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quarta-feira, 17 de maio de 2017

"O dia amanhecia, de novo, pardacento, como se esse véu emergisse das águas, e colorisse os céus. O solitário das águas estava, agora, num estatismo arrogante. Como se apelasse a um artista anónimo. Como se cumprisse um ritual. Como se aquele fosse, de facto, o seu lugar no mundo. " in "Do outro lado do rio, há uma margem"


domingo, 14 de maio de 2017

Quando a magia decidiu partir…



Hoje vou falar de futebol. Confesso que desconheço o que me impele a tal coisa. Afinal nunca havia escrito sobre o mundo da bola. Apesar de, quem me conhece, saber da minha paixão por um clube que morou a Norte… Não é equívoco o uso do pretérito. De facto, o meu Futebol Clube do Porto partiu para um qualquer lugar incógnito... E não há sinais de que tão cedo regresse. Numa madrugada de há muito, mas simultaneamente parece que ontem, acordei sozinho, nem dei trabalho ao despertador, por casa, o silêncio da hora, pelas ruas, volta e meia, o eco de um carro como um singular lamento num tempo que se prolonga em demasia, mas, como disse anteriormente, hoje vou falar de futebol, pouco passava das cinco da manhã, nessa madrugada de há muito, porém, foi das vezes que menos me custou a acordar, para mim, talvez pela idade, ainda desconhecia o que era uma lâmina de barbear, havia qualquer coisa de aventura no ar, um quê de magia sobre as coisas, algo de irrepetível que só a meninice proporciona, talvez seja o futuro de portas escancaradas, pois, talvez, liguei a televisão, não, ainda não havia essa coisa chamada de comando, baixei o som, e concentrei-me, sempre vi um jogo de bola como um todo, da ambiência às expressões dos jogadores, da atitude em campo ao golpe de sorte, do génio ao puro esforço, comecei por recear a eventualidade de que o jogo fosse adiado, tal a intempérie que se abatia sobre aquele lugar, que, nem por acaso, era num lugar tão distante, quase como se fosse noutro planeta, a que a neve só consubstanciava essa ideia, o jogo era em Tóquio, procurava incessantemente um vestígio de verde, mas só o inclemente manto branco, apesar de tudo, ia haver jogo, menos mal, pensei, o esforço pelas cinco da manhã não fora em vão, durante toda a transmissão havia um barulho de fundo que muitos achariam irritante, para mim, soou a melodia, houve necessidade de prolongamento, perto do fim, 120 minutos a jogar sobre o gelo, aquele magnífico jogador argelino, num arco sublime, direcciona a bola ao encontro dos meus desejos, e o Futebol Clube do Porto sagra-se Campeão do Mundo de Clubes. Seis meses antes, a 27 de Maio de 1987, na capital da ópera, contra todas as previsões, desde uma arrogância boçal aos favores dos média, familiarizados com nomes e marcas, e com uma traumática experiência 3 anos antes, com uma inglória final perdida, fruto de mais um que teve o seu preço, assisti ao mais belo bailado sobre um tapete verde, digno da capital que acolheu tal espectáculo, só vi camisolas azuis e brancas, de listas verticais, por todo o lado, até que, já se entrara no último quarto de hora, após tantas bolas perdidas, o magnífico argelino faz o impensável, aqueles singulares momentos em que a realidade se suspende para ver no que dá… Nem um respirar se ouve… Nada! Para mim, por muito que busquem argumentos coxos e desajustados, só o futebol tem este condão, de suspender o respirar do mundo para se ver se uma bola entra, e, felizmente, naquela noite de Maio, a bola entrou, e de calcanhar! O bailado fundia-se com uma justiça poética, e, nesse momento, sabia que o meu Porto ia ganhar, poucos minutos depois, o mesmo argelino, imortalizado pelo nome de Rabah Madjer, corre pela lateral-esquerda, troca os olhos a um adversário, cruza, e aparece um brasileiro, pequenito, de nome Juary, a rematar de primeira e a virar o resultado. Repito, mais que nunca, sabia que o meu Porto ia ganhar. E assim foi! Não foi fácil a caminhada até essa inolvidável noite de Maio. Nas meias-finais surgiu um Dínamo de Kiev, que era somente a quase totalidade da selecção da então URSS. Cá e lá foi derrotado pelo mesmo resultado: 2-1. O jogo do Porto não foi transmitido, o de Kiev, sim. O miúdo que fui, claro, correu nessa tarde para casa, a televisão, não, ainda não havia essa coisa chamada de comando, também aí, por casa, o silêncio da hora, meus pais a braços com o pão de cada dia, não me passou despercebido o fanatismo dos soviéticos, assim como o esmagador apoio dos mais de cem mil espectadores, houve, logo de início, na atitude da equipa, que se vestia de azul e branco, com listas verticais, algo que me sossegou, uma vincada personalidade, uma determinação em tactear o sonho, a frieza de um campeão, pareciam, com aquelas listas verticais, soldados a executar ordens de um general oculto, e venceram, e calaram os mais de cem mil, e trouxeram o bilhete para Viena… 16 anos depois, apareceu um sujeito que, em vez de dizer o que pensava, fazia com que acreditassem no que dizia, levei o meu tempo a gostar da figura, até que, certa noite, após a derrota com os gregos do Panathinaikos, nas Antas, corria o ano de 2003, tratava-se de uns quartos-de-final da taça UEFA, ele surge no relvado, com gestos de acalmia, no fundo, a garantir que se ia dar a volta, e bem que se deu! Seguiu-se a Lazio, que levou 4, e deu-se Sevilha, mais uma noite de Maio, mas com um calor de Agosto, desta vez, eram escoceses católicos de Glasgow, após 90 minutos subsistia o 2-2. Havia muitos nervos no ar, também o Celtic sonhava em reconquistar um troféu internacional, porém, foi preciso esperar pelo prolongamento, e lá apareceu outro brasileiro, de nome Derlei, apesar do calor de Agosto, do prolongar do tempo, ainda corria, ainda fintava, rematou, marcou, e devolveu-nos a glória europeia dezasseis anos depois! Por cá, ao longo destas décadas, como disse o conhecido treinador de uma equipa inglesa, “Só dava Porto!”, os títulos sucediam-se, as participações nas provas internacionais quase sempre muito dignas, várias meias-finais, mas, em 2004, ainda se sentava no banco do meu Futebol Clube do Porto o mesmo sujeito que, em vez de dizer o que pensava, fazia com que acreditassem no que dizia, nesta altura, já me tinha devolvido a magia que constitui o amor ao clube, é algo que escapa inteiramente à razão, daí que seja intraduzível por palavras, o calendário marcava Março, escassos minutos para o términus do jogo, nesse momento, estávamos eliminados, jogávamos em Inglaterra, diante do então crónico campeão inglês, confesso que mudara várias vezes de canal durante o decorrer do jogo, estava descrente, o passado com equipas inglesas também não era abonatório, o árbitro assinala livre a nosso favor à entrada da área adversária, tínhamos um especialista neste tipo de lances, seu nome Benni McCarthy, o remate sai colocado, o guarda-redes defende para a frente, onde surge oportuníssimo Costinha a rematar para os quartos-de-final e a reescrever um tão triste e cansado fado… Também não é traduzível, por palavras, a alegria daqueles escassos segundos. Ainda hoje, quando revejo aquele lance, receio que Costinha falhe aquele miraculoso remate… Felizmente, a bola toma sempre o mesmo rumo. Foi mais ou menos por estes dias, que alguém da minha família disse de Mourinho: Parece um feiticeiro… Veio o Lion, e caiu, seguiu-se o Deportivo da Corunha, com muitas habilidades pelo meio, também caiu, não havia antídoto para o feitiço do setubalense, a 23 de Maio, pois, mais uma noite de Maio, contra a selecção francesa na forma da equipa do Mónaco, primeiro Carlos Alberto, depois, Deco, por fim, Alenichev, e podiam ter sido mais, pela segunda vez na sua história, o meu Futebol Clube do Porto sagrava-se Campeão Europeu! Se se sei a equipa de cor? Vítor Baía, Paulo Ferreira, Ricardo Carvalho, Jorge Costa, Nuno Valente, Costinha, Pedro Mendes, Deco, Maniche, Carlos Alberto e Derlei. Ainda entraram, claro, Alenichev e Benni McCarthy. Para haver nova noite de Maio, foram necessários sete anos, mas a Liga Europa voltaria a ser nossa, sob o comando de um ruivito que, nem por acaso, fora discípulo do feiticeiro do Sado. Aí pontificava um ponta-de-lança com nome de ave de rapina que nos trazia os céus à terra: seu nome: Falcão. A seu lado, não menos luminoso, um avançado com nome de super-herói: Hulk! Qualquer defesa ruía às suas investidas. Claro que, ao longo destas décadas, felizmente houve incontáveis tardes e noites de magia, tanto dentro como fora de portas. E tantos foram os nomes que contribuíram para tal. Na baliza, ao contrário da maioria, só registo um: Jozef Mlynarczik, o mãos de ferro, um registo posicional invulgar, parecia que a bola ia ao seu encontro, quando a agarrava, sabia-se que ali ficava, a frieza de Leste ao serviço do desporto, o tempero certo, no todo de uma equipa, para arrefecer o ímpeto lusitano e moderar o samba carioca, houve um jornal que o chegou a apelidar de o abominável homem das neves, após a noite de Tóquio, sob a intempérie, de facto, nada o derrubou na defesa das redes. Este, sim, para mim, o número 1! Baía e Casillas dignos sucessores. O resto, anedotas com luvas. Basta recordar um violeiro, de chinelo no pé, que enterrou o meu clube, em momentos capitais, durante não sei quantos anos, com os améns de quase todos… Bom, mas consagrei estas linhas àqueles que eternizaram o meu Futebol Clube do Porto, e não para os que procuraram obscurecê-lo, fosse com chinelo no pé ou acordes mal-amanhados num violão… Aqui ficam alguns nomes que, ainda não foram anteriormente mencionados, sem qualquer ordem cronológica ou posicional, apenas ao sabor da memória de quem vi jogar de azul e branco, mas que guindaram, e de que forma, o Futebol Clube do Porto aos céus do mundo: Mário Jardel, Drulovic, Zahovic, Celso, Fernando Gomes, Jaime Magalhães, Sousa, Jaime Pacheco, Inácio, Zé Beto, João Pinto, Frasco, Domingos, Kostadinov, Esquerdinha, João Moutinho, Paulo Futre, Jackson Martínez, Lisandro Lopez, Lucho Gonzalez, Artur, Edmilson, Quaresma, Fernando, Otamendi, Geraldão, Álvaro Pereira… E tantos outros! Sabiam que tinham de ser inteiros na disputa de cada lance, olhar o adversário, independentemente da circunstância, nos olhos, sem resquícios de temor, pelo contrário, com aquela genuína e benéfica dose de arrogância, e uma inabalável crença em vencer, fosse no Japão, em Viena de Áustria, em Inglaterra, ou em qualquer outro lugar deste mundo.
Hoje, e é com pesar que o escrevo, só vejo uma esbatida sombra do clube que aprendi a amar. As linhas anteriores foram escritas para uma outra realidade! E, por muito que se tente, com a excepção do nome do clube, nada tem que ver com o actual funesto contexto. Não vou perder o meu tempo e verbo em considerações acerca dos perversos jogos de bastidores, dos Judas que por ali pululam, não, não vale a pena, levar-me-ia a questionar como aquele espanhol se sentou no banco do meu clube… Por mais que uma vez, adormeci a ver o meu FCP em campo! Sim, foi propositado o “em campo”, porque jogar, para mim, sempre foi outra coisa! Do espanhol ao que lá está na presente data, confesso que não encontro diferenças, talvez o facto de este levar os óculos da avó para as conferências de imprensa… Uma mediocridade lastimável! Há quem diga que “não há maus exércitos, mas sim maus generais”. Concordo em larga percentagem com esta afirmação, e acrescento outra da minha lavra: Saber sair é uma arte. Quem desconhece este facto, geralmente, acaba por ser empurrado… Entretanto, e escrevo isto numa noite de Maio, olhamos o que foi, só assim nasce a possibilidade de um sorriso. Por fim, se me perguntassem se o Futebol Cube do Porto me influenciou, como não? Cresci a ver as conquistas do meu Futebol Clube do Porto, tornei-me no único portista da família, numa madrugada de há muito, mas simultaneamente parece que ontem, acordei sozinho, nem dei trabalho ao despertador, por casa, o silêncio da hora, tudo em repouso, ao contrário do meu sentir, havia qualquer coisa de aventura no ar, um quê de magia sobre as coisas, algo de irrepetível que só a meninice proporciona, talvez seja o futuro de portas escancaradas, pois, talvez, liguei a televisão, o meu Futebol Clube do Porto ia jogar.
Pedro de Sá
(22/05/17)


terça-feira, 9 de maio de 2017