbvio, demasiado diminuto, acabou por se sentar ocultado pelo anacrónico
casaco e pelas mais que proeminentes favolas, o sebo capilar reflectia o posicionamento
das luzes no tecto, um dos flagelos do hoje é o crescente número de acéfalos e
acríticos, este desenho-animado só avoluma esta inquietude, bem tenta mascarar
a coisa atrás das favolas, enquanto sobem, descem, sobem, descem, sobem,
descem, mas não é necessário o dom da clarividência para se intuir a enormíssima
distância entre o verbo que lhe sai pelas dentuças e a débil intensidade do
olhar, caros leitores, alertei para o facto de, nestas últimas crónicas,
retratar desprezíveis e sinistras figuras, desde uma Porcachona, a um autêntico
boneco que usa cuecas do Tintim, passando por uma perna-de-presunto com laivos
de “dona do pedaço,” não se
preocupem, voltarei, em breve, aos vôos que sempre me nortearam a escrita, faltava-me
só retratar esta desprezível e sinistra figura, com uma enormíssima distância
entre o verbo que lhe sai pelas dentuças e a débil intensidade do olhar, é
possível que, por vezes, a digestão lhe seja difícil, toneladas de cenouras lá
terão o seu efeito, em momentos assim dá-lhe para tentar saltos que as mirradas
pernitas não lhe permitem, até por mensagens, é bom que tenha muito cuidado, a
época da caça já abriu, um dia destes pode ter uma desagradável surpresa, não
fosse o mundo uma aldeia, e perder a imagem de marca: aquelas mais que
proeminentes dentuças! Creio que ninguém se interessaria pelo anacrónico casaco,
a memória de uma clássica série portuguesa, “Duarte e Companhia”, no entanto, se quiserem saber a posição das
luzes do tecto, acreditem que o sebo capilar é de uma infinita utilidade, ficam,
de imediato, com toda a geografia dos pontos luminosos, experimentem
convidá-lo, não é preciso muito, basta um saquito de cenouras, assegurem-se
apenas de que ninguém lhe telefone, não vá pôr-se aos gritos “Está a
ameaçar-me… Está a ameaçar-me… Está a ameaçar-me!”, enquanto as favolas sobem, descem, sobem, descem, sobem, descem, num pânico
desmesurado, sejamos condescendentes, tem a garganta proporcional às dentuças, o
resto, como é óbvio, demasiado diminuto.
sábado, 29 de novembro de 2025
Um não assunto
Há uns anos, relatei a
ascensão dos medíocres, hoje deparamo-nos
com os seus podres frutos, a figura que hoje vou descrever é um paradigma da
mediocridade, tinha múltiplas formas de iniciar esta narrativa, estou, de
facto, indeciso, bom, tenho de escolher, trata-se de uma sujeita a caminhar, em
largos passos, para o ocaso da vida, de uma certa distância parece um oito, por
algum motivo apelidam este o país das rotundas, pois estão manifestamente em
todo o lado, mais uma com o cabelo pintado de amarelo, uma larguíssima
percentagem das entradotas, não sei porquê, opta pelo amarelo para maquilhar os
brancos, ignoram que o problema não está nos cabelos, mas no oito avistado à légua
do corpo, por algum motivo apelidam este o país das rotundas, pois estão
manifestamente em todo o lado, enfim, há lugares onde o bom-senso nem ousa
bater à porta, esta é daquelas criaturas que, logo à primeira vista, de uma
inteligência mínima, causa repulsa, uma pose de “dona do pedaço,” sedenta de toda e qualquer atenção, um
sentar-se de lado com a perna cruzada, como se houvesse algum holofote a si
dirigido, nem uma lâmpada fluorescente se acendia para iluminar tal degradação,
ignoro a causa, também não pretendo conhecê-la, lá surge um rafeirito ou dois a
bajulá-la, ela em regozijo, haja um lugar onde, sentada, de lado, com a
perna-cruzada, seja atenção para alguém, nem que seja para rafeiritos, quem
sabe rareie atenção noutros contextos, a carência é tramada, um discurso
superficial, deveras atamancado, frase sim, frase não, debita o sofrível “pronto”, meu Deus, que escassez vocabular, a
primeira vez que a ouvi debitar “pronto,” confesso ter olhado para ver se provinha, de facto, daquele enchido, de
perna cruzada, com pose de “dona do pedaço,” os óculos no cocuruto, talvez tenha visto numa novela ou em alguma dessas
múltiplas revistas para acéfalos, sim, possivelmente, lá concluiu que lhe
assentava bem, ora é vê-la, no quotidiano, de painéis-solares sobre a cabeça
com laivos de modernaça, simplesmente risível, o problema está um pouco abaixo,
no oito avistado à légua do corpo, por algum motivo apelidam este o país das
rotundas, pois estão manifestamente em todo o lado, ao segundo “pronto,” num espaço de dois minutos, a personagem
estava inteiramente apresentada, só um ou dois rafeiritos fielmente a ouviam,
como há uns anos relatei, os medíocres ascenderam, e os invertebrados curvam-se
perante estas aberrações em busca de toda e qualquer migalha, mais um minuto e…,
outro “pronto,” já me ria de mim para
mim, ainda olhei os painéis-solares, sobre o cocuruto, para ver se aguentavam a
enxurrada de “prontos,” lá
permaneciam, imperturbáveis, talvez colados às toneladas de laca, questionei-me
que livros lera para tão exíguo vocabulário, se é que lera algum, embora, de
forma evidente, se lançasse para fora de pé a citar nomes de ouvido, como se
familiares próximos, nem dois minutos volvidos e outro “pronto,” a ouvi-la, agora, só se mantinha fielmente
um rafeirito em anuências, aquelas vulgaridades como se de revelações divinas
se tratassem, uma ou duas migalhitas a quanto obrigam, não obstante a escassez
de auditório, o oito sob os painéis solares lá continuava a debitar “prontos”
circunscritos a um discurso de
pré-escolar, noutra ocasião, assisti eu, foi confrontada com uma questão, desta
vez, os painéis solares abanaram, nitidamente este oito não estava habituado a
tal, foi vê-la reerguer-se naquela pose de “dona do pedaço,” sem jamais olhar a génese da questão, por
norma, os medíocres não olham de frente, construir um discurso redondo de duas
ou três frases, mais não lhe era exigível, os “prontos” já lhe eram demasiado plurais, para se escudar,
e não se demovia, finalizava sempre com “Isso é um não assunto,” qualquer investida do seu interlocutor “Isso
é um não assunto,” nem a cabeça abanava,
não fossem os painéis solares se precipitarem, dizem que fala alto dos outros
quando estão ausentes, previsível, todo o cão ou cadela ladra atrás de um portão, é bom que ganhe juízo, muito juizinho, afinal, trata-se
de uma sujeita a caminhar, em largas passadas, para o ocaso da vida, e, nesta
caminhada, há quem tenha o dom de colocar os medíocres no seu lugar muito
rapidamente, com mais ou menos “pronto,” com ou sem óculos no cocuruto, talvez, isso sim, se providencie um
rafeiro para ouvir as suas boçalidades como se revelações divinas, e a cada “pronto”
ou “isso é um não assunto,” o rafeirito
proclamar um sentido Ámen.
quarta-feira, 26 de novembro de 2025
A Porcachona e o Tintim
Uma questão que recorrentemente me colocam
é: “Quando
começou a escrever?” Só concebo uma
resposta: “Desde que aprendi a olhar o mundo,” curiosamente nunca perguntaram a razão que me levou a preencher centenas
e centenas de páginas em branco, pois bem, hoje revelá-la-ei, foi há mais de
década e meia, um projecto para uma curta-metragem, o guião entregue a um boneco
que ambicionava ter o dom da escrita, destino vilão que não lhe conferiu tal
dádiva, apesar disso, abnegou-se em cumprir com a narrativa da curta, até que,
certa tarde, sou interpelado por uma das protagonistas “Peço desculpa, mas
não vou dizer esta fala! É demasiado ridícula! Não lembra a ninguém! Assim, não
vamos a lado nenhum! Por favor, escreva você…,” esta última frase ecoou-me na alma, “Por favor, escreva você…,” como se, desde que caminho por este lado, a
aguardasse, “Por favor, escreva você…”, um
chamamento de ordem-superior, diante da obscenidade de uma página em branco,
não recuei, as palavras saíram com a naturalidade de quem há muito aguarda pela
sua hora de luz, assim foi, mas uma questão subsiste: Qual foi a fala, demasiado
ridícula, que a protagonista se recusou a verbalizar? Pois bem, “Vê lá se
queres levar um tabefe…,” riso e
consternação povoaram-me ao ler tal deixa, de facto, o boneco bem ambicionava
ter o dom da escrita, destino vilão que não lhe conferiu tal dádiva, é vê-lo
andar diariamente com um livrito debaixo do braço, sempre confere um ar
erudito, a melhor definição deste boneco proveio de um “dito seu amigo”: “É
como a cortiça, está sempre à superfície;” confesso,
ainda hoje, não ter ouvido melhor definição para esta figura, lá consegue, em
todo o ambiente, passar incólume, senta-se e dialoga animadamente com Deus, o
Diabo, arcanjos, demónios, e o que demais houver, embora distribua informação apenas
com quem lhe permita estar, como a cortiça, à superfície das coisas, um
autêntico dançarino, ora em reuniões, pelos cantos, com menopausas ambulantes, ora
em estéreis conversas, sobre bola, política ou trivialidades, onde a sua
opinião nunca o compromete, “É como a cortiça, está sempre à superfície;” como nunca se deu bem com volantes e pedais,
é vê-lo sempre à cata de uma salvífica boleia, uma omnipresente e colorida camisa
fora das calças, sempre disfarça as mais que notórias rotundas formas, um andar
bamboleante que, para as más-línguas, levanta certas questões, deve ser só
maledicência, afinal, pode simplesmente ir em busca de uma salvífica boleia,
sinceramente era caso para questionar essas más-línguas: “Vejam lá se
querem levar um tabefe?” O incessante
enlear do destino levou esta personagem a cruzar-se e, claro, a ficar íntimo da
Porcachona, uma obesa, com o cabelo pintado de amarelo, que arranha castelhano,
divorciada, mais que previsível, quem aguentaria, por muito tempo, a
Porcachona? Laivos de autoridade para quem o permite, como é óbvio, afinal de
contas quem no seu perfeito juízo aceitaria um conselho, quanto mais uma ordem,
da Porcachona? Há uns tempos, um familiar-directo alertou-me para quem, de
facto, era a Porcachona, achei exagerado, hoje tiro-lhe o chapéu, mais uma menopausa
ambulante, em conversas de canto com o boneco que tanto se bamboleia ao andar, a
cansada história de falar dos outros para não serem falados, temos de
compreender que alguém precisa de boleia e a Porcachona de um ouvinte, e ambos
de maquilhar a frustração das suas existências, um aspecto intrigante da vida,
que me tem feito reflectir, é como as mediocridades se atraem, parece haver uma
ordem invisível das coisas que, de forma irreversível, acaba por juntá-las, a
compreensão advém da distância, dei por mim, há uns dias, a observar estas duas
tétricas figuras de uma salutar dezenas de metros: o boneco, com o omnipresente
livrito debaixo do braço, sempre confere um ar erudito, o sorrisito lodoso, a
Porcachona, com o cabelo pintado de amarelo, à sua frente, não percebi se
grunhia em castelhano, umas calças, não obstante o XXL, apertadas, de onde
sobressaíam as marcas do pára-quedas a que devia chamar de cuecas, desculpem,
pela dimensão acreditem era, sem dúvida, um pára-quedas, e para ali ficaram, o
suficiente para expelir o seu veneno, pouco mais têm para dar ao mundo, por
fim, a Porcachona entrou, da distância até comiseração senti, que homem, no seu
perfeito juízo, se podia interessar por uma Porcachona, com o cabelo pintado de
amarelo, que usa um pára-quedas no lugar de cuecas? O boneco lá seguiu o seu
caminho, cabisbaixo, hoje não arranjou a salvífica boleia, pode não perceber de
volantes e pedais, mas ao menos bamboleia-se como poucos, e se alguma má-língua
insinuar algo, resta questionar: “Vejam lá se querem levar um tabefe?”
domingo, 23 de novembro de 2025
O Sinédrio
Nunca, como no hoje, o Sinédrio esteve tão
presente, apenas as vestes divergem em formas e colorações, as personagens
tétricas subsistem, a essência prevalece: aterrorizar quem ouse a diferença;
tal como há dois mil anos, as sombras edificadoras do Sinédrio são as mesmas:
não fosse este o seu reino, afinal, o Inferno não é um lugar assim tão longe do
aqui; há uns dias, um conhecido viu-se perante esta realidade, presidia ao
Sinédrio, no lugar de Caifás, algumas coisas lá se alteraram, embora as
personagens tétricas subsistam, uma cinquentona, sem qualquer dívida com a
beleza, a indumentária, nem as carnes flácidas e descaídas conseguia maquilhar,
algures entre um catálogo do Lidl e os saldos do Continente, a cabeleira
grisalha mal disfarçada pela pasta alcatroada que amiúde jorrava cabeça abaixo,
o efeito final simplesmente anedótico, parecia uma palmeira andante, o olhar
servil tão aquém de um vislumbre de inteligência, daquelas sujeitas a quem um
cumprimento já se afigura um esforço demasiado, pela ansiosa procura por adequadas
palavras, mediante o interlocutor, para a escassa massa cinzenta, se estava
empossada de Caifás era porque interessava às sombras do hoje, a seu lado uma
sujeita aquém de pastas alcatroadas para ocultar a grisalha cabeleira, uma
omnipresente expressão de enjoo, indício da latente falta de diversão num
determinado contexto, o avolumar dos anos só lhe adensa a enjoada face (Quando
terá tacteado o céu pela última vez? Se é que alguma vez o vislumbrou…),
perante aquele enjoado focinho, estas questões emergem com naturalidade, havia
um sujeito, de sotaque hispânico, que nitidamente se gostava de ouvir, por
norma, dali só saem esterilidades, no entanto, pouco se pode fazer, assim que
lhe é dada a palavra, frases ocas, redondas e inférteis, embora o seu olhar
cintile ao ouvir-se, acaba por enternecer, sobretudo pelo sotaque hispânico, de
que nitidamente se orgulha, não obstante as décadas longe de tal berço (Como
ainda o mantém? Talvez fosse uma marca autoral… A inquestionável demanda por um
original carácter…), frases balizadas entre o seu escasso conhecimento das
coisas, mas quem o ouvisse, sempre em espanto, o sotaque hispânico somado ao
regozijo de se ouvir era demasiado para o comum dos mortais, por estes dias, o
Sinédrio convoca dois elementos exteriores prontinhos a apontar o dedo aos que
devem ser decretados réus, assim foi com o meu conhecido, um dedo em riste por…
Pois, por…? Não conseguiu especificar, todavia o olhar do Sinédrio sobre si,
era onde incidia o acusatório dedo, todavia, ele sem a menor vocação para Jesus
Cristo, prontamente virou a mesa, percepcionou, de imediato, a génese do
acusatório dedo, das aberrações do hoje, cabelos-pintados, desvios
comportamentais, inversão de valores, não querem fazer parte do mundo, pelo
contrário, pretendem que o mundo se curve às suas nebulosas perturbações, quem
nasce com coluna-vertebral dificilmente vacila perante qualquer aberração, o
dedo viu-se confrontado, começou a ficar titubeante, desculpas por não
encontrar sílabas para sustentar a mínima acusação, os restantes membros do
Sinédrio em silêncio, nem vestígios do sotaque hispânico, a omnipresente
expressão de enjoo curvada para o tampo da mesa, ao menos, por uns segundos, a
realidade mais luminosa, somente a cinquentona, sem qualquer dívida com a
beleza, a indumentária, nem as carnes flácidas e descaídas conseguia maquilhar,
algures entre um catálogo do Lidl e os saldos do Continente, em esforços para
reverter a capitulação do acusatório dedo que, no fim, lá acabou por correr
atrás do meu conhecido em esforços para se desculpar, ao saber deste episódio,
questionei-me quantos soçobram face ao Sinédrio do hoje, demasiados, sem
dúvida, demasiados, tal como há dois mil anos, as sombras edificadoras do
Sinédrio são as mesmas, tudo estruturado para triturar quem ouse a diferença,
felizmente ainda os há, com a dignidade e o peito de se levantarem, relembrar
ao acusatório dedo a sua insignificância e que jamais o mundo se deve curvar a
nebulosas perturbações.
sábado, 22 de novembro de 2025
Entropia
Só quis dali sair, assim que se viu na rua, expirou longamente, o pensar incessante, sentia-se, por fim, a uma distância segura das coisas, horas antes, ali entrar com a filha, de três anos, ao colo, a testa em chamas, ainda lhe ligou, a alertar para o estado da criança, mas nada, era sexta-feira, há dois ou três meses que, com a desculpa de reuniões mais reuniões, sempre ausente, ela sabia dos jantares e sobremesas com a estagiária do escritório, o aparelho do hoje apenas uma biografia andante, bastou-lhe menos de uma dezena de minutos de distracção da parte dele, ao contrário do expectável, não sentiu raiva, dor, desilusão, apenas uma distância segura das coisas, desconhece o momento, sabia, no entanto, que o deixara de amar, simplesmente, por ele apenas ternura, pelo que foi, nada mais, deixou as coisas seguirem o seu rumo por múltiplas razões, algumas, convenhamos, pouco dignas (comodismo, preguiça, conveniência, vergonha…), parte de si acreditava que ele se apercebera, daí, ao contrário do expectável, raiva, dor, desilusão, apenas uma distância segura das coisas, começou a sentir um aperto no peito quando se cruzava com o colega, recém-divorciado, havia nele um desamparo que lhe despertava emoções há muito adormecidas, tão distintas de correr, com a filha nos braços, devido à testa em chamas, por acaso, numa dessas entediantes tardes de trabalho, encontraram-se junto à máquina de café, ele prontificou-se a encher ambos os copos, agradeceu-lhe com um sorriso algures entre a gratidão e um convite ao diálogo, havia nele um desamparo que lhe despertava emoções há muito adormecidas, como ela desejava saltar a imperativa e sempre incómoda conversa de circunstância sobre a qualidade do café, a temperatura lá fora, o volume de expediente, o seu olhar doloroso e perdido encantaram-na, percebeu-lhe a latente necessidade de diálogo, de um porto de segurança para o encapelado mar da existência, gostou da sonoridade da voz, da desajeitada timidez dos gestos, no entanto, teria de ser ele a entreabrir uma porta, um princípio de que jamais abdicaria, com a desculpa do carro na oficina, aguardou que lhe oferecesse boleia, não tardou, “Não é nenhum incómodo! Tenho muito gosto…,” percebeu-lhe zelo no carro, sempre ajudava a disfarçar os anos, o interior, ao contrário do seu, impecavelmente limpo, talvez o olhar doloroso e perdido fosse uma construção sua, assim que a marcha se iniciou, um incómodo silêncio entre eles, ouviam-se a procurar ansiosamente palavras para construir uma frase que permitisse romper aquele opressivo silêncio, foi ela que “Não queres pôr música?”, “Sim, pode ser…,” de repente, uns acordes melosos, o olhar dele ainda mais doloroso e perdido, ela “Estás bem?,” a questão já pairava e a resposta a nascer-lhe, a canção iluminava-lhe outro rosto, da mulher que o deixara, parece ter regressado a um amor de juventude, segundo se dizia, de bolsos abastados pela herança dos pais, para prolongar o delírio nada como eximir cálculos matemáticos, ele agora sozinho no apartamentozito, de um quarto, no primeiro-andar, com vista para um candeeiro de rua, foi como se parte de si lhe fosse arrancada, para superar a dor convenceu-se de que ela regressaria, ninguém o demovia, não retirou uma única foto dela do apartamentozito, de um quarto, no primeiro-andar, com vista para um candeeiro de rua, nem tudo lhe podia ser abruptamente extirpado, a verdade é que ela se sentiu uma intrusa, aqueles melosos acordes não eram para si, acabou por ser ele a colocar na primeira rádio com música, mais impessoal e despachado seria difícil, ela exprimiu a sua repulsa olhando para o relógio, se há pouco desejava saltar a imperativa e sempre incómoda conversa de circunstância sobre a qualidade do café, a temperatura lá fora, o volume de expediente, agora só lhe queria virar as costas, ser servida com o debitar musical de uma qualquer rádio constituiu um enormíssimo insulto, como se ela fosse uma vulgaridade, um pechisbeque de trazer por casa, “Estás atrasada para alguma coisa?”, a sua repulsa, afinal, não lhe passou despercebida, “A minha filha está quase a sair da escola…,” filhos, compromissos para a vida, assim lhe dizia um rotundo adeus, não que ele se importasse, já saudoso das fotografias, do candeeiro de rua avistado da janela e do desesperado regresso de uma ideia, que insistia em não abandonar, nos dias seguintes, ambos evitaram a máquina de café, semanas depois, já nem se cumprimentavam, ninguém cumprimenta equívocos, foi até ao café em frente, sentou-se a uma mesa, enquanto aguardava pelo empregado, olhou o incessante trânsito de vultos pelo passeio, reflectiu se, na realidade, há equívocos ou sublimados desejos de tudo uma outra coisa, uma voz ensonada fê-la regressar, “Ora, o que vai ser?”, uma saída de tudo isto, pensou, uma saída de tudo isto, pediu um café, ao contrário da filha, precisava de algo quente para despertar, a verdade é que sentiu inveja de nem uma canção ser para alguém, quanto mais fotos suas, espalhadas por uma casa, a aguardar pelo seu regresso, nem que das janelas se avistasse um candeeiro de rua, a chávena de café lá veio, “É mais alguma coisa?”, “Ser uma canção para alguém… Acha que demora muito?”
sexta-feira, 21 de novembro de 2025
quarta-feira, 19 de novembro de 2025
domingo, 16 de novembro de 2025
sábado, 15 de novembro de 2025
quinta-feira, 13 de novembro de 2025
Dos sonhos por realizar
Nunca partilhou a sua maior ambição, nem
com a mulher, volta e meia, nos entediantes passeios de fim-de-semana, a
lugares tão cansados que até as pedras quase cumprimentavam, uma palavra a
nascer-lhe “Sabes…”, ela
pronta “Sei o quê? Então, desembucha!”, ele
logo a fechar-se, a olhar um indefinível ponto na distância, onde de facto
desejaria estar, “Emudeceste?”, sabia-a
persistente, “Não é nada, estava a apetecer-me um gelado… Queres?”, “Estás
a querer enganar quem?! Assististe ao embranquecer de cada fio dos meus
cabelos, mesmo assim, após mais de quatro décadas sob o mesmo tecto, julgas que
não conheço, pela melodia da voz, por onde te caminha o pensar?”, estava encurralado, ela não desistiria, “Não
é nada, só me está a apetecer um gelado…,” a
verdade longe de cones e sabores, foi numa longínqua noite de infância, talvez
fosse Verão, folheava um álbum de banda-desenhada, e uma ideia a nascer-lhe “Um
dia, hei-de escrever um livro,” assim, de
aparente fonte incógnita, “Um dia, hei-de escrever um livro,” a imagem de o seu nome numa capa, uma
história por si narrada, seduziram-no, logicamente, na altura, atirou esse
objectivo para o futuro, de uma outra forma, para a imaginação, quando o
entardecer da vida lhe espreitasse pela janela, no entanto, o objectivo manteve-se
iniludível, palpitante, o curso da vida indiferente a sonhos, objectivos, capas
ou histórias, o trabalho possível para tecto sobre a cabeça e pão na mesa, o
casamento com a filha dos compadres dos pais, em verdade, nunca questionou os
seus sentimentos por ela, o inverso também seria facto, seduzido pela imposição
familiar, deixou-se conduzir, a timidez dela cativou-o, uns anitos de namoro
até a maioridade, o casamento, a vinda para a cidade, ele para uma
estação-de-correios, ela numa sapataria, ambos a olhar para baixo, envelopes e
sapatos, a timidez dela um adereço que, após o casamento, logo foi dispensado,
de firmes convicções a contrastar com as profundas incertezas dele, dúvidas se
teria o dom da paternidade, ela a anunciar-lhe, em júbilo, a gravidez, nesse
momento, sentiu que a vida o ultrapassava, viviam num segundo-andar, sem
elevador, pelo menos tinham dois quartos, os vencimentos davam para os gastos,
ele sonhava com um automóvel, teria de esperar, “Esquece essa história do
carro! Em breve, teremos mais uma boca para alimentar! Já não tens idade para
sonhos! Desce à realidade…,” as frases
saíam-lhe assim, imperativas, “Já não tens idade para sonhos!”, questionou se, alguma vez, teve tempo para
sonhar, foi, mais ou menos, por esta altura, que se iniciou a sua compreensão
de que sempre fora ultrapassado pela vida, certa noite, gritos de choro mesmo
ao seu lado, acordou algures entre o sobressalto e um desespero resignado, ela
em sono profundo, tirou o bebé do berço para o acalmar, viu a cena de uma
distância segura, todos os seus actos obedeciam a uma mecânica que o
ultrapassava e muito desconhecia, de onde estava não se reconhecia naquele
sujeito, com uma criança nos braços, de madrugada, tantos sonhos por despertar,
tal o atropelo da vida, passados dois anos, ela, de novo, em júbilo, a
anunciar-lhe nova gravidez, percepcionou, de imediato, que as esmeradas
poupanças, para o carro, seriam canalizadas noutra direcção, em mais uma boca
para alimentar, nem uma sílaba ousou, a verdade é que no estoicismo há nobreza,
na resignação apenas fraqueza, ele quedava-se por esta última, houve
complicações no parto, ela teve de secar a fonte muito a contragosto, ele, com
o filho mais velho pela mão, acompanhou de perto as incidências, e o tempo,
talvez a maior ironia da vida, por sempre nos iludir a cada instante, pensamos
no seu vagar, num ápice, lá se foi uma década, até que, ao olharmos para trás,
tudo se cinge a, quem sabe, um minuto, e será demasiado, ainda hoje continuam
no mesmo segundo-andar, sem elevador, pelo menos tinham dois quartos, um deles
livre, os filhos seguiram os passos do destino, um casado, também com dois
filhos, o outro já divorciado, só com uma filha, as reformas davam para os
gastos, não, ele nunca conseguiu o almejado carro, em tempos ainda equacionou
comprar um em segunda-mão, ela prontamente interveio “És doido ou quê?
Sabes lá se já teve algum acidente! E devias saber que subtraem quilómetros!
Deixa-te de aventuras, homem, deixa-te de aventuras… As nossas poupanças servem
para uma fatalidade com uma doença! E querias o carro para quê? Temos tudo,
graças a Deus, perto de casa…,” vezes
houve em que, da janela, ele em sonhos com o fim da rua onde moravam, nunca chegou
a saber onde termina essa estrada, só por duas ocasiões, no Verão, foram passar
as férias no litoral, ventoso e bravio, próximo da sua cidade, os
filhos ainda crianças, de resto, poupar com o intuito de antecipar o pagamento
da casa, poupar para a faculdade dos filhos, “Dizem que os livros e as
propinas são uma fortuna!”, nem uma
sílaba ousou, a verdade é que no estoicismo há nobreza, na resignação apenas
fraqueza, ele quedava-se por esta última, nos tempos recentes, poupar para qualquer
emergência de saúde, e a nascer-lhe a certeza de ter sido poupado à vida,
restava-lhe algo, a imagem de o seu nome numa capa, uma história por si
narrada, e um desejo “Um dia, hei-de escrever um livro,” a dúvida se talento para “Um dia, hei-de
escrever um livro,” abriu a janela, o
segundo-andar não lhe permitia largos horizontes, questionou-se “Onde
terminaria aquela estrada?”, voltou para
dentro, sentou-se à mesa, fechou os olhos, ao volante do seu carro percorreu
aquela estrada na esperança de reencontrar sonhos caídos num lugar do ontem.
quarta-feira, 12 de novembro de 2025
quarta-feira, 5 de novembro de 2025
O que perdura no fim de tudo?








.jpeg)










